
Tex e os seus pards na deslumbrante interpretação de Luca Corda

Tex e os seus pards na deslumbrante interpretação de Luca Corda
“A minha secretária é normalíssima e não recheada de compartimentos secretos que a imaginação romanceada dos leitores lhe atribui. No entanto, conservo uma pasta, uma espécie de dossier de projetos não realizados, onde se encontram as ideias para histórias nunca escritas, os textos esquecidos, os desenhos nunca impressos…”
As ideias para as histórias nunca escritas, os textos esquecidos, os desenhos nunca impressos, tudo o que Sergio Bonelli falava na correspondência de Tutto Tex nº 88, continuam a fazer sonhar a nossa fantástica imaginação. Do Tex em luta contra um eterno inimigo como o Dragão Negro, desenhado por Hugo Pratt, inacabado, e do qual o editor falou numa já longínqua entrevista televisiva, provavelmente nunca mais teremos rasto. Igual sorte envolve também o modestíssimo número de pranchas desenhadas no final dos anos sessenta do século passado por um outro ícone do fumetto italiano, Enzo Magni, que inesperadamente abandonou a aventura com um magnífico cavalo negro que se chamava “Silver Star”!
A briga entre Tex e Carson também deveria figurar na capa da aventura “Il segno di Cruzado”. O pard de Tex, chegado à aldeia depois de uma longa cavalgada para o alertar do massacre levado a cabo por alguns jovens navajos que se tinham unido ao bando do sanguinário Paiute, encontrava-se exausto, agressivo, fora de si, praticamente febril. Nas palavras de Sergio Bonelli, argumentista desta aventura, o soco de Tex, um gancho de direita desferido no queixo, deveria ter servido como calmante. Todavia, esta sequência do soco que pretende acalmar os ímpetos irracionais de Carson, extraída do filme “A paixão dos fortes”[i] de John Ford, com Wyatt Earp que “tratava” desta forma um delirante Doc Holliday, pareceu na redação demasiado “chocante”. A prancha completa acabou por ser relegada para uma pasta, juntamente com outras tiras, entre as quais uma onde se via o jovem Kit Willer a atirar um balde de água gelada para arrefecer os ânimos do velho Carson, diante de um divertido Tex, suscitando ainda mais a raiva ao velho camelo!
Um jovem Mauro Boselli, Giorgio Bonelli, Gian Luigi Bonelli e ainda Tiziano Sclavi, contribuíram em fases diferentes para a criação da história “La minaccia invisibile”, publicada em agosto de 1986. O argumento original de Gian Luigi Bonelli contemplava um final em tudo diferente, com a morte do Mestre na sua casa, sem que a sua identidade fosse revelada. Guglielmo Letteri desenhou a história em poucos meses, mas esta versão bonelliana, tal como apresentada, não foi aceite por Decio Canzio. No início de 1986, Sclavi efetuou uma revisão, limitando as peripécias e os tiroteios, por achar tudo um pouco confuso. Por fim, foi entregue a Boselli uma nova revisão que se revelou uma verdadeira reescrita. Sclavi e Boselli acrescentaram, por exemplo, a cena dos esgotos, e Boselli, sozinho, reconstruiu um novo final que Letteri redesenhou em pouco mais de um mês. Infelizmente, as cerca de vinte pranchas cortadas encontram-se hoje em local desconhecido.
Alguns anos mais tarde, Decio Canzio intervém de novo, ao cortar 38 pranchas da história “Gli uomini giaguaro”, de 1993, escrita por Sergio Bonelli e desenhada, uma vez mais, por Guglielmo Letteri. As pranchas, que acabaram na pasta, deveriam inicialmente figurar na página 88 do álbum “Il dio azteco” e incluíam um confronto entre Tex e o seu amigo Montales com um bando de apaches. Para Canzio, aumentavam inutilmente uma aventura que, ainda hoje, é em absoluto a maior da série. Foram publicadas uns anos mais tarde, como apêndice do primeiro volume dos “Archivi Bonelli” da editora Lizard.
No final dos anos oitenta do século passado, foi encomendado a Claudio Nizzi uma história para o autor argentino Victor Hugo Arias. Todavia, a colaboração foi interrompida quando chegaram à editora as primeiras pranchas, que revelaram uma fraqueza artística e afastavam-se demasiado dos cânones texianos a nível gráfico. Na via Buonarroti, argumento e pranchas foram rapidamente esquecidos.
