Texto do jornal Diário “As Beiras” de 4 de Setembro de 2004
João Miguel Lameiras
O cavaleiro solitário de Joe Kubert
Género cinematográfico americano por excelência, o Western, no que à BD diz respeito, tem conhecido uma melhor fortuna na Europa do que nos Estados Unidos. Basta pensar no “Tenente Blueberry”, de Gir e Charlier, no “Comanche” de Hermann e Greg, no “Ken Parker” de Berardi e Millazzo, no “Durango”, de Yves Swolfes e também no “Tex”, o ranger do Texas criado por Bonelli e Galleppini, cujo sucesso está na origem de um verdadeiro império editorial. Daí a curiosidade acrescida de ver um grande nome dos comics americanos a desenhar um dos mais populares heróis da BD europeia, como acontece no Tex Gigante nº 9, acabado de chegar aos quiosques nacionais, onde Joe Kubert cria a sua versão do ranger da Editora Bonelli.
Já por diversas vezes que tive ocasião de falar neste espaço (ver Diário “As Beiras” de 11/3/1995, 5/4/1996, 10/5/2003 e 8/11/2003) dos “Texones”, edições anuais em formato maior e com uma produção mais cuidada, em que autores de renome tem a sua oportunidade de imprimir a sua marca pessoal ao ranger Tex Willer, em histórias de longo fôlego, com mais de 200 páginas. No caso de “O Cavaleiro Solitário”, edição que motiva este texto, o autor convidado é o veterano Joe Kubert, nome mítico dos comics americanos que, se exceptuarmos o meritório trabalho de divulgação de Jorge Magalhães na revista “Mundo de Aventuras”, não tem quase nada editado em português.
Nascido em 1926, Kubert começou a trabalhar como arte-finalista para a MLJ Publications aos 12 anos de idade, tendo publicado a sua primeira BD, “Voltron”, em 1942. Senhor de uma carreira muito preenchida, em que abordou os mais diversos géneros, com destaque para as histórias de guerra, em “Sargent Rock”, “Enemy Ace” e “Tales of the Green Berets”, Kubert, além da sua actividade como autor de BD, é também criador e professor na Joe Kubert School of Cartoon and Graphics, uma escola de Banda Desenhada situada em New Jersey, por onde passaram grandes talentos, como John Totleben, Tom Mandrake e Adam e Andy Kubert, os dois filhos de Joe Kubert que optaram por seguir as pisadas do pai.
Embora já tenha feito aproximações ao género em “Abraham Stone” e, principalmente, “Fire Hair”, este Tex é o seu primeiro Western puro e duro e a história que serviu para introduzir o cowboy da Editora Bonelli aos leitores americanos. Por isso, Claudio Nizzi, o argumentista deste “Cavaleiro Solitário” optou por uma história de vingança bastante linear, em que os habituais secundários como Kit Carson e Jack Tigre estão ausentes e um solitário Tex persegue e elimina, um a um, os quatro bandidos responsáveis pelo massacre da família Colter.
Reza a lenda que Joe Kubert levou seis anos a desenhar as mais de 200 páginas desta história, mas tanta demora deveu-se a uma boa causa, pois Kubert interrompeu este Tex para escrever e desenhar “Fax from Sarajevo”, uma história documental que relata o drama real de Ervin Rustemagic, editor e amigo de Kubert, que se viu cercado com a família em Sarajevo, durante a guerra na ex-Jugoslávia e que apenas conseguiu sair com vida, graças ao esforço de uma série de autores que representava, como Joe Kubert, Hermann e Hugo Pratt.
Mas, voltando ao “Cavaleiro Solitário”, em termos gráficos temos um Joe Kubert igual a si próprio, com o pouco pormenor e os cenários apenas sugeridos ou inexistentes, a serem compensados por uma planificação extremamente dinâmica e que escolhe sempre os ângulos de maior impacto dramático e por um traço cheio de força e personalidade, que adapta como uma luva às cenas de acção desta história de vingança sangrenta.
Mais uma vez, um grande nome da BD mundial chega aos leitores portugueses através de um “Tex Gigante”, o que prova que é preciso estar atento aos quiosques, pois alguma da melhor BD não está necessariamente nos álbuns de capa dura que se vendem nas livrarias.
(Tex Gigante nº 9 “O Cavaleiro Solitário”, de Claudio Nizzi e Joe Kubert, Mythos Editora, 242 pags, 7,50 €)
Copyright: © 2004 Diário “As Beiras”; João Miguel Lameiras
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O escolhido para chefiar a expedição foi o general Custer, considerado um herói e um mito pelos americanos, mas ao mesmo tempo um militar de carácter arrogante e pouco respeitador dos direitos dos pele vermelha. Devido ao massacre ocorrido nas margens do rio Wichita, os índios nutriam profundo ódio por Custer e Tex e Carson iriam servir de mediadores, tentando evitar um conflito. Mas na sombra, alguém pretendia assassinar Custer e lançar as culpas nos Sioux, provocando assim uma guerra.
E é com especial mestria que Nizzi nos oferece esta aventura plena, densa e dramática. Porque ela é feita por grandes homens em defesa dos seus valores, das aspirações dos seus povos e está excelentemente conduzida no seu ritmo dramático. Mais uma vez, Tex encontra-se com homens que fizeram a verdadeira história norte americana. Custer (1839-1876), Sitting Bull (1831-1890) ou Crazy Horse (1840-1877) são personagens saídas da realidade, não do imaginário, personagens que conseguiram viver uma aventura memorável, uma aventura que faz parte dos compêndios e que consegue captar a nossa admiração.
Sem inovar no modo como nos conta os acontecimentos, em perfeitos flash-back que funcionam como autênticas viagens ao passado histórico, Nizzi não se coíbe de, pela boca de Tex e Carson, ir relatando e saltando os acontecimentos. Ou seja, o relato dos dois rangers não serve apenas para ir contando os acontecimentos vividos, ele fala também de acontecimentos posteriores que vão servir para ajudar Farrell (o jornalista) a compreender melhor os factos.
Nizzi consegue antecipar alguns acontecimentos, cronologicamente posteriores ao que se vem relatando, mas que funcionam como explicação cabal do que se seguiu. Também por isso, a aventura nunca morre, nunca cansa, consegue sempre captar a atenção do leitor. Tudo é fluido e escorreito, tudo se lê de uma assentada e o leitor vai passando por fases em que aprecia a aventura texiana, enquanto noutras fases se vê mergulhado numa lição de história. Nizzi nunca tenciona mudar os factos, mesmo a imagem que nos dá de Custer é sempre muito próxima daquela que sempre nos ensinaram. Quando assim é, está o autor de parabéns, está a banda desenhada de parabéns.
Ticci é um grande desenhador. Todos estamos de acordo. Mas o que esta afirmação significa em concreto nesta aventura é que Ticci soube captar a essência do argumento de Nizzi, soube captar a grandeza do episódio histórico, soube captar o dramatismo que atravessa todas as páginas da aventura. O seu traço, mais sintético e já não tão preciso como antes, consegue no entanto caracterizar a grandeza dos protagonistas da aventura, os grandes espaços que lhe servem de cenário e a acção da grande batalha.

