UT da dupla Corrado Roi e Paola Barbato chega ao Brasil pela Graphite Editora

A chave para ler UT (por Paulo Guanaes, tradutor de UT)

Após o desaparecimento do homem, o que resta do planeta é povoado por novas espécies antropomórficas, governadas apenas por suas necessidades básicas. UT é uma criatura elementar, feroz e infantil, cujas tarefas são procurar insectos para o entomologista Decio e supervisionar uma antiga mastaba, um tipo de túmulo, em que eram sepultados faraós ou nobres importantes do Egipto antigo. Um dia, um indivíduo diferente de todos os outros emerge acidentalmente: Iranon, enorme, atordoado e sem memória. Decio orienta UT a nunca perdê-lo de vista, porque “ele é o único exemplar de sua espécie”. O aparecimento de Iranon, no entanto, não passou despercebido, e os equilíbrios duramente conquistados começarão a se desestruturar…

A esse fio narrativo criado por Corrado Roi, que também é o desenhador da mini-série, a argumentista Paola Barbato acrescenta o que considera ser a chave de leitura de UT: ter a percepção de que foi eliminado o conceito de homem, mantendo-se algumas características (deterioradas) da nossa espécie.

Corrado Roi nasceu em 11 de Fevereiro de 1958, em Laveno Mombello (Varese), onde ainda vive e trabalha. Aos dezasseis anos, ingressou no estúdio dirigido por Graziano Origa com outros recém-chegados. Nos anos 1980, ele colabora com Ediperiodici, Il Monello e o Staff of If, de Gianni Bono. Em 1986, entrou em contacto com a Bonelli, desenhou algumas histórias de Mister No e Martin Mystère, passando logo depois permanentemente para a patrulha dos “Dylandoghianos”. Roi colaborou com as editoras Comic Art, Glamour e Mondadori. Entre uma história e outra de Dylan Dog, também trabalhou em uma edição especial para Nick Raider, Brendon (do qual ele foi o artista da capa do no 1 ao 44), Julia, Magico Vento e Dampyr. As capas de Dylan Dog Granderistampa (Grande reimpressão) são desenhadas por Roi.

Paola Barbato nasceu em 18 de Junho de 1971 em Milão, mas vive em Verona com o seu marido e filhas Virginia, Genebra e Melania. Depois de mil trabalhos diferentes, desperta a curiosidade do curador editorial de Dylan Dog, Mauro Marcheselli, que lhe faz um convite. A estreia no mundo de horror de Dylan Dog acontece em 1998, no especial nº. 12, “A presa humana”, com a história intitulada “O cavaleiro da perdição”. Nas séries regulares de Dylan Dog, a sua estreia é no ano seguinte com “O sono da razão”, seguida por inúmeras outras aventuras. Paola também colabora para a Sergio Bonelli Editore nas séries “Comic Novels” e “The Stories”. A sua estreia com livros, no entanto, ocorre em 2006 com o thriller Bilico, seguido em 2008 por Mani nude (Mãos nuas) e em 2010 por Il filo rosso (O fio vermelho). Em 2008, ela escreveu o argumento e colaborou no roteiro de uma ficção para a Sky, Nel nome del male (Em nome do mal). Paola também escreveu para cinema e teatro.

A seguir, confira os principais trechos do vídeo “UT: entrevista com Corrado Roi e Paola Barbato”, produzido pelo site Smemoranda.it, traduzidos e adaptados por Paulo Guanaes, tradutor da série no Brasil. Os dois autores de UT comentam sobre a insólita construção desse personagem intrigante, uma espécie de primus inter pares do universo de personagens bonellianos. Para Corrado Roi, o leitor é responsável pela compreensão. Roi diz que apenas conta histórias e que UT faz o seu próprio género. E ressalva que não é horror, não é fantástico, não é pós-atómico, mas um trabalho de xenoficção.

Entrevistadora – Quem é UT?

Paola Barbato – Primeiro, é preciso dizer quem ele não é. Não é um herói, não é um personagem estereotipado. É um personagem muito novo, muito primitivo, muito infantil, nós amamos defini-lo como uma espécie de Pinóquio moderno, muito feroz. Enfim, um Pinóquio armado…

Corrado Roi – O motor de toda a história, no final das contas, é o afecto. É das poucas coisas que UT consegue entender.