Pouco ou nada é também aquilo que se sabe das dezasseis páginas da história “Plano quemado” que naqueles anos Marcello Toninelli, prolífico autor de Zagor, escreve, a pedido da editora, para colocar à prova os aspirantes a novos desenhadores de Tex. O próprio facto de que sobre esta breve história, curiosamente, só tenham surgido notícias em 2009, numa entrevista concedida pelo autor, sugere que a experiência envolveu um número relativamente reduzido de desenhadores entre o final dos anos oitenta e o início da década seguinte: talvez Raffaele Della Monica, talvez Aldo Capitanio. De facto, podemos certamente excluir os grandes nomes italianos e internacionais que nessa altura começavam a cimentar-se nos primeiros Texoni. O grande Magnus, por exemplo, redesenha por sua conta as primeiras páginas da história “Sioux”, de Nizzi e Ticci, antes de começar a trabalhar no seu álbum gigante. Em 1992, também um artista crepuscular como Nadir Quinto propõe à editora desenhar um dos álbuns gigantes, o que leva Sergio Bonelli a hesitar. A dolorosa doença, que em março de 1994 acabará por se revelar fatal ao artista, limita e torna difícil o seu trabalho para o Texone. Para a família de Quinto, hoje na posse das pranchas, a história parecia finalizada, mas a editora identifica erros e lacunas de tal forma que não permite a sua publicação. O argumento de Nizzi para “I lupi del Colorado” é então entregue, sem grande hesitação, ao veterano Fernando Fusco. A história é finalmente publicada no verão de 1996, na série mensal de Tex, caindo, assim, o véu sobre a derradeira obra do desenhador milanês.
Numa das gavetas da secretária de Sergio Bonelli encontra-se também a pasta do derradeiro esforço de Aurelio Galleppini, as cerca de sessenta pranchas da aventura “Golden Pass”, que o desenhador deixou incompletas quando faleceu em Chiavari em março de 1994. Ao longo dos anos, a editora divulgou apenas algumas tiras.
No segundo semestre de 1997, foi publicada a história “Il retorno della Tigre Nera”, de Claudio Nizzi e Fabio Civitelli. O final colocava em evidência toda a dedicação da bela Lohana, que intercetava um disparo de Tex destinado a atingir as pernas do princípe Sumankan. O artista aretino, que tinha desenhado por sua iniciativa esta cena comovente, viu-se forçado a redesenhar cerca de cinco pranchas do álbum “La notte degli zombi”, que ilustram a fuga precipitada dos dois inimigos na intricada vegetação dos pântanos. A cena inicial idealizada por Nizzi estava, de facto, contrária aos cânones da série, já que uma figura feminina nunca pode morrer pela ação do herói.
Alguns anos mais tarde, Ernesto Garcia Seijas começa a trabalhar no seu Texone “Le iene di Lamont”, que termina, com atraso, em 2004. Como acontecia habitualmente, Sergio Bonelli depois de ler o argumento verificava apenas o produto final, e por isso, é já com as pranchas legendadas que decide protelar a publicação. Na verdade, ao escrever a história, Nizzi tinha estudado uma trama à Dickens, em que a órfã Katie Evans era defraudada pela sua pérfida madrasta Vera Evans e pelo seu amante, o capataz do rancho Harry. Nas primeiras vinte páginas, a jovem usava um vestido elegante que estremeceu o editor: “Isto é Tex ou as Mulherzinhas[ii]?”. Além disso, a história também tinha o defeito de introduzir entre as páginas 96 e 117 uma terceira personagem feminina, a amiga de infância Miss Jorgen. Seijas foi então chamado a redesenhar onze pranchas, onde a amiga de Katie é substituída por Erik, um rapaz inválido. Apesar das incompreensíveis alterações efetuadas, as dúvidas do editor foram de tal ordem que impediram por mais de uma década a publicação desta história, que só ocorreu em 2011.
Entre os tesouros da via Buonarroti também se encontram sem dúvida as dez pranchas esboçadas da história “Colorado Belle”, realizadas por Aldo Capitanio a partir de outubro de 2000. Inicialmente pensada por Mauro Boselli apenas para um álbum, a história acabou por ser entregue ao catalão Alfonso Font, após o imprevisto desaparecimento do artista vicentino, ocorrido em 2001. Quando, em novembro do mesmo ano, Carlo Raffaele Marcello começa a desenhar a história “Morte nella nebbia”, já sofria de graves problemas na vista. Dois anos depois, as 220 pranchas são reprovadas por falta de qualidade e acabam na posse da editora e o argumento de Mauro Boselli é entregue a Alfonso Font.
Também o 18º Texone, de Nizzi e De Angelis, contém uma sequência de pelo menos quatro páginas redesenhadas pelo artista napolitano. A censura refere-se à parte final da história, entre as páginas 198 e 201, com a morte do guarda. Em vez de abrir a jaula com as chaves, Sammy oferecia uma banana à fera, a qual, cinicamente, voltava-se e estrangulava-o violentamente, esmagando-o contra as barras da jaula.
