Tex na capa (e no interior) do Jornal de Notícias de hoje, 24 de Maio de 2022

Texto da secção Cultura de 24/05/2022
F. Cleto e Pina

O renascer do western

* Banda desenhada multiplica abordagens às histórias de cowboys. “Tex” é o decano destas publicações

“Caravana do Oeste”, “Sioux”, “Bonanza”, “Mascarilha”, “Buffalo Bill”… foram algumas das muitas revistas de BD dedicadas aos heróis do velho Oeste, que encheram os quiosques nas décadas de 1970 e 1980.

E títulos marcantes do jornalismo infantojuvenil nacional, como “O mosquito”, “Cavaleiro andante”, “Tintin” ou “Mundo de aventuras”, tiveram sempre nas suas páginas lugares para os heróis de tiro certeiro. A última, aliás, durante alguns anos, na década de 1960, chegou a publicar exclusivamente histórias daquele género.

Depois, as revistas foram desaparecendo e dando lugar aos álbuns e na BD – como no cinema e noutros géneros narrativos – decresceu o interesse por esta temática. Em todo o Mundo? Não, porque em Itália “Tex”, contra ventos e marés, em publicação ininterrupta desde 1948, continuou a percorrer desertos e planícies, perseguindo foras da lei, enfrentando índios e disparando primeiro, para perguntar depois.

E é este mesmo Tex um dos protagonistas pelo renascer do western em Portugal, onde, à imagem de outros mercados, se vão sucedendo as edições, quase uma dezena já desde o início do ano.

Narrativa de estilo mais clássico, no díptico “O vingador”/”Justiça em Corpus Christi”, encontramos um Tex jovem, ainda fora da lei, à procura de vingar-se dos assassinos dos seus pais. Igualmente ao abrigo dos bons estereótipos do género, “Duke” assume contornos mais crepusculares e desencantados, com os homens a pressentirem o final de uma época – e os leitores a assistirem ao ocaso de Hermann, um dos maiores desenhadores que a BD europeia conheceu.

SEDE DE LIBERDADE
Se a conquista do Oeste foi uma época de grandes heróis, num tempo em que cada um empunha a sua lei, “Wild West” reúne Calamity Jane e Wild Bill Hickok, , ficcionando livremente a sua história e contribuindo para o crescimento das lendas.

Ainda neste âmbito, de forma bastante original e cativante, “Don Vega” é uma variação sobre a origem de um dos seus mais famosos heróis, o Zorro, numa Califórnia assolada pelo desejo de independência e a luta contra a opressão mexicana e americana.

Mas nem só de narrativas mais tradicionais se vai fazendo este regresso do western às histórias aos quadradinhos. Em “Lonesome”, nuns Estados Unidos em convulsão pela abolição parcial da escravatura, Yves Swolfs, um veterano do género, põe em cena um protagonista, mais uma vez solitário e em busca de vingar a morte dos pais, com a invulgar capacidade de ver o passado e o destino daqueles em que toca, numa perseguição sem fim ao longo de um país em busca de rumo.

Avançando no tempo, mas ainda no mesmo espaço, “Nevada” assume os tempos de mudança, com cavalos e tiroteios a conviverem com os primeiros automóveis e motas, já sob a sombra predadora de Hollywood e com os grandes estúdios a imporem a sua lei.

De comum a todos, ficam os grandes espaços, a sede de liberdade, a procura de justiça (que tantas vezes soa a vingança) e uma interessante combinação de modernidade e nostalgia.

HERÓIS
Exceções lusas que confirmam a regra

Portugal teve muitas revistas de BD dedicadas ao western, mas foram poucos os heróis com assinatura nacional. “Rattlesnake”, de João Amaral, é a mais recente exceção. Distingue-se pela entrega do protagonismo a uma mulher, caçadora de prémios, conhecida pelo pseudónimo que dá título ao livro, por imitar uma cascavel antes de eliminar aqueles que persegue, e também pela introdução da temática do racismo, numa história sobre apropriação ilegal de terras.

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F. Cleto e Pina

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