Apresentação PASQUALE FRISENDA: Desenhador presente em Anadia nos dias 9 e 10 de Maio integrado na 2ª Mostra do Clube Tex Portugal

Por Mário João Marques

Pasquale Frisenda e a fantástica história Patagónia, em Anadia nos dias 9 e 10 de Maio

A ambição em seguir uma carreira como desenhador de banda desenhada esteve sempre presente, mas os passos dados para concretizar este desejo foram por vezes incertos e até casuais. As palavras são do próprio Pasquale Frisenda, milanês de 1970, e são reveladoras de um autor que chega à banda desenhada muito por vocação, mas também guiado pelo destino. E quis este que Frisenda frequentasse um curso de banda desenhada e ilustração de Castelo Sforzesco em Milão. Uma experiência que lhe permitiu contactar com outros nomes do meio e trocar experiências. Graças ao contacto mantido com o Studio Comix de Carlo Ambrosini e Giampiero Casertano, Frisenda começa a colaborar com a revista Cyborg e o seu primeiro trabalho é Tenebra, história que vai desenhar com texto de Michele Masiero.

O grande salto chega com a entrada na equipa de desenhadores de Ken Parker, chegando à Sergio Bonelli Editore quando esta série é adquirida pela editora. Aqui desenhará Mágico Vento, estreando-se com a aventura La Bestia, escrita por Gianfranco Manfredi e a partir do número 32 vai herdar a composição das capas das mãos de Andrea Venturi, desenhando-as até ao número 75 da série. Depois de expressar a Sergio Bonelli a sua vontade em mudar de registo e de personagem, desejando confrontar-se com outras atmosferas, Frisenda é convidado a desenhar um Tex Gigante, uma ocasião que, apesar de não permitir mudar de género, surgirá como uma oportunidade única e irrecusável para o autor, desenhando a aclamada aventura Patagonia, com argumento de Mauro Boselli. Desenha ainda uma curta aventura para Dylan Dog e passa para a série regular de Tex com a aventura Il Segreto del Giudice Bean, uma vez mais com argumento de Boselli.

Pasquale Frisenda estará na 2ª Mostra do Clube Tex Portugal para autografar Patagónia aos seus fãs

Na banda desenhada Frisenda parece ter o western como constante na sua carreira. Apesar de tudo, Ken Parker, Mágico Vento e Tex são séries com variantes diferentes, mas curiosamente Frisenda não se considera como um desenhador do género ou como um autor capaz de representar o velho Oeste na sua real dimensão ou com a sua verdadeira capacidade. Frisenda considera-se mais um emotivo, um autor que ama o western, toda a sua atmosfera e todas as suas características, factos que o ajudam no seu trabalho.

Mas Tex é o herói por excelência, um monstro sagrado que acompanha Frisenda desde sempre. Quando começou a desenhar Tex em Patagónia, a maior dificuldade para Frisenda veio com a gestão da narração muito própria das aventuras do Ranger, aspecto que vai sendo moldado com a ajuda fundamental de Boselli, mas sobretudo com o próprio carácter de Frisenda, desenhador capaz de se documentar tanto ou mais que um argumentista. Tendo encontrado o ritmo certo, Frisenda considera que Patagónia acaba por reflectir a visão que o desenhador tem da personagem, a excelência narrativa de Boselli e a paixão que Sergio Bonelli colocava no seu trabalho, como também se constatará ao descortinar as páginas expostas neste evento de Anadia a realizar nos dias 9 e 10 de Maio onde teremos a presença do consagrado desenhador!

Tex na Patagónia na fantástica arte de Pasquale Frisenda

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Clube Tex Portugal é notícia na imprensa portuguesa – Gazeta da BD na Gazeta das Caldas, 17 de Abril de 2015

Gazeta das Caldas

Gazeta das Caldas, 17 de Abril de 2015
Texto da secção Gazeta da BD
Jorge Machado-Dias

Clube Tex Portugal – O único clube português dedicado a um herói de bd

O Clube Tex Portugal na Gazeta da BD, das Caldas

A edição de banda desenhada tem, em Portugal, desde há uns 20 ou 30 anos (ou mesmo mais), uma expressão minimalista. Passou o tempo dos grandes autores, das grande séries – durante mais ou menos os anos de 1930 aos de 1970 – dos “heróis”, de toda uma panóplia de personagens que fizeram “escola” e se fixaram nas memórias da juventude desses tempos. Contudo ainda existem leitores apegados às memórias de quando eram jovens. Mesmo assim, personagens já com algumas décadas de vida, continuam a despertar o interesse de (talvez poucos) novos leitores. Tex Willer – criado por Giovanni Luigi Bonelli e desenhado por Aurelio Galleppini, na Itália do pós-guerra, em 1948 (atingirá os 70 anos de edições em 2018) – é uma dessas personagens.

