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Os sinos dobram por Lucero!
Por Jesus Nabor Ferreira*
“No Arizona, ao lado da trilha que liga Nogales a Tucson, passando pelos contrafortes orientais da Cordilheira Santa Rita. Uma dupla de condutores leva a diligência pela estrada que conduz a Tubac (pequeno povoada na trilha para Nogales) sem desconfiar que os seus destinos e os de todos os passageiros está selado. Escondidos no alto de uma encosta, um grupo de apaches prepara o seu ataque sanguinário.” Assim começa uma das mais eletrizantes aventuras texanas criadas por Gianluigi Bonelli e Guglielmo Letteri.
Os apaches atacam
Um bando de selvagens apaches aterroriza a região da fronteira entre o México e os Estados Unidos. O bando leva o terror a todos os que cruzam as fronteiras entre os estados do Arizona e Novo México, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. A violência com que empreendem os seus ataques só é superada pela astucia em desaparecer completamente dos locais dos assaltos. Mesmo sendo perseguidos por xerifes, militares e rangers, os misteriosos mescaleros desaparecem sem deixar rasto algum. As buscas pelo seu esconderijo resultam infrutíferas, ficando apenas a certeza de que novos ataques virão, espalhando medo e desespero entre todos aqueles que precisam viajar pelas poeirentas e perigosas trilhas do velho oeste.
Impotentes para fazerem frente aos ataques dos mescaleros, os militares pedem a ajuda de Tex e dos seus amigos, na tentativa de que estes possam, devido à sua fama de lidarem com situações parecidas e das quais saíram vitoriosos, solucionar o mistério que envolve o perigoso bando. Ao tomar conhecimento dos factos, Tex logo percebe que há uma diferença entre estes ataques praticados pelo grupo de selvagens e as demais ações envolvendo grupos de índios rebeldes: os índios atacam caravanas, ranchos e diligências, apenas para provarem o seu valor em combate, a sua bravura, levando como saque os animais, geralmente cavalos ou gado, e também armas ou bebidas. No caso de ataques mais violentos, retiram também os escalpes das suas vítimas. Mas nunca saqueiam valores económicos, dinheiro, joias ou ouro, estes itens não têm valor para os índios, eles são objeto de cobiça do homem branco. Tex percebe que, neste caso em particular, os mescaleros assassinam, escalpam e roubam as suas vítimas. Fica visível que os ataques têm como motivação a obtenção de dinheiro. Isto faz com que o ranger perceba tratar-se de um caso incomum e que, aliado ao facto de os mescaleros conseguirem desaparecer após cada ataque, acrescentando que os atacantes não deixam ninguém vivo, nenhuma pista, demonstra que os quatros amigos estão diante de um adversário astuto e impiedoso.
Não há pistas que possam identificar os foragidos, o seu esconderijo e a motivação para tais ataques e massacres impiedosos. Mas o destino vai jogar uma cartada decisiva nesta partida mortal entre os nossos heróis e o temível bando dos mescaleros. Por um puro golpe de sorte, no último ataque praticado um homem sobrevive e, antes de perder completamente a consciência, escuta uma frase que vai decidir o destino dos apaches mescaleros. A mão negra e descarnada da morte começava a apontar o seu fétido e gélido dedo em direção ao homem chamado Lucero!
O homem chamado Lucero
Uma velha missão Jesuíta, a Missão de San Xavier. Alguns anos antes, um grupo de padres ministra os ensinamentos religiosos do homem branco a um grupo de jovens apaches e, entre estes, um em especial se destaca: o jovem Lucero é um aluno excecional que traz grande orgulho aos seus professores, que veem nele um futuro Homem de Deus. Mas o jovem mescalero tem outros planos para a sua vida e, logo após concluir o curso, foge da missão, levando todo o dinheiro e também um lindo e valioso crucifixo do seu mentor, o padre Tomas.
Lucero transformou-se num importante e rico “estanceiro”[i] que atende pelo nome de Don Fabio Esqueda, proprietário de extensas terras entre o sul do rio Alisos, indo em direção ao planalto dos Montes Coroados, na região de Sonora. Tendo como principal negócio a criação de cavalos e ovelhas, o inteligente índio dispõe de uma cobertura inocente para as suas verdadeiras atividades criminosas, arquitetando um estratagema eficaz e simples para o despistar e ocultar dos seus perseguidores: o bando dos mescaleros. Após a aplicação de cada golpe, os índios misturam-se com pastores de ovelhas, disfarçando-se de inocentes mexicanos, enquanto as pistas deixadas pelo bando acabam por se perder no meio dos rastos dos animais. Poucas vezes se viu um ardil tão simples e eficiente, que acaba por confundir e frustrar os perseguidores do bando.
