As Leituras do Pedro – Nathan Never: El alma de la ciudad

As Leituras do Pedro*

Nathan Never #7 El alma de la ciudad
Alberto Ostini (argumento)
Andrea Cascioli (desenho)
Roberto De Angelis (capa)

Aleta Ediciones
Espanha, Setembro de 2006
160 x 210 mm, 96 p., pb, capa cartão

A mesma história

Para aqueles que defendem que só há um número muito restrito de histórias para contar, mudando depois a forma e o estilo para as tornar diferentes, El alma de la ciudad é um bom exemplo disso.

Relato policial de contornos humanos, tanto se podia situar no mundo hiper-futurista de Nathan Never, como em qualquer outro tempo e espaço – atrevo-me a dizer em todo e qualquer dos universos Bonelli…

Na sua origem, está a figura do bom gigante, inocente da acusação de homicídio de uma adolescente – com o protagonista não ingenuamente baseado nos traços de Michael Clarke Duncan, intérprete principal de The Green Mile – o que não im pede que seja preso e condenado.

A partir daqui, o argumentista Alberto Ostini começa a fazer a diferença, desde logo pela forma como a história está contada, saltitando entre diversos intervenientes, introduzidos nas páginas iniciais como elementos anónimos da alma da grande cidade, aparentemente desconexos e sem nada que os relacione. O facto de Nathan Never parecer sempre um passo atrás do que devia, o peso das ambições políticas e pessoais, a facilidade com que um sistema de justiça pode errar e o constante sentimento de impotência e de ‘não vale a pena’ são os restantes elementos de uma história que se lê com interesse crescente, mas que no fim deixa um sabor muito amargo, pese o (aparente?) final feliz…

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

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Póster Tex Nuova Ristampa 330

Póster Tex Nuova Ristampa 330

Nesta nova ilustração da autoria de Claudio Villa vemos Tex adentrando no Canyon dos Antigos Ídolos, local onde se situam as cavernas do ouro dos Navajos, quando ia em perseguição de alguns patifes que tinham profanado o túmulo de Lilyth, mulher de Tex e mãe de Pequeno Falcão e que pretendiam chegar ao ouro dos Montes Navajos.

Desenho INÉDITO no Brasil e inspirado na história “Uomini in fuga” de Claudio Nizzi e Giovanni Ticci (Tex italiano #500).
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Texto de José Carlos Francisco

Laura Zuccheri e alguns dos desenhos feitos na passagem pela 7ª Mostra do Clube Tex Portugal, em Anadia

Por José Carlos Francisco (texto) e Orlando Santos Silva (fotos)

No decurso da 7ª Mostra do Clube Tex Portugal, Laura Zuccheri brindou dezenas de Texianos (e Texianas) presentes com desenhos feitos no momento por si, para gáudio de quase todos os presentes no evento bairradino.

Mas os desenhos realizados por Laura Zuccheri não se ficaram apenas pelos produzidos no decorrer do evento, isto porque a Laura foi muito assediada pelos seus fãs na tentativa de conseguirem um desenho original de sua autoria feito na hora e com a respectiva dedicatória, levando a que a autora italiana tivesse por vezes que os realizar em condições inapropriadas, mas a todos Laura Zuccheri sempre respondeu positivamente, apesar de em alguns casos o cansaço da autora ser bem visível no seu rosto, fazendo um belíssimo desenho a cada Texiano e sempre com um sorriso encantador no rosto dando uma verdadeira lição de profissionalismo e de humildade, confirmando porque Laura Zuccheri foi tão admirada pelos seus fãs portugueses e brasileiros presentes no evento.

O blogue do Tex mostra de seguida, a todos os interessados, alguns desses fantásticos desenhos que esperamos sejam do agrado de quem acessa o blogue:

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Tex na capa (e no interior) do Jornal de Notícias de hoje, 24 de Maio de 2022

Texto da secção Cultura de 24/05/2022
F. Cleto e Pina

O renascer do western

* Banda desenhada multiplica abordagens às histórias de cowboys. “Tex” é o decano destas publicações

“Caravana do Oeste”, “Sioux”, “Bonanza”, “Mascarilha”, “Buffalo Bill”… foram algumas das muitas revistas de BD dedicadas aos heróis do velho Oeste, que encheram os quiosques nas décadas de 1970 e 1980.

