Tex e demais personagens Bonelli em destaque no BDJornal nº 4 de Julho/Agosto de 2005

Texto publicado no BDJornal nº 4, de Julho/Agosto de 2005

Por Nuno Franco

Bonelli: A tradição dos fumetti na modernidade

Bonelli - A tradição dos fumetti na modernidadeÉ curioso que alguns dos fenómenos da BD popular ainda continuam a movimentar numerosos leitores, tal como acontecia há uma ou mais décadas. O caso das edições italianas da Bonelli é, nesse aspecto, paradigmático. Se muitos são os leitores portugueses que se lembram das suas mais antigas edições de livros de cowboys, facto é que a sua fórmula ainda hoje continua a cativar inúmeros leitores em todo o mundo. Por cá, as edições do editor italiano foram ao longo do tempo conhecendo várias vicissitudes. A estreia deu-se em 1970 no “Mundo de Aventuras” com o hoje quase desconhecido “Red Buck“, seguindo-se, um ano depois, “Tex” por via da brasileira Vecchi, que regressaria somente em 1978. Paralelamente, foram também editadas, em 1972, “Histórias do Oeste”. Outros títulos foram editados à revelia do editor italiano: Zagor (do qual sairiam 16 números entre 1978 e 1979) e Mister No (12 números também mesma altura) pela editora Portugal Press.

Exceptuando os dois últimos, os leitores da época acediam às aventuras do ranger através da Vecchi e, já a partir dos anos 80, através da distribuidora Globo.
Entretanto, tudo muda quando, em 1999, a Globo suspende a publicação de “Tex” e demais títulos bonellianos. É então que, decorridos três anos, entra em cena a editora Mythos que volta a pegar na maioria destes e acrescentando alguns novos. Portugal torna-se dos países de destino dos “fumettis”, termo pelo qual é conhecida a BD italiana. Sendo projectos que movimentam largos números, da Vecchi, Globo e Mythos, pode-se dizer que são parentes: todos eles tratam de rentabilizar livros de aventuras de pequeno formato em edições baratas e acessíveis em quase todos os quiosques.

Mas para perceber de facto as edições Bonelli é preciso recuar no tempo. Depois da Segunda Guerra ter terminado, as pessoas queriam divertimento e algo que as fizesse esquecer o que tinham passado. Em França, Espanha, Argentina e sobretudo em Inglaterra, nasciam casas de edição que procuravam editar aventuras de BD a preços baixos. Editores como a Fleetway traçavam o seu próprio caminho, com talentos “importados” de vários pontos do mundo. É então que em Itália, se começa a falar em Gianluigi Bonelli, argumentista e na altura já editor das Editrice Vecchi. Entre vários projectos, Bonelli, que até aí colaborara com alguns dos autores italianos mais importantes do seu tempo, como Caprioli e Ongaro, cria em 1948, com o desenhador Aurelio Galleppini, a série “Tex”, um cowboy que se tornaria num fenómeno de culto em todo o mundo. Para trás, e com a passagem de “Tex” à condição de herói de toda uma geração, ficavam séries como “Occhio Cupo”, também da autoria da mesma dupla.

DampyrSe é verdade que parte fundamental de “Tex” se ergue sobre as coordenadas dos filmes de cowboys clássicos, há algo mais que explica o seu sucesso ao longo de gerações. Se nunca quanto hoje pareceu tão em “piloto automático” (exemplificado também pelos diversos títulos que tendem a aproveitar o sucesso da matriz original), também algo que promoveu o seu sucesso se tem devido ao carácter realista e à forma não maniqueísta como olha para o Oeste americano.

Como escreve o argumentista espanhol Antonio Segura, que em anos recentes tem trabalhado na série, ao lado de José Ortiz: “Tex tinha uma personalidade tão definida, um passado tão denso, uma biografia de aventuras tão extensa que era quase impossível que um desconhecedor da sua saga, em resumo que um profano pudesse retratá-lo com justiça”. Quase meio século sobre do seu nascimento, e sobre o qual se estrearam muitos desenhadores e argumentistas de crédito, as aventuras de “Tex” têm sido palco da essência do género “western” BD: território onde impera os traficantes e assaltantes, tudo desenhado como um ritual que não esquece a passagem por territórios bravios do Alasca ou do Grand Canyon.

Com uma autenticidade de quem que não pretende enganar ninguém, as edições Bonelli começam a chegar a uma legião de fãs que avidamente compra as façanhas heróicas de ranger Tex e seus companheiros (Kit Carson, Kit Willer e Jack Tigre) mas também, entre muitos outros, “Zagor”, ou “Ken Parker” – série que a certa altura se automatizará da Bonelli, para ganhar o seu espaço próprio de publicação, regressando em 1995. É desta forma que se foi construindo o império editorial Sergio Bonelli (filho de Gianluigi e também ele, tal como pai, argumentista, assinando sob o pseudónimo Guido Nolitta), segundo moldes de larga difusão em quiosques.

Com a consequente internacionalização, a editora de Milão atingirá outros patamares, desse modo, acedendo ao mercado americano. Nesse sentido, reconhecem-se adequações de processos em tudo semelhantes a este, com as séries a serem divididas por tarefeiros vários, desde roteiristas e autores de capa aos desenhadores propriamente ditos. No seio dessa indústria, que vive sobretudo da capacidade produtiva dos seus artistas-artesãos – na sua maioria italianos –, da lista de ilustres visitantes, surgem nomes como os do argumentista argentino Hector Oesterheld (na série espanhola “Verdugo Ranch”, para a “Audace”, e cujo alguns episódios serão traduzidos e publicados por Sergio Bonelli), Guido Buzzelli (autor de obras adultas e pessimistas que ilustra, em 1988, um número da série “Tex” que celebra os 40 anos da série em Itália), Sergio Toppi (que em 1976, desenhará diversos episódios para a colecção cartonada “Un Uomo, un’Avventura”). Também o veterano Hugo Pratt fará trabalhos para a mesma colecção, com a aventura “L’Uomo della Somalia“.

