Entrevista exclusiva: ANDREA ACCARDI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão, de Bira Dantas na caricatura e de Emanuele Rosso nas fotografias.

Caro Andrea Accardi, bem-vindo ao blogue português de Tex! Para começar, fale de você, da sua infância e adolescência na nativa Palermo.
Andrea Accardi: Em Palermo eu tive uma infância feliz, passava bastante tempo a brincar com os soldadinhos e a ler os quadradinhos do meu pai: Príncipe Valente de Foster, Flash Gordon de Raimond, Corto Maltese de Pratt, Tex da dupla Bonelli/Galleppini, Mickey de Disney e Gottfredson, Cocco Bill de Jacovitti, mas também Toppi, Battaglia, Crepax, etc. Durante a adolescência, depois de doses elevadas de BD Marvel, tive a atracção fatal pelos desenhos animados japoneses e pelo seu estilo cativante. Palermo é a minha cidade natal, o local em que me formei e, apesar da minha fuga, é sempre o meu núcleo, a minha placenta.

Com que idade você começou a se envolver com lápis, nanquim e pincéis?
Andrea Accardi: Eu não me recordo de um momento em que não tenha desenhado. O meu pai, representante comercial, passava-me os seus blocos usados de folhas coloridas, cópias de encomendas feitas, e no verso das folhas eu desenhava as minhas histórias, um único quadradinho por página, claro. Eu usava canetas Bic e hidrocores Carioca. E as caixas de lápis de cor eram uma das minhas principais fontes de inspiração: o meu objectivo era usar os lápis para copiar as imagens. Nanquim e pincéis chegaram mais tarde, até os 13 ou 14 anos eu pensava que o melhor instrumento para desenhar era a hidrocor de ponta fina.

Você começou a sua carreira por quais canais? Qual foi o seu primeiro trabalho profissional?
Andrea Accardi: Existem várias etapas que eu considero fundamentais para o desenvolvimento da minha profissão. Em Palermo eu frequentei o ensino médio tradicional e, depois de uma breve experiência na Academia Cappiello de Florença (uma escola de desenho publicitário), para preencher as minhas lacunas técnicas eu inscrevi-me na Academia de Belas Artes de Palermo. Não melhorei muito os meus conhecimentos técnicos, não havia matérias adequadas. Hoje existem diversos cursos específicos para BD e ilustração, também na Academia. De um ponto de vista logístico, foi a Academia de Belas Artes de Bolonha o canal que me permitiu chegar à redacção da Granata Press, a Editora que eu considero uma escola, um local de desenvolvimento e um trampolim para a minha carreira. Eu cheguei a ela por meio de alguns colegas de curso aficionados por quadradinhos japoneses (os futuros Kappa Boys). O meu primeiro ofício foi o de letrista e depois, aos poucos, eu comecei a ilustrar os RPG (jogos de personagens) para a revista Kaos, uma bela oportunidade para um autodidacta como eu.

Porque você se mudou para Bolonha?
Andrea Accardi: Bolonha é uma cidade em contínua agitação, uma oficina de ideias que fluem em muitos campos e em várias direcções, a envolver seja a actividade política que aquela social e artística. Eu decidi mudar-me atraído pelo trabalho que um grupo de autores havia desenvolvido no campo da BD alguns anos antes e que eu via como uma espécie de novo caminho para os comics, era o grupo Valvoline (Daniele Brolli, Lorenzo Mattotti, Giorgio Carpinteri, Marcello Jori, Jerry Kramsky e Igort). E em torno de Bolonha eram ambientadas inúmeras histórias de Andrea Pazienza, um dos autores que eu amava no final dos anos Oitenta.

O que se recorda da sua actuação com a Granata Press?
Andrea Accardi: A experiência na Granata Press, dirigida pelo saudoso Luigi Bernardi, foi fundamental. Sob o olhar severo do director de arte Roberto Ghiddi eu exerci todos os ofícios colaterais da profissão de autor de BD, do diagramador ao letrista, do operador de fotolito ao impressor. Sem falar da oportunidade que uma vida na redacção pode oferecer ao jovem aprendiz: conhecer pessoalmente alguns Mestres da BD italiana que frequentavam a Editora não só por razões profissionais, entre os quais Roberto Raviola, em arte Magnus.

O seu trabalho de 1994, com texto de Onofrio Catacchio, só foi publicado em 1999. Porque?
Andrea Accardi: A Granata Press projectava uma nova série Golem, na qual deveria aparecer o meu trabalho, com roteiro de Onofrio Catacchio (um dos autores que frequentavam a redacção de forma mais assídua), Prole do Inferno. Infelizmente a Editora fechou alguns meses depois, e o livro, embora tenha sido pago, permaneceu inédito. Alguns anos mais tarde, depois de vários trabalhos, a Kappa Edições (originada de uma costela da Granata) ofereceu-se para publicá-lo.

