O editorial da revista nº 3 do Clube Tex Portugal

Decorridos seis meses desde a publicação do anterior número, aqui estamos novamente com mais páginas dedicadas ao estudo e divulgação do nosso querido ranger e, pela primeira vez, com duas edições no mesmo ano. Um trabalho que muito nos orgulha e que só tem vindo a ser possível com o esforço, a dedicação e o carinho de todos, e que este número ainda nos honra mais, uma vez que ficamos de certa forma associados ao regresso do romano Luca Vannini ao mundo da banda desenhada, um talento que desde há alguns anos se encontrava afastado destas “lides”, tendo-se dedicado sobretudo à ilustração. E é por falar em ilustração que começamos por sublinhar as duas, em rigoroso exclusivo, que o desenhador compôs para as capas deste número da revista e que já tantos elogios têm merecido, depois de divulgadas pelo blogue português de Tex Willer. Este desenhador de enorme talento regressa agora, depois de, entre outros trabalhos, ter desenhado as primeiras 56 páginas de Faccia di Rame, a última aventura de Ken Parker, e ter estado na génese de outra série de Giancarlo Berardi, Júlia, onde teve um trabalho importante no estudo e na definição gráfica da protagonista, de personagens e dos ambientes. O artigo do Italo Marucci, complementado com a entrevista concedida por Luca Vannini, pretendem de certa forma apresentar este talento ao leitor texiano, agora que o desenhador foi convidado pelo curador Mauro Boselli a integrar a equipa de desenhadores de Tex Willer.

Outro destaque deste número é a homenagem que deixamos a Fernando Fusco, recentemente desaparecido e que vem deixar a série órfã de um dos seus autores mais emblemáticos. Um dos desenhadores da chamada idade de ouro, formada também por Galleppini, Letteri, Nicolò e Ticci, permanecendo apenas este último como uma lenda viva desse período. Uma homenagem sentida de Italo Marucci, que também nos facultou aquele que muito provavelmente foi o último Tex desenhado por Fusco; de Moreno Burattini, que gentilmente nos autorizou a publicar o seu So Long Fusco, texto previamente apresentado no blogue do autor; também do nosso querido Francesco Micoli, que deixa aqui uma extensa, cuidada e muito interessante bibliografia de Fusco, onde também apresentamos um desenho homenagem do António Lança-Guerreiro; e finalmente, na contracapa deste número, uma obra-prima assinada por Stefano Biglia, que nos presenteia com uma homenagem a uma das muitas excelentes aventuras de Fusco “Os Rebeldes do Canadá” (no original I Ribelli del Canada).

Há muito mais para ler e apreciar, sobretudo alguns artigos que se debruçam sobre aventuras texianas, Trapper pelo Sérgio de Sousa, A horda do Crepúsculo (L’orda del tramonto) pelo João Miguel Lameiras, que se estreia nas páginas da revista, ou ainda O Estripador (Orrore!) pelo Jesus Nabor Ferreira, outra estreia. Apesar de todas estas apreciações, a verdade é que ainda está para ser eleita a melhor aventura de sempre do ranger, resposta que o nosso querido Dorival Lopes não hesita em deixar ao leitor texiano, iniciando desta forma também a sua participação nestas páginas, que todos esperamos seja duradoura.

Mantêm-se as habituais colaborações do Rui Cunha, do José Carlos Francisco, do Jorge Magalhães, do Carlos Gonçalves, do Pedro Cleto, do Mário João Marques e do Jorge Machado-Dias, assim como de alguns autores italianos, como são os casos de Pasquale Del Vecchio, autor do desenho original e exclusivo, que apresentamos aqui mesmo na página ao lado, e o esboço de uma prancha da próxima aventura desenhada por Maurizio Dotti, gentilmente cedida pelo próprio, prova da grandeza e generosidade dos autores texianos. Adjectivos que, mais uma vez, estendemos a todos os que nos ajudaram e permitiram concretizar mais este número, destacando-se a Sergio Bonelli Editore, o curador Mauro Boselli, o Júlio Schneider (pelas traduções) e o Jorge Machado-Dias, que com sacrifício pessoal e profissional não quis deixar de tratar da edição gráfica da revista, a qual, esperamos, seja do agrado de todos.