Cochise, o irmão de sangue de Águia da Noite
O lendário chefe chiricahua, que durante muitos anos combateu os soldados americanos e mexicanos para defender a sua gente, é também um dos principais amigos de Tex Willer. Em diversas ocasiões, o ranger apelou ao amigo apache para resolver ou intermediar conflitos entre índios rebeldes. Nesta aventura, tanto o chefe dos chiricahua como o ranger têm interesse em desmantelar o bando dos mescaleros, pois os apaches de Cochise estão a ser alvo do ódio e da desconfiança das autoridades. Cochise irá usar a sua influência para descobrir informações sobre o misterioso Lucero.
O xerife de Tombstone
Após fazer o seu relatório ao coronel Brockman, Tex e os seus amigos dirigem-se para a cidade de Tombstone, para depois seguirem em direção aos Montes Coroados. E é em Tombstone que o destino vai colaborar para que Lucero não fique sem punição. Por uma incrível coincidência, o xerife de Tombstone lembrava-se de, alguns anos antes, ter conhecido na missão jesuíta um jovem índio que se chamava Lucero. Muito inteligente e talentoso, o jovem era o orgulho da missão. Tex não acredita em coincidências e decide ir até à missão investigar.
Nico Medranos, o espião dos Mescaleros
Mais uma demonstração da excecional inteligência do chefe dos mescaleros é a utilização do mascate[ii] mexicano Nico Medranos como espião, pois este tem o perfeito disfarce para circular tranquilamente entre os povoados sem levantar suspeita alguma, levando e trazendo informações sobre as movimentações do exército, dos transportes de valores e também levando mantimentos para os índios de Lucero. Nico Medranos também terá participação importante na derrocada do bando de mescaleros.
O crucifixo do padre Tomas
Esta aventura, que num primeiro momento parece ser apenas mais uma das muitas histórias clássicas do velho oeste, envolvendo confrontos entre índios e brancos, ao ser analisada de uma maneira mais profunda irá mostrar a razão de Gianluigi Bonelli ser considerado um dos mais geniais autores de sua geração. Bonelli pai, sempre engenhoso a criar as suas tramas cheias de drama, ação, violência, não dececiona os seus leitores e apresenta uma grande trama, onde estão presentes todos estes elementos e algo mais. Bonelli cria um antagonista aos nossos heróis dotado de uma inteligência superior e uma determinação em atingir os seus objetivos, não importando o que tenha de ser feito. Lucero não se detém diante de nada nem de ninguém, nem mesmo o homem que lhe salvou a vida é poupado.
Mas os pecados devem ser redimidos, os crimes castigados, e o preço da redenção muitas vezes é a morte. Com a devolução da cruz do pobre padre Tomas à Missão de San Xavier, o círculo finalmente fecha-se, cai a cortina final no grande drama protagonizado pelo mescalero Lucero no seu grande sonho de conquista e riqueza. Um dos mais implacáveis e inteligentes adversários que os rangers encontraram na sua carreira, finalmente encontra o seu derradeiro fim entre os muros da velha missão.