E títulos marcantes do jornalismo infantojuvenil nacional, como “O mosquito”, “Cavaleiro andante”, “Tintin” ou “Mundo de aventuras”, tiveram sempre nas suas páginas lugares para os heróis de tiro certeiro. A última, aliás, durante alguns anos, na década de 1960, chegou a publicar exclusivamente histórias daquele género.

Depois, as revistas foram desaparecendo e dando lugar aos álbuns e na BD – como no cinema e noutros géneros narrativos – decresceu o interesse por esta temática. Em todo o Mundo? Não, porque em Itália “Tex”, contra ventos e marés, em publicação ininterrupta desde 1948, continuou a percorrer desertos e planícies, perseguindo foras da lei, enfrentando índios e disparando primeiro, para perguntar depois.

E é este mesmo Tex um dos protagonistas pelo renascer do western em Portugal, onde, à imagem de outros mercados, se vão sucedendo as edições, quase uma dezena já desde o início do ano.

Narrativa de estilo mais clássico, no díptico “O vingador”/”Justiça em Corpus Christi”, encontramos um Tex jovem, ainda fora da lei, à procura de vingar-se dos assassinos dos seus pais. Igualmente ao abrigo dos bons estereótipos do género, “Duke” assume contornos mais crepusculares e desencantados, com os homens a pressentirem o final de uma época – e os leitores a assistirem ao ocaso de Hermann, um dos maiores desenhadores que a BD europeia conheceu.

SEDE DE LIBERDADE
Se a conquista do Oeste foi uma época de grandes heróis, num tempo em que cada um empunha a sua lei, “Wild West” reúne Calamity Jane e Wild Bill Hickok, , ficcionando livremente a sua história e contribuindo para o crescimento das lendas.

Ainda neste âmbito, de forma bastante original e cativante, “Don Vega” é uma variação sobre a origem de um dos seus mais famosos heróis, o Zorro, numa Califórnia assolada pelo desejo de independência e a luta contra a opressão mexicana e americana.

Mas nem só de narrativas mais tradicionais se vai fazendo este regresso do western às histórias aos quadradinhos. Em “Lonesome”, nuns Estados Unidos em convulsão pela abolição parcial da escravatura, Yves Swolfs, um veterano do género, põe em cena um protagonista, mais uma vez solitário e em busca de vingar a morte dos pais, com a invulgar capacidade de ver o passado e o destino daqueles em que toca, numa perseguição sem fim ao longo de um país em busca de rumo.

Avançando no tempo, mas ainda no mesmo espaço, “Nevada” assume os tempos de mudança, com cavalos e tiroteios a conviverem com os primeiros automóveis e motas, já sob a sombra predadora de Hollywood e com os grandes estúdios a imporem a sua lei.

De comum a todos, ficam os grandes espaços, a sede de liberdade, a procura de justiça (que tantas vezes soa a vingança) e uma interessante combinação de modernidade e nostalgia.

HERÓIS
Exceções lusas que confirmam a regra

Portugal teve muitas revistas de BD dedicadas ao western, mas foram poucos os heróis com assinatura nacional. “Rattlesnake”, de João Amaral, é a mais recente exceção. Distingue-se pela entrega do protagonismo a uma mulher, caçadora de prémios, conhecida pelo pseudónimo que dá título ao livro, por imitar uma cascavel antes de eliminar aqueles que persegue, e também pela introdução da temática do racismo, numa história sobre apropriação ilegal de terras.

Copyright: © 2022 Jornal de Notícias;
F. Cleto e Pina

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As Leituras do Pedro – Tex: O Vingador/Justiça em Corpus Christi

As Leituras do Pedro*

Tex, o Vingador
Mauro Boselli (argumento)
Stefano Andreucci (desenho)

Tex: Justiça em Corpus Christi
Mauro Boselli (argumento)
Corrado Mastantuono (desenho)
A Seita
Portugal, Março/Abril de 2022
215 x 285 mm, 56 p., cor, capa dura
14,00 €

Solidificação

Em anos recentes, tem sido visível o esforço por parte da Sergio Bonelli Editore para diversificar a sua oferta em geral, e no que a Tex diz respeito, em particular.