Prole do Inferno foi publicada na Itália (Kappa Edições) e na França (Albin Michel): qual foi a resposta do público, dos profissionais da área e da crítica? Deve ter sido uma satisfação ver o material publicado também na França.
Andrea Accardi: Na verdade eu não vi resposta alguma, e as vendas devem ter sido muito baixas. Na Itália, a quase inexistente crítica de BD nem percebeu. Apesar disso, a Albin Michel comprou os direitos para a França e a imprimiu no clássico formato colorido daquele País. À parte a satisfação e os elogios de amigos e colegas, também na França a coisa passou em silêncio.

A actuação com o roteirista Michelangelo La Neve concretizou-se na história Os Danados, para a série ESP. Você acredita que, nesses seus primeiros trabalhos, maturou um estilo bem reconhecível, ou teve que se adaptar às diferentes exigências editoriais?
Andrea Accardi: Eu trabalhei nessa história logo depois do encerramento da Granata Press. Eu havia mandado algumas provas a Michelangelo e ele gostou… com muitas reservas. Eu ainda era influenciado pelos traços de Mignola, o que se vê muito em Prole, e tentei adaptar aquele traço para aquele tipo de publicação em série. Foi o meu baptismo nos quiosques, com o público que chamamos de popular. Podemos dizer que, tanto ESP quanto Prole, foram trabalhos nos quais se evidencia uma vontade de buscar um estilo, mas ainda distantes de uma uniformidade. Michelangelo acompanhou-me passo a passo nessa experiência totalmente nova.

A partir de 1996 você trabalhou com o roteirista Massimiliano De Giovanni: fale um pouco desse trabalho.
Andrea Accardi: Eu comecei a trabalhar com Massimiliano em 1996, por ocasião do primeiro número de Mundo Näif, publicado pela Star Comics. Eram histórias de personagens que, na época, tinham a nossa idade, faziam as coisas que nós fazíamos, espelhavam as nossas aspirações e tinham os nossos mesmos problemas de relacionamentos, de sentimentos, etc. Deve-se dizer que tudo surgiu de outro projecto nascido na Granata Press, a revista de vida curta Dinamite, que lançou as bases de uma BD que abordasse o quotidiano – e penso em Piera dos Espíritos, de Giovanni Mattioli e Davide Toffolo. O encontro com Massimiliano foi muito prolífico e continuamos a trabalhar juntos por mais de quinze anos, a levar adiante as aventuras sentimentais de Matteo e Enrico, o thriller fantástico de Barcode, a falta de escrúpulos de Lupin III e o Japão fantástico de A viagem de Akai.

Em 2003 você entrou para a equipa da Eura Editoriale e – pode ter sido um sinal do destino – começou a desenhar John Doe para os roteiros de Roberto Recchioni: fale um pouco disso e conte como foi trabalhar com o actual editor de Dylan Dog.
Andrea Accardi: Roberto apresentou-me o roteiro do sexto número de John Doe logo depois que nos encontramos numa pequena mostra de Bolonha. Ele havia visto as minhas páginas e percebeu o que podia esperar de mim. A partir dali, trabalhar com ele sempre foi fácil, estimulante e, sobretudo, gratificante. Eu estimo bastante Roberto como pessoa e como autor, e uma das suas melhores qualidades, em minha opinião, é justamente a capacidade de imaginar o resultado.

Quase dez anos depois, a actuação com Recchioni produziu uma jóia como o segundo volume da série bonelliana Le Storie (n.t.: As Histórias). Como evoluiu essa nova actuação e como você entrou em contacto com a Sergio Bonelli Editore?
Andrea Accardi: Eu desenhei mais dois números de John Doe antes de chegar à Sergio Bonelli Editore e a Le Storie. Graças ao trabalho sobre os samurais que fiz com Roberto, agora sou um colaborador da Editora. Eu havia tentado muitos anos antes, fiz testes com Nathan Never, Dylan Dog, Nick Raider, Jonathan Steele, Dampyr, e sempre fui recusado.

Roberto Recchioni, junto aos seus colaboradores, é o artífice da renovação de Dylan Dog: abriu-se uma possibilidade de você trabalhar com o Investigador do Pesadelo?
Andrea Accardi: Nunca falamos disso.

Antes de passarmos às perguntas sobre o Ranger a quem este blogue é dedicado, umas palavrinhas do trabalho que você fez com Luca Enoch.
Andrea Accardi: Outra óptima experiência com um grande autor, outro passo adiante na minha definição de estilo. Hit Moll deveria ser o meu primeiro trabalho publicado na série Romances aos Quadradinhos da Bonelli. O material foi pago e depois vendido à Editora BD porque o tema abordado não se enquadrava na linha editorial da SBE.

