OLD PAWNEE BILL, nas palavras de Moreno Burattini

Por Moreno Burattini*

Old Pawnee Bill é um adversário peculiar que Tex encontra numa tira da “Serie California” (1957), desenhada por Francesco Gamba. Mais tarde, esta aventura foi integrada numa edição gigante, dando o título ao número 30 da série (Old Pawnee Bill), publicado em maio de 1963. Para o nome da personagem, Giovanni Luigi Bonelli baseou-se na figura de Gordon William Lillie (1860-1942), conhecido precisamente por Pawnee Bill, um hábil pistoleiro que se exibiu na sua juventude ao lado de Buffallo Bill no seu espetáculo Wild West Show.

O adversário (até certo ponto) de Águia da Noite não usa pistola e não se veste elegantemente como um artista de circo. Pelo contrário, trata-se de um homem reduzido a um estado selvagem. “Um forasteiro!” – pensa Old Pawnee Bill, observando Tex Willer, do alto de um penhasco, que o procura nos Montes da Superstição – “Outro que quer descobrir o segredo da mina secreta do meu amigo Desmond!”. Águia da Noite não imagina estar na pista de um louco. Tal como lhe tinham contado, sabe que o homem que procura vive há anos naquela montanha, mas todos julgam que está apenas à procura de ouro, ele que sempre teve um grande faro aurífero. Por seu lado, Pawnee Bill vagueia entre os penhascos, vestido com trapos, transformado em selvagem e reduzido a um estado quase feroz, armado com um machado e atacando todos aqueles que encontra.
Vem cá, ladrão!” – repete para consigo ao mesmo tempo que se aproxima de Tex – “Nunca encontrarás o ouro, mas em troca podes levar com a terra… a suficiente para te enterrar debaixo dela!”. Bill é o único que conhece a localização da mina que pertencia ao seu velho parceiro de negócios, Desmond. A mina encontra-se mesmo nos Montes da Superstição, nos terrenos que agora pertencem a John Lower, um rancheiro que as comprou sem saber da existência do ouro, cinco anos após a morte de Desmond. Lower encontra-se praticamente falido, devido à prepotência de Gideon, o dono de um rancho vizinho que, com o seu bando de capangas, vai provocar Lower com o objetivo de ficar com a sua propriedade. Gideon não está interessado nas pastagens, nem sequer pretende libertar-se de um concorrente, mas sabe aquilo que Lower ignora, ou seja, a existência de ouro nos seus terrenos. Como é que teve conhecimento? Graças ao mapa traçado por Desmond, dividido em duas partes e entregue a cada um dos seus filhos, Jim e Rita (na tentativa de os reconciliar, depois de um litígio que os separou), tendo cada um ficado com uma metade. A de Jim acabou nas mãos do pérfido Gideon, graças ao seu capanga Kiowa, que a roubou. E agora, os dois querem apoderar-se da metade que está na posse de Rita. Mas até o mapa estar recomposto, o único que sabe onde se localiza a mina é, precisamente, Old Pawnee Bill, que jurou ao seu antigo parceiro, Desmond, no leito da morte, de apenas revelar o seu segredo aos seus dois filhos.

Tex Gigante 2ª Série nº 30 – tira da página 97

Tex Gigante 2ª Série nº 30 – tira da página 98

Ser o guardião de algo tão importante, bem como o receio que outros possam descobrir a mina antes que Jim e Rita tomem posse dela, vai transformar gradualmente Pawnee Bill, tornando-o numa espécie de selvagem, pronto a matar todos aqueles que deambulem nos Montes da Superstição. Ou então, mesmo que isso não nos tenha sido contado, essa perda de senso ou de auto-controle pode ter sido causada por alguma queda, resultando daqui algum traumatismo craniano. Tanto, que Tex apenas precisa de um soco bem dado para acalmar o louco. Efetivamente, depois do curativo (árduo, mas eficaz), Bill transforma-se de louco em aliado de Tex. Desmond, forçado a fugir depois de ter sido encurralado por Águia da Noite, que veio confrontá-lo com os seus crimes, teve um triste fim, ao ser mordido por uma cascavel (uma retaliação dantesca). Rita e Jim Desmond, reunidos como o seu pai tanto desejava, iniciam a exploração da mina graças à permissão concedida por John Lower, o qual, por sua vez, resolve os problemas que ameaçavam reduzi-lo à falência. E Pawnee Bill? Acontece-lhe aquilo que Tex tinha proposto fazer, depois de o encontrar: “Quero levar-te ao rancho. Precisas de tornar-te novamente apresentável”.