Paola Barbato – Corrado começou a escrever a história quando tinha 16 anos, e foi trabalhando na saga até os 40. É uma soma de muitas coisas que são o resultado de experiências da sua vida. Por isso, não havia como descrever um indivíduo tentando fazê-lo parecer outro. Esta história não é assim. É uma história individual.

Corrado Roi – Se quisermos fazer uma autópsia dos mecanismos utilizados na realização da história, eu diria que fomos realistas de maneira absoluta.

Entrevistadora – UT vive em um local onde o homem desapareceu. A terra está devastada. A fauna está extinta. O meio ambiente, intoxicado. Não é uma visão futurística?

Paola Barbato – Se olharmos o que acontece à nossa volta, não é exactamente um futuro pessimístico. É uma coisa que depende muito de nós.

Corrado Roi – Precisávamos zerar tudo, começar do zero. E a partir daí nos divertirmos. Demos um reset, limpamos a prancha e partimos. Recriamos formas de interacção entre os personagens. UT talvez seja o único personagem retórico no qual não há uma visão, mas apenas uma necessidade. E só. É visto como um corpo estranho, mas ao mesmo tempo é uma parte vital de toda a narrativa.

Paola – O ser mais empático não é nem um ser humano, nem um humanóide, nem antropomorfo, mas um gato [Leopoldo], que é um protagonista, porque pareceria que UT ama o gato como um animalzinho acessório, mas ele não é acessório mesmo! Diversos personagens interagem com ele.

Entrevistadora – Já a personagem feminina é uma menina que não existe. O que simboliza?

Corrado Roi – Simboliza todos nós que queremos ter contacto com as histórias que nos são contadas pela televisão, pelo cinema, pelo livro, pelas bandas desenhadas, pelas nossas avós. De qualquer forma, temos sempre a necessidade, não consciente, de lidar com as histórias. Esta menina representa isso.

Entrevistadora – Ela se alimenta de fábulas…

Corrado Roi – Exactamente como nós.

Entrevistadora – E a citação a Humberto Eco? Foi uma homenagem…

Paola – Uma homenagem afectuosa, absolutamente anterior ao falecimento dele, por isso nos pegou de surpresa. Como Eco era um amante de histórias aos quadradinhos, pensamos que ele ficaria feliz de ser citado como acontecera antes em outras histórias de banda desenhada, inclusive em Dylan Dog. Além disso, é um personagem extremamente simbólico porque está muito presente enquanto ausente. O personagem a quem Umberto Eco emprestou o rosto aparece apenas em flashback, não existe fisicamente na história. Por isso gostamos, pois era uma bela forma metafórica, também era um personagem quase intocável. É uma pena que não esteja mais entre nós.

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Secret Origins: Tex Classic 1

Por Saverio Ceri [1]

No dia 3 de Março de 2017 chegou aos quiosques italianos o Tex Classic, a série que, pela primeira vez no âmbito bonelliano, republica totalmente a cores as aventuras de Águia da Noite, desde a sua estreia, datada de 1948.  Não é uma novidade absoluta a introdução das cores para o Ranger criado por Gianluigi Bonelli, já que as vinhetas contidas neste primeiro volume, de facto foram coloridas em 2006 para serem publicadas na Collezione Storica a Colori, do periódico La Repubblica.

O volume de estreia da Collezione Storica a Colori de Tex, capa de Claudio Villa…

…inspirada na mítica primeira aparição de Tex na primeira vinheta da sua saga. Desenho de Galep

Devido ao menor número de páginas (68) existe a impossibilidade de reproduzir, nesta nova reedição, as capas da série principal (como aconteceu com Tex Tre Stelle, Tutto Tex e Tex Nuova Ristampa) porque elas são numericamente insuficientes.

Consequentemente, mesmo admitindo que a Sergio Bonelli Editore quisesse utilizar as capas inicias da actual colecção principal, apenas poderia usar duas em cada cinco números, atendendo até ao facto dos primeiros números da colecção principal serem compostos por 160 páginas. Foi então inevitável recorrer às capas realizadas por Aurelio Galleppini para as outras reedições ou colecções texianas no curso da sua longa carreira de capista, onde realizou quase 1600 capas, apenas para Tex.

