Por vezes, para chegar à realização de uma capa, neste caso de Tex Willer (a série dedicada ao jovem Tex e que traz as aventuras de Tex quando ele ainda era um fora-da-lei!), o capista tem de recorrer a diversos esboços até chegar à ilustração pretendida e que se tornará a capa definitiva.
Tal aconteceu uma vez mais com a edição número 29 de Tex Willer, cuja capa, como todas até ao presente, é da autoria de Maurizio Dotti, com a particularidade de Dotti ter feito trêsesboços diferentes até dar-se por satisfeito, como poderemos ver de seguida, com a particularidade do esboço eleito ter sido precisamente o primeiro, já que vamos dar conhecimento aos nossos leitores de todos os três esboços realizados por Maurizio Dotti, assim como da arte a lápis, da arte a tinta da china e da capa original pintada igualmente por Maurizio Dotti devido à gentileza do próprio Dotti:
Primeiro esboço, o eleito, para a capa de Tex Willer #29, da autoria de Maurizio Dotti
Segundo esboço para a capa de Tex Willer #29, da autoria de Maurizio Dotti
Terceiro esboço para a capa de Tex Willer #29, da autoria de Maurizio Dotti
Arte a lápis para a capa de Tex Willer #29, da autoria de Maurizio Dotti
Arte final a tinta da china da capa de Tex Willer #29, da autoria de Maurizio Dotti
Ilustração para a capa de Tex Willer #29, com as cores originais de Maurizio Dotti
Capa de Tex Willer #29 – Sull’Alto Missouri
(Para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas)
Tex Edição Especial Colorida #14 Chuck Dixon, Gabriella Contu, Marcello Bondi, Luca Barbieri e Giovanni Gualdoni (argumento) Fabio Civitelli, Lucio Filippucci, Mario Atzori, Andrea Venturi, Marco Santucci e Patrick Piazzalunga (desenho) Fabio Civitelli, Oscar Celestini e Erika Bendazzoli (cor) Raul e Gianluca Cestaro (capa) Mythos Editora Brasil, Fevereiro de 2020 160 x 210 mm, 160 p., cor, capa mole R$ 29,90
O tamanho, o tamanho…
Regresso ao tema das histórias curtas, com duas afirmações que sei que podem ser polémicas: – É possível uma história curta transmitir tanto prazer ao leitor quanto uma história longa; – Uma história curta pode dar tanto ou mais trabalho (a escrever) que uma longa. Justifico-me já a seguir.
[Antes de avançar, uma definição importante: se no universo franco-belga, por exemplo, se aplica a terminologia ‘história curta’ a narrativas com 2, 4, 10, 12 páginas, quando nos referimos ao contexto Bonelli em geral – e ao de Tex Willer em particular – aquele conceito estende-se (pelo menos até as 32 páginas); que são as que compõem cada um dos relatos desta edição, como acontece sempre nos números pares desta colecção.]
O Apache Branco
Começo pela segunda afirmação. Ao escrever uma história curta, é necessário uma maior contenção, um poder de síntese maior, uma atenção especial – se não mesmo única – ao que é realmente importante, em detrimento do acessório, de floreados ou de episódios complementares para ‘dourar’ e aumentar a narrativa.
Geralmente, uma história curta tem uma ideia central forte bem definida ou um final inesperado e contundente e tudo nela contribui para explanar a primeira ou conduzir o leitor (incauto) até ao tal desfecho.
O Apache Branco
E chegado aqui, ‘salto’ para a afirmação inicial: quando bem escrita, quando bem desenvolvida, uma boa história curta vale uma revista completa e pode satisfazer plenamente o leitor – embora eventualmente com uma satisfação diferente da proporcionada por um relato de outra dimensão.
Na colecção Tex Edição Especial Colorida, nos tomos pares, de histórias curtas, temos tido fundamentalmente três tipos de relatos: aqueles que soam a episódios ‘retirados’ de uma narrativa normal de Tex (as longas…); os que dariam uma boa história longa, se mais desenvolvidos; os que são belos exemplos de histórias curtas, daquelas que (possivelmente) deram tanto trabalho a desenvolver quanto uma longa e satisfazem plenamente o leitor.
Golden Queen
Mas passemos a exemplos concretos nesta edição #14. Um dos papéis desta colecção, é testar novos autores, novos temas, novos grafismos.