Tex Gigante 2ª Série nº 30 – tira da página 98

Tex Gigante 2ª Série nº 30 – vinheta da página 99

Tal como em tantas outras, também nesta história aparece um mapa do tesouro. Indica a localização de uma mina e foi dividido em duas partes, confiado a dois irmãos, cada um na posse de uma metade. O que seriam as aventuras sem estes mapas? A banda desenhada está recheada de histórias com mapas do tesouro, para serem decifrados ou recompostos, para serem encontrados ou conquistados. E não só a banda desenhada, como também os romances ou os filmes.
O mais famoso talvez seja o mapa de “A Ilha do Tesouro”, imaginado por Robert Louis Stevenson em 1883
[i]. Stevenson escreveu a sua obra precisamente a partir de um mapa desenhado como distração[ii]: “Desenhei o mapa da ilha; era elaborado e, parecia-me, com cores lindas. A sua forma surpreendeu-me incrivelmente; havia baías que me agradavam como sonetos. Observando o mapa, as futuras personagens do livro começaram a surgir concretamente nos meus bosques imaginários. Os seus rostos bronzeados e o brilho das suas armas manifestavam-se nos locais mais inesperados, enquanto se cruzavam para a frente e para trás, lutando e procurando o tesouro, naqueles exíguos centímetros quadrados da projeção bidimensional. Pouco depois, comecei a escrever a lista dos capítulos”. E é realmente em “A Ilha do Tesouro” de Stevenson, que surge uma personagem chamada Ben Gunn, que em alguns aspetos lembra Old Pawnee Bill. Ben Gunn é um antigo membro da tripulação do capitão Flint, que foi abandonado na ilha durante três anos pelos seus próprios companheiros, depois de não ter conseguido encontrar o tesouro sem a ajuda do mapa. Encontrou-o depois de o abandonarem e manteve-o escondido na caverna que lhe serviu de casa. De regresso a Inglaterra, Gunn conseguiu esbanjar toda a sua parte do tesouro em poucos dias, tornando-se num mero porteiro para o resto da vida.

Uma mina perdida nos Montes da Superstição, no Arizona, é também protagonista de uma outra aventura de Tex, esta mais recente. Trata-se da história contada nos números 478 e 479, com o título “La miniera del fantasma[iii]. Dois irmãos abandonam uma mina escavada na montanha, depois de terem escondido a sua entrada. Anos mais tarde, surge alguém em busca do ouro com base num velho mapa, no entanto, as rochas ensolaradas dos Montes da Superstição parecem estar assombradas por um fantasma. Trata-se de um outro explorador que queria encontrar a mina perdida e que acabou por enlouquecer, tal como Old Pawee Bill, e que os Apaches pouparam, porque quem perde o juízo é considerado sagrado pelo Grande Espírito. Embora seja uma aventura completamente diferente, mesmo assim encontramos nela a demonstração de que a beleza selvagem das paisagens áridas do Sudoeste, o fascínio de uma mina perdida e a inquietação sempre provocada pelas histórias de loucos e loucuras, são os ingredientes certos para uma fascinante aventura western, e destinados a funcionar sempre que são narrados.

 

[i] Foi neste livro que surgiu pela primeira vez um mapa do tesouro, onde a arca cheia de ouro enterrada estava marcada com um grande X, hoje tão comum neste tipo de história. E também foi neste livro que o conhecido estereótipo de pirata – com perna de pau, um papagaio no ombro, cantando em voz alta – apareceu e tornou-se tão popular.

[ii] O mapa foi concebido para divertimento do seu enteado Lloyd Osbourne, que tinha 12 anos, num dia de muita chuva. Sem poder sair de casa e como forma de distrair a criança, Stevenson desenhou com ela um mapa de uma ilha imaginária e começou a imaginar uma história. Empolgado com o que ia inventando, desenvolveu ideias e fixou-as no papel, surgindo assim os vários capítulos.

[iii] História de Mauro Boselli e José Ortiz publicada em Itália em 2000 e no Brasil em 2002, pela Mythos Editora, nos números 394 a 396 (A mina do fantasma).

* Texto de Moreno Burattini publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.

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Work in progress: Nova panorâmica a propósito do “Retorno do Capitão Barba Negra”… Arte de Stefano Andreucci

Work in progress: Nova panorâmica a propósito do “Retorno do Capitão Barba Negra”… Arte de Stefano Andreucci

Esta prancha faz parte de uma das mais aguardadas e ambiciosas aventuras da série principal de Tex, provisoriamente intitulada “Il Ritorno di Capitan Drake, Barbanera” (O Regresso do Capitão Barba Negra), escrita por Mauro Boselli e desenhada por Stefano Andreucci.

