TEX: MAIS QUE UM HERÓI – ENTREVISTA AO AUTOR MÁRIO JOÃO MARQUES

Entrevista conduzida por Sérgio Manuel Madeira de Sousa[1]

Em setembro de 2021 fui agradavelmente surpreendido com a notícia da publicação de “Tex mais que um herói”, um livro temático sobre o personagem Tex Willer. Refiro “surpreendido” porque considero-me muito bem informado sobre o herói e tudo o que se passa nos bastidores e, até à data, estava completamente ignorante sobre o assunto. “Agradavelmente”, porque nunca imaginei que fosse possível, e viável, publicar em Portugal, num país que tem apenas algumas centenas de fãs compradores, e com pouco mais de uma dezena de edições publicadas, uma obra, sobre este herói Bonelliano, com esta dimensão e qualidade.

A obra de Mário João Marques

Decidido a esclarecer estas, e muitas outras questões, contactei o autor para uma entrevista e, sem surpresas, o Mário apresentou uma disponibilidade total e imediata. Aproveitando-me da recetividade do Mário (um dos fundadores do Blogue do Tex) e do facto de nunca ter concedido uma entrevista, não me limitei às perguntas sobre o livro, questionei tudo sobre o Mário, as suas raízes, o que faz profissionalmente, ligação à BD, etc. e o Mário, tal como no seu livro, não se conteve, conseguindo ir muito mais além do que esperava.

O resultado? É a longa, elucidativa e imperdível entrevista que se segue, e que vos convindo a ler, pois esclarece todas as dúvidas que poderão ter (acredito eu) sobre o autor e a sua obra.

Mário João Marques e a sua obra ‘Tex: Mais que um Herói’

Sérgio Sousa – Caro Mário, obrigado pela disponibilidade e parabéns pelo lançamento do teu livro que desejo, desde já, o maior sucesso. Vamos começar por ti! Quando se fala em TEX WILLER BLOG todos associam o nome de José Carlos Francisco e poucos sabem que o Mário Marques é um dos dois fundadores.  Quem é o Mário Marques, também conhecido por Marinho, que até hoje ainda não concedeu uma entrevista ao próprio blogue?  Quem é o homem, o profissional, onde nasceste, cresceste, enfim, o que quiseres e puderes revelar sobre ti.

Mário João Marques

Mário Marques – Antes de mais, Sérgio, quero agradecer o teu convite para uma entrevista a propósito do lançamento do livro que tive o grato prazer de escrever sobre o Tex, assim como os teus desejos que a obra possa ser um sucesso. Em termos biográficos, nasci em Marinhais (Ribatejo), mas considero-me um alfacinha, pois vim para Lisboa aos 4 anos. Fiz os estudos até ao 12º ano, cumpri o serviço militar e, terminado este, entrei na banca, onde já estou há 35 anos. Posteriormente, já em regime pós-laboral, decidi estudar Relações Internacionais, porque a Política, a Diplomacia e a História sempre me interessaram. Acabei por continuar na banca e nunca segui uma via relacionada com o curso, porque naquela altura dava para seguir a área diplomática e pouco mais, além de que as oportunidades eram mais escassas e de difícil acesso. Hoje, o curso de Relações Internacionais oferece um mais vasto leque de oportunidades e o seu acesso, com a chegada da internet e o desenvolvimento cada vez maior das novas tecnologias permite um acesso que antes não havia ou era mais difícil. Dou-te um exemplo: quando estudava assinava algumas revistas especializadas e lembro-me que aqui só chegava a Foreign Affairs e pouco mais. As outras eu escrevia uma carta à editora e enviava um cheque bancário para pagar a assinatura.

Tim Smith – O Camaleão, de Mário João

A internet veio alterar isto tudo. Desde miúdo sempre gostei de desenhos e sobretudo de ler. Posso mesmo dizer que cheguei a escrever e desenhar duas bandas desenhadas naquelas sebentas que antigamente se usavam nas escolas. Ainda guardo essas “obras primas” com muito carinho, mas tenho muita pena de nunca ter tido jeito para o desenho, que considero uma das artes mais nobres e difíceis. Se tivesse o jeito do meu irmão, teria tentado dar asas a essa paixão, não sei se em termos de carreira profissional, porque em Portugal é muito difícil viver da BD, mas pelo menos nos tempos livres. Depois veio a leitura, de tudo um pouco, mas acho que tudo começou com as revistas Disney brasileiras e a revista Tintin portuguesa. A BD acompanhou-me sempre através dos livros e das inúmeras revistas que fui colecionando, e com o advento da internet tudo se tornou mais fácil em termos de acesso a compras e artigos. Se o vício já era grande, maior se tornou. Também tive e tenho sorte pelo facto da minha esposa viajar muito e trazer-me regularmente livros de vários países, sobretudo da Europa e Brasil.

Mário Marques e José Carlos Francisco – Os fundadores do Blogue do Tex

Relativamente ao Tex Willer Blogue, sem querer colocar-me em bicos de pés, até porque se hoje ele é um sucesso isso deve-se ao José Carlos Francisco, a verdade é que eu fui o fundador. Foi um desafio que lancei ao José Carlos, porque achava que num meio como a internet onde existem tantos sites e blogues, a criação de um espaço dedicado ao Tex fazia algum sentido e seria uma forma de união e contacto entre todos os texianos por esse mundo fora. Numa primeira fase ele achou que não teria tempo, mas eu insisti e disse-lhe que iria criar o blogue, começando por publicar alguns posts na fase inicial e entregando-lhe posteriormente o desafio de o continuar, quanto mais não fosse sempre que ele tivesse tempo. A verdade é que, de então para cá e devido à paixão do José Carlos pelo Tex, o blogue tornou-se mesmo numa referência a nível mundial, muitas vezes referido no site da própria Sergio Bonelli Editore (SBE) e onde muitos autores do Tex acedem diariamente.

Sérgio Sousa – Relativamente a BD, eu sei que tu já descreveste o teu primeiro contacto com Tex, no teu livro “Tex mais que um herói”, mas gostaria que fosses mais abrangente aqui: descreve a descoberta da BD, as tuas primeiras leituras, o teu primeiro Tex, as tuas preferências, e o que lês e colecionas atualmente.

Uma compra inesquecível

Mário Marques – Descobri a BD sobretudo com as publicações Disney e a revista portuguesa do Tintin, como referi. Mas posso contar uma ou outra história que me fez gostar da BD, porque em tudo há sempre uma história. Há coisas que não guardo na memória, mas a compra de “O Ceptro de Ottokar” do Tintin nunca esqueci. Uma tarde, a minha mãe quis comprar um livro para os seus dois filhos e perguntou-nos qual queríamos. Eu optei pelo álbum do Tintin, enquanto o meu irmão preferia um Lucky Luke, creio que “A Cidade Fantasma”. Eu e o meu irmão damo-nos muito bem, somos muito amigos, mas em miúdos chocávamos e contrariávamo-nos muito, o que acontece muitas vezes entre irmãos nessas idades. Por isso, a minha mãe percebeu que o meu irmão, que não ligava tanto a BD, estava a escolher o Lucky Luke apenas para me contrariar e optou por comprar “O Ceptro de Ottokar” que, ainda hoje e talvez por isso, considero a minha aventura preferida do Tintin. Outro marco foi o primeiro número que recebi da revista Tintin, onde se publicava “Pesadelo para Ric Hochet” e lembro-me de ter adorado aquelas duas pranchas inseridas na revista, tanto que o Ric Hochet tornou-se, então, num dos meus heróis preferidos. Também a leitura da primeira parte de “O Mistério da Grande Pirâmide” do Blake e Mortimer foi apaixonante, sobretudo aquele final em que o Mortimer jura vingar o amigo Blake. Levei anos até poder ler a conclusão da história.

Marc Holliday – O Mascarado, de Mário João

Foi assim que nasceu a minha paixão pelo franco-belga. Já no liceu, com o dinheiro do lanche que recebia da minha mãe, comprava semanalmente quase todas as revistas que saiam nas bancas, o Mundo de Aventuras, o Falcão, O Jornal do Cuto e tantas outras, descobrindo então outros grandes autores como Alex Raymond, Hal Foster, Milton Caniff ou Al Williamson. Do Brasil chegavam-nos, para além das revistas da Disney, os comics americanos, que eu também colecionava, tal como o Tex, que descobri, como eu explico no livro, numa banca do metropolitano de Lisboa e a partir daí foi uma atração e paixão que ainda hoje se mantém. No fundo, em termos de BD eu gosto, leio e coleciono todos os géneros. O Tex permitiu-me conhecer e apaixonar-me pelos fumetti, colecionando atualmente quase todas as séries publicadas pela SBE. Mas continuo a comprar um pouco de tudo, álbuns franco-belgas, publicações Disney, comics americanos, mangas japoneses, BD portuguesa. Esta paixão leva-me também a comprar diversas monografias e livros temáticos sobre a BD, porque quero muito saber quem e o que está “atrás do pano”. Entretanto, de alguns anos a esta parte, gosto também de colecionar estatuetas, o que, para além dos livros, ocupa-me muito espaço em casa.