Neste último particular, o leitor que procura a diferença, poderá sentir alguma desilusão. O traço utilizado nos cinco relatos é similar – a excepção mais evidente é, claro, Civitelli, a abrir, com O Apache Branco – mas em todos eles impera um desenho clássico, competente, mas sem rasgos nem virtuosismo de maior. E em termos cromáticos, passa-se o mesmo, sendo fácil ‘confundir’ as histórias. [Ao contrário do que acontecia na edição portuguesa A Lenda de Tex, composto por histórias provenientes desta colecção.]
Golden Queen
Curiosamente, a capa dos irmãos Raul e Gianluca Cestaro não o faria prever, uma vez que utiliza um estilo muito dinâmico – atrevo-me a escrever quase de cinema de animação – com o bandido que Tex baleia a ostentar até um aspecto semi-caricatural. Para além disso, a cena é-nos transmitida com uma tomada de vista invulgar, de baixo, ao nível do solo, para cima, muito bem conseguida.
Entrando na revista, O Apache Branco e Golden Queen, vêem-se bem como episódios de sagas mais longas, já que ambas pedem mais pormenores do que aqueles que nos são transmitidos. É possível lê-los fechados em si mesmos, mas não seria difícil aconchegá-los com um argumento mais extenso, que explicasse como o ranger chegou ali, qual a razão para aquelas acontecimentos... Se fosse esse o caso, a segunda narrativa surgiria num momento intermédio de um relato de maior dimensão, enquanto que a primeira serviria de desfecho para outro.
A Camisa Mágica
Mesmo assim, ambas apresentam questões distintivas. Em O Apache Branco, a tragédia de um menino branco que foge dos apaches obriga Tex a mostrar-se mais humano do que habitualmente.
Quanto a Golden Queen, prima por ter o protagonismo integral de Kit Carson, ainda no vigor da idade, por isso sem qualquer vislumbre de Tex. Nela prevalece a sua faceta de conquistador inveterado, embora me tenha custado a engolir que uma viúva tão recente se lance tão facilmente nos braços do primeiro que lhe aparece, bem como a forma expedita como Kit resolve a situação, assumindo sem hesitar o papel de carrasco, sem qualquer investigação ou audição da outra parte – e por aqui, com uma ligeiranuanceesta ‘historinha’ poderia transformar-se numa bela história…
A Camisa Mágica
A Camisa Mágica centra-se num Kit Willer ainda criança e joga com as crenças dos navajos de uma forma curiosa, mas – porque não há regras sem excepção – é difícil classificá-la em qualquer das três categorias acima expostas…
A fechar a revista surge Revolta em Vicksburg, prisão onde Tex já esteve detido e que serve de cenário de uma revolta dos presos durante uma visita do ranger. O desconhecimento das razões profundas do ódio do chefe dos revoltosos em relação a Tex e a forma demasiado rápida – e até ridícula – como é resolvida a questão, aponta para o benefício que teria sido transformá-la num relato com duas centenas de páginas, bem compostas e recheadas de diversos pormenores e cenas de acção e que até poderia culminar com o mesmo pormenor utilizado aqui.
Revolta em Vicksburg
Revolta em Vicksburg
Os leitores mais atentos e que sabem contar, estarão a dizer – com toda a razão – que só falei de quatro histórias, quando afirmei que eram cinco. Na verdade, falta Juliet Payne, o relato que inspirou este longo texto (para os parâmetros habituais aqui de As Leituras do Pedro).
Duas questões surgem de imediato após a leitura: a primeira, o forte protagonismo de uma mulher, o que não é comum na vida editorial do ranger. Depois, ainda menos vulgar, a assumpção de uma temática – a violação – que foge aos cânones de Tex.
Juliet Payne
Os dois aspectos estão muito bem conciliados nas 32 páginas disponíveis, baseados numa ideia aparentemente muito simples – mas daquelas que soam próximas do genial – que funciona idealmentenesta curta extensão, mas que se iria perder se os autores tivessem utilizado mais páginas.
Juliet Payne
*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogueAs Leituras do Pedro
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
* A edição número 727 de Tex (“La strega della palude“) será posta à venda, em Itália, no dia 7 de Maio e trará a segunda parte de uma história escrita por Pasquale Ruju e desenhada por Bruno Ramella. A capa, como é tradição, será da autoria de Claudio Villae vamos hoje dá-la a conhecer aos nossos leitores, mostrando também toda a trajectória produtiva, começando pelos quatro esboços iniciais e concluindo na belíssima capa que estará disponível nos quiosques italianos daqui a cerca de um mês.
