Vídeo: Conferência com Pasquale Frisenda

Por José Carlos Francisco

No vídeo – produzido por Gianluca Gulmini (conhecido nos fóruns dedicados às personagens Bonellianas na Internet por Lukas Luke) para a Zagor TV – que damos a conhecer hoje no blogue do Tex podemos ver, o cada vez mais admirado desenhador italiano (de Tex, Mágico Vento, Ken Parker e Dylan Dog) Pasquale FRISENDA durante uma interessante (e imperdível) conferência intitulada “Disegnare il West” (Desenhar o Oeste), ocorrida no dia 2 de Setembro de 2012 durante a 4ª edição do evento Vercelli Tra Le Nuvole, manifestação organizada por Daniele Statella, tendo como moderador Gianluca Mercadante e que teve uma duração de quase 30 minutos:

Todos os números de CLAUDIO NIZZI

Por Saverio Ceri

Há alguns dias atrás, na edição italiana nº 631 de Tex começou a aventura “L’oro dei monti San Juan“, que para além de ser o segundo trabalho de Lucio Filippucci na saga do Ranger, representa ao mesmo tempo a última peça posta por Claudio Nizzi no mosaico das aventuras de Águia da Noite.

Claudio Nizzi numa recente apresentação de um livro dedicado à sua carreira texiana

Eu tinha pensado em dedicar ao grande escritor de Fiumalbo, nascido em 1938, um post nesta rubrica já em 2011 a propósito dos seus 30 anos de carreira bonelliana, mas adiei-o para torná-lo mais completo já que estava prevista para 2013 a publicação da sua última história de Tex que representava ao mesmo tempo a sua última colaboração com a Sergio Bonelli Editore. E na realidade, passaram-se vinte meses desde essa data e assim hoje além de elaborar toda a carreira nizziana na Via Buonarroti (sede da SBE) podemos também festejar o 30º aniversário da sua carreira em Tex, visto que a publicação desta sua última aventura permite, casualmente, a Nizzi cobrir com as suas histórias um arco de precisas 360 edições (de Tex 273 a Tex 632) que equivalem a exactos 30 anos.

Mister No nº 78, edição de estreia de Claudio Nizzi na editora Bonelli. Capa de Gallieno Ferri

Mas vamos voltar um pouco atrás, retornamos a Novembro de 1981, quando na segunda parte da edição nº 78 se inicia a história “Paura nei Caraibi“, a aventura que marca a estreia de Claudio Nizzi na editora Bonelli, após uma dúzia de anos de séries e aventuras criadas para o semanário para jovens “Il Giornalino“, uma publicação das Edizioni Paoline. A ascensão de Nizzi é meteórica. Logo após um par de aventuras de Jerry Drake o autor é chamado a cimentar-se com a personagem principal da editora milanesa: Tex Willer. A estreia na série principal acontece em Julho de 1983, dois anos depois já é o escritor principal, tendo em conta que mais de 50% das páginas publicadas tinham a sua assinatura e em 1988, 1990 e 1992 cometeu a façanha de escrever todas as histórias publicadas nesses anos. Tal não acontecia desde 1975 quando pela última vez Gianluigi Bonelli tinha conseguido assinar todos os edições da série num só ano- e, sobretudo, não voltou mais acontecer até aos nossos dias.

Ser o herdeiro do grande G. L. Bonelli não impede que o autor, argelino de nascimento de criar para o editor da Via Buonarroti uma personagem integralmente sua: em 1988 nasce então  Nick Raider. Nas suas páginas Nizzi faz novamente dupla com Renato Polese, o desenhador que o havia baptizado no Comicdom em 1963, nas páginas de Vittorioso. A sua estreia no mundo da banda desenhada aconteceu portanto há exactos 50 anos atrás.

O policial – a outra paixão de Claudio Nizzi para além do género western – leva-o a cria em 2001 o noir Leo Pulp, muito mais do que uma banda desenhada humorística,  como erroneamente se poderia julgar pelo traço de Bonfatti, autor que desenha todos os três episódios.