Sérgio Sousa – No que diz respeito ao personagem Tex Willer, qual o teu desenhador e argumentista preferidos e quais as tuas histórias favoritas?

Mário João Marques com Fabio Civitelli

Mário Marques – Ao contrário de muitos “texianos” eu acho que o Tex atualmente é mais rico em termos gráficos e narrativos. Muitos de nós, os mais “antigos”, aprendemos a gostar de Tex na chamada “Idade de Ouro” da série, com aquelas maravilhosas histórias de Gianluigi Bonelli sobretudo das décadas de 1960 e 1970, servidas por um quinteto de desenhadores ímpar, como Galep, Nicolò, Letteri, Ticci e Fusco. Apesar de gostar de todos, cada um com o seu estilo, Ticci era o meu favorito, com o seu Tex altivo e imponente e um olhar penetrante. No entanto, com a chegada de nomes como Villa, Civitelli, Venturi, Dotti, e tantos outros, o nível de qualidade subiu imenso, até porque hoje os desenhadores trabalham para um público mais exigente e, por isso, têm de se documentar bem, o que, por outro lado, se reflete numa maior lentidão do seu trabalho.

Prancha de Maurizio Dotti

Em termos de desenhadores, e como refiro no livro, acho que há um conjunto de nomes que marcaram a série e deixaram o seu legado: Galep, por ter sido o criador gráfico e durante décadas o baluarte a solo, a que se junta toda a iconografia das suas capas; Ticci porque o seu Tex foi, é e certamente continuará a ser o principal inspirador e modelo, mas também porque trouxe um estilo completamente novo na época para a série; Civitelli pela meticulosidade do seu trabalho, pela sua contínua inovação gráfica que trouxe novas técnicas; e finalmente Villa, pela expressividade e pelo realismo cinematográfico do seu desenho, que conseguiu emprestar à própria figura do herói, assim como pela qualidade das suas capas. Refiro estes nomes pelo legado que, quanto a mim, deixaram em Tex, mas há nomes que também considero marcantes pelas suas aptidões, como por exemplo Andrea Venturi, os irmãos Cestaro, Alessandro Bocci, Maurizio Dotti, Stefano Biglia, e tantos outros.

Personagens do Mundo de Tex da coleção particular de Mário João Marques

No que se refere aos argumentistas, Boselli é o meu preferido, porque consegue reunir as melhores características de Gianluigi Bonelli com a modernidade dos novos tempos. Existe sempre a eterna discussão de qual o melhor modelo de Tex, porque no fundo muitos leitores gostariam de continuar a ver no Tex atual o Tex de Gianluigi Bonelli. Mas como esse Tex nunca mais, não porque Boneli foi o melhor de sempre, mas simplesmente porque ele foi o criador, sentia Tex, respirava Tex, identificava-se com Tex, deu-lhe todas as características que granjearam tanta fama e sucesso ao ranger. No entanto, se hoje um autor pretendesse escrever da mesma forma, creio que não seria a mesma coisa por dois motivos: primeiro porque os tempos mudaram e com isso mudaram os leitores, mudou a BD, mudou o tipo de narração das histórias. Depois, porque cada autor tem as suas próprias características, faz parte da natureza humana, o que acabaria por se refletir no seu trabalho. Veja-se, por exemplo, o caso de Nizzi que, quando chamado a escrever Tex, tentou ser o mais fiel possível de Bonelli, mas a verdade é que a sua natureza menos impulsiva e mais recatada acabou por se refletir mais tarde nas histórias de Tex. Em todos os argumentistas vejo qualidades, mas Boselli construiu um Tex épico e em cujas histórias existem sempre inúmeros acontecimentos que se interligam de forma eficaz. É sobretudo o autor mais documentado e completo. Em termos de histórias retenho algumas por autor: “Flechas Pretas Assassinas”, “A Noite dos Assassinos”, “O Filho de Mefisto”, “A Cela da Morte”, todas de Gianluigi Bonelli; “El Muerto” e “Caçada Humana” de Guido Nolitta; “Fuga de Anderville”, “Intriga em Santa Fé”, “O Navio do Deserto” e “O Homem sem Passado” de Nizzi; “O Passado de Kit Carson”, “Os Invencíveis”, “Os 7 Assassinos”, “Colorado Belle”, “Os Pioneiros”, “A Mão do Morto” ou “Indian Carnival” de Boselli; e ainda “A Honra de um Guerreiro” de Ruju. E não… não incluo aqui clássicos como “Patagónia” ou “Oklahoma”.

Desenhos originais de grandes mestres Bonelli devidamente emoldurados em casa de Mário João Marques

Sérgio Sousa – Nos primeiros tempos do blogue era frequente encontrar curtas análises tuas a aventuras de Tex. Na revista do Clube do Tex encontra-se, em todas as edições, longos artigos de tua autoria, dedicados a uma aventura, desenhador ou escritor.  De repente (para os frequentadores do blogue) publicas um livro com centenas de páginas. Como é que foi passar de escritor de textos para escritor de um livro? O que é que mudou na tua forma de escrever e principais dificuldades.

As críticas do Marinho – O Grande Roubo

Mário Marques – Essas análises no blogue também têm a sua história. Eu tinha o hábito de, sempre que lia um livro, escrevia um pequeno texto, algumas linhas de apreciação e guardava, às vezes no próprio livro. Quando conheci o José Carlos Francisco enviei-lhe uma apreciação minha do Tex Gigante “O Grande Roubo”, apenas para sua leitura. Para minha surpresa, ele ficou deveras agradado e sugeriu-me, desde logo, que eu escrevesse sempre que lesse alguma aventura do Tex. Assim fiz e enviava sempre para ele. Repara, nessa altura ainda não havia o blogue, isto era só entre nós, tanto que quando o blogue foi criado, o José Carlos aproveitou para publicar esses textos. Um dos motivos para a criação da revista do Clube talvez até tenha sido essa minha paixão pela escrita sobre o universo de Tex. Mas as palavras do José Carlos sobre os meus textos motivaram-me com toda a certeza a escrever o livro, porque foi nessa altura que eu comecei a pensar e trabalhar nele, no intuito de o terminar quando o Tex festejasse 70 anos de existência. Por variados motivos, sobretudo falta de tempo e a minha permanente auto insatisfação, não consegui terminar o livro nessa altura, apesar de, então, já ter uma editora interessada na sua publicação. Por isso, creio que as principais dificuldades residiram nestes dois factos, falta de tempo, porque precisei de ler e reler as histórias e documentar-me imenso, assim como querer fazer sempre fazer melhor, apresentar um produto onde o leitor pudesse ver rigor e o mínimo de qualidade.

Coleção de Mário João Marques

Sérgio Sousa – José Rodrigues dos Santos, numa entrevista referiu que, sempre que estava a escrever um livro, escrevia sempre algumas páginas, à noite, após um dia de trabalho. E tu? Como é que escreveste o teu livro? Como é que surgiu a ideia, quanto tempo levaste a escrevê-lo, quantas páginas em média por dia, como é que foi o processo de revisão, pessoas influentes etc.

Tex: Mais que um Herói – Sumário

Mário Marques – Bom, colocares-me uma questão servindo de base um grande nome como o José Rodrigues dos Santos já me deixa orgulhoso. Goste-se ou não, trata-se do escritor que mais vende em Portugal. Eu considero-me bastante organizado e metódico, mas sempre preferi fazer aquilo que exige mais concentração mental de cabeça limpa, o que acontece logo pela manhã. Por isso, o livro foi quase sempre escrito da parte da manhã, tal como o trabalho de documentação. Sempre que podia, por exemplo aos fins de semana, nas férias ou em feriados, sem um ritmo pré-estabelecido de trabalho. Mas houve um grande avanço durante uns meses em que, infelizmente, tive de ficar de baixa em casa devido ao um enfarte que sofri em 2017. Levanto-me sempre muito cedo e esta minha maneira de ser leva-me a “apostar todas as fichas” logo pela manhã. Sempre fui assim. Por exemplo, quando tinha de preparar uma prova na faculdade, estudava quase desde o nascer do sol até haver luz natural, mas também na minha atividade profissional, pois entro sempre muito cedo e tento fazer logo pela manhã as tarefas que me exigem mais esforço mental. À noite só tenho cabeça para ver uma série ou um filme ou simplesmente para uma leitura mais leve. O facto de não me dedicar de forma contínua conduziu a cerca de 13 ou 14 anos de trabalho. Mesmo depois de terminado, ainda levei mais uns largos meses até decidir colocar um ponto final, porque do meu ponto de vista havia sempre algo mais a acrescentar e a rever. O ritmo de publicações e de acontecimentos na série é tão grande e constante que eu nunca mais fechava o livro, sempre no intuito de o manter o mais atualizado possível.

