Póster Tex Nuova Ristampa 67

Póster Tex Nuova Ristampa 67

Vemos neste desenho de Claudio Villa, a belíssima mas também cruel Jane Brent na sala de jogos do Paradise, disparando sobre Tex Willer, ferindo-o num braço, depois deste a ter desmascarado como sendo ela a misteriosa chefe do bando do Dragão.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #59 e inspirado na história, “Il ritorno del drago” de G. L. Bonelli e Guglielmo Letteri (Tex italiano #109 a #113).
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Texto de José Carlos Francisco

TEX no Diário de Notícias: 10 de Novembro de 2003

Texto da secção Livros de 10 de Novembro de 2003
Banda Desenhada »
Tex Willer
João Miguel Tavares
Uma Viagem ao Mundo dos Fumetti

* A BD italiana de grande tiragem, é um mundo à parte, mas curioso.
Através da editora Mythos, ele pode ser acompanhado em Portugal.

Uma Viagem ao Mundo dos FumettiA BD industrial italiana – os chamados fumetti -, produzida para um público muito alargado e editada em papel de jornal, faz parte da memória afectiva de uma geração, que fazia peregrinações aos quiosques à procura dos seus heróis favoritos, com Tex Willer à cabeça. Essa imensa popularidade está hoje esbatida – ainda que em Itália continue a ser um mercado muito respeitável -, mas actualmente já é possível reencontrar os fumetti nas bancas portuguesas, após muitos anos de ausência.

Tal deve-se à editora brasileira Mythos, responsável pela gestão do catálogo da Bonelli Comics no outro lado do Atlântico, que também passou a distribuir as aventuras de Tex e companhia entre nós.

Essa distribuição envolve uma longa série de títulos, que incluem Dylan Dog, Mister No, Zagor, Mágico Vento, Martin Mistère, Nick Raider e alguns outros. A cabeça de cartaz é, no entanto, Tex Willer, o ranger do Texas sobre o qual foi construído o império Bonelli, e que a Mythos tem vindo a desdobrar numa série de títulos paralelos (Tex Colecção, Tex Edição História, Tex Gigante…), para assim aproveitar os fundos de arquivo e rentabilizar o catálogo.

Esta semana deverá chegar a Portugal o primeiro número de uma nova série, intitulada Edição de Ouro.
E o que é esta Edição de Ouro? Por um lado, um «baralha e volta a dar», apresentando, no primeiro número, uma longa aventura de 299 páginas – Cheyenne Club -, produzida em 1984 pelo argumentista Guido Nolitta (pseudónimo de Sergio Bonelli, filho do criador do herói, G. L. Bonelli) e pelo desenhador Ferdinando Fusco. Por outro, é o retrato de uma época de transição, quando novos autores entram para a fábrica Bonelli, partilhando com o núcleo de veteranos a responsabilidade de continuar as aventuras de Tex Willer.

Esta é, apesar de tudo, uma história bastante conservadora – Tex, aqui sem a companhia do seu amigo Kit Carson, enfrenta um grupo de poderosos rancheiros, que tentam anexar as terras dos pequenos proprietários da região -, numa longa variação de um tema que já deu infindáveis filmes e livros. Tanto o argumento de Nolitta como os desenhos de Fusco rodam em torno de um conjunto de situações estereotipadas, mas têm a competência das produções industriais bem oleadas, e nesse sentido são uma porta de entrada para este universo único, hoje em dia já um pouco enclausurado, mas pejado ainda de admiradores ferrenhos (basta consultar o site www.texbr.com).

Como quase todas as criações de sucesso, Tex Willer nasceu relativamente por acaso, a 30 de Setembro de 1948. O seu pai é Giovanni Luigi Bonelli (1908-2001), que então já tinha 40 anos de idade e uma carreira consistente na BD italiana, iniciada em meados da década de 30, como autor e depois como editor. Tex nasceu de uma parceria com o talentoso Aurelio Galleppini (1917-1994), mais conhecido como Galep, mas no início era apenas um herói menor, aparentemente igual a tantos outros, que entretinha o tempo dos autores nos intervalos da produção de Occhio Cupo, essa sim uma série na qual eram depositadas muitas esperanças.

Só que um ano depois Occhio Cupo desaparecia, enquanto a popularidade de Tex disparava em flecha, com tiragens que viriam a superar as centenas de milhar de exemplares e uma bem conseguida internacionalização. G. L. Bonelli, por sua vez, foi alargando a equipa de criadores, mas não deixou de assinar aventuras do ranger – de cujo rigor histórico sempre se orgulhou – até ao início da década de 90.