Assim, um pouco à semelhança dos conhecidos clubes Les Amis de Hergé (Bélgica) e Les Amis de Jacobs (França), foi fundado em Portugal um clube dedicado, não a um autor, mas a uma personagem da banda desenhada: o Clube Tex Portugal. O clube, que reúne fãs de Tex Willer foi fundado durante o 18º Salão de BD de Viseu, durante uma Tertúlia Texiana, realizada em 10 de Agosto de 2013 aproveitando a presença de Andrea Venturi, ilustrador italiano da série Tex.

Para além das revistas mensais de Tex Willer, distribuídas em Portugal pela brasileira Mythos Editora, que edita no Brasil as versões em português de todas as publicações de Tex (e não só) que saem da milanesa Sergio Bonelli Editore, os fãs portugueses do “ranger” encontraram um outro pólo aglutinador do seu interesse, no Tex Willer Blog (texwillerblog.com). Este blogue criado por Mário João Marques e José Carlos Francisco em 2006 tem contribuído, ao longo dos anos, para a divulgação do imaginário texiano, com textos e imagens de proveniência diversa. Por ali passam as notícias editoriais da Casa Bonelli e da Mythos Editora, as entrevistas com autores, editores, investigadores e simples fãs, assim como a divulgação de inúmeros originais de ilustrações texianas – dos autores da série ou de homenagens por outros ilustradores. Das iniciativas mais marcantes do Tex Willer Blog tem sido trazer a Portugal uma série de ilustradores italianos da série, com destaque para Fabio Civitelli, que esteve presente em todos os Festivais e Salões de BD em Portugal, por 5 vezes entre 2008 e 2012 – 2007 em Moura, 2008 na Amadora, 2010 em Beja, 2011 em Viseu e 2012 no Porto –, Marco Bianchini (Amadora 2008), Ivo Milazzo (ilustrador, não de Tex, mas de Ken Parker, outra série da Bonelli) em 2011 em Beja, Andrea Venturi (2013 em Viseu) e Pasquale Del Vecchio (Anadia, 2014) e este ano mais dois ilustradores, como veremos mais abaixo.

Inicialmente previsto apenas para sócios portugueses, o Clube Tex Portugal decidiu agora abrir as portas a sócios estrangeiros, dada a grande quantidade de pedidos de adesão por parte, especialmente, de texianos brasileiros, devido sobretudo ao início da edição da Revista do Clube Tex Portugal, destinada exclusivamente a sócios. O Clube conta neste momento com cerca de 100 sócios e a revista é distribuída gratuitamente aos sócios, que têm a opção de adquirir (por € 10,00) um exemplar extra.

Mas a primeira iniciativa pública do Clube Tex Portugal foi a 1ª Mostra do Clube na Anadia, que contou com a presença do ilustrador italiano Pasquale Del Vecchio e levou àquela cidade do Distrito de Aveiro cerca de 300 pessoas. Depois veio a edição do primeiro número da Revista do Clube Tex Portugal que, por via da larga divulgação, projectou o Clube para outra dimensão, como já referimos. A 2ª Mostra do Clube Tex Portugal está prevista para 9 e 10 de Maio deste ano, com a presença dos ilustradores Pasquale Frisenda e Stefano Biglia (que assina o cartaz do evento), onde estarão patentes cerca de 20 pranchas originais destes dois ilustradores.

O primeiro número da Revista do Clube Tex Portugal foi distribuído no convívio/jantar texiano, que decorreu num restaurante do Cacém em Novembro de 2014. Teve a colaboração de Mário João Marques (director), José Carlos Francisco, Carlos Moreira, Júlio Schneider, Jorge Magalhães, Pedro Cleto, Sérgio Madeira de Sousa, Paulo Guanaes e eu próprio. Dado o sucesso que a revista obteve foi decidido passá-la a semestral – estava previsto que fosse anual – estando o número 2 programado para Maio próximo, não se sabendo ainda se esta edição será lançada no 2º Encontro Texiano da Anadia. Este número será dedicado muito especialmente a Fabio Civitelli.