Claudio Villa
A capa de Tex #727, como tem sido tradicional após o Tex #401 (inclusive), é da autoria de Claudio Villa. Capa essa que divulgamos hoje aqui no blogue do Tex acompanhada dos quatro esboços iniciais, da arte finalizada a tinta da china, assim como da capa original pintada pelo próprio Claudio Villa tal como temos feito com alguma regularidade devido à gentil cortesia de Villa que nos mostra então o percurso integral da capa de Tex #727:
Esboço inicial da capa de Tex #727, da autoria de Claudio Villa
Segundo esboço da capa de Tex #727, da autoria de Claudio Villa
Terceiro esboço da capa de Tex #727, da autoria de Claudio Villa
Quarto esboço, o eleito, da capa de Tex #727, da autoria de Claudio Villa
Arte final a preto e branco da capa de Tex #727, da autoria de Claudio Villa
Capa de Tex #727, com as cores originais de Claudio Villa
Capa de Tex #727
(Para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas)
Tex – “A Chicotada“, de Pasquale Ruju e arte de Mario Milano
A aposta da editora A Seita nos lançamentos da editora italiana Bonelli sedimenta-se ainda mais em 2021, com o arranque de uma nova coleção. Depois da coleção Aleph que já reuniu um bom número de títulos de Dylan Dog e Dampyr, é a vez da personagem mais famosa da casa italiana, Tex, ter uma coleção inteiramente dedicada às suas aventuras.
.
Mas não é uma coleção qualquer. A Seita optou, e a meu ver, muito bem, por publicar uma coleção de histórias auto-contidas, criadas para o formato franco-belga e a cores. É um Tex de cara lavada e mais jovial que, creio, irá conquistar novos fãs das suas aventuras que, de outra forma, poderiam não o ser. E como são histórias auto-contidas, mesmo que se trate de um leitor que nunca leu um livro de Tex, conseguirá apreciar a história facilmente.
.
A coleção, originalmente intitulada Tex Romanzi a Fumetti, arranca com este A Chicotada, com argumento de Pasquale Ruju e ilustrações de Mario Milano. E, em poucas palavras, pode dizer-se que é um título que funciona muito bem, não comprometendo negativamente em nenhum cômputo, e oferecendo-nos uma leitura simples, fácil e com um doce travo às aventuras clássicas de cowboys.
.
A história, que decorre no México, apresenta-se-nos rápida e sem espinhas, de forma linear e sem que se perca tempo com muitas nuances narrativas. O holofote da obra centra-se na personagem de Diego Portela, que foi marcado na cara (e na dignidade) por valentes chicoteadas que lhe deixaram mazelas emocionais para sempre. E o verdadeiro culpado desse martírio foi (?) Don Alvarado. E agora, Diego Portela sente que é a altura certa para a sua vingança. Por coincidência, Tex Willer e Kit Carson também se encontram no México no encalço de um bando de traficantes. E, eventualmente, acabam por se envolverem na disputa entre Diego Portela e o clã Alvarado. Sendo uma história clássica de vingança, diria que, pelo menos de forma aparente, não é muito imaginativa. No entanto, há alguns twists na narrativa que surpreendem o leitor e que tornam a história mais interessante de ler.
.
Como ponto menos positivo, pareceu-me que a obra beneficiaria se tivesse mais algumas páginas para melhor desenvolver a trama. Claro que compreendo que talvez não fosse esse o objetivo prévio. Nem da editora, nem dos autores. Não obstante, teria sido bom desenvolver melhor as personagens de Diego Portela e de Blanca Alvarado. Personagens essas que, mesmo sendo abordadas “ao de leve” são as verdadeiras estrelas deste A Chicotada. É óbvio que a presença de Tex Willer, acompanhado pelo seu fiel amigo Kit Carson, ajuda a moldar os acontecimentos da história. No entanto, é na negritude de Diego Portela e no ar misterioso de Blanca que o trabalho do argumentista Pasquale Ruju mais brilha.
.
Em termos de arte, este é um álbum muito bonito e bastante bem executado, com um excelente trabalho do autor Mario Milano, cujo traço aparenta ter semelhanças com o de Jean Giraud na clássica série Blueberry. Os grandes planos que desenha das personagens – especialmente de Diego Portela – , bem como várias cenas de ação estão extremamente cinematográficos e impactantes.