Passemos ao Ranger que dá nome a este blogue: como aconteceu a sua entrada na equipe de desenhadores de Tex?
Andrea Accardi: Roberto também foi o artífice de mais essa culpa. Estávamos a trabalhar na segunda história da trilogia dos samurais, quando ele falou-me da possibilidade de desenhar Tex, uma história curta para as edições especiais em cores. Pensei no meu pai, em quanto isso lhe daria prazer, pensei na grande chance que se abria para trabalhar com esse colosso da BD italiana. Aceitei com grande felicidade… e preocupação.


Como você se sentiu a trabalhar com o Ranger?
Andrea Accardi: Uma grande responsabilidade. Um confronto, não só com uma personagem mítica, mas também com um importante conjunto de desenhadores míticos.


Ao desenhar Tex, você encontrou alguma dificuldade?
Andrea Accardi: Claro que encontrei, e de vários tipos: das técnicas – como os cavalos e os ambientes de época, as roupas, os revólveres, os chapéus (mamma mia, existe coisa mais difícil de desenhar do que chapéus?) – às mais gerais, como os movimentos e posturas das personagens. O faroeste tem uma linguagem precisa. O rosto de Tex, por exemplo, ainda é um mistério para mim. Foi muito difícil enquadrá-lo em suas expressões mais típicas e monolíticas. Ao menos eu aprendi, mais uma vez, a reconhecer os meus limites.


Você teve que modificar o seu estilo costumeiro?
Andrea Accardi: Não exactamente, mas como Boselli observou, o meu costume de exagerar as expressões das personagens não combinava com o género. Por isso eu fechei muitas bocas abertas, e endireitei lábios que tinham a tendência a se arquear demais.


Como define graficamente o seu Tex?
Andrea Accardi: Não sei, foi uma experiência importante, mas podia ser melhor. Eu queria dar alguma coisa a Tex, algo meu, que fosse reconhecível e que permanecesse. Bem, digamos que foi Tex quem me deu alguma coisa!


Nos últimos tempos vários desenhadores fizeram uma rápida aparição na série de Tex e depois voltaram a trabalhar com outras personagens. O seu compromisso com Tex será duradouro, ao menos na sua intenção?
Andrea Accardi: A intenção do Color Tex (Tex Especial em Cores) é a de propor desenhadores e roteiristas extra, que normalmente não trabalham na série regular. Mas há excepções, claro. Eu confesso que, enquanto desenhava essa história curta de Tex, durante aquelas longas tardes assoladas de poeira e sangue, de modo ingénuo fantasiei sobre a possibilidade de fazer um Tex tão bonito que seria chamado pelo editor Boselli, com todas as honras, para ir directo à série mensal. Não foi exatamente o que aconteceu. Na verdade, eu volto feliz para os samurais.


Na sua opinião, quem ou o que é Tex? O que você gosta mais e gosta menos no Ranger?
Andrea Accardi: Tex é a aventura, e a sua determinação, que se vê tanto nas histórias fantásticas quanto nas realísticas, é o que me agrada mais. E isso também é o tema principal que delineia todos os títulos da Editora. Eu gosto do relacionamento com Kit Carson, nos diálogos muitas vezes se destaca a veia irónica de uma personagem granítica. Eu gosto muito do lenço preto em seu pescoço, um pouco menos da cor da camisa.


Para concluir o tema, como você vê o futuro do Ranger?
Andrea Accardi: Pelos desenhadores e roteiristas que trabalharam com a personagem nos últimos anos, eu diria que é radioso.


Como é trabalhar na Sergio Bonelli Editore?
Andrea Accardi: A Editora é uma mãe (e também é um maná, sim, é verdade!).


O que é a BD, para si? Como linguagem e como experiência profissional.
Andrea Accardi: Uma das várias possibilidades criadas pelo homem para viver em outra dimensão, uma brincadeira. Desde que se tornou um trabalho, é um compromisso para entreter os outros, sem reservas.


Quanto tempo você leva para desenhar uma página? Você cumpre horários? Como é o seu dia normal, entre trabalho, leituras, busca de informações, ócio, vida familiar?
Andrea Accardi: Ultimamente eu levo quatro dias para completar uma página, dos quais dois para a documentação, estudos e esboços, e dois para a passagem de nanquim e os efeitos especiais. Eu não sigo horários precisos, o meu estúdio é em casa, por isso muitas vezes dependo dos compromissos familiares. A manhã e a noite são os melhores momentos para trabalhar, acompanhado pelo rádio e pelos vários cafés. À tarde, quando estamos todos em casa, é impossível se concentrar, por isso eu procuro fazer todas as actividades caseiras, fazer compras, arrumar a casa, sair com Donatella (a minha doce cara-metade), etc. Eu leio sempre que sinto vontade, mesmo em prejuízo do trabalho, na poltrona do estúdio ou na cama, à noite. Em todo caso – e acho que não sou o único – a família considera-me um fantasma, eu estou mas não estou.