Alterações sucessivas sofreu também a última história de Guglielmo Letteri para a série mensal, intitulada “Il diadema indiano”. As duas pranchas em nossa posse, numeradas como 145 e 158, correspondem hipoteticamente às páginas 40 e 53 do álbum “Il Pueblo sacro”, e sugerem pelo menos duas intervenções, embora insignificantes, na reescritura, realçando-se aqui o facto apenas porque ambas são ambientadas no pôr-do-sol. A primeira prancha, com o xerife Callagher e os seus adjuntos na pista de Tex e do diadema, refere-se à sequência incluída entre as páginas 20 e 38 do segundo álbum. A segunda prancha, com Tex, Carson, Juanito e o feiticeiro zuni Yusiwa, pode ser incluída entre as páginas 50 e 52, imediatamente antes da chegada dos quatro ao povoado sagrado. Não passam, infelizmente, de apenas meras suposições.
No outono de 2008, uma história invernal de Tito Faraci, ambientada nas neves das Montanhas Rochosas, intitulada “Partita pericolosa”, é entregue a Marco Bianchini. O desenhador terminara a arte final dos desenhos realizados pelo seu colaborador desde há uma década Marco Santucci para uma história fantástica de Mauro Boselli, um clássico intitulado “Omicidio in Bourbon Street”. Meses mais tarde, em 2009, quanto chega aproximadamente à página 40, o artista aretino vê-lhe retirada a história pela editora, havendo rumores que tal se deveu à insuficiente qualidade artística. A história é então entregue ao napolitano Alessandro Nespolino e publicada, após uma longa gestação, apenas na primavera de 2016. Desta história foram divulgadas apenas as pranchas iniciais, pelo que é difícil avaliarmos a qualidade gráfica e sobretudo a composição de Tex e Carson.
O Maxi de 2008, de Claudio Nizzi e Ugolino Cossu, “Lo squadrone infernale”, tinha sido inicialmente pensado para os desenhos de Giovanni Freghieri que, após cerca de trinta pranchas, abandonou o trabalho. O desenhador de Dylan Dog volta a tentar em 2011, desta vez com um argumento “fluvial” para um Color Tex escrito por Mauro Boselli e intitulado “Delta Queen”. Infelizmente, o resultado não é muito diferente do anterior. No final, à redação chegam apenas 20 pranchas, de entre as quais apenas quinze já realizadas com tinta, apesar de ainda não cuidadas nos detalhes. Freghieri desculpa-se com a sua lentidão. Posteriormente, confessa não ser do seu gosto ter de desenhar uma história destinada a ser colorida, sentindo a ausência das zonas escuras. A história é assim entregue a Fabio Civitelli.
Outro desenhador de Dylan Dog, o romano Massimo Carnevale, é associado em 2011 a uma história de Tex de Mauro Boselli, intitulada “Luna insanguinata”. Às mãos do editor de Tex não chega, no entanto, qualquer prancha e podemos facilmente especular que nenhuma terá sido desenhada. A história é realizada por Corrado Mastantuono e sai para as bancas no início de 2015. Entretanto, é entregue a Carnevale um Texone, que o artista vai desenhar com extrema lentidão.
A revelação destas pranchas que nunca chegaram a ver a luz do dia termina aqui. Foi voluntariamente excluído todo o rico material relativo às vinhetas e às tiras que foram alvo de cortes e correções, um trabalho editorial que somos levados a acreditar atingiu mais ou menos todas as histórias de Tex, quando da sua publicação, mas que acrescenta pouco. Não podemos excluir a existência de outras pranchas “misteriosas”, as quais poderiam trazer algo mais sobre a aventurosa escrita e reescrita de outras histórias de Tex. Em parte, devido à relutância de alguns autores em revelar detalhes sobre estes “desperdícios” de trabalho. A misteriosa pasta de que falava romanticamente Sergio Bonelli permanece muito provavelmente esquecida num canto qualquer da editora, coberta agora por um manto de poeira. No entanto, as pranchas inéditas do Senhor da Bonelli, hoje desaparecidas, reunidas em novas edições de cada história e encadernadas em capa dura, constituiriam, estamos certos, verdadeiros acontecimentos editoriais!
[i] “My Darling Clementine” no original. Filme de 1946, protagonizado por Henry Fonda (Wyatt Earp) e Victor Mature (Doc Holliday)
[ii] História publicada em 1986, escrita por Claudio Nizzi e ilustrada por Nadir Quinto, com o título de “Piccole donne”, baseada no célebre romance “Mulherzinhas” de Louisa May Alcott.
* Texto de Sandro Palmas publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)
Por ocasião da 2ª Edição do Missaglia Comics, evento que decorrerá em Itália no dia 13 de Setembro, Pasquale Frisenda, desenhador que estará presente no evento, desenhou uma bela ilustração de Tex em homenagem à Associação Gattostello ODV — um abrigo de gatos mantido inteiramente por voluntários e dedicado a resgatar, cuidar e encontrar lares para gatos abandonados e em situação de vulnerabilidade —, ajudando os amigos felinos a encontrar uma nova família!
(Para aproveitar a extensão completa da pintura acima, clique na mesma)