.
Um destaque merece ser dado à planificação das pranchas que será, possivelmente, aquilo que mais salta aos olhos quando comparamos um álbum clássico de Tex com este A Chicotada. Neste caso, o formato maior permitiu que a componente gráfica tenha adquirido um cariz muito mais cinematográfico, com uma dinâmica mais volátil, que proporciona vários tipos e tamanhos de vinhetas diferentes e um ritmo mais desenfreado da história.
.
O facto da planificação ser mais dinâmica, com ilustrações que saem dos limites das vinhetas ou com vinhetas que se sobrepõem umas às outras, permite a tal sensação de frescura e a tal modernidade que Tex, na sua forma mais clássica, (já) não consegue ter. Ou melhor, já não conseguia. Porque este novo Tex está mais atual que nunca.
.
E para que a série se apresente de cara lavada, muito contribuem as cores muito bem conseguidas de Matteo Vattani, que melhoram ainda mais a arte de Mario Milano, oferecendo-lhe a luz e a cor certas, e tornando o ambiente e as personagens mais verossímeis e esteticamente mais apelativas. É um álbum bonito, cujas ilustrações são agradáveis para observar.
.
Embora o formato seja maior quando comparado com o formato a que Tex nos habituou, confesso que ainda gostava que fosse maior. Dentro do universo franco-belga ainda é um pouco “pequeno”. Mas, claro, há que reconhecer que já é um formato que permite muito mais, em termos de possibilidades narrativas e de planificação da história.
.
A meu ver, este formato clássico franco-belga funciona muitíssimo bem neste Tex, tornando-o mais atual e mais em linha com outros grandes westerns que a bd franco-belga nos tem dado. Parece-me que é uma aposta ganha. Por parte da editora italiana, claro, que conseguirá alcançar novos mercados, mas também por parte da editora portuguesa A Seita que, inteligentemente, aposta nesta vertente de Tex, apontando para um maior número potencial de leitores: 1) os que já são fãs do famoso ranger mas, também, 2) aqueles que, gostando do género western franco-belga, se têm mantido um pouco à margem de Tex. Esta linha editorial parece reunir consenso junto dos dois públicos.
.
Quanto à edição da obra, o trabalho é muito bem conseguido por parte d’ A Seita. E é com alegria que vejo que as editoras portuguesas têm cada vez mais cuidado com o objeto-livro que põem cá fora. Aos leitores de bd isso também importa. Assim, para além de um bom trabalho de encadernação, com capa dura e bom papel, destacam-se as entrevistas com os autores, os estudos de capa e um desenho original de Tex, feito propositadamente por Mario Milano para a edição portuguesa. Assinale-se ainda o bom sentido de oportunidade da editora portuguesa que edita este livro para o mercado português passados apenas alguns meses do seu lançamento original em Itália. . Em conclusão, este é o Tex certo para que todos aqueles que sempre olharam de soslaio para a série possam, finalmente, mergulhar nela. De forma simples, rápida, despretensiosa e agradável. Pode não ser um livro que marque uma vida mas é um livro bem conseguido de uma ponta à outra. Para os fãs de western? Recomenda-se! Para os fãs de Tex? Recomenda-se! Para os fãs do franco-belga? Recomenda-se também!
Hoje no blogue do Tex vamos dar a conhecer a todos os nossos leitores mais algumas recentes (já realizadas em 2021) artes texianas de Marcone Portela, um desenhador italiano, natural de Pero (Milão), mas que habita já há muitos anos no Brasil, mais precisamente em Ipojuca, um município brasileiro do estado de Pernambuco.
Marcone Portela desenha desde os 8 ano de idade e tem como ambição vir a ser desenhador na Sergio Bonelli Editore de modo a poder desenhar alguns dos seus personagens favoritos dos fumetti. E qualidade é o que não lhe falta, como podemos constatar em algumas das suas artes (inspiradas em alguns dos seus mestres texianos) enviadas ao blogue do Tex e que divulgamos então para que sejam apreciadas e comentadas pelos fãs e coleccionadores de Tex que nos prestigiam assiduamente com as suas visitas!
Tex na interpretação de Marcone Portela
Tex na interpretação de Marcone Portela
Tex na interpretação de Marcone Portela
Tex a cavalo na interpretação de Marcone Portela
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)