Leo Pulp, a última criatura bonelliana de Nizzi, ultrapassou os confins italianos como podemos constara nesta capa alemã. Desenho de Massimo Bonfatti

A longa carreira de Claudio Nizzi na Sergio Bonelli Editore é resumida nos números contidos na tabela que mostramos de seguida:

Ano
Páginas
Posição
Tex
Nick Raider
Mister No
Leo Pulp
KP Magazine (Tex)
1981
168
14°
0
0
168
0
0
1982
411
10°
0
0
411
0
0
1983
158
14°
158
0
0
0
0
1984
500
7°
500
0
0
0
0
1985
744
5°
744
0
0
0
0
1986
1.012
2°
1.012
0
0
0
0
1987
1.052
2°
1.052
0
0
0
0
1988
2.202
1°
1.544
658
0
0
0
1989
2.269
1°
1.389
880
0
0
0
1990
2.142
1°
1.544
598
0
0
0
1991
1.750
1°
1.434
316
0
0
0
1992
1.860
1°
1.544
316
0
0
0
1993
1.306
1°
958
348
0
0
0
1994
1.172
2°
636
536
0
0
0
1995
1.299
1°
1.031
236
0
0
32
1996
1.811
1°
1.463
348
0
0
0
1997
722
6°
722
0
0
0
0
1998
921
5°
921
0
0
0
0
1999
554
13°
554
0
0
0
0
2000
1.104
4°
1.104
0
0
0
0
2001
1.308
3°
1.214
0
0
94
0
2002
1.565
2°
1.565
0
0
0
0
2003
1.768
2°
1.768
0
0
0
0
2004
994
5°
994
0
0
0
0
2005
1.622
1°
1.434
94
0
94
0
2006
1.540
2°
1.540
0
0
0
0
2007
1.304
4°
1.210
0
0
94
0
2008
656
8°
656
0
0
0
0
2009
550
15°
550
0
0
0
0
2010
330
23°
330
0
0
0
0
2011
444
13°
444
0
0
0
0
2013
220
(13°)
220
0
0
0
0
Total
35.458
 
30.235
4.330
579
282
32

Com as suas 35.458 páginas Claudio Nizzi é o segundo escritor bonelliano em absoluto, após o inatingível G.L. Bonelli; e com as suas mais de 30.000 páginas de Tex roça o primado do criador  do Ranger que encerrou a sua carreira com 30.814 páginas. Realizar trinta mil páginas do mesmo herói não é coisa pouca: na editora Bonelli é uma façanha conseguida por apenas dois escritores; Nizzi teve o “azar” que o outro, Bonelli Pai, escrevesse para a mesma séria…

Os números evidenciados no quadro acima indicam que o protagonista deste post foi por 22 anos o autor mais prolífico de Tex, por 6 anos o de Nick Raider e por 3 (inevitavelmente!) o de Leo Pulp; por nove anos foi o autor mais produtivo da editora milanesa; foi também o autor mais publicado nos anos 90 no que diz respeito a exemplares bonellianos – ainda que o seu record pessoal, 2.269 páginas, seja datado de 1989.

Nizzi, graças sobretudo aos inúmeros Tex Gigante realizados, destaca-se também na classificação dos escritores de edições especiais: com 8.534 páginas especiais supera Burattini e Castelli que ocupam os outros dois degraus do pódio.

Tex 273 e Tex 632, o primeiro e o último álbum de Nizzi para Águia da Noite. As capas são respectivamente de Aurelio Galleppini e de Claudio Villa

Claudio – como se intui do quanto foi escrito anteriormente – na história da editora milanesa é o escritor que realizou mais páginas de uma não sua personagem; nesta particular classificação de autores com a produção de personagens criadas por outros é seguido, a uma distância segura, de  Moreno Burattini (18.567 páginas para Zagor), Mauro Boselli (11.911 páginas para Tex), Stefano Vietti (11.220 páginas para Nathan  Never e demais séries relacionadas) e Luigi Mignacco (10.518,5 páginas para Mister No). Curioso o facto de que – apesar da primazia nesta classificação transversal – Nizzi não detenha o primado em nenhuma das séries de longa duração em que tenha colaborado – nem sequer no seu Nick Raider, onde, na classificação final, é superado por apenas 28 páginas, por Alfredo Nogara.