Fale um pouco da sua técnica de trabalho.
Andrea Accardi: Para os esboços eu uso lápis HB e depois pincéis. Para a arte-final, uso os chamados brush pen, e não resisto à tentação de recarregá-los com o nanquim, e o resultado é que reduzo a vida útil da ponta. Com relação ao papel, quanto mais simples, melhor. Para os samurais, eu trabalhei em papel F2 que, por ser bem fino, permite-me ver melhor todos os detalhes quando vou limpar os traços de lápis na prancheta luminosa. Para todos os efeitos especiais, eu aplico uma película transparente sobre a qual trabalho com o nanquim, exactamente como se fosse um nível de photoshop. Uso o computador para corrigir os esboços a lápis ou para montar as tiras de quadradinhos que faço em separado.

Quais são os seus projectos imediatos?
Andrea Accardi: Eu voltei a trabalhar nas histórias japonesas escritas por Roberto Recchioni, sempre para a SBE.

Quais BDs você lê actualmente?
Andrea Accardi: Saga, da dupla Vaughan/Staples, e The Walking Dead, de Kirkman e Adlard. Há alguns dias eu acabei de reler pela quarta vez Kiseju, de Hitoshi Iwaaki, um autor japonês que eu aprecio muito e de quem também estou a ler Historie. À noite, quando dá, eu relaxo com a leitura, pela enésima vez e em ordem cronológica, das histórias dos patos de Barks.

Além de BD, que livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Andrea Accardi: Quanto à leitura, eu não sigo uma linha editorial, eu deixo-me inspirar pelo momento. Passo do romance histórico ao ensaio sociológico. Anos atrás eu estava fixado em Bulgacov, hoje tento recuperar tudo de Saramago, eu gostaria de ilustrar o seu Caim. Ao cinema eu vou duas ou três vezes por mês, e deixo Donatella convencer-me a ver filmes que eu jamais veria sozinho, e geralmente acabo positivamente surpreso. O contrário nunca acontece! Em casa, eu aproveito o tempo que dedico à documentação para ver filmes japoneses, os chambaras, assim como fiz com os de faroeste enquanto desenhava Tex. E há a música: quando eu era mais jovem, gostava de trabalhar ouvindo hardcore, de Fugazi a Youth Brigade; atingi o ápice com a música tecno e com a electrónica (pobres vizinhos); hoje ouço até Toto Cutugno (não, não é verdade, mas Matia Bazar sim!).

Bem, chegamos ao fim. Há algo mais que você gostaria de dizer? Algo que não lhe foi perguntado e que você gostaria que os leitores soubessem?
Andrea Accardi: Sim, eu gostaria de falar da minha paixão pelas estatuetas de Santos. Em Lisboa eu comprei uma belíssima de Santo António de Pádua em terracota, com um acabamento bem irregular, como eu gosto. Se alguém se interessar… 🙂

Caro Andrea, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Andrea Accardi: Sou eu que agradeço, pelo interesse e pelo entusiasmo que espero não ter feito diminuir.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Intervista esclusiva: ANDREA ACCARDI

Intervista condotta da José Carlos Francisco, con la collaborazione di Giampiero Belardinelli per la formulazione delle domande, di Júlio Schneider (traduttore di Tex per il Brasile) e di Gianni Petino per le traduzioni e le revisioni, di Bira Dantas per la caricatura e di Emanuele Rosso per le foto.

Ciao carissimo Andrea Accardi, e benvenuto sul blog portoghese di Tex! Per cominciare, caro Andrea, parlaci di te: la tua infanzia e la tua adolescenza nella nativa Palermo…
Andrea Accardi: A Palermo ho avuto un’infanzia felice, ho passato un sacco di tempo a giocare con i soldatini e a leggere i fumetti di mio padre: Il principe Valiant di Foster, Flash Gordon di Raimond, Corto Maltese di Pratt, Tex della coppia Bonelli/Galleppini, il Topolino di Disney e Gottfredson, Cocco Bill di Jacovitti, ma anche Toppi, Battaglia, Crepax ecc. Durante l’adolescenza, dopo una scorpacciata di fumetti Marvel, ho subito la fatale attrazione per i cartoni animati giapponesi e per il loro stile accattivante. Palermo è la mia città natale, il luogo in cui mi sono senz’altro formato, e nonostante la mia fuga resta il mio nucleo, la mia placenta.

