Tex nº 19 – CACCIA AL FANTASMA

Tex nº 19 – CACCIA AL FANTASMA

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Guglielmo Letteri com a colaboração de Raffaele Della Monica e capas de Claudio Villa.
Com o título original Il veleno del cobra, a história foi publicada em Itália no Maxi Tex 2006 e no Brasil pela Mythos Editora na 3ª minissérie de Tex, em duas edições.
No Nevada, perto de Virgínia City e, quando se encontravam a caminho de S. Francisco, Tex e Carson são surpreendidos por uma perseguição que um grupo armado faz a um conjunto de chineses. Estes transportam o ouro extraído de uma sua mina e que pretendiam levar para o comboio com destino a S. Francisco.
A seita chinesa do Loto Verde, chefiada pelo misterioso Cobra, oferece protecção a todos os que pagam por isso, o que não acontece com o pequeno grupo de mineiros, ultimamente vítimas de perseguições e chantagens. Tex e Carson, fazem uma interrupção na sua viagem e decidem ajudar o grupo.
A primeira impressão deixada pela aventura é a de um regresso ao passado. Ao passado da série, se nos lembrarmos de “Chinatown”, mítica e excelente aventura escrita pelo saudoso G.L. Bonelli e também desenhada por Letteri. De certa forma a magia opera na primeira parte desta história escrita por Nizzi, não diremos a mesma magia ou a mesma atracção que sentimos ao ler “Chinatown”, mas quando Nizzi utiliza os mesmos chineses, com as suas seitas, as suas tradições ou os seus códigos milenares, é no passado bonelliano que mergulhamos.
Sem pretendermos entrar em comparações, até porque não é só o tempo que é outro, é também um estilo, esta aventura acaba por seduzir até certo ponto. Ou seja, enquanto a trama se vai desenvolvendo, enquanto vamos conhecendo as personagens, enquanto não dispomos da ideia que Nizzi pretende para a aventura, mantemo-nos suspensos a meio caminho entre o revivalismo de aventuras e ambientes conhecidos e o novo tempo, o do Tex nizziano que, actualmente, pouco tem de bonelliano. Por outras palavras, enquanto a magia e a sedução dos ambientes chineses vai operando, a leitura avança fluida e ritmada, mas chegados a um ponto, o da perseguição ao Cobra, dá-se o corte com esse passado tão saudoso e acabamos por regressar ao presente, a um tempo onde Tex limita-se a seguir pistas e a juntar detalhes e, durante toda a aventura, acaba por nunca enfrentar directamente o seu inimigo.
Mais atentos podemos afirmar que Nizz foi buscar ao passado ambientes e personagens bonellianas, com a eventual pretensão de conferir uma qualidade que tem andado tão arredia dos seus argumentos. Mas o que foi um artifício revelou-se também ser uma armadilha, porque Nizzi esqueceu a dimensão psicológica ou a estrutura dramática bonelliana. Nizzi abusa em certas passagens de diálogos superfulos, de cenas por demais batidas, tornando, por exemplo, a parte central da aventura muito fastidiosa. Bem vistas as coisas, cada um como cada qual e Nizzi, antes de ser bonelliano, só tem que regressar a um tempo preciso, ao tempo em que foi escolhido para substituir o mestre.
Esta aventura também guardava natural curiosidade pelo facto de se tratar do último trabalho de Letteri, que aliás o autor não chegou a terminar, devido ao seu falecimento, sendo substituído pelo competente Della Mónica. Sem pretender elogiar o trabalho de Letteri, até porque nunca foi, a meu ver, um desenhador dinâmico, importa mais prestar a justa homenagem a quem, antes do mais, foi um desenhador competente e esforçado, que emprestou à figura texiana uma fisionomia muito própria. Letteri foi também um desenhador que se especializou mais em determinados ambientes (mexicanos ou fantásticos) e que sempre se manteve fiel à personagem que ajudou a desenvolver.