Nota importante: para fazer parte do Clube Tex Portugal – cujos estatutos podem ser consultados em https://texwillerblog.com/?page_id=47999 – e usufruir de todos os brindes e regalias, entre os quais se inclui a revista do Clube, é necessário pagar uma jóia de inscrição de € 5,00 e uma quota mensal de € 2,00.


Copyright: © 2015 –  Jorge Machado-Dias; Jornal Gazeta das Caldas

Entrevista com o fã e coleccionador: Nadir Saraiva Dutra

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Nadir Saraiva Dutra: Sou gaúcho, nascido em 1966 em São Borja.
Mudei-me para a capital do Estado em 1988 e após dois anos voltei para a minha cidade natal. Actualmente estou com 47 anos e morando em Santa Maria desde 2013 para acompanhar o meu filho na faculdade. Sou muito fã de histórias aos quadradinhos de faroeste e em relação a gosto musical gosto muito de rock’n’roll. Entre os meus favoritos estão Raul Seixas, Legião Urbana, Janis Jopli e AC\DC. Actualmente trabalho como construtor civil.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Nadir Saraiva Dutra: O meu interesse por quadradinhos começou entre 1973 e 1974 quando eu nem sabia ler. A minha primeira revista foi Tex n° 36 da primeira edição que achei em um terreno abandonado. Faltavam-lhe algumas páginas. Ao passar do tempo eu andava o tempo todo com esta revista e onde eu morava tinha uma vizinha que lia banda desenhada e ela vendo-me com aquela revista do Tex debaixo do braço começou a emprestar-me algumas revistas para olhar\ler e assim fui aprendendo a gostar de banda desenhada. Na época eram todos sem capas pois eram vendidos na livraria uma vez por mês por quilo porque os donos das bancas devolviam apenas as capas para as editoras, então essa minha vizinha comprava e dava-me algumas dessas revistas e com o passar do tempo fui aprendendo a ler.

Quando descobriu Tex?
Nadir Saraiva Dutra: A minha paixão pelas revistas do Tex começou em 1978 quando a minha mãe me deu de presente o Tex n° 11 da segunda edição e quando ia no cinema via as pessoas lendo Tex  pois na época era uma “febre”. Então comecei a ir na porta do cinema para trocar as minhas revistas com outros leitores. Com o tempo fui adquirindo mais revistas e quando me dei  conta já tinha uma grande colecção de revistas do Tex.

Porquê esta paixão por Tex?
Nadir Saraiva Dutra: O que me chamou a atenção no Tex foi ter associado a personagem Tex com o meu pai pois ele era capataz de uma fazenda e vestia-se como se fosse um cowboy e tinha o seu cavalo e fazia grandes cavalgadas com o gado ao cuidar para que não fosse roubado. Mas a paixão também veio pela sua honestidade e por o Ranger ser uma pessoa humilde e defensor dos fracos.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Nadir Saraiva Dutra: Acredito eu que isso se deve por os seus criadores terem conseguido criar um fenómeno, pois eu já troquei revistas do Tex  com leitores de 11 a 70 anos. Isto é incrível pois possuo outras colecções e estas não abrangem um público tão diversificado em idade.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Nadir Saraiva Dutra: No momento possuo 850 revistas e 120 repetidas tendo no total 970 revistas apenas do Tex de diversas editoras. Para mim há duas revistas mais importantes; são elas a número 36 (A fabulosa cidade de ouro), 1° edição, pois foi com ela que aprendi a ler as minhas primeiras palavras e a segunda é a número 11 (Rivais na guerra do ouro), 2° edição, que foi um presente de minha mãe e foi por causa dela que comecei a minha colecção.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Nadir Saraiva Dutra: Colecciono em maior parte BD’s desta personagem, mas também possuo diversos pósters de Tex e alguns quadros confeccionados a partir de alguns pósters.