A quale età hai iniziato a cimentarti con matite, china e pennelli?
Andrea Accardi: Non ricordo un momento in cui non abbia disegnato. Mio padre, un agente di commercio, mi passava i suoi blocchi di carta colorata, dei copia commissione usati, e io sul retro dei fogli disegnavo le mie storie, una vignetta per pagina, naturalmente. Usavo le penne Bic e i colori a spirito Carioca. Tra l’altro le scatole dei colori erano una delle mie principali fonti d’ispirazione; il mio obiettivo era di ricopiarne le immagini usando quegli stessi colori. Le chine e i pennelli sarebbero arrivati più avanti, fino ai 13/14 anni ho pensato che lo strumento migliore per disegnare fosse la tratto Pen.

Attraverso quali canali hai iniziato la tua carriera? Qual è stato il tuo primo lavoro professionale?
Andrea Accardi: Chiaramente esistono diverse tappe che io considero fondamentali per lo sviluppo della mia professione. A Palermo ho frequentato il liceo classico e dopo una prematura esperienza all’Accademia Cappiello di Firenze (una scuola di grafica pubblicitaria) per colmare le mie lacune tecniche mi sono iscritto all’Accademia di Belle Arti di Palermo. Non ho migliorato molto le mie conoscenze tecniche, non esistevano materie adeguate. Oggi invece ci sono diversi corsi specifici per il fumetto e l’illustrazione, anche in Accademia. Da un punto di vista logistico è stata proprio l’Accademia di Belle Arti di Bologna il canale che mi ha permesso di arrivare nella redazione di Granata Press, la casa editrice che considero una scuola, una palestra e un trampolino per la mia carriera. Vi sono giunto proprio attraverso alcuni compagni di corso appassionati di fumetti giapponesi (i futuri Kappa Boys). Il mio primo ruolo e stato quello di letterista e poi piano piano ho cominciato ad illustrare i giochi di ruolo per la rivista Kaos, una vera occasione per un autodidatta come me.

Per quali motivi ti sei trasferito a Bologna?
Andrea Accardi: Bologna è una città in continuo fermento, una fucina di idee che trovano sviluppo in molti campi e in diverse direzioni, coinvolgendo sia l’attività politica che quella sociale ed artistica. Decisi di trasferirmi lì attratto dal lavoro che un gruppo di autori aveva svolto nel campo del fumetto qualche anno prima, io la vedevo come una sorta di new way dei comics, erano il “gruppo Valvoline” (Daniele Brolli, Lorenzo Mattotti, Giorgio Carpinteri, Marcello Jori, Jerry Kramsky e Igort). Intorno a Bologna, poi, si ambientavano parecchie storie di Andrea Pazienza, uno degli autori che amavo in quel finire degli anni ottanta.

Cosa ricordi della tua collaborazione con Granata Press?
Andrea Accardi: L’esperienza in Granata Press, diretta dal compianto Luigi Bernardi, è stata fondamentale. Sotto l’occhio severo dell’art director Roberto Ghiddi ho affrontato tutti i mestieri collaterali alla professione di “fumettista”, dal grafico al letterista, dal fotolitista allo stampatore. Per non parlare dell’opportunità che una vita redazionale può offrire ad un giovane apprendista: la conoscenza diretta di alcuni Maestri del fumetto italiano che frequentavano per motivi anche professionale, ma non solo, il salotto della casa editoriale, tra tutti ricordo Roberto Raviola, in arte Magnus.

Il tuo lavoro del 1994, su testi di Onofrio Catacchio, è stato pubblicato nel 1999: perché?
Andrea Accardi: Granata Press stava progettando una nuova collana “Golem” su cui sarebbe dovuto apparire il mio primo lavoro sui testi di Onofrio Catacchio (uno degli autori che frequentavano più assiduamente la redazione), Progenie d’inferno. Purtroppo la casa editrice chiuse qualche mese più avanti e il libro, seppur pagato, restò inedito. Qualche anno dopo, in seguito a varie collaborazioni, la Kappa Edizioni (da una costola di Granata), si offrì di pubblicarlo.

Progenie d’Inferno è stato pubblicato in Italia da Kappa Edizioni e in Francia da Albin Michel: quali riscontri hai avuto dal pubblico, dagli addetti ai lavori e dalla critica? Immaginiamo sia stata una bella soddisfazione, oltre alla pubblicazione italiana, quella francese.
Andrea Accardi: A dire il vero non mi sembra si sia mosso niente… e le vendite devono essere state piuttosto esigue. In Italia la quasi inesistente critica non se n’è neanche accorta. Nonostante tutto, Albin Michel ne ha acquistato i diritti per la Francia e l’ha stampato nel loro classico formato a colori. A parte la soddisfazione e i complimenti di amici e colleghi, anche in Francia è passato sotto silenzio.