Neste último caso, a par da introdução da cor em edições clássicas – criadas para o preto e branco… – tem havido histórias coloridas, formatos diferentes e – o que vos trago aqui hoje – o preenchimento das muitas lacunas do passado do ranger, que Gianluigi Bonelli no seu tempo apenas referiu episodicamente e de forma passageira.

Aliás, pouco mais se sabe da juventude do (agora) ranger do que o facto de ter nascido como fora-da-lei – o que rapidamente foi justificado pelas mortes causadas como justiça pelo assassinato dos pais.

É exactamente neste ponto que Mauro Boselli, actual curador da personagem, nos apresenta o ‘seu’ jovem Tex neste díptico que A Seita acaba de completar em português.

Do Texas ao México e de volta, apenas pontualmente com a parceria do seu irmão (pacifista…) Sam Willer e dos rangers Jim Callahan e Dan Bannion, Tex vai perseguir os assassinos da sua família, aproveitando de passagem para destruir negócios ilegais de alguns dos seus parceiros de carácter duvidoso.

A primeira pergunta que se impõe é: era necessário? Tex precisava de um passado esquadrinhado ao pormenor? A resposta é sim e não. Sim, porque a Bonelli precisa de continuar a vender o seu produto mais comercial e esta é uma forma de o conseguir, quer junto de novos leitores, quer apelando à nostalgia dos seus leitores tradicionais. E a resposta é não, porque o ‘mito’ Tex está suficientemente ancorado no imaginário de muitos, para necessitar destas extensões.

E é não, também, porque, para o bem e para o mal, esta história – como outras da mesma época – poderiam perfeitamente ser protagonizadas por uma personagem com outro nome, sem que houvesse necessidade de lhe alterar uma vírgula ou uma ruga. A temática é suficientemente universal e o protagonista suficientemente credível por si só, para ser necessária a muleta ‘Tex’.

Embora seja evidente que é essa muleta que dá a este díptico (outras) pernas para andar, alavancando as suas vendas.

Embora – novamente – o ‘jovem Tex’ seja diferente (ainda) do ‘Tex maduro’: mais impulsivo, mais rápido no gatilho, mais sujeito a falhar também. Mas um ‘antepassado’ credível e consistente do ranger que (re)conhecemos – e no qual estas vicissitudes juvenis o transformaram. É também um Tex mais solto, menos sujeito a hierarquias (do corpo dos rangers) ou a responsabilidades (enquanto chefe dos navajos) e por isso com uma liberdade extra – que a falta de parceiros regulares também beneficia.

Porque, quanto ao mais, este é um western tradicional, baseado num dos seus estereótipos mais repetidos, o desejo de vingança de um jovem que perdeu os pais. Mas é bem narrado sem dúvida – o que faz toda a diferença – e tira todo o proveito do formato alternativo – franco-belga – nele (bem) explorado. Curiosamente, para os que esperam uma história mais curta, por ter apenas 48 páginas, será uma boa surpresa descobrir que, fruto da planificação mais cerrada – com até 5 tiras por prancha e com a inclusão de vinhetas dentro de vinhetas – a leitura ‘renderá’ bem mais do que o esperado – mais a mais quando comparada com as que são traçadas na grelha original Bonelli de 3 (tiras) x 2 (vinhetas).

Isto, sem que se perca a oportunidade de desfrutar da bela arte de Stefano Andreucci (no primeiro volume) e de Corrado Mastantuono (no segundo), autores que se revelam à vontade num género sempre difícil como o western, nos exteriores poeirentos como nas exíguas povoações ou no interior das suas casas, no desenho dos (traiçoeiros) cavalos como no retrato proporcionado e dinâmico da figura humana, fazendo jus à fama da Bonelli no que à qualidade dos seus desenhadores diz respeito.

Para além do já referido, Boselli explora bem algumas sequências mudas – como a que abre O Vingador – variando assim o ritmo narrativo e dando a sensação ao leitor de que é ele que pauta a leitura. Depois, há o expectável neste tipo de banda desenhada: cavalgadas, tiroteios, algumas surpresas e a vitória do herói sobre os vilões.

Pode soar a pouco para alguns, mas cumpre integralmente – e com mérito – os seus propósitos.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

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