A escolha, para as primeiras capas de Tex Classic, foi a de resgatar entre as capas dos Tex Albo d’oro, a colecção quinzenal, publicada a partir de Junho de 1952, que propôes pela primeira vez as aventuras de Tex paginadas com três tiras por página. As capas daquela série, assinadas por Aurelio Galleppini, eram todas inéditas, mas em alguns casos inspiravam-se claramente nas capas das primeiras striscias, o chamado formato talão de cheques.

Com esta nova rubrica que estreamos hoje, vamos então descobrir as “origens secretas” das capas de Tex Classic, graças sobretudo às imagens divulgadas no importantíssimo site www.collezionismofumetti.com, que representa, entre outras coisas, uma fonte inesgotável de históricas capas da banda desenhada italiana.

Um exemplo, do que escrevemos acima vem precisamente da capa eleita para a estreia de Tex Classic.
O chefe índio que ocupa a parte esquerda da capa vem do longínquo ano de 1946. Como é possível que remonte a antes do nascimento do Tex?
O orgulhoso nativo americano nada mais é do que o testemunho publicitário escolhido pelo The Chief, o comboio da linha ferroviária de Santa Fé, que vemos à direita.

A versão que aparece na capa deste primeiro clássico, na realidade, parece mais inspirada no cartaz publicitário de 1947, com uma versão do “Capo” ligeiramente mais estilizada.

Cartaz publicitário de 1947

O Chefe índio chega às capas de Tex, em 1949 quando Galep o utiliza para realizar a capa do vigésimo nono álbum de tiras da primeira série de Tex, Il segreto dell’idolo (aventura que, conste-se, lê-se apenas no quinto Tex Classic).

Collana del Tex nº 29 – Il segreto dell’idolo

A mesma ilustração, recolorida e ampliada com o desenho de um medalhão índio, foi novamente utilizada em 1956, como capa do quinto número da terceira série de tiras de Tex, também chamada de Serie Rossa.

Tex Serie Rossa nº 5 – Il segreto dell’idolo

Entretanto, a 1 de Junho de 1952, o mesmo índio, vem redesenhado por Galep para a primeira capa da colecção Albo D’Oro, na companhia de Tex, de uma jovem índia e de um totem.

Tex Albo D’Oro nº 1

É desta capa, definitivamente finalizada, que provém a primeira imagem utilizada para a capa de Tex Classic.

Tex Classic nº 1 – Il totem misterioso

Continuem a seguir-nos e nas próximas semanas descobrirão as “origens secretas” das sucessivas capas de Tex Classic.

Saverio Ceri

P.S. Obviamente as oriugens não têm nada de secreto. Os apaixonados coleccionadores de Águia da Noite conhecem bem todas as vicissitudes da série, mas parecia interessante reunir num único artigo todas as diversas encarnações de uma ilustração destinada a tornar-se uma capa de Tex.

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 06/04/2017; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2017 Saverio Ceri

O custo de produção de HQs no Brasil

FAZ ANOS QUE AS EDITORAS SOFREM COM O FORMATO DE VENDA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO BRASIL E NO MUNDO, POR ISSO DESCOBRIR QUANTO CUSTA UMA HQ PODE SER UM CÁLCULO BEM COMPLICADO.

FIZ UM EXERCÍCIO DE IMAGINAÇÃO BASEADO EM FATOS REAIS.

Frequentemente vejo as pessoas reclamando do custo das HQs, eu mesmo acho que elas ficaram cada vez mais caras mesmo. Só que existem muitas variáveis que incidem sobre o preço de capa de uma HQ, desde escolha do modelo de mercado até a cotação do preço do papel.

Não é uma defesa de editoras e nem uma crítica ao nosso poder de compra (cada vez menor). Mas uma análise de quem já tentou licenciar uma personagem Bonelli e esbarrou justamente nos altos custos de produção.

Uma “coisa” é certa: Se você quer maior qualidade, maior será o preço. Um fusquinha custa mais barato que uma Ferrari.

Nosso mercado de HQ se baseou desde sempre na formação do “mix” histórias, isto é aquela mistura de histórias que você compraria e outras 2 ou 3 que isoladamente você não compraria. Essa prática foi criada pela Editora Ebal quando ela começou a vender HQs de heróis ainda na década de 1970.

No caso do “Universo Bonelli” não aconteceu desta forma em praticamente nenhum de seus títulos. Durante sua passagem pela Editora Globo (também na década de 1980) houve apenas um especial publicado em formato de mix, praticamente encerrando as publicações da editora. Na editora Record não houve tal prática e na Mythos tivemos algumas tentativas tímidas.