La collaborazione con lo sceneggiatore Michelangelo La Neve si è concretizzata nel racconto I dannati per la serie ESP. In questi tuoi primi lavori ritieni di aver maturato una calligrafia stilistica ben riconoscibile, oppure ti sei adattato alle diverse esigenze editoriali?
Andrea Accardi: Ho lavorato a I dannati subito dopo la chiusura di Granata Press; avevo mandato delle prove a Michelangelo e gli erano piaciute… con molte riserve. Ero ancora influenzato dal tratto di Mignola, da cui avevo attinto parecchio per Progenie e ho tentato di adattare quel segno per quel tipo di pubblicazione seriale, in fondo è stato il mio battesimo con l’edicola, con quel pubblico che noi chiamiamo “popolare”. Possiamo dire che sia ESP che Progenie sono entrambi dei lavori in cui è chiara una volontà di ricerca, ma ben lontani da una unità stilistica. Michelangelo mi ha seguito passo passo in questa esperienza del tutto nuova.

Dal 1996 inizi una collaborazione con lo sceneggiatore Massimiliano De Giovanni: puoi ricordare ai nostri lettori questi tuoi lavori?
Andrea Accardi: Ho cominciato a collaborare con Massimiliano nel 1996, in occasione del primo numero di Mondo Naif, edito dalla Star Comics. Si trattava di storie di personaggi che all’epoca avevano la nostra età, che facevano le cose che facevamo noi, che rispecchiavano le nostre aspirazioni e che avevano gli stessi nostri problemi relazionali, sentimentali ecc. Il tutto, va detto, nasce da un altro progetto nato in Granata Press, la poco longeva rivista Dinamite, che poneva già le basi di un fumetto che indagasse il quotidiano; penso a Piera degli spiriti di Giovanni Mattioli e Davide Toffolo. L’incontro con Massimiliano è stato molto prolifico e abbiamo continuato a lavorare insieme per più di quindici anni, portando avanti le avventure sentimentali di Matteo e Enrico, il fanta-thriller di Barcode, la spregiudicatezza di Lupin III e il Giappone fantastico de il viaggio di Akai.

Nel 2003 entri nello staff di Eura Editoriale e – forse è un segno del destino – ti trovi a disegnare John Doe su testi di Roberto Recchioni: cosa ricordi di quei lavori e come è stato lavorare con l’attuale curatore di Dylan Dog?
Andrea Accardi: Roberto mi ha proposto la sceneggiatura del sesto numero di John Doe in seguito ad un nostro incontro in una piccola fiera di Bologna. Aveva visto le mie tavole e ha capito cosa poteva aspettarsi da me. Da lì in avanti lavorare con lui è sempre stato facile, stimolante e soprattutto gratificante. Stimo moltissimo Roberto come persona e come autore, e una delle sue qualità migliori, a mio giudizio, è proprio la sua capacità di “immaginare il risultato”.

La collaborazione con Recchioni ha prodotto, quasi dieci anni dopo, un gioiello come il secondo volume della collana Le Storie. Come è maturata questa nuova collaborazione e come sei entrato in contatto con la Sergio Bonelli Editore?
Andrea Accardi: Ho disegnato altri due numeri di John Doe prima di approdare alle Storie e quindi nella Sergio Bonelli Editore. É grazie al lavoro fatto sui samurai insieme a Roberto che adesso sono un collaboratore della casa editrice. Ci avevo tentato anni prima, facendo prove su Nathan Never, Dylan Dog, Nick Raider, Jonathan Steele, Dampyr, ed ero sempre stato scartato.

Roberto Recchioni è l’artefice, insieme a validi collaboratori, del rinnovamento di Dylan Dog: si è forse aperto uno spiraglio di una possibile tua collaborazione con l’Indagatore dell’Incubo?
Andrea Accardi: Non ne abbiamo mai parlato.

Prima di passare alle domande sul Ranger a cui è dedicato questo blog, due parole del lavoro realizzato insieme a Luca Enoch.
Andrea Accardi: Un’altra ottima esperienza con un grande autore, un altro passo avanti per me nella definizione di uno stile. Doveva essere il mio primo lavoro pubblicato ne I romanzi a fumetti della Bonelli, Hit Moll fu pagato in toto e poi venduto alla BD perché il tema trattato non era consono alla storia della casa editrice.