Mário João Marques e José Carlos Francisco

E o facto de o ter conseguido publicar devo-o a um conjunto de pessoas que tive oportunidade de agradecer no final do livro, mas que destacaria aqui algumas: o José Carlos pela motivação, por alguns conselhos e muitas revisões, assim como em alguns contactos junto da SBE; o João Marin que se prontificou desde o início a assumir o desafio da edição gráfica, e pelo facto de, devido aos seus conhecimentos de Tex, ter escolhido as imagens sem que eu, praticamente, tivesse de intervir; finalmente, também o José de Freitas, que tratou de tudo a nível da editora, dos apoios culturais, da gráfica, enfim da burocracia. Mas também gostava de agradecer aqui à SBE na pessoa de Davide Bonelli que, apesar de não ter autorizado tudo aquilo que eu gostaria, como por exemplo publicar o desenho exclusivo do Stefano Biglia e o logotipo do Tex na capa, autorizou-me a ir mais além do que aquilo que é habitual para um livro que não é publicado pela SBE.  

Sérgio Sousa – Quais os objetivos que pretendes atingir com a publicação do livro?

Coleção de Mário João Marques

Mário Marques – Muito sinceramente, a publicação do livro já me enche de um orgulho imenso. A célebre frase da sabedoria popular que sustenta que para um homem ser feliz e sentir-se completo na sua vida, deve ter filhos, plantar uma árvore e escrever um livro, para mim faz todo o sentido, porque eu sou daqueles que acho que estamos cá também para deixar algo, um legado. Só me faltava mesmo escrever um livro, por isso considero-me um homem feliz. Claro que há sempre um objetivo mais economicista que se encontra ligado às vendas, mas se eu não perder dinheiro, já me chega. Publicar o livro e saber que, pelo menos para já, ele é do agrado de todos aqueles que o leram, deixa-me mesmo feliz.

Sérgio Sousa – O livro apresenta uma qualidade inquestionável, mas isso elevou, certamente, o preço (40€). Além da qualidade também se percebe facilmente a opção de não sobrecarregar as páginas de texto, o que torna mais atrativo e fluente a leitura, mas “esticou” numero de páginas, calculo eu, em cerca de 15%. Porquê esta opção pela qualidade em detrimento do preço? Foram avaliadas outras opções? Qual o público alvo que pretendes atingir?

Ilustrações inéditas associadas aos capítulos

Mário Marques – Mais uma vez, agradeço a tua opinião sobre o livro. Inicialmente tinha pensado num livro com menos páginas, no máximo 300 e a cores. Mas uma coisa é tu teres o texto escrito sem imagens e outra é quando começas a fazer a edição gráfica do livro e a inserir imagens. De repente, vês tudo a aumentar e facilmente chegas a mais 100/150 páginas. Por exemplo, o capítulo dedicado aos autores sabia que seria grande, mas quando eu pedi para colocar uma foto de cada autor e um desenho do Tex de cada desenhador, o capítulo tornou-se bastante grande, o maior do livro. Perdemos a noção, ou pelo menos eu perdi a noção. Depois, com o encarecimento do papel e da impressão tive de optar entre publicar a cores e ficar muito mais caro, publicar alguns capítulos a cores ou o livro todo a preto e branco. Pensei que se optasse por publicar alguns capítulos a cores teria de escolher quais seriam aqueles que o justificariam e, muito sinceramente, não consegui fazer essa escolha, optar por um em detrimento de outro.

Páginas internas de “Tex: Mais que um Herói”

Optei por fazer tudo a preto e branco, até porque essa é a essência da série, mas fiz questão que o formato fosse igual aos cartonados do Tex que A Seita publica, que o livro fosse em capa dura e que tanto o tipo de letra como o espaçamento não dificultassem a leitura. Num livro tão específico e denso como este, a leitura deve ser fluida, até para chegar mais facilmente a outro leitor que não o de Tex. Tive esse aspeto em especial atenção, tanto que a fase da escolha do tipo de letra e do espaçamento ainda demorou algum tempo e levou a inúmeras experiências. Também dei especial atenção ao grafismo, queria evitar grandes blocos de texto, o que levou a que em todas as páginas exista pelo menos uma imagem. E por fim, pedi ao João Marin para emagrecer o corpo do texto e deixar algum espaço lateral para as legendas em bold. Esta fase de constantes experiências foi para mim muito gratificante, porque foi um todo um “mundo” novo que se abriu aos meus olhos. O mínimo detalhe altera sobremaneira uma página. Sei que podia ter saído melhor, mas apesar de ter consumido tempo e… paciência, foi algo onde também tive intervenção.

Coleção de Mário João Marques

Sérgio Sousa – O livro é uma verdadeira enciclopédia do universo texiano, num único volume, (expressão utilizada por Mauro Boselli, com a qual eu concordo plenamente), os nove capítulos “não deixam nada fora”, no entanto, considerando o preço, a aversão à leitura dos mais jovens que preferem os posts curtos, o pequeno universo dos colecionadores texianos e a disponibilidade da informação na internet, como é que esperas cativar os colecionadores e apreciadores de BD a comprá-lo? Salienta na tua opinião os pontos fortes do livro.

Moreno Burattini apresentando o livro português “Tex: Mais que um Herói”

Mário Marques – Permite-me alguma falta de modéstia quando estou de acordo em “catalogar” o livro como uma “enciclopédia”, porque foi assim que o idealizei. Há muitas obras dedicadas ao Tex, umas focando determinados aspetos, outras centrando-se noutros aspetos, mas a verdade é que há poucas que abordam todos os aspetos. Eu nunca quis escrever algo muito elaborado, algum ensaio ou alguma tese sobre o herói. Quis apenas escrever sobre o herói, sobre a série, sobre a editora, sobre os autores, no fundo condensar num só livro tudo o que dissesse respeito ao Tex, a sua história e evolução. Pensei nos temas que pretendia abordar, dividi-os em capítulos, e foi a partir daí que comecei a escrever.

Coleção de Mário João Marques

Por exemplo, quando relia uma história, sempre que encontrava algo que se relacionasse com algum dos capítulos do livro eu anotava logo. E foi assim que as coisas começaram e foram ganhando a sua forma. Há sempre coisas que ficam de fora e há sempre pontos que podiam ter sido mais desenvolvidos, outros nem tanto. Enquanto escrevia o livro pensava cativar os leitores com uma obra para ser lida, mas que, posteriormente, pudesse servir de permanente consulta. Um livro que pudesse ser lido de uma assentada pelos mais corajosos e apaixonados, mas sobretudo para se ir lendo e que pudesse apresentar os múltiplos aspetos do herói e da série. Por isso, aquilo que eu considero ser o ponto forte do livro é esta amplitude, falar de tudo um pouco e não estar centrado em determinado ponto.

Sérgio Sousa – O livro foi cofinanciado pela União Europeia e pelos fundos, Compete 2020 e Portugal 2020. Este cofinanciamento foi determinante para a publicação do livro ou a publicação seria uma realidade sem estas verbas? Como é que foi todo o processo de candidatura aos fundos, quais os requisitos que a obra teve que cumprir e quem é que que foi o responsável pela candidatura?

A contracapa

Mário Marques – O Garantir Cultura foi um programa que apoiou projetos culturais e que incluía apoios à edição. De modo geral, os requisitos eram “simples”, no sentido em que o programa apoiou todo o género de projetos até 95% do seu valor e até ao valor máximo de 50,000€. A Seita apresentou um projeto global de 75,000€ e canalizámos os 50,000€ recebidos do Estado para remunerar os criadores, autores, designers, tradutores, aqueles que trabalham normalmente connosco, com o objetivo de editar livros que, de outra forma, seria quase impossível, dado os elevados custos ou pelo género que abordavam, leia-se trabalhos “sobre a BD”. A candidatura foi apresentada pela editora de forma global, mas posteriormente cada um dos sócios responsáveis pelos seus projetos assumiu o trabalho de produção e supervisão dos seus livros. Todo este processo foi algo burocrático, dado que as candidaturas eram apreciadas à medida que chegavam, sendo aprovadas ou rejeitadas, e os fundos eram atribuídos até ao montante existente no orçamento do Garantir Cultura, ou seja, a dado momento o dinheiro acabava e já não se aprovavam mais projetos.

Stefano Biglia, autor do desenho da contracapa exibe o livro ‘Tex: Mais que um Herói’

Depois, o facto de o estado ter pago uma primeira tranche e não o valor global, transformou todo o processo num esforço grande de tesouraria, porque a editora acabou por ter de financiar a segunda metade que cabia ao estado, e ainda os 25,000€ adicionais do projeto. Aliás, esta última verba, que seria sempre da nossa responsabilidade, acabou por aumentar exponencialmente durante o ano e meio que o projeto levou a concluir, devido à crise do papel e dos custos energéticos. Apesar de tudo, conseguimos produzir todos os livros dentro do prazo e conduzimos o projeto a bom porto. No que se refere propriamente ao meu livro, estou certo que ele seria sempre publicado, mas a verdade é que o Garantir Cultura foi determinante, quer nas verbas concedidas, quer no timing da publicação. Fui trabalhando o livro, atualizando-o continuamente, mas sem ter uma data precisa de publicação, por isso o cofinanciamento foi o fator determinante no que se refere ao timing de publicação, porque obrigou-me a respeitar os prazos do Programa. E, claro que também foi importante nas verbas concedidas, uma vez que, apesar de pretender avançar com a publicação do livro, a verdade é que seria certamente mais tarde e com maior investimento financeiro da minha parte.