Algumas interessantes curiosidades a considerar sobre esta aventura
1 – Apesar de toda a astúcia, coragem e habilidade dos quatros pards, todas as pistas sobre os mescaleros acabam por incrivelmente vir parar às suas mãos por acaso. A única contribuição real para a solução do mistério é oferecida por Tex, que por duas vezes suspeita das estranhas coincidências envolvendo o nome de Lucero e também das atividades do mascate Nico. Tudo o resto deve-se ao acaso ou então ao destino, que já tinha apontado o seu dedo para o implacável líder dos mescaleros;
2 – Esta é a segunda vez, pelo menos nestas aventuras do ranger consideradas clássicas, onde Tex nunca se confrontará frente a frente com o seu adversário principal na trama. A outra situação iremos perceber na aventura O Filho de Mefisto, onde Tex e os seus amigos não se encontram em momento algum com Yama;
3 – Mesmo tendo como premissa uma aventura repleta de cenas de ação e violência, neste arco de histórias vemos muito pouco os rangers em ação. A bem da verdade, com exceção da luta mortal entre Jack Tigre e um índio mescalero ou a emboscada que irá determinar o fim do bando dos mescaleros, há pouca ou quase nenhuma cena de ação explosiva, tão comum a Tex e seus amigos. Aliás, parece mesmo que Gianluigi Bonelli quis que todo o protagonismo desta aventura fosse mesmo de Lucero, pois é ele quem tem as melhores cenas (lembramos que nos foi dito que ele era um ator nato quando estava entre os Jesuítas), deixando para Tex e seus pards o papel de atores coadjuvantes que cumprem à risca um script belamente elaborado com inteligência e perícia. Ao chegarmos ao fim desta aventura, não fica difícil torcer (um pouquinho que seja) para que finalmente Lucero encontre a sua redenção. O carisma do inteligente mescalero, que desejava que o seu povo pudesse viver livre, mesmo que lutando, desafiando o poder do homem branco invasor, que lhes tomou as terras e os obrigou a viver em reservas, não deixa de ter o seu encanto. O homem inteligente, que compreendeu que não poderia vencer o homem branco, mas que poderia enganá-lo, transformando um lobo num criador de cordeiros, um selvagem mescalero num Don (rico proprietário de terras), tem o seu fascínio como grande adversário de Tex. O seu lugar está ao lado dos grandes e implacáveis inimigos do ranger;
4 – Analisando mais profundamente o enredo desta aventura, encontramos um detalhe que passa despercebido num primeiro momento e que é mais uma prova da inteligência de Lucero (Gianluigi Bonelli): o implacável chefe mescalero ataca sempre as suas vítimas do lado americano, vivendo disfarçado no México. Ele não teme os xerifes ou os soldados, pois sabe que estes têm de obedecer às leis e aos limites das fronteiras. Mas isso não vale para os rangers.
OS APACHES – “Apache quer dizer inimigo!”
Os apaches, uma das mais antigas nações indígenas dos Estados Unidos, habitavam o Arizona, norte do México, Novo México, oeste e sudoeste do Texas e o sul do Colorado. Viviam geralmente entre as montanhas altas, os vales que contivessem água e fossem protegidos, as planícies e o deserto do sul. Hoje vivem em reservas indígenas designadas pelo governo americano.
Com o intuito de facilitar a colonização do oeste americano, o governo travou diversas guerras índias e dizimou a maior parte da população indígena do país. Os que não foram mortos nas guerras índias acabaram em reservas administradas pelo governo, geralmente em lugares inóspitos e bastante diferentes daqueles a que estavam habituados. A falta de liberdade para se deslocarem, o confinamento, os maus tratos e a negligência das autoridades, fizeram com que muitos chefes se revoltassem e fugissem das reservas.
Alguns dos maiores chefes apaches no período das guerras foram Cochise, uma das figuras mais conhecidas dentro e fora da ficção, Gerónimo, um dos mais ferozes líderes apaches e que causou diversas baixas aos soldados americanos e mexicanos nas chamadas guerras índias, e Mangas Coloradas, que acabou traído pelos militares.
A tribo dos apaches mescaleros foi reconhecida pelo governo americano em 1874 e hoje vive numa reserva no Novo México.
Cochise na ficção Bonelli
Muitos leitores não sabem, mas foi Guglielmo Letteri quem criou visualmente o grande chefe chiricahua Cochise, na edição número 83 da coleção italiana do Ranger, na aventura Il passato di Tex, publicada no Brasil pela editora Vecchi, no número 25, com o título A lança sagrada. Letteri cria uma figura imponente, dotada de grande dignidade e carisma. Outro grande desenhador que também retratou de maneira soberba o grande chefe chiricahua foi Erio Nicolò em Fantasmas do deserto.
O Cochise de Gianluigi Bonelli é um sábio chefe que procura o bem estar do seu povo e tem em Tex Willer, ou melhor, em Águia da Noite, o seu grande amigo e irmão de sangue. Os dois chefes entendem-se e o mútuo respeito entre ambos está presente em todos os encontros. Bonelli, ao criar a personalidade do líder apache, decalcou da figura real aqueles aspetos mais favoráveis, como a inteligência, a forte personalidade e o carisma do grande chefe. Propositadamente, deixou de lado o caráter violento e combativo do Cochise real, que enfrentou e massacrou diversos inimigos ao longo da sua vida. Esta face do mítico líder guerreiro não deixaria, porém, de ser representada na banda desenhada, pois outro grande autor da casa Bonelli, Gino D’Antonio, criou a sua versão ficcional de Cochise. Na sua grande saga Storia Del West[iii], D´Antonio retrata o altivo chefe apache como um homem de extrema inteligência e ferrenha vontade, que considerava todos os homens brancos como seus inimigos. Como ele costumava dizer, Cochise só confiava em dois homens brancos: “Os Apaches não têm amigos brancos. Mas tenho dois inimigos em quem posso confiar: Tex Willer e Tom Jeffords[iv], meus irmãos de sangue.”
