As Leituras do Pedro: Tex Edição de Ouro #45 – O Passado de Kit Carson

As Leituras do Pedro*

Tex Edição de Ouro #45 – O Passado de Kit Carson
Mauro Boselli (argumento)
Carlo Raffaele Marcello (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Novembro de 2009)
135 x 177 mm, 332 p., pb, brochado

Resumo
Após 25 anos de separação, os sobreviventes da temível quadrilha conhecida como Os Inocentes voltam a reunir-se, para levarem a cabo uma vingança há muito ansiada.
Ao mesmo tempo, Tex Willer e o seu filho, Kit, chegam a Tucson para se encontrarem com Kit Carson, mas descobrem que este partiu para Bannock, após ter liquidado um elemento daquela quadrilha. Enquanto seguem no encalço do seu amigo, Tex aproveita para contar ao filho um episódio do passado daquele, recheado de crime, violência e ódio, evocando as razões para tudo voltar a despertar agora, um quarto de século volvido. Nesse episódio está incluída uma relação romântica de Kit Carson, da qual pode ter nascido uma bela jovem.

Desenvolvimento
1
. Soa a contradição – é-o sem dúvida – mas um dos segredos da longevidade de Tex – mais de 60 anos e algumas centenas de histórias – é, por um lado, a fidelidade a um modelo (estereotipado) o western puro e duro e, por outro lado, a capacidade regular de inovação e renovação dentro desse modelo em histórias que geralmente destoam (para melhor) da média habitual da série.
O Passado de Kit Carson é um desses casos.

2. Habituados, na banda desenhada clássica, a heróis mais ou menos eternos, descobrir que têm um passado – ou que passaram a tê-lo… – é sempre uma surpresa. Mas também uma forma de o autor dar consistência à criação, tornando-a mais credível, mais humana, mais próxima dos leitores que seguem as suas andanças. É isso que acontece em O Passado de Kit Carson, com o aliciante de incluir uma antiga relação romântica do ranger.

3. Curiosamente, o escritor de O Passado de Kit Carson é Mauro Boselli, mais conhecido como argumentista do (menos interessante) Zagor, que nesta data (1994) fazia a sua estreia em Tex.

4. Uma estreia que tem de ser qualificada como de luxo, em que construiu uma das mais interessantes histórias do ranger e dos seus amigos, em que alterna a acção no presente com longos flashbacks que ajudam o leitor a entender as razões do que se passa no tempo actual. Este recurso, dá também um menor protagonismo aos heróis, ausentes nalgumas dezenas de páginas da longa história, ajudando a narrativa a respirar e a ganhar consistência.

5. Os vários elementos presentes – a origem e intenções da quadrilha dos inocentes, no passado e no presente; a relação de Kit com o xerife Ray Clemonds e a bela Lena, que constituem um autêntico triângulo amoroso; a trágica história da cidade de Bannock; a força dos diversos sentimentos presentes: amor, ódio, amizade, coragem, raiva, vingança;, o papel relevante das figuras femininas; a longa e bem caracterizada galeria de personagens, a aproximação de Tex e do filho ao momento presente; o clímax final – são bem geridos e doseados, com diálogos, acção, suspense e surpresas q.b., originando um relato interessante, denso, bem urdido e explanado, com tudo o que é necessário para agradar aos amantes do western em particular e aos de banda desenhada de aventuras em geral.

6. Sei que muitos vão discordar, mas pessoalmente lamento que tenha sido Carlo Marcello (1929-2007) o escolhido para a desenhar. Ou pelo menos que o seu desenho não tenha estado sempre ao melhor nível que demonstra em diversas páginas, pois os desequilíbrios gráficos são demasiados para se explicarem apenas pela extensão do relato e pelos prazos a cumprir. Porque se há alturas em que os rostos, corpos humanos, animais, cenários e jogos de luz e sombras se revelam primorosos, noutras páginas a escassez de tempo (ou o recurso a assistentes?) é por demais notória.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias e na revista In’ – distribuída as sábados com o JN e o DN), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. A história mais sensacional de Tex que li recentemente. Impressionante o quanto Marcello conseguiu individualizar os personagens com o pouco espaço e limitados recursos de impressão de que dispunha. O que não é pouco, considerando o grande número de pessoas diferentes que aparecem na história. Além disso, sua representação Tex e Carson é maravilhosa. Concordo que a arte “escorrega” em algumas partes, particularmente no rosto de Waco Dolan (apesar de ele ter sido desenhado para parecer feio, a julgar por um comentário do xerife Clemmons).

    Já Boselli foi impecável. Um enredo atraente, com personagens interessantes e numerosos, grande variação de cenários e épocas…

    Essa revista foi responsável por me transformar de leitor esporádico em assíduo do Ranger.

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