Coleção de Mário João Marques

Sérgio Sousa – A publicação de um livro acarreta riscos e é necessário encontrar uma editora que acredite no projeto. Como é que foi no teu caso? Tiveste que bater a muitas portas? O que é que podes revelar sobre exigências tiveste de satisfazer, alterações tiveste de efetuar, volume de vendas exigido para que o lançamento seja um sucesso, etc.

Rui Brito (Polvo) e Mário Marques

Mário Marques – Como te disse acima, quando comecei a escrever o livro tive a sorte e a honra de um editor ter mostrado logo interesse na sua publicação na pessoa do Rui Brito da Polvo. Chegámos a reunir várias vezes, quase sempre na mesa de um restaurante, conversando sobre como deveria ser o livro, tipo de papel, número de páginas e outros aspetos. Estava tudo encarrilado para que o livro viesse a ser editado pela Polvo, mas a verdade é que a vida dá muitas voltas e eu não imaginava que um dia me tornasse, também eu, editor de BD e de Tex em Portugal. Naturalmente que esse facto veio mudar tudo e foi “com o coração nas mãos” que informei o Rui que, apesar da confiança demonstrada em mim e no livro, eu tinha outros planos. Custou-me, reconheço, porque ainda sou daqueles que considera que a palavra substitui a assinatura de um contrato. O facto de ter publicado o livro na minha editora talvez me tenha dado outro espaço de manobra, outra liberdade. Não sei como seria com o Rui, com quem mantenho uma excelente relação de amizade, porque não chegámos à fase final da tomada de determinadas decisões. Creio que chegámos a acertar o tipo de papel e o número de páginas, bem menor. Seria um livro diferente, melhor ou pior não sei, apenas diferente.

Fabio Civitelli, em sua casa, exibe orgulhosamente a obra portuguesa “Tex: Mais que um Herói”

Na Seita, sendo o único editor do livro, dentro dos limites impostos pela SBE tive carta branca para o produzir como gostaria, apesar de algumas opiniões divergentes de um ou outro cooperante da editora em alguns aspetos. Por exemplo, alguns não gostaram da capa e do tipo de letra da mesma. O título não foi do agrado de outros. Inicialmente pensei num título que jogasse com o nome do herói, por exemplo “InTexamente”, como acontece em alguns livros italianos. Também pensei num título que jogasse com as palavras “justiça” e “lei, tão caras a Tex. Mas acabou por ficar “Mais que um Herói”, porque no fundo é isso que o Tex representa para mim e para gerações e gerações de leitores. Se Tex continua a vender desde 1948 é porque ele é mais que um herói, representa um conjunto de valores que todos nós devíamos defender e praticar. Este título resume a contento o meu livro e por isso defendi que assim ficasse. Por fim, a questão de escrever com ou sem o Acordo Ortográfico (AO). Eu não sou fanático em nada, nem sequer dono da verdade do que quer que seja, apenas tenho as minhas opiniões, por isso custa-me ver tanta celeuma em redor do AO e confesso que, por vezes, incomoda-me um pouco ver alguns dizerem que só compram um livro se for escrito sem o “famigerado” AO ou outros dizerem que nunca publicarão nenhum livro escrito com o AO.

Coleção de Mário João Marques

A nível profissional tenho de utilizar o AO, por isso não me custa nada escrever dessa forma, assim como o faço da outra forma se for necessário. Por exemplo, já que cada um escreve conforme prefere, na revista do Clube Tex existe liberdade para que cada um escreva com ou sem o AO, não se impõe nada, o principal é que seja em português, como costumo dizer na brincadeira. Em termos pessoais, e não concordando com algumas regras do AO, mesmo assim prefiro escrever desta forma, por várias razões, mas sobretudo porque acho que não faz grande sentido escrevermos palavras com as consoantes mudas. Acho que as palavras devem estar o mais próximo da forma como se leem. Não vejo que exista alguma ameaça com este AO, temos todos vivido bem pelo facto de, por exemplo, as escolas portuguesas ensinarem conforme o AO, as leis serem publicadas conforme o AO, a maioria dos jornais e dos livros publicarem segundo o AO ou as legendas televisivas serem com o AO. Não vejo que aqueles que são contra deixem de ler livros e jornais, deixem de ver televisão, não cumpram as leis ou não permitam que os seus filhos frequentem a escola. Mas esta é apenas a minha opinião, com toda a discussão que ela possa provocar. Daí que eu tenha optado por escrever o livro com o novo AO, o que representa uma estreia na editora.

Sérgio Sousa – Relativamente à tiragem, quantos exemplares teve esta edição? Existe a possibilidade de uma 2ª edição?

Mário João Marques na apresentação do seu livro ‘Tex: Mais que um Heroi’ numa conversa conduzida por José de Freitas

Mário Marques – O que te posso dizer é que, em função do formato, do número de páginas, do tipo de papel e por ser em capa dura, tentámos encontrar um equilíbrio muito criterioso entre a tiragem e o preço do livro. Ou seja, tentámos obter a justa medida para não termos de vender o livro com um preço mais elevado. Já agora, aproveito para sublinhar que, dadas as suas características, não acho o livro caro, estando o seu preço ao nível daquilo que é praticado noutros países, por exemplo em Itália, onde as tiragens são muito maiores. Se me disseres que com 40 euros muitos leitores preferem comprar dois ou três livros de BD, quem sou eu para o refutar, mas isso não significa que o produto em si seja caro. Sobre a possibilidade de uma 2ª edição, naturalmente que, mais que uma possibilidade, gostaria que ela se tornasse numa realidade, sabendo de antemão o quanto difícil isso é.

Sérgio Sousa – E quanto às vendas? estão de acordo com as expetativas?

Anúncio da venda do livro no Brasil

Mário Marques – Desde que me tornei editor que tenho alguma, para não dizer muita dificuldade em formar expetativas de vendas. Para ser sincero, em Portugal há apenas três ou quatro produtos de BD que vendem bem de antemão, mesmo levando em linha de conta as limitações do nosso mercado. Quase todos os livros vendem inicialmente um certo número de exemplares e depois vão-se vendendo, ou seja, há livros que até acabam por vender bem, mas quase nunca depressa. Este livro, por ser especificamente sobre uma personagem de BD, torna-se um pouco mais difícil, porque o mercado português de BD não está muito voltado para este tipo de produto.

João Marin do Brasil, exibe a obra portuguesa na qual teve uma participação importante

A Seita, de uma assentada, lançou alguns livros sobre temáticas ligadas à BD (“Conversas de Banda Desenhada”, “25 de abril e a Banda Desenhada” e o “Variantes”), o que considero ser uma pedrada no charco e uma aposta concreta num segmento que, pelo menos para mim enquanto leitor de BD, sempre me atraiu. Vamos ver como se comporta o mercado e qual a aceitação deste tipo de produto. O meu livro vai certamente levar o seu tempo a vender, mas posso dizer-te que, tendo saído em outubro, neste final de ano as receitas já ultrapassaram os custos, se tiver em consideração as verbas do financiamento, para o que contribuíram vendas não só em Portugal, mas também no Brasil (graças ao Dorival e à Mythos com quem fizemos um acordo e a quem muito agradeço) e Itália. Posso também informar que vendemos alguns livros para França e até para a Alemanha, para um apaixonado que me informou ir ler o livro com um dicionário ao lado.

Sérgio Sousa – A escolha da capa intriga-me! O leque de desenhadores de Tex é vastíssimo e inclui alguns dos desenhadores mais credenciados em Itália. Porquê apresentar uma capa em que se sobrepõe uma “sombra” do herói sobre uma fotografia?

Tex: Mais que um Herói

Mário Marques – A questão da capa foi algo que me consumiu verdadeiramente tempo e paciência. Vamos à história, lá está, porque há sempre uma história para contar. Quando o Stefano Biglia esteve em Portugal, eu tive o grato prazer de o hospedar em minha casa e passear uns dias com ele e a esposa. Conversámos imenso e eu apresentei-lhe o meu projeto do livro, como tenho feito com todos os desenhadores que nos visitam. Perguntei-lhe se ele poderia desenhar a capa, e ele aceitou no imediato, o que para mim foi uma honra, acabando por daqui resultar o magnífico desenho que está na contracapa do livro. Mas porque não na capa? Como já referi antes, inicialmente tinha em mente publicar o livro quando da comemoração dos 70 anos do Tex, em 2018, tendo nessa altura encetado os primeiros contactos com a SBE, solicitando autorização para publicar o desenho do Biglia na capa do livro, naturalmente pagando os respetivos direitos de autor, porque queria fazer tudo em estrita obediência às diretrizes da editora.