Série
Histórias
Páginas
Tex
98
22.819
Nick Raider
32
3.212
Tex Gigante
21
4.702
Nick Raider Speciale
11
1.024
Almanacco del West
10
1.052
Maxi Tex
5
1.662
Leo Pulp
3
282
Mister No
2
579
Almanacco del Giallo
1
94
Ken Parker Magazine
1
32

A aventura mais longa concebida por Claudio, L’uomo con la frusta (Tex italiano 365-369,) desenvolve-se no arco de 504 páginas e contou com a colaboração de dois desenhadores, Fusco e Civitelli, que dividiram equitativamente a aventura: 252 páginas por cabeça.
 
A propósito de ilustradores: foram 59 aqueles com quem Nizzi colaborou neste trinta e dois anos bonellianos, como podemos constatar no quadro que se segue e onde estão ordenados pelo número de páginas e separados por séries.
 
Desenhador
Páginas
Tex
Nick Raider
Mister No
Leo Pulp
1°
Fusco
4318
4318
 
 
 
2°
Civitelli
3418
3084
 
334
 
3°
Ticci
2699
2699
 
 
 
4°
Ortiz
1874
1874
 
 
 
5°
Monti
1617
1617
 
 
 
6°
Villa
1575
1575
 
 
 
7°
Letteri
1537
1537
 
 
 
8°
Repetto
1195
1195
 
 
 
9°
Blasco
1052
1052
 
 
 
10°
Venturi
1015
1015
 
 
 
11°
De La Fuente
978
978
 
 
 
12°
Galep
953
953
 
 
 
13°
Brindisi
661
375
286
 
 
14°
Diso
660
660
 
 
 
15°
Ramella
596
 
596
 
 
16°
Caramuta
564
 
564
 
 
17°
Polese
560
 
560
 
 
18°
Marcello
555
555
 
 
 
19°
Giolitti
551
551
 
 
 
20°
Rossi R.
528
528
 
 
 
21°
Mastantuno
478
224
254
 
 
22°
Trigo
470
 
470
 
 
23°
Della Monica
448
448
 
 
 
24°
Del Vecchio
440
440
 
 
 
25°
Milazzo
412
224
188
 
 
25°
Parlov
412
224
188
 
 
27°
Capitanio
407
219
188
 
 
28°
Irmãos Cestaro
330
330
 
 
 
29°
Cossu
326
326
 
 
 
30°
Sommer
314
314
 
 
 
31°
Bignotti
245
 
 
245
 
32°
Bonfatti
235
 
 
 
235
33°
Alessandrini
224
224
 
 
 
33°
Ambrosini
224
224
 
 
 
33°
Bernet
224
224
 
 
 
33°
Buzzelli
224
224
 
 
 
33°
De Angelis
224
224
 
 
 
33°
Kubert
224
224
 
 
 
33°
Magnus
224
224
 
 
 
33°
Seijas
224
224
 
 
 
33°
Wilson
224
224
 
 
 
33°
Zaniboni
224
224
 
 
 
43°
Rossi M.
222
 
222
 
 
44°
Filippucci
220
220
 
 
 
44°
Milano
220
220
 
 
 
46°
Antinori
216
 
216
 
 
47°
Nicolò
158
158
 
 
 
48°
Roi
128
 
128
 
 
49°
Fiorentini
94
 
94
 
 
49°
Sgattoni
94
 
94
 
 
49°
Siniscalchi
94
 
94
 
 
52°
Biglia
70,5
23,5
47
 
 
52°
Copello
70,5
23,5
47
 
 
54°
Buffagni
47
 
 
 
47
54°
Calegari
47
47
 
 
 
54°
Straffi
47
 
47
 
 
54°
Torti
47
 
47
 
 
58°
Leomacs
20
20
 
 
 
.
Fusco e Civitelli, já citados como desenhadores da aventura mais longa escrita por Nizzi, são também os seus mais fiéis colaboradores; O segundo já o tinha inclusive encontrado nas páginas de Mister No. Além de Civitelli, outros sete desenhadores trabalharam com Nizzi em duas séries diversas (como a tabela prova): Tex e Nick Raider.
 
