As Leituras do Pedro: J. Kendall #136 – Aventuras de uma criminóloga – “A guerra de Peter” e “Aposta no escuro”

As Leituras do Pedro*

J. Kendall #136 – Aventuras de uma criminóloga
Myhtos Editora
Brasil, Setembro/Outubro de 2018
135 x 180 mm, 260 p., pb, capa mole, bimestral
R$ 24,90 / 8,00 €

A guerra de Peter
Berardi e Calza (argumento)
Valerio Piccioni (desenho)

Aposta no escuro
Berardi e Mantero (argumento)
Antonio Marinetti (desenho)

20 anos depois

.
Em Outubro de 1998, estreava nas bancas italianas uma nova revista da Sergio Bonelli Editore: Julia. Esta edição brasileira, datada de Outubro do ano passado, pese embora as distorções de calendário que a afirmação a seguir implica, assinala os 20 anos de vida editorial da criminóloga de Garden City.

Porque é uma senhora e porque é costume dizê-lo, apetece escrever que Julia está na mesma. Sendo verdade, também não o é.

E não é porque 20 anos depois, mais de centena e meia de edições passadas, Julia amadureceu. É mais ponderada, resiste melhor aos golpes do destino, está mais aberta e menos receosa de amores ocasionais, gere melhor as suas frustrações…

Mas a verdade é que continua a mesma, acima de tudo continua humana. Com sonhos e pesadelos, medos e angústias, desejos recalcados e ambições reprimidas. As emoções continuam a sobrepôr-se à razão, as razões são mais importantes que as acções, em situações limite – que vive com maior frequência – esquece o bom senso – dando apelo à voz da sobrevivência.

Os amigos continuam a ser o principal e o fundamental da sua vida, os seus afectos continuam a ser distribuídos e qualquer apelo dos que ama transforma a mulher ponderada e sensata, em alguém determinado e concentrada nesse único objectivo. Por isso, assume ‘papéis de risco’ inesperados, como o de jogadora de póquer em Aposta no escuro, o segundo relato deste número duplo.

Pelas suas mãos, continuam a passar casos humanos, muitos casos humanos, vidas destruídas pela droga, pela prostituição, pelas más decisões, pelas companhias, pelos simples acasos da vida, pela vivência no terreno de uma guerra absurda – como todas as guerras são – como quando nos é narrado, neste número, sobre o regresso, aparentemente alucinado, de um ex-combatente do Afeganistão, em A Guerra de Peter. Relato que acabará por tomar uma direcção diferente da inicial – como tantas vezes aconteceu ao longo de 20 anos de vida de Julia – mostrando que nem tudo o que está à nossa frente é só o que há para ver. E o que também tem distinguido Giancarlo Berardi, o criador da série, como um  narrador de eleição, mais do que isso, como um cronista social único, apostado em mostrar a desumanização das sociedades, o egoísmo crescente dos seus membros, os temas fracturantes que nos dividem, as chagas que afectam todos transversalmente.

Em mostrar razões – como as que já citei atrás – que não desculpabilizam mas explicam – ajudam a explicar, ajudam a entender. Não tornam os perpetradores inocentes, mas apontam a sociedade – fria e indiferente, gerida em função do lucro – como co-responsável.

É verdade que, aqui e ali, há notas dissonantes, pormenores que não encaixam bem no registo sério e realista das Aventuras de uma criminóloga. É o caso de algumas situações levadas demasiado longe, entre o cómico e o absurdo, geralmente desencadeadas por Emily, que até podem ser aceitáveis num contexto mais lato e como forma de descompressão, de alívio pontual. O que já não acontece – para regressar à edição que justifica este texto – com o ‘carrinho falante’ que acompanha Julia na já citada A Guerra de Peter, que até podendo ser uma antevisão de um futuro mais ou menos próximo, assume um lado excessivamente caricatural em contraste com o tom sério da colecção.

Aspectos menores – quero frisar – de uma obra global que se distingue por uma grande coerência narrativa. Em Julia, ao longo destes 20 anos, há uma sólida caracterização das personagens que as tornam quase ‘velhos conhecidos’ dos leitores regulares, que sabem sempre o que esperar de Julia, Leo, Alan, Irving e alguns outros em cada momento, em cada situação. Conhecem as suas fraquezas e as suas forças, sabem que juntos são sempre mais fortes que em conjunto, conseguem mais do que isolados, mesmo não sendo super-heróis. E que, embora ‘heróis de papel’, estão mais distantes deles do que dos seres humanos normais que vibram  com estes relatos da criminóloga com cara e corpo de Audrey Hepburn, pelas qualidades e defeitos, sucessos e limitações que ostentam, tal como cada um de nós.

Nos 20 anos tout court de Julia, nos 15 da sua vida editorial no Brasil e em (quase?) outros tantos que levo de leitor, não posso deixar de recomendar a leitura de uma das séries que me tem marcado positivamente e feito parte das minhas escolhas seguras enquanto leitor.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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