Coleção de Mário João Marques

Contactei a secretária na altura do Davide Bonelli, a senhora Ornella Castellini, assim como alguns autores que mais de perto privavam com a editora, como o Moreno Burattini, por exemplo. O assunto não sofreu grande evolução e eu próprio deixei-o em “banho-maria”, até porque tinha decidido adiar a publicação do livro. Este ano, dada a decisão de finalmente avançar com a publicação, tive de adotar outra estratégia e pedir ajuda ao José Carlos, no sentido de eu poder contactar diretamente o Davide Bonelli, o que se veio a concretizar. Fiz uma breve apresentação da obra, enviei alguns trechos, expliquei que apenas pretendia homenagear Tex e que gostaria de fazer tudo em consonância com a editora, no fundo saber o que podia e não podia publicar em termos de material da SBE. O Davide respondeu-me imediatamente, informando-me que o material que eu tinha enviado tinha recolhido o agrado da Direção da SBE, autorizando-me a publicar o que quisesse no interior do livro, desde que fazendo alusão aos respetivos direitos da editora, assim como o desenho do Biglia na contracapa, o que já era algo que ia além da política habitual da editora. Na capa nada de desenhos de Tex nem o respetivo logotipo. Pensei, então fazer uma capa simples, toda em azul escuro e apenas com o título do livro. Mas achei pobre, abandonando a ideia. Pensei então em colocar a silhueta de um cowboy num cenário western, sobretudo que os mais conhecedores vissem que era o Tex. Apresentei essa capa ao Davide Bonelli que me informou não ter sido aceite pela Direção, mas uns dias depois voltou a contactar-me e informou-me que tinha feito valer a sua opinião na editora e que poderia então avançar com a capa, que acabou por ser a definitiva. Abro um parêntesis para referir que a silhueta tinha sido projetada em cor preta e não acinzentada, assim como em relevo, mas essa informação, por lapso, não foi passada à gráfica. Não foi a capa desenhada pelo Stefano Biglia, que eu queria e tanto desejava, mas mesmo assim conseguiu-se mais do que a editora normalmente autoriza e, ponto importante, tudo foi feito de forma legal e em estrito cumprimento com as diretrizes da editora. Nem aceitaria que fosse de outra forma.

Mário Marques e a ilustração de Stefano Biglia

Sérgio Sousa – Quem constrói a sua própria habitação, ao concluir, é frequente dizer que nesse momento está pronto a iniciar. E tu? Agora que publicaste o livro estás pronto a começar? Com os feedbacks que já recebeste, se fosse hoje o que é que farias diferente?

Duas páginas ilustrativas da paginação

Mário Marques – Tenho recebido feedbacks de quase todos os leitores a quem vendi o livro diretamente e posso dizer que me sinto imensamente agradado, não só com os elogios recebidos, mas também pelo simples facto de terem disponibilizado um pouco do seu tempo para me darem conta disso. Também recebi com um enorme orgulho os elogios publicados pelo Mauro Boselli e o Moreno Burattini nas redes sociais, assim como o feedback pessoal enviado pelo Davide Bonelli. Agradou-me e sensibilizou-me particularmente a apreciação do Hugo Pinto no “Vinheta 2020”, um blogue que considero de referência no panorama da BD em Portugal, quando escreveu entre outras coisas que o livro é um dos lançamentos mais impressionantes do ano, que é um autêntico tour de force, “aplausos perante um trabalho deste gabarito não serão suficientes” e sobretudo esta deliciosa afirmação: “se a minha vida (do Hugo) fosse interessante e relevante como a de Tex, gostaria que Mário João Marques fosse o meu biógrafo”.

Coleção de Mário João Marques

Um bem-haja ao Hugo! Tudo isto poderia levar-me a pensar que hoje não faria nada de diferente, mas certamente que sim porque, como tenho vindo a sublinhar, estou permanentemente insatisfeito. Talvez desenvolvesse mais um ou outro ponto, por exemplo a questão dos índios nas aventuras de Tex, talvez resumisse outros pontos. Enfim, há sempre algo a acrescentar, alterar ou cortar.

Sérgio Sousa – Depois deste livro quais os próximos projetos para o Mário escritor?

Mário Marques – Continuar a escrever na revista do Clube Tex Portugal, pelo menos. Outras coisas o futuro o dirá. Eu não me considero um escritor pelo facto de ter escrito um livro, apenas alguém que gosta de transmitir e fazer chegar aquilo que pensa. Nem sempre escrevi sobre o Tex, porque cheguei a participar num site do Nuno Pereira de Sousa sobre BD e nessa altura escrevia sobre o franco-belga, também escrevi numa ou outra publicação, enfim, não me considero escritor, vou sim escrevendo. Projetos eu tenho sempre alguns, há sempre qualquer coisa em mente, a maior parte das vezes abandono por manifesta incapacidade em levar por diante. Seja como for, depois de ter pensado num livro, tê-lo organizado, escrito por inteiro, ter participado ativamente em quase toda a sua preparação, qualquer outra coisa que venha a fazer terá se ser também algo que seja essencialmente meu.

Nº 1 da Revista do Clube Tex Portugal

Quer com isto dizer que terei sempre preferência por um produto genuinamente meu. Guardo para mim o projeto de um livro que, por exemplo, compile os artigos que tenho escrito para a revista do Clube Tex Portugal. Gostava também de escrever um livro sobre as melhores histórias do Tex que, aproveito para referir, tinha idealizado para ser o capítulo final deste meu livro, mas que acabei por retirar porque acho que merece outro desenvolvimento. Mas o que gostava verdadeiramente era saber escrever BD, argumentos de vários géneros e temáticas onde pudesse deixar a minha visão e sensibilidade sobre o nosso mundo, as questões atuais, os problemas que nos afligem, a nossa sociedade, as nossas prioridades, mas também aventuras puras. Sinceramente, é algo que acho extremamente difícil e para o qual não fui realmente prendado, porque uma coisa é tu escreveres uma história, outra bem diferente é tornares essa história numa BD.

José Hartvig de Freitas e Mário João Marques na apresentação do livro ‘Tex: Mais que um Herói’

Sérgio Sousa – Mais uma vez agradeço a entrevista, desejo-te todo o sucesso, quer a nível pessoal, familiar, profissional e também neste grandioso empreendimento, e, para concluir, pergunto qual a questão que faltou nesta entrevista, ou que gostarias que tivesse colocado, e a respetiva resposta. Obrigado.
Mário Marques – Podias ter colocado a questão se eu gostava de vender os direitos do meu livro para outros mercados, e a resposta naturalmente seria que sim. Trata-se de um sonho. Afinal, como alguém disse, o que seria da vida sem os sonhos?

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Entrevista de Sérgio Manuel Madeira de Sousa apresentada no blogue Thebonelliemporium em 8 de Janeiro de 2023.

Copyright: © 2023, Sérgio Madeira Sousa

Tex em 2017: o futuro passa pelo passado

Por Mário João Marques*

O ano parece ter ficado marcado pelos regressos. Regresso de personagens, não só saídas do imaginário do criador da série Gianluigi Bonelli, como Yama, Lupe Velasco, Sam Willer ou Damned Dick, mas também do atual editor Mauro Boselli, como Jethro Stevens e Glenn Corbett. Uma tendência que se vem acentuando nos últimos anos e que  parece vir a cimentar-se com Boselli ao leme de Tex, se também tivermos em conta o que se encontra em preparação para os próximos meses. Pelas mãos de Enrique Breccia, Tex regressará, ao lado de Lilyth, nas vestes do Homem da Morte, assim como se preparam os regressos de alguns dos seus inimigos, como John Coffin e o xerife Mallory (responsáveis pela morte de Sam Willer), numa aventura desenhada por Giovanni Ticci, comemorativa do septuagésimo aniversário da série, Proteus, o Mestre e a índia Tesah, protagonista da primeira aventura de Tex, sem esquecer Mefisto e novamente o filho Yama, pela mão dos irmãos Cestaro, ou do Capitão Barba Negra com Stefano Andreucci. Releve-se ainda que está a ser avaliada a passagem do Tex Magazine a semestral, isto porque Boselli gostaria de fazer uma história tendo como protagonista Lilyth e uma outra tendo como principal protagonista o cavalo de Tex, Dinamite. No entanto, os regressos ocorridos em 2017 não se ficaram apenas por algumas personagens, uma vez que, no que a autores se refere, saúdam-se sobretudo os regressos dos desenhadores Stefano Andreucci, Lucio Fillippucci e Pasquale Frisenda, uma vez que os seus últimos trabalhos na série datavam de 2013, mas também de Claudio Nizzi que voltou a escrever para Tex, depois do seu último trabalho, L’Oro dei monti San Juan também ter sido publicado em 2013. Finalmente, foi também um ano marcado por várias aventuras onde o leitor viajou pelo passado de Tex, uma vez que foram vários os episódios ocorridos numa época anterior à sua primeira aventura, Il totem misterioso, e que nos trouxeram factos importantes para a série, nomeadamente conhecermos os seus pais Ken e Mae.