Para concluir, duas curiosidades ligadas aos desenhadores: Nizzi baptizou o mais jovem desenhador de Águia da Noite, Luigi Copello, que estreou há quase 22 anos no primeiro Almanaque dedicado ao Ranger; também foi o escritor da única história bonelliana desenhada, pelo menos pela metade, por Iginio Straffi, o autor que mais tarde tornou-se internacionalmente famoso como criador das Winx.
 
Em suma, um ano para recordar este 2013 para Nizzi: 75º aniversário e 50 anos de banda desenhada – dos quais 30 ao serviço de Tex!

Saverio Ceri

Material apresentado no blogue Dime Web em 11/05/2013; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2013, Saverio Ceri

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Nick Raider está na revista Mundo dos Super-Heróis nº 43

A secção MUNDO BONELLI deste mês destaca a excelente série policial Nick Raider, do grande argumentista italiano Claudio Nizzi..

Por Ezequiel Guimarães

A mais nova edição da revista chegou dia 24 às bancas brasileiras das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. A partir dos dias seguintes chegará ao restante do Brasil.

TEX é citado na matéria, já que Nizzi é também o 2º maior argumentista do grande ranger bonelliano. A série Nick Raider conquistou o seu espaço em meio aos faroestes da editora Bonelli. Saiba o motivo do sucesso.

Há muitas matérias interessantes na nova edição:

Heróis BR: Maximus
O herói brasileiro que surgiu como uma homenagem ao Shazam conta com elementos da cultura latino-americana em sua origem e chega à sua quarta edição.

Planeta dos Macacos
Confira detalhes sobre o livro, filmes e série de TV desse clássico aclamado por gerações.

Os Zeróis do Ziraldo
Em entrevista exclusiva, o cartunista fala de seu amor pelos super-heróis e como eles influenciaram sua carreira.

Novidades nas lojas
A 30ª Abrin, a maior feira de brinquedos da América Latina, apresentou as novidades em action-figures que chegarão às lojas brasileiras. Conheça as mais interessantes.

Linha do tempo: Mulher Maravilha

A heroína mais famosa dos quadradinhos surgiu em tempos de guerra e conseguiu mostrar o poder feminino em um mundo tomado pela violência.

Vilã flamejante
Saiba tudo sobre a Força Fênix, a perigosa entidade cósmica que destruiu dezenas de planetas habitados e ruma para a Terra na mini-série Vingadores vs. X-Men.

Homem de Ferro em anime
Confira os detalhes da nova animação do Vingador Dourado e saiba de que maneira ela está relacionada aos filmes do herói.

Dias de glória

Veja como os heróis da Marvel acabaram com o reinado de terror do vilão Norman Osborn. E mais, saiba o que foi a saga espacial The Thanos Imperative e porque ela não foi publicada no Brasil.

Peneira Pop
Novidades e afins: detalhes sobre os heróis da editora norte-americana Valiant, que chegam em breve às bancas brasileiras; as polémicas sobre as personagens Monstro do Pântano e Homem-Coisa; as novidades da Marvel e da DC no Brasil; vídeos curiosos sobre super-vilões e a cosplayer de Psylocke que ficará nos pensamentos de muitos fãs da heroína.

Truques sujos na criação dos super-heróis
Dossier sobre as polémicas brigas e falcatruas que envolvem o surgimento dos principais heróis da Marvel e da DC. Entre as histórias garimpadas pelo pesquisador Roberto Guedes, estão:
– Como a DC passou a perna nos criadores do Superman
– As grandes trapaças de Bob Kane
– A guerra de egos entre Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko

Heróis em LEGO
Os detalhes dos jogos e animações que adaptam os super-heróis Marvel e DC para o mundo das peças de montar.

Superleitores
Comentários e análise de desenhos de leitores.

Recebemos
Resenhas de BDs.

Para sugestão de matérias, fale directo com o editor:
Manoel de Souza  – manoel.souza@europanet.com.br

BOA LEITURA!