Luca Vannini, mestre das cores

Nota do Clube Tex Portugal a todos os sócios:

Como habitualmente, os sócios do Clube Tex Portugal (com excepção dos sócios menores) COM AS QUOTAS DO MÊS DE DEZEMBRO PAGAS, terão direito a receber gratuitamente um exemplar da revista. Dado que este 3º número será publicado com duas versões da capa, o exemplar gratuito será o da versão com desenho de Tex e Dinamite.

Adicionalmente, sem qualquer limite, os sócios podem adquirir mais exemplares da revista, quer da versão oficial quer da versão alternativa, sendo o preço unitário de 10 euros.

Deste modo, todos os sócios (que ainda não o tenham feito) que desejem adquirir exemplares da revista, devem informar desde já o Clube Tex Portugal, na forma de comentário a este post ou escrevendo para José Carlos Francisco (josebenfica@hotmail.com), indicando o nº de exemplares pretendido para cada versão da capa e procedendo ao respectivo pagamento na conta do Clube Tex Portugal ou através de paypal, enviando o comprovativo desse mesmo pagamento.

  • Pagamentos internacionais por transferência bancária  devem ser feitos com todas as despesas a serem suportadas pelo ordenador, sem qualquer dedução no valor a receber pelo Clube, devendo ser creditada a conta PT50003600009910590434664 em nome do Clube Tex Portugal na Caixa Económica Montepio Geral – código swift: MPIOPTPL;
  • Pagamentos nacionais por transferência bancária  devem ser feitos para o NIB 0036.0000.99105904346.64
  • Pagamentos por Paypal devem ser efectuados para o e-mail cacem.moreira@gmail.com com todas as despesas a serem suportadas pelo ordenador, sem qualquer dedução no valor a receber pelo Clube..

As Leituras do Pedro: Tex Especial Colorido #4

As Leituras do Pedro*

Tex Especial Colorido #4
Os suspeitos – Tito Faraci e Giampiero Casertano

Um covil de feras –
Pasquale Ruju e Sandro Scascitelli
O último da lista –
Gianfranco Manfredi e Stefano Biglia
O vale sagrado
– Mauro Boselli e Nicola Genzianella

Histórias originalmente publicadas em Color Tex italiano 4

Mythos Editora
, Brasil, Abril de 2015
160 x 210 mm, 132 p., cor, brochado
R$ 19,90 / 10,00 €

Depois de ter inovado com a introdução da cor em Tex, esta revista quebra agora uma outra ‘regra’, pois a tradicional opção por histórias longas, deu lugar, neste quarto número, à inclusão de quatro narrativas de apenas 32 pranchas.

Não que já não existisse cor em Tex: os números centenários da colecção regular ostentam-na desde os anos 1960 – e todos eles foram alvo de colorização para a Collezione Storica a Colori, que a Sergio Bonelli Editore criou em parceria com o jornal La Repubblica e a revista L’Expresso.

De igual modo, em quase 70 anos a cavalgar nas grandes pradarias, Tex já tinha vivido uma mão cheia de aventuras curtas – reunidas no Almanaque Tex #44 – mas também não é esse o seu modelo padrão.

Embora pudesse (também) ser, como parecem comprovar – de formas diferentes – as quatro narrativas presentes neste Tex Especial Colorido #4, agora distribuído em Portugal.

Obviamente, a redução de páginas obriga a modelos diferentes. Em Os Suspeitos a descoberta de um assassino contratado entre os passageiros de uma diligência, obriga Tex a um trabalho quase de detective e o final, inesperado, ostenta um humor desconcertante, raramente presente nas histórias do ranger.