Qual o objecto Tex que mais gosta de possuir?
Nadir Saraiva Dutra: O objecto que mais gosto de ter actualmente é o meu encadernado do Tex que vem com as revistas do Tex n° 22, 27, 28, 35, 36 e 37, pois teve uma época em que perdi toda a minha colecção e fiquei apenas com estas revistas, então mandei encaderná-las para poder conservá-las porque achei que nunca mais conseguiria recomeçar a minha colecção.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Nadir Saraiva Dutra: A história que eu mais gostei foi a dos n° 77 e 78 que é aonde Tex enfrenta Mefisto. O meu desenhador favorito é A. Galleppini e o argumentista que sem dúvida nenhuma para mim é G. L. Bonelli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Nadir Saraiva Dutra: O que mais me agrada na personagem Tex é a maneira como ele enfrenta os seus adversários, com coragem, determinação e por ser um defensor da lei. Gostaria que as editoras não publicassem histórias repetitivas pois isso não me agrada.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Nadir Saraiva Dutra: Por ser um herói que não tem preconceito sobre os povos e por ser um policial incorruptível e destacar-se em sua coragem e simplicidade e principalmente por as suas histórias serem inesquecíveis.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Nadir Saraiva Dutra: Ultimamente não pois faz pouco tempo que mudei-me de cidade e ainda não conheço muitos coleccionadores daqui mas em minha cidade natal conheço muitos coleccionadores lá. Quando vou à minha cidade sempre procuro entrar em contacto com eles.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Nadir Saraiva Dutra: Vejo um futuro muito promissor para ele pois já passou por várias editoras e os fãs sempre mostraram interesse sendo eles jovens ou antigos leitores, então acredito que o Ranger Tex ainda terá muitas aventuras pela frente e nós como fãs e coleccionadores ainda poderemos desfrutar de óptimas leituras de suas aventuras.


Prezado pard Nadir Saraiva Dutra, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Nadir Saraiva Dutra: Eu é que agradeço a oportunidade de contar a minha história como coleccionador de revistas do Tex, pois foi como contar uma parte de minha vida. Obrigado!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Giovanni Freghieri e Tex: À terceira (ainda) não é de vez

Por José Carlos Francisco

Giovanni Freghieri

Lá diz o velho ditado… “À terceira é de vez…”, mas parece que nem sempre isso é assim tão linear, inclusive no que diz respeito a Tex Willer e ao seu mundo. Isto porque pela terceira vez  Giovanni Freghieri, conceituado desenhador italiano, começou a desenhar uma história de Tex e também pela terceira vez acabou por abandonar o projecto, a última das quais depois de já ter concluído 15 páginas com a arte final e ter realizado outras 20 páginas a lápis.

A mais recente destas desistências ocorreu com a história “Delta Queen”, história essa destinada à publicação Color Tex e que acabou por ser, no que à arte diz respeito, da autoria de Fabio Civitelli que desse modo acabou por substituir, magistralmente direi,  Giovanni Freghieri.

Freghieri confessou ser muito mais lento a desenhar uma história destinada a ser publicada a cores do que a desenhar um álbum normal a preto e branco. E disse que o motivo é a ausência das sombras. Ter que fazer um trabalho “liso” não lhe sai como gostaria, o que o leva a desenhar com muita lentidão para além de não ser do seu agrado. E como tinha prazos a cumprir com relação a Dylan Dog, a série bonelliana em que trabalha regularmente acabou por ter que abandonar uma vez mais o projecto “Tex”, tal como aconteceu há alguns anos atrás com o Maxi Tex “Lo squadrone infernale“, de Outubro de 2008, que acabou por ser desenhado por Ugolino Cossu.

A título de curiosidade, mostramo-vos de seguida uma mesma página de “Delta Queen” nas interpretações de Giovanni Freghieri e de Fabio Civitelli e é curioso ver como o mesmo guião gera duas interpretações diversas:

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Tex, Lilyth e Tigre Negro na arte de António Lança-Guerreiro

Por José Carlos Francisco

António Lança-Guerreiro, um conhecidíssimo pard português que quase sempre está presente nos eventos dedicados a Tex que se vão realizando por Portugal ao longo dos últimos anos, surpreendeu muito e boa gente em 2012 ao participar na homenagem dedicada a Sergio Bonelli promovida pelo nosso blogue ao fazer um belo desenho de Sergio Bonelli com uma expressão inefável como bem frisou o conceituado Jorge Magalhães num comentário feito aquando da publicação.