Il segno di Yama – Capa e desenhos de Fabio Civitelli

O ano começou com um dos grandes regressos, com o ranger a defrontar um dos seus grandes inimigos, Yama, o senhor da morte, filho do arqui-rival Mefisto. Apesar de iniciada a sua publicação em Itália no final de 2016, Il Segno di Yama vai estender-se pelos primeiros meses de 2017, marcando um acontecimento na série, porque traz de volta uma das personagens mais marcantes com origem no imaginário do seu criador Gianluigi Bonelli. A última aparição de Yama tinha ocorrido em 2002, quando Tex enfrentou o seu pai Mefisto pela última vez, numa aventura assinada por Nizzi e Villa. Nessa altura, Yama parecia ter perdido os seus poderes, condenado a percorrer os caminhos do oeste ao lado da mãe Myriam e é nesta fase, mais concretamente em Dunlap no Nebrasca, que se inicia esta nova aventura, desta vez com Mauro Boselli a escrever mais de trezentas páginas, magistralmente desenhadas por Fabio Civitelli. Curiosamente, será a primeira vez que Boselli pegará numa personagem tão marcante na história da série, centrando a trama no constante conflito com os seus dois alter-egos, o humano, mas fraco e débil Blacky Dickart, e o senhor da morte Yama. Ao centrar a história na construção interior da personagem atormentada que é Yama, senhor de enormes poderes, mas de uma forte instabilidade mental, na sua incapacidade em controlar as forças obscuras por ele evocadas, expondo assim as suas debilidades e a constante comparação com o pai Mefisto, Boselli explora como nunca um inimigo de Tex, conduzindo a aventura a uma espessura psicológica que Gianluigi Bonelli nunca fez, através de referências à mitologia indiana, desde as esculturas aos monstros lovercraftianos, revelando um autor de uma imensa cultura, característica que podemos testemunhar em Dampyr, outra série onde Boselli é também curador. Inicialmente receoso de enfrentar o desafio de desenhar uma história, destinada fatalmente a tornar-se num clássico, por via de um dos seus protagonistas, Civitelli tem aqui mais um desempenho fantástico. Apesar do seu estilo limpo e claro, para alguns (que ainda teimam em considerá-lo) pouco adaptado a estes ambientes tenebrosos e obscuros, a verdade é que o autor consegue jogar com luzes e sombras como poucos, muito por força da sua paixão pela fotografia, que tanta influência traz ao seu desenho, mas também porque este seu trabalho caracteriza-se por uma nova procura de tons que possam substituir os clássicos brancos e negros, procura que não advêm apenas do seu tradicional e tão apreciado pontilhado, mas também pela utilização de tons mais sombrios que interpretam graficamente de forma sublime toda a atmosfera fantástica do argumento de Boselli. Será esta a sua obra-prima? Difícil deixar aqui semelhante afirmação em razão dos seus trabalhos anteriores, sempre em crescendo. Aquilo que ressalta deste trabalho é que supera em pleno todas as possibilidades que uma história do género oferece, onde se inclui uma representação sublime e convincente de Yama.

Tex #678 – Jethro!

Ainda na série mensal, terminada a aventura com Yama, Mauro Boselli e Corrado Mastantuono apresentam Jethro, história que marcou o regresso de mais duas personagens, o negro Jethro Stevens e o antigo guerrilheiro nortista Glenn Corbett, ambas surgidas da veia criadora de Boselli, numa inesquecível e épica aventura desenhada por Carlo Rafaelle Marcello, La Grande Invasione, e que narrou a resistência de um grupo de prisioneiros e de colonos guiados por um jovem Tex Willer que, em Forte Quitman, salvaram o Texas da invasão dos Comanches de Tonkawa, Buffalo Chief e Quanah Parker. Desta vez, enquanto prepara a defesa do seu pequeno rancho face à investida de quem pretende apoderar-se das suas terras, Jethro vai narrando ao seu filho Alex um episódio vivido ao lado de Tex e Glenn, quando estes o acompanharam, finda a Guerra Civil, de regresso ao Mississipi para encontrar os assassinos da sua mulher e filho e onde foram obrigados a enfrentar os encapuçados racistas do Ku Klux Klan. Tal como a já citada La Grande Invasione, esta aventura deixa-nos o mesmo sabor épico, o mesmo paladar das grandes aventuras texianas, um hino à amizade e um sublinhar dos grandes valores morais. Uma vez mais, Boselli é superior na caracterização psicológica das personagens, que nesta história parecem ser construídas de modo bonelliano, já que, ao não fazerem qualquer concessão ao seu modo de ser, não deixam qualquer dúvida sobre o seu real caráter, uma vez que, mesmo terminada a Guerra Civil, o racismo continua bem presente no velho Sul, uma terra sempre habituada a ver o negro como escravo e onde se mantêm bem presentes e enraizadas convicções profundamente erradas. Uma atmosfera de ódio, medo, violência e injustiça, extraordinariamente desenhada por Corrado Mastantuono que, de aventura em aventura, vai assinando trabalhos de qualidade superior. Um desenhador que se suplanta em ambientes noturnos, com condições agrestes, sobretudo com chuva e temporais, na caracterização das personagens e, cada vez mais, na construção do próprio herói, um Tex granítico como poucas vezes o vimos.

Página de Il Ritorno di Lupe – Arte de Alessandro Piccinelli

Em agosto, na série mensal, surge Il Ritorno di Lupe, de Mauro Boselli e Alessandro Picccinelli, aventura que, tal como o seu título assim o indica, marcou o regresso de Lupe Velasco, uma das primeiras personagens da história da série, cuja primeira aparição deu-se em 1950 na aventura Lupe, la Messicana, de Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini. Apesar de apenas ter surgido nessa já longínqua aventura, a verdade é que Lupe tornou-se numa das personagens femininas mais conhecidas e fascinantes. Foi a primeira mulher a apaixonar-se verdadeiramente por Tex, a primeira que lhe deu a conhecer os seus sentimentos e o pediu em casamento, sendo também a única que, até hoje, deixou o herói embaraçado, acabando o jovem cowboy por abandonar Lupe depois desta lhe ter salvo a vida. Esta é mais uma aventura de regresso ao passado de Tex, uma vez que o jovem Kit Willer, ao salvar uma jovem mexicana, Luz de seu nome e afinal filha de Lupe, acaba por criar as condições para que o seu pai possa reviver mais um episódio do seu passado, quando, ainda Kit era uma criança, Tex viveu uma aventura no México, julgando que, desde essa altura, Lupe estivesse morta. Mais um excelente trabalho de Alessandro Piccinelli, com um desenho de grande realismo, uma superior construção das personagens e uma Lupe plena de sensualidade.

Nueces Valley – Maxi Tex 31

Depois do regresso destas personagens, o ano ficou também marcado com um regresso ao passado do herói, sublinhado nomeadamente através de três aventuras. Em termos de cronologia dos acontecimentos, a primeira é Nueces Valley, publicada no Maxi Tex, um longo e fascinante retorno ao passado do nosso herói, que se inicia alguns meses antes do seu nascimento, quando os seus pais Ken e Mae Willer acompanhavam uma caravana de pioneiros com destino a Nueces Valley no Texas. A aventura continua nos anos da sua infância, ao lado do irmão Sam e do velho Gunny Bill, até chegar aos seus tempos de juventude, quando Tex conduz uma manada de gado até Corpus Christi.

Os pais de Tex na arte de Pasquale Del Vecchio em Nueces Valley

Um Tex como ainda não tínhamos visto, um relato épico que mergulha nas origens de alguém que se veio a tornar numa verdadeira lenda, através de alguns episódios vividos na companhia de Jim Bridger, um explorador que realmente existiu e contribuiu para a História do Oeste. Nueces Valley junta-se assim a Il magnifico fuorilegge e a Il vendicatore (aventuras de que falaremos em seguida), para constituir uma trilogia sobre o passado de Tex. Del Vecchio desenha cada vez melhor! Um valor sólido na equipa de Tex, com um desenho clássico, de grande visibilidade e um respeito máximo pela tradição. Os seus estudos de personagens que nos são apresentados neste Maxi Tex são absolutamente uma beleza, sobretudo a composição de Mae Willer, comprovando estarmos em presença de um autor que nunca nos engana e que apresenta sempre o melhor de si.

Il Vendicatore – Capa de Stefano Andreucci

Outro episódio do passado de Tex encontra-se em Il vendicatore, o sexto álbum cartonado de Tex editado pela SBE, aventura assinada por Mauro Boselli e Stefano Andreucci, uma equipa já habituada a trabalhar em conjunto noutras séries como Dampyr e, nos anos 90, Zagor. É de referir que os poucos (infelizmente) trabalhos que Andreucci já desenhou para Tex foram sempre escritos por Boselli. Voltando a este cartonado, depois de Serpieri, Alberti, Stano, De Vita e um tributo a Galep com a aventura Gli sterminatori, Il Vendicatore volta a contar um episódio da juventude de Tex, com os respectivos eventos a ocorrerem pouco tempo após o assassinato de Ken Willer, o pai de Tex. Esta aventura inicia-se quando o velho Gunny Bill é morto, depois de ter acompanhado Tex ao México em busca dos assassinos do seu pai. Existe, assim, um arco de ligação com o relato que, décadas atrás, Gianluigi Bonelli apresentou em Il passato di Tex. Uma trama plena de ação e um ritmo trepidante, desenhada por um Andreucci de altíssimo nível, aqui fazendo uso de enquadramentos e uma planificação muito moderna, onde consegue condensar com qualidade várias cenas na mesma página, como é característico nesta publicação.

