Tex em Cores #51 no Catarse, com inúmeras recompensas

Foi anunciado no Catarse, pela Mythos Editora, no final do mês de Abril, o volume número 51 de Tex em Cores, trata-se da alternativa para o título Tex em Cores continuar sendo publicado no Brasil, com a vantagem dos compradores terem direito a vários tipos de recompensa.

Em Tex em Cores #51 teremos duas história completas (Mister P e Ouro Negro), sem continuação.

O projeto

TEX EM CORES NO CATARSE!

Este é um projeto único e exclusivo do Catarse. As peças remanescentes serão encontradas somente no site oficial da Mythos Editora, sem desconto e sem brinde no valor final de R$74,90 (este produto NÃO É QUALIFICADO PARA: Amazon, Black Friday, UNESP, USP, Carnaval de Descontos e quaisquer outras promoções d e-commerce da Mythos).

Tiragem: 1.000 exemplares

O Caubói mais Famoso dos Quadrinhos!

Criado na Itália em 1948 pela dupla Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini, Tex tornou-se parte da História da Banda Desenhada. A sua estreia no Brasil deu-se em 1951 e as suas aventuras são publicadas no Brasil sem interrupção desde 1971, atraindo fãs de norte a sul do país sul americano.

A explosão dos filmes de faroeste, somada ao facto de Tex ser um dos poucos personagens que realmente demonstram valores éticos e morais em seus roteiros, transformaram o personagem no herói de maior longevidade nas bancas brasileiras.

Além de muita acção em cada saga, a leitura das suas aventuras torna-se especialmente interessante pelos conhecimentos que trazem. A cultura indígena, a História dos Estados Unidos, os costumes do período… cada mínimo detalhe é pesquisado para que o leitor tenha uma noção exacta do ambiente e época em que o personagem se situa. Tex mescla cultura e diversão em doses perfeitas, o que justifica muito de seu sucesso, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Tendo passado por algumas editoras desde sua estreia em terras tupiniquins, Tex foi incorporado à Mythos Editora em 1998 e conta com diversos títulos do personagem no seu catálogo. São colecções que buscam satisfazer todos os tipos de leitor, trazendo tanto histórias actuais como as mais clássicas, em preto e branco ou em cores, com diferentes acabamentos gráficos e tipos de papel.

Sobre a coleção Tex em Cores

Tex em Cores é uma irmã directa da publicação italiana Tex Collezione Storica a Colori – La Reppublica, com uma diferença: não contém o mesmo número de páginas. A adaptação foi feita em função dos custos de produção e gráficos. A brasileiríssima Tex em Cores traz as aventuras clássicas do herói, em ordem cronológica, de acordo com a publicação original italiana, e preza pela continuidade das histórias.

Tex em Cores nasceu, tanto no Brasil como na Itália, porque os seus criadores decidiram reviver, totalmente em cores, as aventuras inocentes e deliciosas do famoso herói e descortinar as suas origens secretas para novos leitores. Infelizmente, os resultados não ocorreram como esperado, já que a preferência da maioria dos leitores de Tex se mostrou ser por histórias do Ranger em preto e branco.

Com o passar do tempo e o aumento de custos gráficos, o título tornou-se inviável nos moldes em que foi concebido – que levou a Mythos Editora ao Catarse.

A campanha

A ideia de levar Tex em Cores para o Catarse surgiu com base nos novos tempos vividos pela banda desenhada mundial: o formato deluxe, que também invadiu o mercado brasileiro, apresentando tamanhos diferenciados e acabamento gráfico mais sofisticado, com arcos de histórias auto-contidos.

Tex em Cores não apresentava esses quesitos em sua publicação periódica e acabou se tornando comercialmente inviável, o que forçou a Mythos a descontinuá-la.

Mas e os leitores, ainda que em número não tão expressivo, que adoravam a coleção? A Mythos podia simplesmente abandoná-los? O coração dos responsáveis da editora apertou-se, mas uma decisão precisava ser tomada. Manter Tex em Cores nos moldes actuais seria impossível. O que poderia ser feito para não deixar os seus fiéis leitores na mão?

Lançar o produto pelo Catarse, é claro, e atender, de maneira financeiramente saudável, todos aqueles que adoram o título.

Só que há um porém: para isso, a Mythos precisa da SUA ajuda, já que a continuidade de Tex em Cores depende exclusivamente do sucesso deste projecto.