Tex e os Aventureiros era uma publicação de Mix, provavelmente fazendo os personagens menos vendidos pegarem carona no sucesso de Tex. Durou 6 edições. Outra tentativa da Mythos era a revista Cassidy & Damian, lançada como uma série em 18 edições e parou no número 5.

Não tem sido fácil para ninguém, financeiramente falando. O universo Bonelli existente hoje no Brasil cresceu bastante, mas ainda tem em Tex seu grande carro-chefe. Mas mesmo ele tem suas revistas encalhadas. Apesar de nenhuma editora informar tiragens nem volume de venda, podemos considerar (por baixo) que 30% do que é produzido encalha.

Acha isso exagero? Pesquise nas editoras independentes que lançam através de financiamento coletivo, elas ainda possuem edições para venda, mesmo depois de alguns anos do lançamento.

É uma equação cada vez mais complicada, o custo da impressão varia muito de acordo com o fornecedor, tipo e qualidade do papel, a previsão de encalhe e até a distribuição pode dobrar valor de produção.

E tenha certeza de uma coisa: Toda empresa precisa de lucro e não há nada de errado nisso.

Quem é o vilão afinal?

Na verdade, temos 2 vilões em ação! A tiragem e o distribuidor. Enquanto outros países trabalham com tiragens médias de 10.000 exemplares por edição, no Brasil esse número, em média, fica na casa dos 2.000. O mercado é pequeno, vende-se pouco, e elevar essa média é produzir mais e mais encalhes.

Tex e o Retorno de Proteus

No Brasil existiam 2 grandes distribuidores de revistas, a Dinap e a Fernando Chinaglia. A editora Abril era a dona da Dinap e pouco depois comprou a Fernando Chinaglia. Se tornando a única empresa a fazer distribuição de revistas (chamada de Total). Monopólio nunca é bom para nada! Alguns anos mais tarde a Ed. Abril faliu, entrou em recuperação judicial e isso literalmente zoneou ainda mais a distribuição, além dos custos.

Supostamente a distribuição setorizada quando foi criada (também pela Editora Abril), era uma tentativa de minimizar ou mitigar os custos de produção, redistribuindo o encalhe para outras praças. Só que, trabalhar com edições reduzidas, o custo por unidade sobe.

O raciocínio é bem simples toda edição tem um custo fixo, do qual não dá para fugir. No caso Brasileiro temos a tradução e o pagamento de royalties (sempre em moeda estrangeira). Além dos custos que toda empresa tem, funcionários, o local onde a empresa está, luz, encargos e etc.

Como o mercado daqui se organizou com base nas pequenas tiragens, o preço final de um volume é sempre alto. Mesmo os quadrinhos que vendem dezenas de milhares de cópias, custam caro, já que os editores fixam o preço com base em padrões (um certo “x” por página) estabelecidos a partir das baixas tiragens. A vantagem, dos editores, é que alguns títulos dão mais lucro. E quase sempre compensam o prejuízo dos títulos que acabam encalhando.

Tiragens mínimas projetam o custo unitário lá para as alturas e o leitor é quem acaba pagando a conta. E por tabela acaba ouvindo a mesma desculpa de sempre, de que pedimos um título novo em bancas e acabamos por não comprar. Normalmente o consumidor é nomeado vilão de todo fracasso editorial, mesmo que a editora não tenha se esforçado minimamente para buscar outros recursos (como anunciantes) ou mesmo tenha se empenhado em investir em divulgação adequada de seu produto.

Com base na minha experiência tentando licenciar uma personagem Bonelli e em algumas pesquisas que fiz podemos estimar, em porcentagens, como é composto o preço de uma HQ:

Papel – menos de 5%

Às vezes é transformado no vilão da história. O custo subiu bastante nos últimos anos, o preço da tonelada de papel aumentou cerca de 54%, mas não significa nem 5% do preço final de uma revista. O papel pisabrite que chamamos de “papel de jornal” só compensa em grandes tiragens, fora isso o papel offset é “mais em conta”,

Editora – Em torno de 37%

A editora fica com algo em torno de 37% do preço de capa. Esse valor paga os custos de funcionamento da editora, a tradução, revisão, diagramação e o lucro.