Il Vendicatore – Arte de Stefano Andreucci

Um desenhador que sente o mesmo à vontade com o preto e branco e a cor (de um excelente Matteo Vattani), assim como com uma planificação mais conservadora ou moderna. Com estas aventuras publicadas nos cartonados, Boselli prova que uma série como Tex pode experimentar outras fórmulas e outras vias, destacando-se da série mensal, com as histórias a abandonarem os extensos diálogos, o que, em conjunto com outra planificação, acelera a narração. Certamente que, nestas aventuras, na maior parte das vezes Tex tem agido sem a companhia dos seus habituais pards, nomeadamente sente-se a falta dos saborosos diálogos mantidos com o resmungão Carson. Mas para isso, felizmente, temos a série mensal sempre à nossa espera.

Il magnifico fuorilegge – Capa de Stefano Andreucci

Finalmente, com Il magnifico fuorilegge, aventura publicada no Speciale, fecha-se a trilogia de regressos ao passado do herói. A aventura centra-se num novo capítulo ligado ao seu passado de rebelde pistoleiro, desta vez injustamente acusado do assassinato de três exploradores de ouro. É o próprio Tex que vai narrando os acontecimentos, a Carson e ao filho Kit, de uma época de cavaleiro solitário inseparável do seu fiel cavalo dinamite, o extraordinário animal de inteligência quase humana e que assim também regressa à série. Il magnifico fuorilegge é uma história de ação, amizade e traições, onde Tex conhece Will Kramer, um jovem dotado no disparo e decidido a fazer nome no velho oeste, uma personagem que, tudo aparenta, Boselli poderá fazer regressar mais tarde, mas onde o nosso herói também trava conhecimento com Cochise pela primeira vez. Boselli joga muito bem com a figura de Tex, uma vez que é a evolução da personagem ao longo da aventura que aqui merece ser sublinhada, de jovem irrequieto até a um gradual amadurecimento, começando a dar sinais de algumas das características que o marcarão em adulto, a honestidade, o senso da honra e a integridade.

Il magnifico fuorilegge – Esboços na arte de Stefano Andreucci

A servir esta aventura fascinante, encontramos as páginas maravilhosas (desta vez a preto e branco) de Stefano Andreucci, que consegue manter uma grande coerência gráfica ao longo de toda a aventura, construindo personagens altamente expressivas, que actuam em cenários dinâmicos, enquadrados cinematograficamente. Um estilo marcadamente moderno, sem contudo renegar a composição fundamentalmente clássica dos cânones editoriais da SBE. Il magnifico fuorilegge é, deste modo, um dos vários exemplos de reconstrução do passado de Tex que Boselli tem vindo a imprimir na série. Uma reconstrução através de vários episódios que se podem desenvolver em pontos e épocas onde as aventuras, até agora contadas, não chegaram, no fundo a presentear os leitores com uma espécie de legado biográfico que uma personagem, com quase setenta anos de vida, amplamente merece.

Il ragazzo rapito – Tex 676

Num ano recheado de regressos, houve, no entanto, espaço para outras aventuras. Na série mensal, por exemplo, encontramos duas aventuras no mais puro estilo clássico. A primeira foi Il Ragazzo Rapito, escrita por Tito Faraci e desenhada por Gianluca Acciarino, a aventura conta-nos a historia de Kenneth Bowen, um pistoleiro contratado para abater um rancheiro e que acaba por salvar o seu filho, nascendo entre ambos um relacionamento de carinho e afeto. A presença da criança acabará por reviver no pistoleiro o sentimento de humanidade que havia perdido quando assassinaram a sua família, levando-o a optar por uma existência errante de pistoleiro contratado. Página após página, Bowen começa gradualmente a demonstrar o seu verdadeiro caráter e personalidade, revelando pela criança o mesmo amor que nutria pelo seu próprio filho. Se partirmos do princípio que nesta aventura não contámos com o regresso de personagens de outras aventuras, houve, no entanto, outro regresso, o de apresentar uma história com um bandido humano e simpático para o leitor, deixando a Tex a decisão de optar pelo seu destino.

Il ragazzo rapito – Tex 676 – Arte de Gianluca Acciarino

Com isto, Faraci apresenta um Tex capaz de compreender a essência humana, capaz de ver para além das leis, capaz de saber que os homens podem por vezes mudar, algo que autores como Gianluigi Bonelli em Il cacciatore di taglie ou Claudio Nizzi em Puerta del Diablo, já tinham apresentado, e que se encontra também patente nas últimas palavras proferidas por Tex na curta história de Mauro Boselli e Enrique Bertozzi, Abilene, Kansas, publicada no Color Tex 12: “… para ser justo, nem sempre se deve seguir à risca e escrupulosamente a lei“. Depois do próprio leitor ter perdoado Bowen e de se ter afeiçoado à personagem, entra aqui o modo muito próprio de Tex compreender os homens e o mundo que o rodeia, tornando Il Ragazzo Rapito numa das melhores histórias de Faraci, juntamente com L’Uomo di Baltimora, apesar de, mais uma vez, o autor não inserir os quatro pards em conjunto. Bowen é por assim dizer o verdadeiro protagonista da aventura, o que, ao mesmo tempo, representa o ponto fraco da mesma, porque remete Tex para um papel, não diremos secundário, mas menos interveniente e quase sempre atrás dos acontecimentos. Por seu lado, Gianluca Acciarino tem aqui o seu segundo trabalho na série, depois de Tombstone Epitaph, revelando ser um desenhador com muito talento. Relativamente ao seu trabalho anterior, registam-se notórios progressos, quer na fisionomia de Tex e Carson, como sobretudo nas restantes personagens, todas construídas de modo expressivo e diversificado. Referência ainda para a magnífica capa do primeiro álbum desta aventura, com Claudio Villa a optar por criar um desenho de justaposição, uma técnica já desenvolvida em 233 (Collezione Storica a Colori) e em 642 da série mensal.

La pista dei Forrester – Tex 680

Ainda na série mensal, La Pista dei Forrester, de Pasquale Ruju e Lucio Filippucci foi outra aventura que nos permitiu respirar um pouco fora da órbita dos regressos. Uma aventura clássica com início no Texas Meridional, quando os três irmãos Forrester chegam à cidade de Kyle Creek, depois de mais um assalto efetuado em terras mexicanas. Depois de ter sido identificado, o jovem Timothy Forrester abate a sangue frio o xerife Desmond, um amigo de Tex, levando a que o ranger e o seu filho Kit sigam na pista do bando, mas vão ter que contar com a presença do general mexicano Ramirez que, acompanhado pelos seus pistoleiros, atravessou a fronteira disposto a vingar a morte do seu irmão, abatido pelos Forrester. Trata-se de uma história de famílias, a dos Forrester, onde surge Timothy, mais uma das várias personagens atormentadas que Pasquale Ruju tanto gosta de apresentar, acompanhado pelos irmãos Jerome, o mais velho e racional, o cérebro do bando, e Noah, forte como um touro e imbatível com a espingarda, juntos vivendo sob a proteção de uma mãe autoritária e da doce e compreensiva Lizzy, a única que consegue acalmar os cada vez mais frequentes ataques de pânico do irmão Timothy.

La pista dei Forrester – Tex 680 – Arte de Lucio Filippucci

Uma história de famílias também pelo facto de Ruju ter escolhido o seu filho Kit para o acompanhar, ao invés do seu habitual parceiro Kit Carson ou de Jack Tigre e, já agora, também porque o que move o general Ramirez é vingar a morte do seu irmão. Partindo de uma trama clássica, Ruju consegue cativar o leitor através de um dramatismo em crescendo, pautado aqui e ali por momentos mais contidos, onde sobressaem os diálogos de Tex com Jerome e a atração que Lizzy vai sentindo por Kit Willer. Afastado da série desde 2013, quando desenhou a última aventura de Nizzi, L’Oro dei Monti San Juan, referida acima, Filippucci surge em grande forma nesta aventura, com um desenho muito clássico e limpo que permite cada quadrado respirar e onde apresenta excelentes grandes planos de Tex.

Tex Magazine 2017

O segundo número do Tex Magazine volta a apresentar duas aventuras completas, Freedom Ranch, de 78 páginas, que assinala a estreia na série de Antonio Zamberletti (de Zagor e Dampyr), e ainda Terrore tra I Boschi, com 32 páginas, que também traz um novo nome, o de Chuck Dixon, ambos como argumentistas. No desenho das aventuras surgem dois nomes que se tinham estreado no Color Tex 10, Walter Venturi e Michele Rubini. A capa, mais uma vez de Claudio Villa, apresenta Tex ao lado da vedeta da segunda aventura, o seu filho Kit, tal como o número de 2016 tinha colocado o ranger ao lado de Carson, a estrela também da segunda aventura desse número, Maria Pilar. O conteúdo deste Tex Magazine é ainda ocupado com uma variedade de artigos dedicados ao western, nomeadamente as novidades cinematográficas, televisivas, literárias, assim como dois extensos dossiers, um sobre a figura de Buffalo Bill e outro dedicado aos jovens, filhos de grandes heróis, focando sobretudo Kit Willer.