Referências
Tex nº 62, 63 e 64 – Editora Vecchi
Storia Del West – Gino D´Antonio, Sergio Bonelli Editore
Epopéia Tri – Editora Ebal
Cochise e Apache – Wikipédia
[i] Fazendeiro
[ii] Comerciante que viaja de cidade em cidade oferecendo os seus produtos. O nome foi dado no Brasil aos mercadores ambulantes e, embora o vocábulo seja utilizado em Portugal com o mesmo significado, o termo ficou associado à imigração àrabe no Brasil, devido ao elevado número de imigrantes, sobretudo do Líbano e da Síria, que se dedicaram a esta atividade.
[iii] Publicada no Brasil pela editora Ebal com o nome de Epopéia Tri.
[iv] Thomas Jefferson Jeffords, scout apache do exército norte-americano, agente índio e prospetor. Personagem verídica que manteve amizade com Cochise, por isso, nesta afirmação está a intenção em juntar a fantasia com a realidade, uma vez que Tom Jeffords realmente nunca surgiu na saga de Tex Willer.
* Texto de Jesus Nabor Ferreira publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.
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Vídeo – MASSIMO ROTUNDO fala sobre o seu “Maxi Tex. Mississippi Ring”: mais de trezentas páginas em três anos
A Sergio Bonelli Editore apresentou em Outubro de 2021, no seu site o Maxi Tex #29, uma edição verdadeiramente especial porque trouxe um duplo regresso à saga de Tex: Gianfranco Manfredi nos textos e Massimo Rotundo nos desenhos, este um verdadeiro regresso após seis anos de ausência tendo assim a sua segunda participação na saga de Tex, após ter sido o desenhador do Texone nº 30, “Tempesta su Galveston“, no Verão de 2015 e publicado em Portugal, pela editora Polvo, em 2016 com o título “Tempestade sobre Galveston” e com a presença do próprio desenhador italiano, aquando do seu lançamento na 3ª Mostra do Clube Tex Portugal, evento realizado em Anadia.
O Maxi Tex #29 (340 páginas a preto e branco) trouxe a história “Mississippi Ring”, escrita por Manfredi e desenhada por Rotundo. Quanto ao enredo da história: Os tráficos ilegais do bando conhecido como “Mississippi Ring” infestam o curso do grande rio… Assassinatos, sequestros, extorsão e corrupção… Com a ajuda de um insuspeitável aliado chamado Capitan Destiny, Tex e Carson estão prontos para restabelecer a justiça ao som de chumbo quente!
Mas hoje o destaque é um vídeo de um dos fundadores da Escola Romana de Banda Desenhada, o Massimo Rotundo, que nos fala sobre o seu método de trabalho e a sua abordagem didáctica, inspirada nas antigas oficinas de arte e apoiada na visualização em sala de aulas de originais como o deste seu Maxi Tex. Assim sendo, no vídeo que apresentamos de seguida, Rotundo aborda as diferenças estilísticas entre Mississippi Ring e Tempesta su Galveston, precedente aventura desenhada para o mais popular personagem da Sergio Bonelli Editore.
Massimo Rotundo fala ainda dos desafios da documentação para um personagem tão ligado à fidelidade histórica, finalizando com os tempos de produção do Maxi Tex, uma verdadeira maratona e a utilidade dos originais para o crescimento artístico dos alunos da Scuola Romana dei Fumetti.
Maurizio Dotti, El Supremo
Por Sandro Palmas*
De entre os novos desenhadores de Tex, Maurizio Dotti, nascido em Limbiate na província de Monza e Brianza, na região da Lombardia, é um dos mais talentosos e com um ritmo de trabalho mais rápido.
Desde novembro de 2013, quando foi publicado o seu primeiro trabalho na série mensal italiana, o artista desenhou duas aventuras intituladas, respetivamente, El Supremo e Carovana di Audaci, a que se juntam a curta história Rio Quemado e uma história atualmente em preparação, intitulada provisoriamente Manhattan, que será provavelmente publicada em Itália nunca antes da Primavera de 2018.