Gráfica – Em torno de 8%

O custo de impressão de uma revista é da ordem de 8% do preço de capa. E aqui não inclui o custo do papel.

Distribuidor – Cerca de 35%

O distribuidor atacadista fica com pelo menos 35%. Esse ponto você pode achar que fiquei louco, mas o cálculo é feito com base nos preços de algumas revistas que estão em pré-venda no site de algumas editoras, com desconto justamente de 35%. Aqui ainda não há encalhe, essa venda – onde você banca o frete – está sendo feita diretamente entre fornecedor e cliente (chamado de B2C), evitando o intermediário que é o distribuidor.

Royalties – 15%

A editora que é “dona” dos personagens fica com 15% do preço de capa da HQ, em média. Nesse caso há o pagamento sempre em moeda estrangeira, na maioria das vezes em euros.

Acha isso muita loucura também? Já reparou nas campanhas que apoiamos via financiamento coletivo? Lá sempre tem os percentuais de cada projeto (menos o lucro).

A Mythos não é a vilã

Por mais que eu tenha severas críticas à editora, ela não é a grande vilã (ou a única culpada), como disse acima existem diversos fatores jogando contra, até mesmo nós os leitores apaixonados. Sim, porque quantas vezes não dizemos que vamos comprar e não compramos? As vezes (ou muitas vezes) falta dinheiro, mudamos as prioridades ou mesmo não gostamos do produto final. Não existe certo ou errado, como eu disse lá em cima, a editora precisa de dinheiro para sobreviver.

Um cálculo que gosto de fazer, mais como comparação do que como ciência, é pegar o valor de capa da HQ e dividir pelo número de páginas que ela tem. É algo bem simples para se avaliar o custo, independente da qualidade.

Um simples exercício de imaginação

Nesta análise simplória vemos que os títulos com maior apelo comercial (e provavelmente maior tiragem) são mais baratos quando comparamos o valor por página. Muito provavelmente nestes casos o lucro da Editora venha com a quantidade.

Claro que a cotação do Euro, influencia demais. Hoje no dia que escrevo esse artigo, 1 Euro custa R$ 5,56.

A minha tentativa

Em 2018 eu tentei licenciar 2 HQs da Bonelli. Pelo contrato teria que imprimir 1000 edições de cada uma delas (2 mil edições no total). Pagamento mínimo de 1 mil euros por cada edição, além desse custo existe um pagamento de 25 euros por edição, que seria equivalente a pagar rolha (quando você leva seu vinho a um restaurante).

Ou seja, sem ter nem começado a trabalhar na edição já teria desembolsado 2050 euros. Que na cotação de hoje seria algo em torno de R$ 11.400,00.

Usando a cotação e uma gráfica qualquer de exemplo:

Reparem que quanto menos a quantidade impressa, maior o valor individual. Como no exemplo eu precisaria imprimir 1000 cópias, a cotação seria essa:

Eu teria que imprimir 1000 de cada uma das duas edições (2 mil edições), então antes mesmo de trabalhar na edição o custo já estaria em R$ 27.781,98. Ainda precisaria colocar os demais gastos, como tradução, custos fixos da empresa, distribuição e lucro.

Se o lançamento for através de financiamento coletivo, tem que incluir mais 13% que é a taxa da plataforma mais utilizada (Catarse).

O “formato Italiano” normalmente 16x21cm não é o padrão das nossas gráficas e isso aumenta mais o preço. O formatinho surgiu como uma forma de aproveitar melhor o corte do papel. Claro que existem gráficas mais baratas, mas a proporção de quantidade X preço irá se manter.

Existe alguma alternativa?

Ao se adquirir um quadrinho, seja ele qual for, logo vê que existem páginas sobrando, onde é feita alguma matéria, ou até chamada para outro título. As vezes vemos uma capa alternativa ou um rascunho do artista, na última capa também. Isto evidência a falta de anunciantes.

A publicidade é uma parte importante para baratear custos em qualquer segmento no Brasil e as editoras falham vergonhosamente neste ponto. Na década de 1980, 1990 tínhamos propagandas nas revistas, desde brinquedos, cursos por correspondência, achocolatados, canetas, marcas de roupas e etc. Tudo era anunciado em revistas em quadrinhos.

A falta de anunciantes e a provável fragilidade da área comercial de qualquer editora irá afetar diretamente o custo final de uma HQ.