Nos últimos tempos, com o decorrer da sua idade, o traço de Letteri interpretava e ampliava já as imperfeições que sempre lhe testemunhámos, como planos repetidos, falhas fisionómicas e uma visão pouco actual do dinamismo da 9ª Arte. No entanto, esta notória decadência que o autor vinha evidenciando acaba por não ser tão acentuada neste seu último trabalho, talvez pelo facto de Letteri sempre se ter sentido mais à vontade nestes cenários urbanos e com este tipo de personagens. Se mais não sirva, no fundo esta aventura acaba por ser a homenagem possível a um competente artista.
Texto de Mário João Marques
Texto do jornal semanário Região Bairradina, de 4 de Outubro de 2006
Por Constantino Ferreira
“Tex é para mim um irmão mais velho e um amigo”
Se é daqueles que nunca ouviu falar no Tex, esta é a verdadeira oportunidade de conhecer a personagem. Basta perguntar a José Francisco, 38 anos, residente na Malaposta, Anadia, um dos maiores coleccionadores mundiais de tudo o que tenha a ver com este cow-boy de Banda Desenhada. Desde a colecção completa de livros a um maço de cigarros “pirata”, não há nada que este coleccionador não possua. Conheça agora a história de uma paixão inusitada que começou há 26 anos…
* À conversa com… José Francisco, coleccionador de livros e objectos de Tex
Região Bairradina: Quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
José Francisco: Desde que me conheço por gente, sempre tive um enorme fascínio pela Banda Desenhada. Nasci praticamente no meio dela, em virtude da minha mãe ter uma livraria em Lourenço Marques (actual Maputo – Moçambique). No entanto, a paixão por Tex nasceu de um modo inesperado e foi o típico caso de amor à primeira vista. Descobri o cowboy já em Portugal, em 1980, quando os meus avós foram morar para uma quinta em Vila Nogueira de Azeitão. Durante as limpezas descobri uma caixa com muitas revistas de BD, entre elas um exemplar de Tex, mas uma edição especial: Tex 94 – “Pacto de Sangue”, que retrata a aventura do casamento do Tex. No mesmo dia, fui a um quiosque e comprei o número que estava nas bancas (114). A partir daí, fui comprando as edições que iam saindo e correndo alfarrabistas e feiras de livros ou antiguidades em busca das edições perdidas.
RB: Porquê o Tex e não outra personagem?
JF: Porque quem lê Tex não consegue ficar indiferente ao ranger. Fascina por ser uma personagem com carácter humanitário que luta sempre para fazer triunfar a justiça. Diferente dos heróis da época, Tex é um homem duro. É uma personagem destinada a um público mais maduro. Tex é um justiceiro decidido, capaz de agir fora da lei, se a situação o exigir. Outro factor que contribuiu para a eleição é que Tex alia diversão e cultura. Foi com Tex que fiquei mais inteirado da cultura dos índios, da vida dos pioneiros, de episódios marcantes e reais na história dos Estados Unidos da América.
RB: O que representa para si esta personagem?
JF: Tex representa para mim o irmão mais velho, o grande companheiro e amigo, já que com ele fui consolidando valores como a honra, a honestidade e a integridade, já que Tex coloca a justiça acima da lei. Vivemos num mundo onde a violência predomina, repleto de injustiças e isso faz-nos ansiar por uma divindade capaz de acertar o passo da humanidade. E Tex Willer é a personificação procurada e que continua actual.
RB: Como conseguiu obter a colecção completa?
JF: A vida dos coleccionadores portugueses de Tex sempre foi muito difícil porque os livros vêm do outro lado do Oceano, mais precisamente do Brasil. Isto porque Tex apesar de estar presente no nosso país há 35 anos com o selo de editoras brasileiras, só em Agosto de 2005 teve uma edição especial totalmente produzida em Portugal. As revistas chegavam a Portugal sempre com 6 a 9 meses de atraso e algumas em mau estado de conservação. O pior é que às vezes “esqueciam-se” de enviar alguns números para cá. Apesar de todos os obstáculos, consegui completar a colecção brasileira há cerca de cinco anos, adquirindo o exemplar que me faltava, o número 1. A partir daí, foi só adquirir os exemplares que vão saindo mês a mês, totalizando no momento 443 números.