O que você vai encontrar nessa edição especial é uma deliciosa aventura tamanho big, trazendo as origens do personagem, mostrando como Tex se tornou o Ranger que conhecemos hoje e revelando o seu delicado histórico de fora-da-lei, seguido de uma contribuição casual com a corporação dos Rangers para capturar terríveis malfeitores que espalhavam medo pelo oeste americano e banhavam a terra com sangue inocente.

Estamos com todos os dedos cruzados para que o projecto dê muito certo e outras pessoas se interessem pela série. Contudo, se a editora Mythos não tiver um feedback positivo dos leitores e a meta da campanha não atingir 100%, isso será sinal de que essa nossa e querida revista infelizmente precisará de se aposentar.

Brasil x Itália

Ao contrário do que se imagina, o segmento de quadrinhos no Brasil é bastante limitado. Estranho, não? Com tantos lançamentos e editoras independentes, a sensação é a de ser um mercado enorme e em franca expansão.

Não é bem assim. Tomando como base as pesquisas nacionais da Nilsen (órgão dedicado a levantamentos do mercado editorial brasileiro), o “grande pequeno” gigante não passa de 2% do mercado editorial total, que engloba revistas, livros, livros infantis, livros didácticos e todo o restante de publicações impressas ou em formato e-book.

Quando comparamos o Brasil com o resto do mundo, surgem discrepâncias enormes. A Europa – principalmente Itália, França e Bélgica – é a maior produtora e consumidora de BDs no mundo, exceptuando-se o eixo asiático, é claro.

E não é à toa: no mercado italiano, assim como no franco-belga, o hábito da leitura é algo cultural, ligado a uma base educacional forte, com estímulos constantes à leitura desde a primeira infância, vida académica e fase adulta. Para se ter uma ideia, o nível de produção nesses países é tão amplo que existem sagas em banda desenhada utilizadas em escolas para o ensino de História, Geografia e Conhecimentos Gerais – algo bem diferente do Brasil, onde faltam incentivos à educação e à leitura, e as BDs acabam ficando em segundo ou terceiro plano, ou reservadas à idade infanto-juvenil, como mera diversão ou passatempo.

As diferenças de renda entre as classes A, B, C e D também influem muito no acesso à leitura. Quanto menor o poder aquisitivo, menor a busca pela leitura – no caso, banda desenhada.

Você pode indagar, e com razão, por que então vemos tantos livros sendo consumidos e tantas notícias sobre uma expansão, ainda que tímida, do mercado editorial brasileiro?

A resposta está no tipo de consumidor e no tipo de consumo: hoje, o mercado editorial como um todo sofre de certos vícios, em que se priorizam as aquisições estéticas mais do que as de conteúdo, gerando uma demanda que se retroalimenta: beleza visual, que se liga ao custo gráfico, que se liga ao desejo de exibição (nas estantes), que se liga à superficialidade da aquisição, que se liga ao preço, que se liga à elitização, que se liga à possibilidade de consumo, que se liga à capacidade financeira, que se liga diretamente a você, o consumidor final que determina a tiragem.

Tanto a compra de insumos (tinta, chapas, papel, etc.) como a negociação de direitos autorais são feitas em moeda estrangeira, e a desvalorização da moeda brasileira frente a outras agrava ainda mais os custos editoriais, impactando directamente no preço final do produto.

Com um país tão grande como é o Brasil, é um verdadeiro pesar que boa parte da população ainda seja enquadrada como “analfabeta funcional”. Mas essa é uma realidade esperada nos países “em desenvolvimento” ou “subdesenvolvidos”, sendo reflexo de uma sociedade deficitária em sua base mais importante para a formação e renovação continuada de leitores: a educacional.

RECOMPENSAS: em todas as recompensas você ganha um certificado de apoio (excepto para comic shops)!

Para o combo das comic shops: a Mythos entrará em contacto com os apoiadores para que lhes enviem os logótipos das respectivas comic shops em altíssima resolução para que possa personalizar os brindes de cada um 😉 Fiquem atentos: o contacto será feito na primeira semana subsequente do término da campanha.