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Entrevista com o fã e coleccionador: Rozan Silva

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Rozan Silva: Nasci em Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro, cidade esta que já foi uma das maiores produtoras de café  e leite do mundo. Tenho 45 anos e trabalho no ramo da informática, prestando serviços a empresas por contrato, e gosto muito de história, tendo sido Presidente da Academia Barramansense de História de 2004 a 2012. Sou também director do GREBAL – Grêmio Barramansense de Letras, instituição que publica em média 6 livros por ano de autores barramansenses.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Rozan Silva: Aprendi a ler com as revistas Disney. A primeira que ganhei do meu pai e tenho até hoje foi a Tio Patinhas 128, quando tinha 8 anos. Os meus pais deram-me muitas revistas, e foi quando comecei a minha colecção e a paixão pela leitura. Guardei quase todas as que ganhei, e hoje tenho quase 3.500 revistas de banda desenhada. Leio muitos livros também, tendo quase 3.000 em minha biblioteca.

Quando descobriu Tex?
Rozan Silva: Quando tinha 9 anos um amigo de meu pai emprestou-me o Tex nº 2 (Vingança de Índia). Gostei muito. Alguns meses depois, conheci no bairro em que morava um amigo cujo pai coleccionava Tex, então comecei a pegar emprestado e ler. Lembro como se fosse hoje, que li os Tex nº 77 e nº 78 (Pesadelo e Espectros) com muito medo (…risos…). Em 1980 mudei-me para o centro de minha cidade, onde moro até hoje. E o Tex acompanhou-me, pois o pai de outro amigo, o Sr. Luis Alves, que era meu vizinho de frente, também coleccionava Tex, e continuei a ler pegando emprestado dele. Quando passei a trabalhar, comecei a comprar as minhas próprias revistas de Tex e Zagor, na época lançadas pela Vecchi. Então, em 1993, o Sr. Luis propôs-me que comprasse a colecção dele, desde que continuasse a comprar as edições de Tex e emprestá-las para ele ler. Era o nº 285 (Rancho Dorado). Eu comprei a colecção dele, e foi a realização de um sonho!

Porquê esta paixão por Tex?
Rozan Silva: Sempre gostei de ler. Leio revistas e muitos livros. Mas Tex tem um lugar especial no meu coração. Quando li o primeiro Tex (o nº 2) havia acabado de passar por uma operação que pode ser simples (amígdalas), mas que para uma criança era um verdadeiro pavor, e a primeira revista que li após essa operação foi uma revista que para mim era nova (só conhecia as Disney, que leio até hoje) e não consigo explicar porque gostei, só que gostei. A paixão foi tão forte, que passou pela prova do segundo Tex que li, que era o nº 67 (Vingança dos Tuaregues) que era continuação do nº 66, e o exemplar que me chegou às mãos foi impresso com defeito (não tinha fim, as páginas foram encadernadas de forma errada pela editora e mais da metade da revista estava errada. Vejam como eram as coisas naquela época (…risos…). Mesmo assim fui atrás de mais revistas Tex para ler.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Rozan Silva: Tex lembra-me as personagens dos westerns antigos (meu pai era fã do John Wayne). Seu senso de justiça é único, e suas acções são as que gostaríamos de tomar. Ele é um herói de carne e osso, leva tiros, engana-se às vezes, mas continua em seu objectivo por justiça. Era fácil gostar de uma personagem assim.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Rozan Silva: Tenho cerca de 1.700 revistas da Bonelli, entre Tex, Zagor, Mister No, enfim, quase tudo que saiu no Brasil após 1971 eu tenho, com excepção dos Zagor da Vecchi e da Rio Gráfica (só tenho alguns). A peça mais importante para mim é o primeiro Tex que li, o nº 2 (Vingança de Índia), que é o mesmo que o amigo de meu pai me emprestou, e teve que me dar, pois não devolvi (…risos…).

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Rozan Silva: Apenas livros, mas gostaria de ter outras coisas do universo de Tex. Cheguei a ter o Álbum de Tex, completo, mas perdi numa mudança. Aliás, foi a única coisa de Tex que perdi até hoje.