Todavia, a estreia do autor em Tex ocorreu no já longínquo ano de 1995, quando ainda trabalhava para Il Giornalino[i]. Submerso por compromissos, o seu amigo Alarico Gattia pediu-lho uma ajuda na elaboração dos esboços da aventura Glorieta Pass, escrita por Mauro Boselli, e que o próprio Gattia passaria a tinta. Este trabalho encomendado por Gattia, publicado dois anos mais tarde no Almanacco del West de 1998, abriu as portas da Sergio Bonelli Editore ao jovem desenhador, ainda sem ter atingido os quarenta anos, que entretanto continuava a colaborar para a revista católica para jovens e para a qual tinha ilustrado as aventuras de Lassie, E-Team, Cheyenne e uma adaptação em banda desenhada de Os sete magníficos, escrita por Luciano Giacotto em 1995, por ocasião do centenário do nascimento do cinema.
Para a Sergio Bonelli Editore, entre janeiro de 1996 e 1998, Dotti realizou o nono álbum especial de Zagor intitulado L’angelo della morte, também com argumento de Mauro Boselli e uma aventura para a série mensal dividida em dois álbuns Gli Sterminatori e Una pallottola per Kelso, com textos de Maurizio Colombo. Posteriormente, Dotti integrou de modo permanente a equipa da então recém-nascida série de horror Dampyr, para a qual desenhou em pouco mais de doze anos um surpreendente total de 24 álbuns mensais, um Speciale e um Maxi.
Embora saibamos que as aventuras de Dampyr são geralmente auto-conclusivas, Maurizio Dotti demonstrou ser um autor muito rápido a desenhar e particularmente adaptado para ilustrar histórias épicas, tão caraterísticas em Tex, um dado não negligenciável que levou Mauro Boselli, em setembro de 2011, a confiar-lhe a extensa aventura El Supremo, 395 páginas que o artista desenhou brilhantemente em pouco menos de dois anos, com uma média mensal de cerca de 18 pranchas.
Mesmo em Carovana di Audaci, história escrita por Luca Barbieri e Tito Faraci, os prazos foram todos muito curtos. Se a história já tinha sido atribuída ao autor em outubro de 2013, Dotti começou a desenhá-la apenas em maio do ano seguinte, uma vez que estava então empenhado em concluir um episódio de Dampyr deixado incompleto por Esteban Maroto, abalado por um incêndio que devastou por completo o seu estúdio. Se Carovana di audaci foi terminado por volta de agosto de 2015, concluímos que as suas 220 páginas foram desenhadas em cerca de 16 meses, o que dá uma média ligeiramente inferior a 14 pranchas mensais.
A história curta boselliana de 32 páginas intitulada Rio Quemado, realizada para a Feira de Lugano de 2015, foi desenhada entre agosto e setembro do mesmo ano, confirmando-se assim a mesma média. Recorde-se que o desenhador teve também que desenhar mais dezasseis páginas, as quais correspondem à verdadeira conclusão desta curta aventura, publicada recentemente em Itália no Color Tex de novembro 2016.
Chegámos então à história de Mauro Boselli ainda em elaboração, a qual, tal como apenas pudemos ler, intitula-se provisoriamente Manhattan. O número de páginas ainda não está confirmado, mas provavelmente estender-se-á por três álbuns. Na Primavera de 2015 começaram a ouvir-se os rumores iniciais desta história, mas os primeiros desenhos foram feitos apenas no Outono do mesmo ano. No momento em que este artigo foi escrito[ii], Dotti encontrava-se a trabalhar nas primeiras páginas do segundo álbum desta aventura nova-iorquina, mantendo constante a sua invejável média.
Maurizio Dotti não é apenas veloz como sublinhámos, mas um dos maiores desenhadores de Tex!
Por exemplo, El Supremo não foi uma aventura fácil de desenhar. Com cerca de cinquenta personagens (a somar a um variado número de outras anónimas) e mesmo uma vintena de ambientes diversos, todos disseminados ao longo da península californiana, entre os quais a cidade de São Francisco e a fascinante Isla de la Niebla, junto ao oceano, é uma daquelas histórias monumentais (tanto do agrado de Mauro Boselli) que colocariam à prova o talento dos melhores artistas e que o novo desenhador de Tex superou plenamente. Detendo-nos nos álbuns que compõem esta palpitante aventura, realçamos a facilidade com que o desenhador deu uma fisionomia às personagens, que se revela rigorosamente adequada nos protagonistas, os quatro pards, Montales, Mike Tracy, Tom Devlin, mas também todos os simpáticos amigos do ginásio Hércules. Com Maurizio Dotti o leitor mergulha nas áridas e poeirentas planícies desérticas da Baja, nas atmosferas cinzentas de São Francisco ou na bruma das falésias íngremes da Isla de la Niebla, ambientes recriados com uma dosagem magistral de perspetivas impressionantes e uma utilização genial do claro-escuro que caraterizam a arte deste maestro e que representam praticamente uma novidade em Tex.