Freedom Ranch, de 78 páginas, que assinalou a estreia na série Tex do argumentista Antonio Zamberletti (de Zagor e Dampyr)

Relativamente às duas aventuras propostas, Freedom Ranch é uma história de contornos humanistas, que toca no tema do racismo no velho oeste, que nesta aventura se estende aos índios e aos negros. Abraham Lawrence é um ex-Buffalo Soldier que, após a guerra civil que assolou o país, encontrou o seu espaço num rancho que ele próprio herdou e desenvolveu. Freedom Ranch faz justiça ao seu nome, porque ali os homens de todas as raças, assim como ex-prisioneiros, encontram o seu lugar e uma nova oportunidade de vida. Um espaço que assume um significado amplo e idealista num oeste violento, de ódio e onde a escravatura tinha sido abolida muito recentemente. No final, Zamberletti deixa um toque de esperança, porque derrotado o inimigo, quem sabe se um dia não haverá espaço para que um negro possa vir a ser governador ou mesmo Presidente?… Walter Venturi assume-se como um ótimo intérprete desta aventura, mercê de um traço metódico e detalhado, com excelentes sequências nas cenas de ação.

Terrore tra I Boschi, com 32 páginas, que também traz um novo nome, o de Chuck Dixon no argumento

Terrore tra I Boschi traz novamente um autor norte-americano para Tex. Depois de Gary Frank, que assinou a capa do Color Tex 10, estreia-se agora Chuck Dixon, autor conceituado e conhecido sobretudo por alguns ciclos de aventuras de Batman e Punisher. É uma aventura quase toda protagonizada por Kit Willer e onde o jovem, uma vez mais, prova estar perfeitamente à altura dos acontecimentos, demonstrando as suas inúmeras e inegáveis qualidades, mesmo sem a ajuda do pai ou dos outros pards. Uma aventura onde Michele Rubini, desenhador de Zagor e oriundo da escola de Stefano Andreucci, prova a sua grande capacidade e virtuosismo, com um estilo potente, elegante e sempre muito expressivo. O Tex Magazine assume-se assim como um banco de ensaio para argumentistas e desenhadores que devem ganhar confiança com as personagens e os ambientes da série, podendo posteriormente entrar ou não no staff dos autores.

Cowboys – Color Tex 11

O primeiro Color Tex do ano, habitualmente publicado no início do Verão, publica uma história completa de 160 páginas da autoria de autores do staff texiano, ao contrário da edição de novembro, onde o leitor pode encontrar histórias completas mais curtas, não obrigatoriamente assinadas por autores de Tex. Neste número, Pasquale Ruju e Giacomo Danúbio encontram-se ao leme de Cowboys, uma aventura cujo tema faz parte da tradição do velho oeste americano, o trabalho duro e árduo dos vaqueiros e das suas manadas, verdadeiros protagonistas de tantas e tantas epopeias. Desta vez, Carson, acompanhado de Tex, encontra um velho amigo, Alan Bannon, que se dirige com os seus homens e a sua manada até à cidade de Caldwell, onde pretende vender o gado e partir para o leste. Mas o perigo espreita, porque um velho inimigo de Bannon pretende vingar-se de um episódio ocorrido no passado, obrigando os rangers a juntarem-se ao grupo.

Cowboys – Color Tex 11 – Arte de Giacomo Danubio

Enquadrada por uma magnífica capa de Claudio Villa, com Tex em primeiro plano empunhando a sua Winchester, Ruju escreve uma aventura simples e linear, mas quase sempre em clímax narrativo, onde sublinha a dura atividade dos vaqueiros, frequentemente alvo de perigos e dificuldades, imprevistos ditados pela mãe natureza ou  vítimas de ataques de bandidos e índios. Giacomo Danúbio regressa a Tex, assinando com Cowboys a sua primeira grande aventura na série, uma vez que os seus anteriores trabalhos foram sempre aventuras mais curtas. O autor revela-se sempre muito mais à vontade nas cenas de ação, sobretudo quando vaqueiros e gado têm que lutar contra as condições agrestes do tempo, assim como na caracterização gráfica das personagens, principalmente as secundárias, apesar de alternar pouco na expressividade das mesmas.

Color Tex 12 – Capa de Maurizio Dotti

No segundo Color Tex do ano, dedicado às aventuras curtas, realce para os regressos de Pasquale Frisenda, que desenha Sparate Sul pianista, escrita por Pasquale Ruju, e de Claudio Nizzi, que escreve Dal Tramonto all’alba. Um regresso que promete não ficar por este trabalho, já que o autor, entretanto, já está a escrever uma aventura para Lucio Filippucci. Nesta publicação estreiam-se os argumentistas Andrea Cavaletto e um homem da própria editora, Giorgio Giusfredi, assim como os desenhadores Enrico Bertozzi, Alessandro Poli (cuja qualidade de trabalho parece “condená-lo” a ficar na série), Marco Soldi e Roberto Zaghi. Um número com uma magnífica capa de Maurizio Dotti, o primeiro autor do staff texiano a desenhar uma capa para o Color Tex dedicado as histórias curtas. Sublinhe-se ainda que a SBE publicou uma capa variante, esta assinada por Simone Bianchi, um desenhador de ponta da Marvel.

Io Ucciderò Tex Willer – Arte de Marco Soldi

Em jeito de conclusão, nada melhor que aproveitar as acertadas palavras de Graziano Frediani escritas no texto de abertura do Speciale, a propósito da aventura Il magnifico fuorilegge: “Não sei se, quando o criaram em 1948, (…) Gianluigi Bonelli e o desenhador Aurelio Galleppini tinham consciência das enormes potencialidades do jovem magrela com a camisa franjada...”. A verdade é que a estratégia de Mauro Boselli e da SBE apresenta potencialidades sem fim, destinada a explorar a arrojada juventude do herói que, de foragido a ranger, nunca deixou sobretudo de ser um justiceiro. Por isso, certamente que muito do passado do herói será conhecido no futuro.

* Texto de Mário João Marques publicado originalmente na Revista nº 7 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2017.

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Tex Willer na bela ARTE de Cayman Moreira

Por José Carlos Francisco

Cayman Moreira é um fã e coleccionador brasileiro de Tex que tendo nascido em Fortaleza, no Estado do Ceará, Nordeste do Brasil, a 16 de Agosto de 1961, é designer, músico, pintor, desenhador, argumentista e instrutor de artes e ofícios e quis brindar os leitores do blogue do Tex com uma sua recente arte dedicada ao Ranger criado em 1948 por Gian Luigi Bonelli e desenhado pelo Mestre Aurelio Galleppini.

A propósito desta sua belíssima arte Cayman Moreira confidenciou-nos: “É a minha concepção artística de Tex Willer.“.

Mas para conhecer melhor este verdadeiro artista brasileiro recomendamos a leitura de uma sua entrevista dada precisamente ao nosso blogue, entrevista essa riquíssima e que pode ser lida clicando AQUI!

Tex Willer na bela ARTE de Cayman Moreira

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2023: 75 anos de Tex (com direito a logótipo exclusivo)

Iniciou-se há uma semana o ano em que se comemora o septuagésimo quinto aniversário de Tex, o Ranger mais famoso da história da banda desenhada italiana. A Sergio Bonelli Editore celebra esta efeméride com um logótipo especial que aparecerá em todas as capas de Tex!

75 anos de Tex

A partir de Janeiro e até ao final de Dezembro deste ano, nas capas de todos os volumes de Tex os leitores italianos encontrarão o logótipo especial comemorativo criado por Elena Giampaoli que mostramos acima e na galeria de capas de Janeiro que mostramos de seguida:

Super Tex #15 – “Dollari maledetti”. Nos quiosques italianos a partir de 5 de Janeiro

Tex #747 – “Il grande incendio”. Nos quiosques italianos a partir de 7 de Janeiro

Tex Classic #153 – “Piste insanguinate”. Nos quiosques italianos a partir de 13 de Janeiro

Tex Willer #51 – “Scalphunters”. Nos quiosques italianos a partir de 18 de Janeiro

Tex Magazine 2023. Nos quiosques italianos a partir de 25 de Janeiro

Tex Classic #154 – “La lunga notte”. Nos quiosques italianos a partir de 27 de Janeiro

Tex Nuova Ristampa #489 – “La collera dei Montoya”. Nos quiosques italianos a partir de 14 de Janeiro

Tutto Tex #622 – “La rivincita di Makua”. Nos quiosques italianos a partir de 28 de Janeiro

O logótipo que celebra os 75 anos do Tex, criado por Elena Giampaoli

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