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Rozan Silva: Sem dúvida as estatuetas das personagens do mundo de Tex produzidas pela Hachette. Estou planeando comprá-las aos poucos.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Rozan Silva: O meu gosto tende mais para o sobrenatural e para os enredos envolvendo chineses e grupos afins, como o do Tigre Negro mas sou ecléctico, e gosto de todo tipo de histórias. Minhas favoritas são San Francisco, A Volta do Mestre e todas do Mefisto e do Yama. Quanto ao desenhador gosto de todos, mas destaco em especial o Civitelli. Quanto ao argumentista sou fã do Claudio Nizzi.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Rozan Silva: Agrada-me o seu dinamismo, a amizade que ele tem pelos seus, seu senso de justiça, e até seu humor sarcástico, como vemos em algumas histórias que ele implica com Kit Carson. Por falar nele, sempre que leio uma história em que o Kit Carson não está presente leio com um pouco de tristeza, pois acho o Carson uma grande personagem, que ajuda muito para que as histórias tenham um pouco de leveza e graça. Quisera eu chegar à idade do velho pard com toda a disposição dele, com mil batatinhas (…risos…). Não me lembro de nada que me desagrade, ou agrade menos em Tex. Afinal, considero Tex um amigo meu, um pard, e amigo meu não tem defeitos (…risos…).

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Rozan Silva: Tex é uma personagem atemporal. O mundo mudou muito nas últimas 6 décadas, mas as lições de Tex continuam a valer até hoje. Basta que você as transporte para o presente. Além disso, muitos de seus leitores conseguiram passar o gosto de Tex através das gerações, seja para o filho, para o sobrinho, ou para um vizinho. E conseguiram passar este gosto em um mundo que não era tão globalizado com o de hoje.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Rozan Silva: Infelizmente não tive ainda este prazer, mas conheço muitos de nome, através de seus trabalhos na Internet. Gostaria de me encontrar com outros pards, com certeza.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Rozan Silva: Quando comecei a ler Tex não havia computador nem Internet. As informações de bastidores (se é que se pode chamar assim), vinham através da secção de cartas (acho que escritas pelo Ota). Hoje sei quem são os autores e desenhadores de Tex, vejo pela Internet até a sede da SBE, sei quais são os próximos trabalhos a serem lançados. Enfim, meu Tex, que era apenas (e sem depreciação, esse apenas me satisfazia muito) um mundo de leitura que considerava quase que só meu, passou a ser universal (e sempre foi). Poder dar esta entrevista e demonstrar meu amor pelo universo que é Tex, e compartilhar com leitores do Brasil, de Portugal, e do mundo minhas ideias a respeito, é muito bom. E com essa facilidade toda surgiram e surgirão novos autores, desenhadores e editoras. Por isso vejo que o futuro do Ranger é infinito, pois ele sobreviveu a muitas intempéries, e nunca nos decepcionou. Passei o gosto de Tex para meu filho, Igor de 12 anos. Acho que estou fazendo minha parte (falta ainda conquistar alguns vizinhos …risos…), mas espero estar ainda por muitos anos nestas pradarias, junto com Tex, seus pards, e todos que fazem parte do universo Bonelli, desde os coleccionadores, até aqueles que só leram Tex emprestado, como foi meu começo. Parabéns à Mythos, ao blogue português do Tex, ao portal TexBR e muito obrigado a você, José Carlos, pela oportunidade.

Prezado pard Rozan Silva, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

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EVOCANDO SÉRGIO TOPPI

Texto da edição nº 14 da revista Bang!, a revista gratuita de informação sobre fantasia, terror e ficção científica editada pela Saída de Emergência, de Abril de 2013

Evocando Sérgio Toppi

João Miguel Lameiras

Se o ano de 2012 foi infelizmente fértil no desaparecimento de grandes nomes da Banda Desenhada mundial, como Jean Moebius Giraud, ou Joe Kubert, cujas mortes tiveram grande destaque mediático, já o falecimento do Mestre italiano Sérgio Toppi, em 21 de Agosto, perto de completar 80 anos, passou relativamente despercebido, pelo menos em Portugal.