Quadrinho digital é o caminho?

O grande empecilho é que uma HQ digital não é tangível, não pode ser manuseada e não pega poeira na prateleira. E isto é realmente bem triste.

A dura realidade

Desculpem os leitores da velha guarda, mas a época das bancas de jornal já passou. Vender pela internet é uma forma de reduzir custos (não vou nem mencionar aqui o serviço precário dos correios). Assim como a pessoa que vende também tem que buscar maneiras de buscar o frete mais barato, já que transferiu esse custo (que era a distribuição) para nós leitores/compradores. Um exemplo simples é um serviço que se chama melhor envio, ele calcula o melhor frete e te informa.

Diante das novas exigências do mercado bancas de jornais e revistas da cidade estão mudando seu perfil.

É preciso se reinventar! Buscar anunciantes, como forma de pelo menos aliviar os custos. Criar mecanismos que atraiam novos leitores, renovar a base é fundamental para se ter vendas recorrentes.

Mas isso é um exercício que também deve partir da editora dona das personagens, afinal as histórias vêm de lá. Quanto mais atrativas elas forem, mais “sangue novo” irá buscá-las.

A verdade é que eu mesmo não sei como melhorar um cenário desses, mas buscaria primeiro anunciantes, depois campanhas boas de venda pela internet (como já fazem com as pré-vendas).


Esse artigo é só um exercício de imaginação, uma forma de ajudar a entendermos tudo que envolve a precificação de uma HQ. Não é um ataque e nem uma defesa para nenhuma editora. É um texto feito por um leitor. Não reflete a opinião do Blogue.

Inovar para manter a tradição

Por Júlio Schneider

O título acima pode ser um lugar-comum, mas aplica-se com perfeição ao belo trabalho de remodelação do nosso Blogue do Tex (nosso porque é um velho companheiro que faz parte da nossa vida há muito tempo). Como já tive oportunidade de dizer em mais de uma ocasião, inclusive na sempre cativante Revista do Clube Tex Portugal, considero o trabalho que se faz neste blogue com muito mais valia do que aquele feito em sítios profissionais, visto que, aqui, o combustível não é retribuição financeira, e sim a paixão por Tex e por todo aquele seu mundo que atiça a nossa imaginação e nos faz viajar com a mente, permitindo-nos longos momentos de evasão das agruras do mundo real.

Tex, apesar de ser somente um herói de papel, sempre nos transmite, desde a primeira leitura, seus valores de justiça, oposição ao racismo e à intolerância de todo tipo, além – e principalmente – de amizade. Amizade, aliás, foi o maior dom que Águia da Noite concedeu-me, anos atrás, ao permitir-me conhecer esses espetaculares gajos que fazem a Revista, que fazem o Blogue, que fazem as tertúlias, os encontros texianos, e que hoje são parte importante desta minha jornada.

Parabéns e continuem firmes nesse belo trabalho que sempre se renova e surpreende.

Mauro Boselli e as correcções ao Cartonato Tex desenhado por Mario Milano, com lançamento em Setembro

É apenas em Setembro que chega aos quiosques italianos o já habitual Cartonado Outonal de Tex , prosseguindo a fórmula já consagrada de um álbum e história no habitual estilo franco-belga, cujo grande formato é de 22,5 x 30,5 cm em todas as suas esplendorosas 46 páginas, mas o editor Mauro Boselli já está a proceder às devidas correcções, como podemos constatar nas duas fotografias que damos a conhecer hoje.

Mario Milano e Sergio Bonelli

Trata-se da edição número 11 da série Tex Romanzi a Fumetti, também conhecida por Álbum Cartonado e que conterá uma história a cores, onde Tex e Carson estarão empenhados numa aventura western com caravanas em terras mexicanas. Trata-se de uma aventura escrita por Pasquale Ruju e desenhada por Mario Milano, que deste modo faz a sua estreia nesta maravilhosa colecção dos cartonados de Tex.

Mario Milano (na foto ao lado, acompanhado de Sergio Bonelli) estreou-se na saga de Tex em Outubro de 2006, na edição italiana nº 552, intitulada “Il villaggio assediato“, concluindo a história, escrita por Claudio Nizzi, na edição seguinte (Tex nº 553), “Tiro al bersaglio” (no Brasil, edições nº 456 e 457, “O vilarejo sitiado“).

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)