O final desconcertante surge de novo em Um covil de feras, uma história com – um nada habitual – protagonismo no feminino e o Tex detective está de novo presente em O último da lista, quando tem de encontrar um antigo assaltante, entretanto redimido, para o proteger de uma vingança.

Finalmente, O vale sagrado, ambientado em montanhas rodeadas de deserto e com uma vingança vinda do passado como gatilho da narrativa, assume um tom místico.

De comum a todas, o facto de se sustentarem por si só e dificilmente poderem ser apenas um episódio numa trama mais longa (em especial no que toca às duas primeiras) e o facto de terem tido dos melhores tratamentos de cor que já foi possível ver em Tex.

E apesar de tudo isto, podem ser também vistas como experiências – duplas – no universo de Tex: como teste a novos autores, como o trilhar de (possíveis?) novos caminhos narrativos e como uma tentativa de oferta de uma leitura mais imediatista – mais de acordo com os padrões dos jovens actuais?

Porque – e aqui o texto diverge para um âmbito mais vasto – acredito que com este Tex Especial Colorido, a Sergio Bonelli Editore, não pondo de parte os habituais leitores de Tex, visa mais longe, tentando conquistar novos (ou não tão novos) leitores, possivelmente como única forma de sobrevivência a – médio? – prazo de um dos mais longevos e importantes selos editoriais de BD do velho continente.

Na verdade, os anos recentes têm revelado uma mudança de orientação por parte da Sergio Bonelli Editore no que a Tex diz respeito – mesmo que para alguns constitua traição digna de um tratamento duro à moda do ranger.
Refiro-me obviamente, às edições especiais e de luxo e à retoma – mesmo que pontualmente – do mais célebre herói da casa Bonelli por outros autores, como é o caso dos álbuns (em formato europeu) desenhados por Eleuteri Serpieri – mas sem Druna… – ou Horacio Altuna. Ou às edições de ‘livraria’ – recém-estreadas com Vendetta Indiana – para onde são também vocacionados os luxuosos Teg Gigantes coloridos da Mythos Editora.

[E abro aqui um parêntesis, para citar a antecipação portuguesa neste campo, com a bela, elogiada e cobiçada edição de Patagónia, pela Polvo, cujo intuito também vai, obviamente, bem para lá do núcleo duro dos leitores de Tex.]

A estas ‘inovações texianas’ há que juntar outros passos na mesma direcção dados com outros heróis fortes da casa Bonelli, com direito também a edições especiais coloridas, em formato mais próximo do livro ou com capas variantes, como aconteceu – no exemplo mais marcante? – em Julia #200, que a par da edição com capa tradicional, teve outra, de menor tiragem, com a capa desenhada por… Vittorio Giardino!

A razão de tudo isto – óbvia e compreensível, diria eu – é a procura de novos leitores noutros segmentos, a par da oferta de produtos de maior qualidade para um leque (alargado?) de leitores tradicionais que, pela mudança de hábitos – em comparação com outros géneros de banda desenhada – e de poder económico (?) querem ver o(s) seu(s) herói(s) em edições que façam jus à qualidade que vêem nele(s).

No entanto – e acho importante reforçar esta ideia – nada disto coloca em causa as origens – apetece-me escrever ‘humildes’ – das personagens nas edições (claramente) populares, a preto e branco, papel (só) razoável e baixo preço. Edições que se mantêm disponíveis como a base do império editorial (bem sucedido) que a Bonelli alicerçou em Tex e onde ele – e à sua sombra protectora muitos outros – continua a viver a maior parte das suas aventuras.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.

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Entrevista com o fã e coleccionador: Cayman Moreira

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Cayman Moreira: Eu nasci em Fortaleza, no Estado do Ceará, Nordeste do Brasil, a 16 de Agosto de 1961. Eu sou designer, músico, pintor, desenhador, roteirista e instrutor de artes e ofícios.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Cayman Moreira: Ainda na infância, na primeira metade da década de 60, no século passado, quando o meu pai trazia sempre gibis (revistas de banda desenhada) para mim e para ele, quando vinha do mercado, aos domingos.