Uma lacuna que tentaremos corrigir nesta Bang!, evocando aqui a vida e a obra de Sérgio Toppi, virtuoso desenhador italiano, cujo estilo único e arrojada planificação não deixa ninguém indiferente. Nascido em Milão em 1932, Toppi matriculou-se na Faculdade de Medicina em 1952, para rapidamente descobrir que essa não era de todo a sua vocação. Rapidamente abandonou os estudos para se dedicar à ilustração, campo em que se estreia em 1953, realizando uma série de ilustrações históricas para a reedição da L’Enciclopedia dei Ragazzi, promovida pela editora Mondadori. Enquanto realiza trabalhos para publicações como a revista Topolino, em 1957 arranja emprego no Estúdio de Animação Pagot, dirigido pelos irmãos Pagotto, responsáveis pela primeira longa-metragem italiana de animação, o que não o impede de continuar a trabalhar como ilustrador para a imprensa e para a publicidade e de se estrear na Banda Desenhada em 1960, ilustrando uma biografia em BD de Pietro Micca, uma personagem histórica italiana do século XVII, escrita por Milo Milani para o jornal Corriere dei Piccoli.


Um momento importante da sua carreira na BD, foi o encontro com Sergio Bonelli, personagem incontornável da BD italiana, editor de Tex e Dylan Dog, que contratou Toppi em 1974, para este acabar de desenhar um Western que a morte de Rino Albertarelli deixara incompleta. O ano de 1975, também foi importante para Toppi, pois além de ter ganho o Yellow Kid para o melhor desenhador no Festival de Lucca, começou a colaborar com a revista Sgt. Kirk nesse mesmo ano. Seguir-se-ia a participação na mítica colecção Un Uomo, un’Avventura, onde Bonelli conseguiu a proeza de juntar os mais prestigiados nomes dos fumetti italianos, de Hugo Pratt a Milo Manara, passando por Crepax, Buzzelli, Battaglia, e claro, Toppi, que entre 1976 e 1978 ilustrou os volumes, L’Uomo del Nilo, L’Uomo del Messico e L’Uomo del Paludi, o primeiro dos quais chegaria a Portugal através de uma edição brasileira.


E se os interesses de Toppi estavam algo afastados das grandes séries da Bonelli, a sua amizade com o editor fez com que colaborasse ocasionalmente com a editora da Via Buonarrotti, desenhando histórias para a Ken Parker Magazine, para dois números de Nick Raider, em 1997 e 2001, para o nº 11 da revista Julia, ilustrando uma história de Giancarlo Berardi, que chegou a Portugal, através da edição brasileira da Mythos, que publicou a referida história no nº 11 da revista J. Kendall Aventuras de uma Criminóloga. Toppi tem também o seu nome ligado a outros dois populares personagens da Bonelli, Martin Mystére, de quem ilustrou uma história de 22 páginas para o Almanaque Martin Mystère nº 16, de 1999, posteriormente adaptada a um CD-Rom, e Dylan Dog, que Toppi retratou na capa do Dylan Dog Color Fest nº 3, de 2009, no que seria a sua última colaboração com a editora Bonelli.


Entre a longa colaboração com Il Giornalino, iniciada em 1976, e diversas participações nas principais revistas italianas, como a Sgt. Kirk, Linus, Alter Alter e Corto Maltese, Toppi constrói o seu estilo próprio, em que a rígida divisão da página em tiras e quadrados, dá lugar a uma planificação mais dinâmica e artística, que considera a página como um todo. O aspecto pétreo do seu desenho, em que as personagens parecem cristalizadas numa natureza ameaçadora, também ela fossilizada, o fantástico que emerge das suas histórias, faz da obra de Toppi, algo único e inesquecível.


Infelizmente, essa obra, tão variada que inclui, além de largas dezenas de histórias curtas, coisas tão inesperadas como uma biografia em BD do Papa João Paulo II, nunca conseguiu cativar devidamente o grande público, talvez pela ausência de um herói icónico que o fidelizasse. A obra de Toppi é constituída maioritariamente por histórias curtas, tendo como único personagem recorrente Il Coleccionista, um peculiar coleccionador e aventureiro, misto de dandy e de cowboy, que se estreou em 1982 na revista Orient Express. Um personagem de moral dúbia e passado misterioso, muito longe dos heróis tradicionais com que o leitor facilmente se identifica.


Com o declínio das revistas em Itália, que se acentuou no início do século XXI, Toppi começou a cair no esquecimento no seu país. Algo que não aconteceu em França, graças ao excelente trabalho da editora Mosquito, que a partir de 1997 tem vindo a editar de forma cuidada o seu trabalho (tal como o de outros grandes mestres italianos, como Battaglia e Micchelluzi). Uma parceria feliz, que deu origem a mais de 30 álbuns de BD, entre colectâneas de histórias curtas, até trabalhos feitos directamente para o mercado francês, como a segunda parte de Sharaz’de, ou a quinta aventura do Coleccionador.