Passiamo adesso al Ranger che dà nome a questo blog: vuoi raccontarci com’è avvenuto il tuo arruolamento nello staff dei disegnatori di Tex?
Andrea Accardi: È sempre Roberto l’artefice del misfatto. Stavamo lavorando alla seconda storia della trilogia dei samurai, quando mi ha proposto la possibilità di disegnare Tex, una breve storia per gli speciali a colori. Ho pensato a mio padre, a quanto potesse fargli piacere, alla grande occasione per me di misurarmi con questo colosso del fumetto italiano. Ho accetto con grande felicità… e preoccupazione.

Come ti senti a misurarti con il Ranger?
Andrea Accardi: Ho sentito una grande responsabilità. Un confronto, non solo con un personaggio mitico, ma anche con un’importante teoria di disegnatori mitici.

Nel disegnare Tex che tipo di difficoltà hai incontrato, se ne hai incontrate?
Andrea Accardi: Certo che ne ho incontrate, di tutti i tipi: da quelle tecniche, come i cavalli e gli ambienti dell’epoca, i vestiti, le pistole, i cappelli (mamma mia, ma esiste qualcosa di più difficile che disegnare i cappelli?), a quelle più generali, come i movimenti e la postura dei personaggi, perché il western ha un linguaggio preciso. Il volto di Tex, per esempio, è ancora un mistero per me. É stato molto difficile inquadrarlo nelle sue più tipiche e monolitiche espressioni. Se non altro ho imparato ancora una volta a riconoscere i miei limiti.

Hai dovuto modificare il tuo solito stile, oppure no?
Andrea Accardi: Non proprio, però, come mi ha fatto notare Boselli, la mia abitudine ad esasperare le espressioni dei personaggi non si addiceva al genere. Ho quindi “serrato” molte “bocche aperte”, e raddrizzato labbra che tendevano a inarcarsi troppo.

Come definisci graficamente il tuo Tex?
Andrea Accardi: Non lo so, è stata un’esperienza importante, ma non del tutto riuscita. Avrei voluto dare qualcosa a Tex, qualcosa di mio, che fosse riconoscibile e che restasse; diciamo che è stato Tex a dare qualcosa a me, ecco!

Negli ultimi tempi diversi disegnatori hanno fatto solo una veloce comparsata su Tex e poi sono tornati a lavorare su altri personaggi. Quello su Tex è per te un impegno duraturo, almeno nelle tue intenzioni?
Andrea Accardi: Le intenzioni del Color Tex sono proprio quelle di ospitare disegnatori e sceneggiatori extra, che normalmente non lavorano nella serie regolare, poi ci sono le eccezioni, ovviamente. Confesso che mentre disegnavo questa breve storia di Tex, durante quei lunghi pomeriggi assolati di polvere e sangue, ho ingenuamente fantasticato sulla possibilità di fare un Tex così bello da essere chiamato in pompa magna dal curatore Boselli, direttamente per la serie regolare. Non è andata esattamente così, vero? In verità torno felicemente ai samurai.

Chi o cosa è Tex secondo te? Cosa ti piace di più nel Ranger e cosa di meno?
Andrea Accardi: Tex è l’avventura, e questa sua attitudine, che viene declinata sia nelle storie fantastiche che in quelle realistiche, è la cosa che mi piace di più; che è anche il motivo principale che percorre trasversale in tutte le testate della casa editrice. Mi piace il rapporto che ha con Kit Carson, spesso nei loro dialoghi viene fuori la vena ironica di un personaggio tutto d’un pezzo. Amo molti il fazzoletto nero al suo collo, un poco meno il colore della sua camicia.

Per concludere il tema, come vedi il futuro del Ranger?
Andrea Accardi: Visti i disegnatori e gli sceneggiatori che si sono avvicinati al personaggio negli ultimi anni, direi radioso.

Com’è lavorare nella Sergio Bonelli Editore?
Andrea Accardi: La casa editrice è una “mamma” (è anche una manna, sì, è vero!).

Cosa è per te il fumetto? Sia come linguaggio che come esperienza professionale.
Andrea Accardi: Una delle tante possibilità create dall’uomo per vivere in un altra dimensione, un gioco. Da quando è diventato un lavoro è un impegno nell’intrattenere anche gli altri, senza riserve.