Aparentemente, a aventura seguinte, Carovana di Audaci, apresentou-se menos desafiante. A história, que conta o ataque de um bando de comanches, liderado pelo feroz Nevequaya, a uma caravana de pioneiros em Butterfield Trail, apresenta apenas uma quinzena de personagens (não contando com as outras mais anónimas) e situa-se num único ambiente, o Texas ocidental, onde desponta Fallen Arrow, uma ghost town, teatro dos dramáticos acontecimentos da parte principal da história. O artista foi uma vez mais chamado a desenhar numerosas cenas de grupo, seja porque o argumento coloca em cena os colonos, seja porque inclui os guerreiros comanches, mostrando assim uma vez mais a sua grande habilidade. São excelentes as cenas que decorrem na cidade abandonada debaixo do cair incessante da chuva, durante as quais, chamado a ilustrar um verdadeiro clima de terror e ferocidade humana, Dotti excede-se na recriação dos sentimentos mais elementares patente nos rostos dos protagonistas. Surpreendente é a capacidade de Dotti, nas 220 páginas que compõem esta aventura, em interpretar as personagens, particularmente as mais débeis como mulheres e crianças. Veja-se o drama da pequena Lara Roberts, cujas lágrimas testemunham o medo e o pesadelo que está a viver, repare-se na angústia da bonita Janet, prisioneira de Nevequaya, que através do seu rosto doce denuncia constantemente sentimentos de pânico e consternação, mas também o próprio líder dos raptores e seus acólitos, os scout Red e Akowa, cujas expressões revelam autênticas bestas humanas sedentas de sangue. O tema da “Fronteira” é desta forma retratado em magníficas pranchas as quais, através de uma louvável dedicação do artista, assemelham-se a autênticos frescos.
Ainda inédita em Portugal, a curta história Rio Quemado, escrita por Mauro Boselli, coloca frente a frente o tirânico latifundiário Don Augusto Rochas e o bando de peones rebeldes de Manuel Torres, em cuja pista também se encontram Tex e Carson. Mais uma aventura mexicana para Maurizio Dotti, desta vez a braços apenas com um punhado de personagens e uma ambientação que decorre desde o deserto de Chiricahua até à hacienda da atormentada família Rochas. A história decorre quase sempre de noite, permitindo ao desenhador trabalhar habilmente nos contrastes entre brancos e negros.
O branco e o negro são também as cores dominantes na aventura nova-iorquina, ainda em preparação com o título provisório de Manhattan. A história marca o regresso de personagens conhecidas, como por exemplo Nick Castle (que já tínhamos visto em ação na primeira história de Dotti, El Supremo) que, depois de o ajudar na sua evasão, vai firmar um pacto diabólico com o Maestro, histórico inimigo do ranger, para estender o seu domínio à cidade de Nova Iorque. Ainda relativamente a personagens, o simpático irlandês Pat Mac Ryan vai juntar-se a Tex e Carson, com o desenhador a confirmar-se, desta forma, ser um especialista no regresso de amigos tão caros e próximos do ranger. Do ponto de vista gráfico, a ambientação será sem dúvida o prato forte desta aventura, com os dois pards empenhados numa luta contra o tempo nos bairros mais recônditos da cidade, a Bowery, com os seus becos de má reputação e a célebre Grande Avenida com a sua curiosa ferrovia elevada, construída entre 1875 e 1878 e que só ficou inoperativa entre 1950 e 1955. Uma aventura que se anuncia como das mais importantes dos próximos anos e para a desenhar Mauro Boselli chamou Maurizio Dotti, um autor digno de confiança pelas suas qualidades e pela sua velocidade com os lápis e os pincéis.
[i] Histórica revista italiana de inspiração católica.
[ii] No decorrer do 4º trimestre de 2016
* Texto de Sandro Palmas publicado originalmente na Revista nº 5 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2016.
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