Graças às edições da Mosquito, o trabalho de Toppi tem vindo a ser traduzido em diversos países, da Europa, aos Estados Unidos e à China, onde uma exposição das suas obras foi vista por dois milhões de pessoas em apenas cinco dias. Uma merecida consagração que Toppi, já debilitado pelo cancro que haveria de o levar, não pode testemunhar pessoalmente.


Apesar do seu trabalho só agora começar a ser publicado nos EUA, graças à Archaia Press, a sua influência em desenhadores como Walt Simonson, Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Ashley Wood, ou Dave McKean (sobretudo numa primeira fase que vai até ao Arkham Asylum) é evidente e assumida pelos próprios, que nunca esconderam a sua admiração pelo trabalho de Toppi.


Walt Simonson, que deu Toppi a descobrir a Frank Miller e Howard Chaykin, quando os três partilhavam um estúdio em Nova Iorque, foi o autor do prefácio à edição americana de Sharaz-De, em que refere que: “as imagens de Toppi são uma mescla evocativa de belos desenhos, texturas, formas, espaço negativo e design. Desenha com uma mistura de contornos, hachuras, manchas de preto cuidadosamente posicionadas e espaços em branco. Ele é um mestre dos espaços em branco. O resultado é um desenho extremamente vivo em cada página, independentemente do assunto”. Já Frank Miller, que dizia que “Toppi faz o impossível parecer fácil”, foi o responsável pela estreia do desenhador italiano no mercado americana, publicando uma ilustração que o Mestre fez de homenagem à série Sin City, no nº 4 da mini-série Sin City: The Big Fat Kill, infelizmente ausente da edição portuguesa da Devir. Mais tarde, será a Marvel a encomendar-lhe as capas da mini-série 1602: The New World, que retoma o conceito, criado por Neil Gaiman, do universo Marvel transposto para o século XVII, ficando-se por aqui a presença do desenhador americano na terra do Tio Sam, até a Archaia começar finalmente a publicar a sua obra em inglês, começando por Sharaz’de, numa bela edição que Toppi já não teve tempo de ver…


Em Portugal, onde a influência do seu traço é visível num autor como Pedro Massano, as histórias de Toppi chegaram através de revistas como Jacto e o Jornal do Cuto, que publicaram algumas histórias curtas e da Colecção A Descoberta do Mundo, da Larrousse, que a Dom Quixote editou em Portugal e em que o nome de Toppi aparece ao lado de ilustres compatriotas seus, como Buzzelli, Manara, ou Battaglia, e do português Eduardo Teixeira Coelho. A última aparição de Toppi em português, deu-se em 1999, no nº 8 da 2ª série da revista Selecções BD, com a história Algarve 1460, protagonizada pelo Infante Dom Henrique, enquadrada por um belo texto de João P. Boléo, que abordava a relação de Toppi com Portugal, que tinha visitado um ano antes de desenhar essa história. Curiosamente, a mesma revista preparava-se para iniciar a publicação de Sharaz’de, a peculiar adaptação das Mil e Uma Noites, que é um dos melhores trabalhos de Toppi, no preciso momento em que falência da editora Meribérica levou ao seu desaparecimento.


Ficaram a perder os leitores portugueses. Os mesmos leitores que, nestas páginas têm finalmente direito a uma pequena amostra do imenso talento de Sergio Toppi, um desenhador, nas palavras de Dave McKean, “capaz de desenhar qualquer coisa e dar-lhe uma solidez e um sentido de movimento que a tornam ideal para contar histórias no formato da Banda Desenhada”.

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Copyright: © 2013 Revista “Bang!“; João Miguel Lameiras;
João Miguel Lameiras é Mestre em História da Arte pela Universidade de Coimbra. Tem desenvolvido uma vasta actividade no campo da Banda Desenhada, como conselheiro editorial, tradutor, argumentista e crítico para diversas editoras e publicações e é sócio-gerente da Livraria Dr. Kartoon. Escreve com frequência no seu blogue Por um punhado de imagens.

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