Como a tabuleta central indica (Gros-Jean All Goods), a ação do Ranger afasta-se momentaneamente dos desertos do Arizona. A história leva Tex e Carson a cruzarem caminho com o caçador canadiano Gros-Jean nas regiões geladas e montanhosas do Norte. A presença do Capitão Drake num entreposto de comércio canadiano sugere um mistério que envolve rotas de contrabando, navios encalhados no gelo ou uma nova ameaça na costa do Pacífico…

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SECRET ORIGINS: TEX CLASSIC 54

Por Saverio Ceri [1]

Bem-vindo de volta ao encontro com a redescoberta das históricas capas de Tex, trazidas de volta às bancas, após décadas de esquecimento, graças à série Tex Classic.
A história que gira em torno da capa do 54º Tex Classic é totalmente linear.
Desta vez, a reimpressão colorida apresenta os volumes de tiras 9 a 14 da Série Azzurra da Collana del Tex, ou seja, os últimos seis livrinhos daquela série, a oitava, assim como as últimas tiras do ano de 1954 do mais famoso personagem bonelliano. Os episódios foram então repropostos em três tiras da série quinzenal dos albi d’oro em Novembro de 1956 nos números 17 e 18 da terceira série.
O episódio narrado na capa do Tex Classic tem origem no número 11 da série Azzurra, intitulado Uragano su Mac Coy (Furacão sobre Mac Coy), em que um bando de bandidos prepara-se, de armas em punho, para atacar a cidade. A imagem também foi usada como capa da raccoltina nº. 36 da segunda série. Curiosamente, na capa nota-se um título duplo: tanto o original da tira quanto o da própria coleção.

Collana del Tex 11 (Serie Azzurra) – ‘Uragano su Mac Coy’

Raccoltina n°36 – ‘Uragano su Mac Coy’

Por ocasião da reimpressão em formato albo d’oro, Galep opta por contar o que acontece momentos depois, quando Tex atira nos criminosos, passando a fazer vítimas graças à sua pontaria infalível. É justamente essa cena que a redacção escolheu para abrir o quinquagésimo quarto Tex Classic.
Abaixo em sequência a versão de 1956 e a versão de 2019.

Albo d’Oro Tex #17 – III Serie

Tex Classic #53 – La Valle del Morto

As duas imagens diferem sobretudo nas questões cromáticas. Se quiser, divirta-se encontrando as diferenças.
Aproveitamos o breve histórico editorial desta capa para dar espaço à história editorial de outra capa deste período histórico de Tex, da qual não teremos oportunidade de falar futuramente, visto que se trata de uma das pouquíssimas capas inéditas criadas para os primeiros números da 2ª série gigante do personagem, ou seja, a série que ainda hoje está nas bancas. O lugar certo para esta capa seria o Tex Classic 45, na verdade estamos a falar de Dodge City, o décimo oitavo volume de Tex cuja publicação data de Dezembro de 1961.

Tex #18 – Dodge City

Reza a lenda que as casas que ladeiam o Tex, e que presumivelmente serviram para justificar o título de “citadino”, foram construídas pela mão de Sergio Bonelli. Galleppini não gostou do acréscimo ao seu desenho e na primeira oportunidade de revisão, ou seja, em 1987, para a publicação de Tutto Tex conseguiu fazê-las desaparecer.

Tutto Tex #18 – Dodge City

As casas não reapareceram nem dez anos depois, por ocasião da série Tex Nuova Ristampa, e para não fazer com que a capa parecesse muito assimétrica optou-se por deslocar todo o desenho para a esquerda, fazendo aparecer partes do cavalo que até então haviam sido cortadas da capa.

Tex Nuova Ristampa #18 – Dodge City

Se alguém se perguntou por que nesta capa Tex não usa, como fazia até então, o clássico lenço no pescoço… a resposta encontra-se abaixo.

Número 1093 da edição Dell Western Adventure, de 1960

Galep, como às vezes acontecia, tendo que desenhar dezenas de capas por ano entre edições de tiras originais e várias reimpressões, para agilizar a entrega inspirava-se nas capas das revistas pulp americanas da época que chegavam à redação. Neste caso a inspiração vem da capa da edição 1093 da Dell Western Adventure de Junho/Agosto de 1960, onde o Coronel Mackenzie não usava o lenço e consequentemente Tex, pela primeira vez, teve que ficar sem ele.

A história de banda desenhada em questão, também traduzida para leitores hispânicos, é baseada em uma série de TV de 39 episódios lançada em 1958 e 1959 nos Estados Unidos. Abaixo pode ver-se a mesma pose que Tex ficou famosa na Itália, tanto na capa de Domingos alegres quanto na caixa contendo a série de TV.

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Uma curiosidade antes de encerrar: O Coronel Renald Slidel Mackenzie é uma verdadeira figura histórica que se destacou durante a Guerra Civil, recebendo até elogios do General Ulysses S. Grant que o considerou como sendo o seu jovem oficial mais promissor. O coronel também se cruzou com o nosso Tex numa história de Mauro Boselli e Stefano Biglia publicada nos números 668/670.

Tex #670 – Gli Scorridori di Mackenzie

Despedimo-nos por hoje, marcando encontro com os leitores no próximo artigo de  Secret Origins: Tex Classic.

Saverio Ceri

Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rubrica Secret Origins: Tex Classic

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 15/03/2019; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2019 Saverio Ceri