Dylan DogTudo testemunhos por vezes de qualidade variável mas que ilustram outras faces de uma arte com a BD, que a determinada altura passa a ter de competir com outros “medias”, sobretudo, com a televisão. Relembre-se que, no decorrer dos anos 70 e 80 se operam na Bonelli sínteses de heranças muitas vezes herdadas do seu país de origem, nomeadamente, do “western spaghetti” e do “giallo” – designação dada aos pequenos livros policiais de capa amarela do pós-guerra e que teriam o seu apogeu na transposição, já no cinema de terror, também ele italiano. “Dylan Dog”, criado em 1986, por Tiziano Sclavi e Claudio Villa, é disso exemplo, sendo o primeiro de muitos “fumettis” dedicados ao terror.

Dir-se-á assim que se alguns dos títulos são laboriosas concretizações, e que outros, não passam de um arrazoado compêndio sobre almas do outro mundo. Se quisermos uma origem para os pequenos livros recheados de páginas e de aventuras, teremos que ir aquilo que é reconhecido com a origem e essência primordial da BD, a literatura folhetinesca do do século XIX. Tal como estes, as temáticas teriam que apontar ao que se vendia. É nesse sentido que, em anos mais recentes, também os westerns bonellianos passarão por paragens mais assombradas.

Veja-se “Zagor”. Criado em 1961 – por entre outros títulos, ou que não vingaram ou que ficaram simplesmente circunscritos a Itália – para fazer concorrência a “Tex”, a série, da autoria de Guido Nolitta e Ferri, fala-nos de um índio que se dedica a procurar a paz numa época pouco atreita a isso. Podia-se ficar por aí, mas nela, logo passamos da temática western e entramos noutro caminho, onde se inscrevem as histórias onde abundam pegadas de almas de outro mundo e feiticeiros índios. Situadas na imaginária floresta de Darkwood, as aventuras de Zagor, ancoradas que estão num imaginário pertencente ao passado, não deixam de ser algo sofríveis. Não convidam propriamente à leitura entusiástica mas também não fazem desta um processo vazio. Parodiando Warhol, cumprem simplesmente a sua função: trazem os seus 15 ou mais minutos de leitura. Ainda assim, destaque-se o uso que os seus vários desenhadores têm feito de um branco-e-branco contrastante.

Outra hipótese, mas que vai além disso, é “Mágico Vento”, também, este, um western de tendências sobrenaturais, mas que não cai na repetição de “Zagor”. Da autoria de Gianfranco Manfredi, que já trabalhara em vários episódios de Dylan Dog e Nick Raider, e de desenhadores como José Ortiz ou Millazo (autor de “Ken Parker”, personagem decalcado em Roberto Redford e uma das séries mais interessantes da Bonelli, tratando, num tom intimista, do respeito pela natureza e pelo próximo), “Mágico Vento”, sobretudo quando desenhado por este último, onde o desenho encontra o tom exacto para os argumentos elaborados de Manfredi. As atmosferas ora são meditativas e envoltas em sombras ora ganham a pujança solta semelhantes ao de outros notáveis, sobretudo o Alex Toth de “Zorro” ou ainda os vários westerns da DC Comics dos anos 50.

Zagor, Júlia, Dylan Dog, Gea e Dampyr
Os anos 90 foram  para a Bonelli  a cristalização do género do terror. Aqui e ali os planos são em contraluz, as personagens transformam-se em vampiros ou são elas próprias vampiras. Sobre “Dampyr” (mas “Dylan Dog”, outro campeão de vendas da Bonelli, que visa temáticas semelhantes), temos uma criatura que é filho da união de uma mulher com um vampiro. No meio disso, tem como missão romântica (e romantizada) combater hordas de criaturas das trevas. No fundo, é uma obra que padece dos problemas de algum cinema, com o último John Carpenter à cabeça, que junta delírios à realidade, como se a estetização do terror se bastasse por si própria. No meio de um emaranhado confuso de citações, tem um adjuvante: o não levar-se a sério. É simplesmente divertimento para quem gosta da temática.

Outros tipos de leitura surgem em “Júlia”, obra repleta de um suspense quase hitchockiano (o argumentista Giancarlo Berardi, fã de romances policiais, assumiu, logo desde a primeira hora, que queria fazer um “thriller“, que de alguma maneira transcrevesse a sua experiência do tempo que passou, como observador, no Instituto de Medicina Legal de Génova, e onde aprofundaria os seus conhecimentos sobre criminologia). A obra, desenhada por Ivo Millazzo, é no mínimo também um exercício sobre a realidade americana, mediatizada pela televisão, desde “Serpico” ao recente “SCI”. Neste policial, como em “Nick Raider”, as personagens são as das nossas memórias, parentes de Audrey Hepburn, de quem a criminóloga Júlia é um decalque, de Whoopy Goldberg, de Nick Nolte (a personagem do detective Leo Baxter). Sem nunca cair no anedótico, a obra visa uma consciência sobre os códigos do género policial.

Numa altura em que acaba de comemorar mais de cinco décadas de existência, a Bonelli mostra-se assim como um relato de sobrevivência: a da BD sem pretensões a ser arte e que se quer de aventura e que esta termine bem. Um lugar que comprova que, apesar de trabalhar num mercado sempre em expansão como é o da BD, e que muitas vezes o despreza ou simplesmente ignora, muitas das tendências continuarão a passar pela editora de Milão, Sergio Bonelli Editore.

Copyright: © 2005 BDJornal; Nuno Franco
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