Quando descobriu Tex?
Cayman Moreira: Bem, meu encontro com Tex Willer aconteceu por acaso, quando vi na casa de um amigo, a edição brasileira número 4 da revista com a aventura FORTE APACHE. Comecei a ler e interessei-me. E, então, ele disse que eu poderia ficar com o exemplar. Adorei o presente e apesar de nunca ter sido um genuíno coleccionador de Tex, eu passei a comprar a revista eventualmente, quando havia oportunidade.

Porquê esta paixão por Tex?
Cayman Moreira: Ele é um personagem que sempre me fascinou, por não ser totalmente “certinho”, como a maioria que surgiu na banda desenhada de Western no Brasil como Lone Ranger, Roy Rogers, Paladino, Matt Dillon, Bat Masterson, entre outros. Tex tanto pode ser um agente da lei, fazendo-a ser cumprida legalmente, como também pode ser um frio executor, através dos punhos, para extrair a verdade e pôr qualquer malfeitor no seu lugar e até mesmo sentenciando-o à morte com suas pistolas, se necessário for. Às vezes chega a me lembrar o sombrio Jonah Hex, em algumas sequências, nas páginas. E as aventuras nunca perderam o ritmo e a criatividade nos roteiros, assim como a arte, que, através dos anos, evoluiu muito depois de Galep, sendo apresentada ao público por verdadeiros monstros sagrados da banda desenhada como José Ortiz, Claudio Villa, Fabio Civitelli, entre outros mais.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Cayman Moreira: Eu penso que ele é único em vários sentidos, principalmente pelo facto de ter passado por aventuras diversas, que nem sempre tinham a ver com o western em si, sem perder suas características, já garante a positividade desta análise.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Cayman Moreira: Como eu disse antes, eu nunca fui um coleccionador genuíno, com todas as edições em ordem cronológica mas o meu acervo conta com pouco mais de uma centena de revistas, dando prioridade às edições especiais e almanaques. E a edição mais importante para mim, é a que contém a aventura PATAGÓNIA, publicada no Brasil há alguns anos na edição gigante e desenhada pelo meu amigo Pasquale Frisenda. Para mim, esta história tem algo de denúncia, sobre o destino triste dos índios – pior que no Brasil – naquela região. Não sei bem se alguns argentinos gostaram do que viram directa ou indirectamente naquelas páginas.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Cayman Moreira: Agora eu já posso contar com livros sobre o universo do personagem, além das edições especiais e discos com músicas feitas especialmente para ele. Tanto é, que, nos moldes das trilhas sonoras do western italiano, eu compus a minha balada pessoal para o Águia da Noite, já quase em processo de gravação.

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Cayman Moreira: Ah, sem dúvida, o cinto com as pistolas!

Qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Cayman Moreira: Actualmente, posso citar três desenhadores: Frisenda, Villa e Civitelli. Como argumentista, fico com Mauro Boselli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Cayman Moreira: Citarei apenas o que MAIS me agrada, já que nada é negativo para mim no personagem: o humanismo que é posto no arquétipo de Tex e a perfeita continuidade no ritmo dos argumentos, coisa que me faz virar as páginas sem parar.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Cayman Moreira: Eu penso que a abordagem diferente, no que se refere aos índios, quase nunca tratados com justiça e respeito em outras edições com outros personagens de banda desenhada, principalmente nos Estados Unidos.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Cayman Moreira: Às vezes, mas muito raramente, devido ao pouco tempo que disponho.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Cayman Moreira: Se depender de mim, que comecei a “invadir” seu universo com uma história inédita escrita e desenhada por mim, – algo que eu pretendo apresentar à Editora Bonelli na Itália – e dos seus incontáveis fãs dentro e fora do Brasil, o futuro do Águia da Noite é a eternidade. Em preto e branco, sinceramente, nunca vi nenhum ícone de banda desenhada ir tão longe quanto TEX WILLER.

Prezado pard Cayman Moreira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

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