META 1 – R$20.000,00

META 2 – R$25.000,00

Meta extra: se a meta for atingida, além do que o apoiador já tem ainda vai ganhar:

+ Pôster B (Cartaz de Procurado – revelação surpresa)

+ Marca-página B especial com faca (rifle do Tex)

***excepto para Combo Comic Shop.

Sobre a Mythos Editora

Criada em 1996,
a Mythos Editora é uma empresa dinâmica, conhecida no mercado editorial brasileiro e internacional pela qualidade de suas publicações. O portfólio de produtos destaca-se pela alta qualidade gráfica e de conteúdo. A editora materializa a experiência dos seus sócios-proprietários – Dorival Vitor Lopes e Helcio de Carvalho – editores na gigante Abril por mais de 15 anos. A empresa continua ampliando o seu espectro de publicações, sempre priorizando a qualidade e ocupando um lugar cada vez mais significativo no disputadíssimo mercado editorial brasileiro.

https://www.lojamythos.com.br/

facebook.com/hqsmythoseditora/

instagram.com/mythoseditora/

Cronograma

Campanha: 29/04/2022 até 08/06/2022

Compensação de últimos boletos: de 09/06/2022 até 14/06/2022

Período para pagamento do Catarse: de 15/06/2022 até 04/07/2022

Impressão: entre 05/07/2022 e 20/07/2022

Pacotes: 21/07/2022 a 25/07/2022

Prazo Correios: 5 a 15 dias úteis

Orçamento

Meta R$25.000,00
70% custo gráfico
16% produção do projeto, direitos autorais, impostos
13% Catarse
6% Recompensas

As Leituras do Pedro: J. Kendall – As aventuras de uma criminóloga #148

As Leituras do Pedro*

J. Kendall #148 – Aventuras de uma criminóloga
Myhtos Editora
Brasil, Setembro/Outubro de 2020
135 x 180 mm, 256 p., pb, capa mole, bimestral
R$ 24,90

Carne de açougue
Berardi
e L. Calza (argumento)
Ernesto Michelazzo (desenho)

Atrás das grades
Berardi
e M. Mantero (argumento)
Antonio Marinetti (desenho)

O poder de uma capa

Costuma dizer-se que a capa é a porta de entrada num livro. É dela que, muitas vezes, depende a compra impulsiva de uma obra – ou, em sentido inverso, a recusa dessa compra. Mais a mais, numa publicação regular mensal como é Julia em Itália – e agora também no Brasil, travestida de Júlia – em que a capa pode ter papel preponderante na captação do leitor ocasional ou de passagem.

No caso presente – da edição brasileira, que tem sempre de optar pela capa de uma das duas publicações originais contidas no volume (no tempo em que eles eram duplos…) – a escolha não podia ter sido mais acertada. Porque uma capa tem de criar curiosidade, provocar surpresa, dar vontade de entrar na obra e desfrutar dela. E, nesta caso, assistir à colocação da criminóloga de Garden City numa cela, dificilmente poderia ser mais aliciante e desafiador para os leitores. Para os fãs – e para aqueles  que só se encontraram com Julia aqui ou ali.

Escrevi há dias, a propósito do aconselhável Na prisão, que “quando falamos em narrativas de prisão, naturalmente vêm de imediato à mente duas temáticas – muitas vezes complementares: as grandes fugas, por um lado, ou as histórias hiper-violentas sobre a dura realidade quotidiana de quem está preso, sujeito à prepotência dos guardas ou à opressão dos gangs”. Atrás das grades, num primeiro momento, parece encaixar mais na segunda tipologia com Julia a ser agredida – nem sempre (só) fisicamente – por guardas e prisioneiras na chegada à sua “nova casa”.

Não vou revelar o que levou a criminóloga a ver a vida ‘do outro lado’ mas – mais uma vez – esta narrativa é daquelas que me deixa algo desiludido por, a meu ver, não se enquadrar no perfil (bem) traçado de Julia. Se a conhecemos como tímida e reservada, psicóloga e não mulher de acção, mulher sensível e introspectiva, mais interessada em penetrar na mente dos criminosos do que em ter parte em perseguições, tiroteios e confrontos violentos, custa-me quando Berardi se nega a si mesmo, fazendo da sua protagonista o que ela nunca (?) poderá ser – com a possível excepção daquelas situações extremas cujo efeito em nós se torna impossível prever ou antever.

E para cúmulo, perto do final, quando o leitor está já convencido que esta história é apenas a primeira parte de um conto de maior dimensão, em poucas páginas Berardi finaliza-a de forma coerente, sim, mas muito apressada

…mas que a capa desperta a atenção e a vontade de ler, ninguém o nega! Bem mais do que a imagem ‘preterida’, presente na contracapa da edição, apesar de ser bem mais chocante e violenta tout court.

…até porque, a narrativa que abre este mini-álbum, Carne de açougue, se revela muito mais interessante – e tem Julia no seu devido lugar.