RB: Quantos exemplares tem neste momento?
JF: Vinte e seis anos depois do primeiro Tex, a colecção já cresceu para perto de 2.000 exemplares, destacando-se cerca de 850 edições brasileiras e 800 italianas. Este número deve-se a um festival de edições especiais extras e novas séries de Tex que têm surgido nos últimos anos. A tudo isto acrescente-se mais de uma centena de livros oriundos de outros 18 países.
RB: Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
JF: O que começou por ser apenas uma colecção de BD, passou a ser uma colecção de todo e qualquer objecto que tenha a ver com a personagem. Para além dos livros, possuo pranchas e desenhos originais, posters, camisolas, puzzles, o filme “Tex e O Senhor dos Abismos”, postais, selos, marcadores de páginas, pins, bottons, porta-chaves, tapetes de rato, catálogos, cromos, pinturas, bonecos, estatuetas e mais alguns outros objectos inusitados como por exemplo um cardápio de Tex.
RB: Tem algum objecto raro?
JF: Entre os objectos mais raros e únicos, destaco uma página original autografada do mais conceituado, na actualidade, desenhador de Tex, o Claudio Villa, um desenho inédito do desenhador Raffaele Carlo Marcello e uma caneta de nanquim autografada, com a qual Marcos Maldonado legendou, durante décadas, muitas edições brasileiras de Tex!
Não posso também deixar de citar um maço de cigarros “pirata”, que se tornou um item raríssimo, já que os maços que estavam à venda foram recolhidos e destruídos por ordem judicial, assim como selos emitidos há mais de dez anos, pelos correios italianos e de San Marino dedicados à personagem. Entre os livros mais raros, o exemplar brasileiro Júnior 61 (com a participação de Tex) de 1951, e o Tex finlandês nº 2, de 1964. Quanto a livros com grande valor sentimental, há um especial carinho pelo primeiro e para já único livro do Tex editado em Portugal, que contou com a minha colaboração a nível de tradução e textos.
RB: Há muitos apaixonados/coleccionadores do Tex em Portugal?
JF: Há um bom número de leitores/coleccionadores de Tex, como se comprova visitando websites, fóruns, grupos de discussão e blogues portugueses na Internet. Pessoalmente conheço cerca de uma centena.
RB: Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
JF: É comum receber a visita de outros coleccionadores, inclusive do estrangeiro e vice-versa. E é maravilhoso descobrir como Tex cria fortes laços de amizade. Também costumo organizar encontros de Texianos, sempre acompanhados pela sua ementa predilecta: um bife de três dedos de altura, com uma montanha de batatas fritas!
RB: Sendo o maior coleccionador do Tex, alguma vez expôs a colecção em Portugal?
JF: Sim, por ocasião do 14º Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, realizado de 1 a 15 de Outubro de 2005. Um dos destaques daquele Salão, foi a mostra “Tex – Cowboy e pistoleiro – Coleccionar a BD”, onde o público pôde apreciar um panorama impressionante de livros e peças da minha colecção, considerada uma das mais ricas no mundo, no que respeita à Banda Desenhada em Portugal.
RB: Gostaria de um dia expor os seus livros em Anadia?
JF: Seria com muito maior prazer que exporia na nossa cidade, desde que estivessem reunidas as condições de segurança apropriadas para o efeito.
No meu entender o mundo texiano é um mundo maravilhoso, que não olha a fronteiras e que decerto seriam apreciado pelas gentes do nosso concelho de Anadia.
Copyright: © 2006 Região Bairradina; Constantino Ferreira
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Por Jesus Nabor Ferreira[1]
Ao observar atentamente a primeira página desta saga, desenhada magistralmente por G. Ticci, oficialmente denominada de “A Cruz Trágica“ vemos que a disposição das cenas estão invertidas:
Cena 1: Ampla visão de uma queda de água com um punhado de vultos à esquerda de uma ponte natural; no meio desta ponte, uma cruz de madeira!