Quanto tempo impieghi per disegnare una tavola? Hai degli orari? Come si articola una tua giornata tipo fra lavoro, letture, tenerti informato, ozio, vita familiare?
Andrea Accardi: Ultimamente impiego quattro giorni per completare una tavola, di cui due giorni per la documentazione, gli studi e le bozze, e due giorni per la china e gli effetti speciali. Non ho degli orari precisi, il mio studio è in casa, quindi sono spesso in balia degli impegni familiari. La mattina e la sera sono i momenti migliori per lavorare, accompagnati dalla radio e da innumerevoli caffè. Il pomeriggio, quando siamo tutti in casa, è impossibile concentrarsi, per cui tento di sbrigare tutte le faccende casalinghe, far la spesa, sistemare casa, uscire con Donatella (la mia dolce metà) ecc. Leggo ogniqualvolta ne senta la necessità, anche a discapito del lavoro, sulla poltrona dello studio, o a letto la sera. In ogni caso, e non credo di essere l’unico, in famiglia mi considerano un fantasma, ci sono, ma non ci sono.

Puoi esporci la tua tecnica di lavoro?
Andrea Accardi: Uso le matite HB per le bozze e poi pennarelli/pennelli vari, i così detti brush pen per inchiostrare, e non resisto alla tentazione di ricaricarli con la china con l’unico risultato di accorciare la durata naturale della loro punta. Per quanto riguarda la carta, più scarsa è, meglio mi trovo. Per i samurai ho lavorato su carta F2, che dato il modesto spessore mi permette di vedere meglio tutti i segni quando vado a lucidare le matite al tavolo luminoso. Poi, per tutti gli effetti speciali, applico una pellicola trasparente su cui lavoro con la china, proprio come se fosse un livello di photoshop. Uso il computer per correggere le bozze a matita o per montare le strisce di vignette che lavoro separatamente.

Quali sono i tuoi progetti immediati?
Andrea Accardi: Ho ricominciato a lavorare sulle storie giapponesi scritte da Roberto Recchioni, sempre per la SBE.

Quali fumetti leggi attualmente?
Andrea Accardi: Mi sta appassionando Saga della coppia Vaughan/Staples, e The Walking Dead di Kirkman e Adlard. Qualche giorno fa ho finito di rileggere per la quarta volta Kiseju di Hitoshi Iwaaki, un autore giapponese che amo molto e di cui sto leggendo anche le Historie. La sera, se posso, mi rilasso rileggendo per l’ennesima volta, in ordine cronologico, le storie dei paperi di Barks.

Oltre ai fumetti, quale tipo di libri leggi? E quali sono le tue preferenze nel campo del cinema e della musica?
Andrea Accardi: Per quanto riguarda le letture non ho affatto una “linea editoriale”, mi faccio ispirare dal momento. Passo dal romanzo storico al saggio sociologico. Anni fa ero in fissa con Bulgacov, oggi sto cercando di recuperare tutto Saramago, mi piacerebbe illustrare il suo Caino. Al cinema ci vado due o tre volte al mese, lasciandomi convincere da Donatella a vedere film che non avrei mai visto da solo e rimanendo spesso felicemente sorpreso. Il contrario non capita mai! Poi in casa sfrutto il tempo che dedico alla documentazione per vedere film giapponesi, i chambara, così come ho fatto con i western mentre disegnavo Tex. C’è anche la musica, certo; quando ero più giovane adoravo lavorare ascoltando l’hardcore, dai Fugazi agli Youth Brigade, ho toccato l’apice con la tecno e l’elettronica (poveri vicini casa), oggi mi faccio andar bene anche Toto Cutugno (no, non è vero, ma i Matia Bazar sì!).

Bene, noi avremmo finito. C’è ancora qualcosa che vorresti dire? Qualcosa che non ti è stato chiesto e che avresti assolutamente voluto far sapere ai nostri lettori?
Andrea Accardi: Sì, vorrei parlarvi della mia passione per le statuine dei Santi, a Lisbona ne ho comprata una bellissima di Sant’Antonio di Padova in terracotta, abbastanza imprecisa nella fattura come piace a me, se per caso vi interessasse… 🙂

Caro Andrea, ti ringraziamo moltissimo per l’intervista che ci hai così gentilmente concesso.
Andrea Accardi: Sono io che vi ringrazio, per l’interesse e l’entusiasmo che spero di non aver raffreddato.

(Cliccare sulle immagini per vederle a grandezza naturale)

Póster Tex Nuova Ristampa 243

Póster Tex Nuova Ristampa 243

Inusitada e frenética ilustração marítima de Claudio Villa onde vemos Tex Willer (que estava acompanhado por Kit Carson) num bote, comandado pelo capitão Barba Negra, em plena caça a uma gigantesca baleia, feita para despistar o capitão  Hogarth do Albatroz, navio onde seguia o raptado capitão Tom Devlin, chefe da polícia de São Francisco!

Desenho usado no Brasil como capa de As Grandes Aventuras de Tex #7 e inspirado na história “La congiura”, de Claudio Nizzi e Claudio Villa (Tex italiano #354 a #357).
(Para aproveitar a extensão completa do póster, clique no mesmo)

Texto de José Carlos Francisco