O ponto de partida são décadas de maus-tratos domésticos, segue-se a descoberta do cadáver do agressor e a inevitável investigação em que abuso, adultério e amor maternal se vão revelando em diferentes doses e momentos, numa investigação em que a aparente verdade se revelará enganosa mais de uma vez e, quando finalmente vier ao de cima, certamente surpreenderá a maioria dos leitores.

Aqui sim, Julia assume-se como a investigadora social e Berradi brilha num relato tenso e incómodo que aborda alguns dos problemas de relacionamento que facilmente encontramos ao nosso redor.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(capa disponibilizada pela Mythos Editora; pranchas disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

Entrevista exclusiva: Roberto DISO

* Entrevista conduzida por Pedro Cleto

Convidado da 7.ª Mostra do Clube Tex Portugal, que teve lugar no Museu do Vinho Bairrada, nos passados dias 30 de Abril e 1 de Maio, mas onde infelizmente não pôde comparecer devido a razões pessoais alheias à sua vontade, Roberto Diso, um veterano dos quadradinhos italianos, concedeu uma entrevista ao Jornal de Notícias, publicada na edição online de 29 de Abril.

Fica agora a versão integral dessa conversa, feita à distância, e que não teria sido possível sem a inexcedível disponibilidade de José Carlos Francisco e Júlio Schneider, a quem agradeço.

Roberto Diso

Pedro Cleto – Mister No foi o herói a que dedicou a maior parte do seu tempo enquanto desenhador. O que tem ele de especial? O que tem ele de Roberto Diso?
Roberto Diso – Certamente os meus cabelos de então, que eram escuros com as têmporas grisalhas. O próprio Sergio Bonelli me pediu para destacar esse detalhe em Mister No. E também algumas características psicológicas que eu e o Sergio tínhamos em comum com a personagem.

Pedro Cleto – Se tivesse de escolher só uma história, qual a que o marcou mais e porquê?
Roberto Diso – Sem contar as de Mister No, porque haveria mais de uma e a resposta seria longa, eu diria Mohican (romance gráfico com roteiro de Paolo Morales, 2010, SBE), história com personagens intrigantes, possuidoras de várias facetas psicológicas e que actuam em territórios diversos, o que me permitiu abordar graficamente situações ambientais sempre diversificadas, sem um momento sequer de tédio, o que por vezes pode ocorrer quando por várias páginas os protagonistas permanecem sempre no mesmo cenário.

Pedro Cleto – Também desenhou Tex, Volto Nacosto, Dragonero… Qual o seu preferido? Porquê?
Roberto Diso – Tex, naturalmente, e creio que tal se deve sobretudo porque eu gosto demais de desenhar cavalos e cenários western.

Pedro Cleto – Quase 70 anos a desenhar banda desenhada: foi um sonho que por vezes se tornou um pesadelo?
Roberto Diso – Não, isso nunca, mas um pouco de tédio digamos que por vezes sim.

Pedro Cleto – O que lamenta não ter feito na sua carreira?
Roberto Diso – Não ter pintado tantos quadros quanto eu gostaria, e não ter podido levar em frente a personagem de Rodo, o Cavaleiro, de quem fiz roteiro e desenhos (1985, publicada nas revistas Giungla!, da Editora Nerbini, e L’Eternauta, da Comic Art).

Pedro Cleto – Que conselho daria a um novo autor que queira desenhar para a Sergio Bonelli Editore?
Roberto Diso – Dedicar toda a atenção possível à anatomia de seres humanos e de animais para entender bem como se movem, e também as expressões faciais de homens e mulheres, é importante porque transmitem emoções.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Vídeo na Cerimónia de Inauguração da 7.ª Mostra do Clube Tex Portugal – “O reencontro de Tex Willer com a Bairrada…”

A finalizar a memorável Cerimónia de Inauguração da 7.ª Mostra do Clube Tex Portugal, realizada no sábado, dia 30 de Abril e com a presença da autora Laura Zuccheri e antes do Espumante de Honra (não nos esqueçamos que o evento foi na capital da Bairrada, mais precisamente no Museu do Vinho Bairrada) oferecido pela Direcção do Clube Tex Portugal e pelo Museu do Vinho Bairrada, foi exibido um curto vídeo (perante um auditório praticamente repleto), realizado por Andreia Sofia Francisco, intitulado “O reencontro de Tex Willer com a Bairrada…” mostrando a eternização de momentos inesquecíveis das Cavalgadas de Tex, do seu fiel Dinamite e dos seus autores e fãs  por Terras Bairradinas, com a musicalidade do vídeo a ser da autoria da banda Thriving Ivory com a sua popular canção intitulada Angels On The Moon, como damos de seguida a conhecer aqui no blogue do Tex a todos os nossos leitores:

As Leituras do Pedro: Rattlesnake

As Leituras do Pedro*

Rattlesnake
João Amaral
Escorpião Azul
Portugal, Abril de 2022
170 x 240 mm, 80 p., cor, capa cartão com badanas

Experiências

Primeira experiência ‘oficial’ de João Amaral no western, um tipo de narrativa que tanta admira, Rattlesnake é uma obra de contrastes.