Cena 2: Primeiro plano de tronco de árvore, onde se pode se ver um crânio de animal e um espelho, no qual a lua está reflectida.
Cena 3: Três figuras em primeiro plano: um homem branco encapuzado, o feiticeiro Ho-Kuan e o chefe índio Sokami, com um arco armado para disparar uma flecha mortífera.
O feiticeiro diz ao chefe índio: “Calem os tambores! Chegou a hora!“
Cena 4: As mesmas três figuras em primeiro plano; ao fundo o tam- tam dos tambores de guerra. Ao lado deles o tronco de árvore com o crânio e o espelho. O feiticeiro diz: “Prepare-se, Sokami! Está chegando o momento!“.
Cena 5: O feiticeiro e o chefe índio em primeiro plano; O feiticeiro afirma: “Também esta noite os deuses nos ajudam! Não há nuvens no céu e o sacrifício poderá ser feito no momento desejado!“.
O chefe índio responde: “Atenção!“
Esta sequência de vinhetas é a que saiu originalmente na Itália, não só pela Sergio Bonelli Editore, mas também pela Editora Mondadori, que republicou a história em 1999, num volume só, com o título “Sulle piste del Nord“ e que a Mythos Editora no Brasil reproduziu fielmente em Tex Coleção nºs 170 a 174.
Observando com atenção a sequência de vinhetas, fica nítido que houve um engano na disposição das mesmas.
A narrativa fica truncada da maneira como está apresentada a pagina.
Dêem uma olhada e confiram nesta imagem ao lado.
Viram o que se quis dizer? Bem, a Editora Vecchi na época em que lançou esta história, nos números 50, 51 e 52 de TEX, também se apercebeu deste engano editorial ocorrido na Itália e fez uma montagem própria desta página:
Manteve a cena 1 e trocou as cenas 2 e 3 pelas 4 e 5. Agora sim…
A sequência fica então: Cenas 1, 4, 5, 2 e 3, como se pode então observar através desta imagem que mostra a edição da Editora Vecchi.
Parece confuso? Na Itália, eles também não se perceberam nem mesmo aquando das republicações da aventura, já que inclusive Tex Nuova Ristampa (a mais recente reedição de Tex, que entre outras coisas, corrige eventuais erros das histórias) também traz a sequência invertida.
Mas esta não é a única curiosidade sobre esta aventura que não consta nos rodapés das críticas feitas até hoje.
Na época da sua publicação pela Vecchi, o editor achou por bem alterar um diálogo entre Kit Willer e o chefe índio Sokami. Este o chama de Mestiço e Kit responde, dizendo, que se lhe derem um punhal, ele mostrará que a cor do seu sangue é tão vermelho quanto o do índio.
Sokami responde dizendo: “Não me rebaixarei a lutar contra um cão novo bastardo!“
Na sequência o feiticeiro alerta: “CUIDADO!“; Kit reage violentamente ao insulto pontapeando o índio!
Em 1975, a editora Vecchi, deve ter julgado o termo muito forte e adaptou o diálogo, mesmo que ao proceder assim, tenha tirado todo o sentido da cena; o texto publicado pela Vecchi era:”Sokami não se rebaixará a lutar contra um filho legítimo!“. Analisando melhor, julgamos que a editora quereria escrever “ILEGÍTIMO“, mas é somente uma suposição nossa.
Somente com a republicação da aventura pela editora Mythos é que tivemos acesso ao texto original, como foi escrito pelo Grande G. L. Bonelli.
Estes detalhes, que no fundo são curiosidades, não tiraram de maneira nenhuma o grande prazer que foi ler e reler esta que é talvez, a melhor história da longa vida editorial de TEX.
[1]Coleccionador de Banda Desenhada desde 1976.
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