Fabio Civitelli, António Lança Guerreiro e uma bela Lilyth

Pois bem, António Lança-Guerreiro comprovou que tinha jeito para a arte de (bem) desenhar e por isso o blogue português do Tex volta e meia pede-lhe que nos presenteie com novas ilustrações e nestas férias da Páscoa o nosso pard não se fez rogado e enviou-nos cinco belas ilustrações de Tex e Lilyth, como poderemos ver a ilustrar este texto onde também ficamos a conhecer um pouco mais de António Lança-Guerreiro através das suas próprias palavras:

Não é fácil falar em causa própria, mas aqui ficam algumas linhas.

Nascido numa pequena vila debruçada sobre o Tejo, no distrito de Santarém, sempre tive uma ligação com as imagens que ilustravam os livros da escola ou da biblioteca escolar, mais tarde a municipal, que frequentava assiduamente para devorar páginas de aventuras, umas ilustradas, outras somente imaginadas e recriadas em imagens enquanto saboreava a leitura dos “júlio verne” ou dos “salgaris”. Mas o meu encontro com as bandas desenhadas das revistas, que então podia ler na escola primária, com autorização especial da professora, foi o momento mais fascinante e o despertar do meu gosto pela 9ª arte, que desde então passei a ler e a coleccionar.


Para minha felicidade, nessa altura da minha infância, banda desenhada e revistas de BD era coisa que abundava, graças à Agência Portuguesa de Revistas e ao amor incondicional que o editor Roussado Pinto teve na divulgação de todos aqueles heróis de papel que preencheram esta fase da minha existência e foram o motivo de grandes aventuras imitativas, e também alguns ralhetes dos progenitores, quando a banda desenhada era ainda vista como uma arte menor e desviante do recto caminho a que um jovem tinha de se dedicar para ser homem.

Eram outros tempos. Tomei contacto com muitos heróis de papel, dos mais diversos: as personagens da Disney da Abril, os clássicos americanos do “Mundo de Aventuras” e de “O Grilo”, a escola franco-belga com  a revista “Tintin” e “Spirou”, os comics da Marvel e da DC, e também com os fumetti, que na altura não sabia que se chamavam assim, com o Tex, o Zagor e o Mister No, que se destacavam de entre aqueles a que chamávamos “os livros de Cowboys”, dos muitos que então havia.


Talvez este meu fascínio pela banda desenhada me tenha levado ao gosto de desenhar “os meus bonecos”, que carinhosamente ainda guardo como lembrança desses tempos idos de juventude. Estranhamente, um dos meus primeiros desenhos foi um cowboy num saloon. Seria influência de Tex Willer? Já não me lembro, mas ainda tenho esse desenho, algures…

Mais tarde, quando andava no liceu, fiz alguns desenhos, ilustrações  e BD que publiquei em jornais escolares e regionais, os “lá da terra”. Já na faculdade, em Coimbra, para além das caricaturas que fiz para os livros de curso dos finalistas, também participei na aventura da publicação do franzine BDMIX, do qual acho que só saiu um número, em colaboração com os então também estudantes de faculdade Fernando Correia e José Lameiras.


Fui participando em algumas exposições colectivas de pintura e criando as minhas BD que, ou por falta de tempo ou dispersão por outras actividades, foram ficando no fundo do baú, umas completas, outras inacabadas. Às vezes penso que se porventura as tivesse divulgado, talvez pudesse ter feito algo no campo da BD. Mas não foi esse o caminho trilhado para a aventura da vida. No entanto, sou um viciado consumidor de BD e coleccionador inveterado e, por isso, dói-me a alma quando vejo alguma revista de quadradinhos desaparecer da vida dos seus leitores. E, infelizmente, ao longo dos anos é o que mais tem acontecido. Mas enquanto na nossa memória durar a lembrança desses inúmeros heróis e das suas extraordinárias façanhas e verosímeis aventuras, eles e os seus criadores nunca morrerão para nós.

Acabei por falar mais dos personagens de BD do que de mim? Talvez… porque, enquanto leitor, eles serão sempre mais importantes do que eu; e, enquanto “fazedor de bonecos”, talvez os meus desenhos falem por mim melhor do que eu.


(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)