O ponto de partida é um dos estereótipos do género: um rico e influente proprietário de terras, habituado a ser obedecido e prepotente, com uma pequena cidade dominada por si, tenta anexar mais uma propriedade ao seu vasto erário, tendo que lidar com a recusa do dono e uma inesperada oposição.

Narrada – melhor ou pior – inúmeras vezes, esta história sofreu por parte de João Amaral a introdução de alguns elementos capazes de fazer alguma diferença.

O primeiro, é o facto de Rattlesnake ter como protagonista uma mulher, ainda jovem. Não sendo a primeira vez que acontece, não é vulgar. Faltou (neste volume?) justificar essa escolha – nada no argumento marca a(s) diferença(s) que se poderia(m) esperar – e dar-lhe espessura e carácter, por exemplo através de saltos temporais que encontrassem no seu passado, a razão para as suas (pouco habituais) opções presentes.

Outro facto, embora menor, que introduz um carácter distintivo, é a questão do racismo associada à tentativa de expropriação, pois os donos do terreno são negros.

Apesar destes pontos originais, Rattlesnake, para lá do já indicado, revela diversas fragilidades.

A primeira revela-se ao nível dos diálogos – e aqui convém relevar que João Amaral é autor completo, o que acontece pela primeira vez num projecto desta dimensão – algumas vezes excessivos e com uma linguagem demasiado cuidada – mais própria do registo escrito do que do registo oral expectável – que não se enquadra com as personagens nem com o tempo e local.

Apesar disso, o João Amaral escritor conseguiu imprimir ao seu relato um certo tom ponderado e pausado que acentua e potencia o clima de tensão crescente, mas esse aspecto retirou-lhe (em termos de páginas) a possibilidade de gerir melhor algumas das cenas (a inicial, no bar, o desvio da água, o assédio final…), resolvidas de forma demasiado simplista e apressada, o que acaba por lhes retirar credibilidade. E mais, à tensão crescente referida, faltou um clímax de acção mais prolongado e efectivo e um final menos expedito e linear.

Mudando a agulha para o João Amaral desenhador, a um tempo veterano e novo autor, ele não ficou atrás do seu ‘parceiro escritor’, neste clima de contrastes.

Veterano pelos muitos títulos já editados, João Amaral desenha aqui pela primeira vez um álbum inteiramente a aguarelas, embora com alguns ajustes digitais nas cenas nocturnas. Talvez por isso, por essa ‘inexperiência’, se há cenas e/ou pranchas que surgem mais agradáveis e balanceadas, outras indiciam a necessidade de mais trabalho, com as questões técnicas a influenciarem o tratamento desequilibrado da figura humana ao nível dos corpos, das expressões e do dinamismo que se espera associado a um western. Curiosamente, João Amaral sai-se bem melhor da representação dos cavalos, que geralmente são o calcanhar de Aquiles daqueles que abordam o género. Da leitura, quase me ficou a sensação de João Amaral ter utilizado dois tipos de traço: um mais realista, menos conseguido, e outro (quase) semi-caricatural, que acaba por se revelar mais equilibrado e mesmo funcional no conjunto do livro.

Finalmente, referenciando o terceiro (!) João Amaral, o colorista, se é verdade que nos cenários diurnos se estaria à espera de tons mais quentes e opressivos compatíveis com os cenários exteriores de deserto ou planícies secas e rochosas, a verdade é que os tons aplicados não se revelam desajustados do conjunto.

Duas questões finais. A primeira, a pose ‘canhota’- também ela recorrente em tantos westerns! – que a protagonista exibe na capa, mas que a realidade interior desmente. A segunda, a longa saia que veste, que soa ‘funcionalmente’ incompatível com as acções que pratica.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(capa disponibilizada pela Escorpião Azul; imagens disponibilizadas pelo Tex Willer Blog; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)