Ao longo de 55 anos, aconteceu a Tex de tudo. Para além de percorrer milhares de vezes as pradarias do Oeste e de abater uma legião de foras-da-lei, visitou outros continentes, combateu a magia negra e chegou mesmo a enfrentar extraterrestres. Tex não será do melhor que a BD já produziu, mas ninguém lhe pode negar um lugar de relevo na sua história.

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A FICHA
Tex Ouro 1- Cheyenne ClubTex Ouro 1- Cheyenne Club
Autor: G. Nolitta e F. Fusco
Editora: Mythos Editora
Páginas: 304
Género: Banda desenhada
Preço: € 4,90
Classificação: **

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ESTANTE

Sangue no ColoradoSangue no Colorado
Claudio Nizzi e Ivo Milazzo
Mythos Editora
240 págs, € 5,50

Entre as várias colecções paralelas de Tex encontram-se estas edições gigantes, com uma característica muito particular: os pincéis são entregues a um desenhador convidado, exterior ao universo da série. Entre os convidados já se contam nomes como Alfonso Font ou José Ortiz, e o último número a chegar até nós é da autoria de Ivo Milazzo, que tem um bom desempenho, embora esteja mal servido pelo argumento de Claudio Nizzi, demasiado previsível.

Ken Parker - Lili e o CaçadorKen Parker – Lili e o Caçador
Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo
Asa
100 págs.

Por coincidência, e já que se fala de Ivo Milazzo, eis que as edições Asa diversificam o seu catálogo apostando numa das séries emblemáticas dos fumetti – o explorador Ken Parker – e logo em formato de luxo. Milazzo, 56 anos, trabalha na série da Bonelli desde 1974, numa colaboração que já vai longa com o argumentista Giancarlo Berardi, e este Lili e o Caçador é um óptimo trabalho, remetendo para o universo que Derib explorou em Buddy Longway.

Dylan Dog 7Dylan Dog 7

Sclavi, Mignacco e L. Piccatto
Mythos Editora
98 págs.
€2,50

Criado em Outubro de 1986, Dylan Dog rapidamente se afirmou como um dos mais populares heróis dos fumetti. As suas histórias cruzam a investigação policial com o sobrenatural e, simultaneamente, possuem um segundo nível de leitura, onde se encontram múltiplas referências cinematográficas (como o assistente Groucho). Este sétimo volume é um excelente exemplo de como se podem encontrar boas surpresas nos locais menos esperados.

Copyright: © 2003 Diário de Notícias; João Miguel Tavares
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Tex Série Normal: A Grande Invasão

A Grande InvasãoArgumento de Mauro Boselli, desenhos de Carlo Raffaele Marcello e capas de Claudio Villa.
Com o título original La grande invasione, a história foi publicada em Itália nos nº 497 a 499 e no Brasil, pela Mythos Editora nos nº 412 a 414.

Boselli soube trazer um certo rigor e espessura psicológica para as aventuras texianas, primando os seus argumentos pela construção de personagens densas e cujas sensibilidades nem sempre são retratadas a régua e esquadro, o que quer dizer que existe nelas sempre algo de mais, não caindo em retratos maniqueístas com o leitor a saber desde logo o que cada uma reserva.

Daí que, se há aventura onde Boselli consegue mais uma vez construir uma galeria notável de retratos psicológicos, “A Grande Invasão” pode bem ser um perfeito exemplo, como o já foram aventuras como “Os Invencíveis” ou “O Passado de Kit Carson”, ambas também desenhadas por Marcello.

Tex por Carlo Raffaele Marcello“A Grande invasão” vai sempre em crescendo psicológico, dramático e narrativo, contribuindo assim também para a mesma sensação no leitor. A leitura vai tornando-se cada vez mais interessante à medida que os acontecimentos vão evoluindo, permitindo ao leitor um renovar de sensações página a página.

E tudo começa até de um modo mais ou menos monótono, quando Tex e Kit Willer chegam num dia de mau tempo a Wackett no Texas para o funeral de um velho conhecido do ranger. Mas quem é esse conhecido é o que Kit pretende saber, tal como o xerife local e por isso, Tex começa a relatar acontecimentos passados, quando após a Guerra Civil, os Comanches chefiados por novos guerreiros sonhavam com um grande assalto aos colonos brancos e colocaram o Texas a ferro e fogo.

Guerra de FronteiraNessa altura, os rangers tiveram a função de ir avisando e alertando os colonos para o perigo dos ataques índios, conduzindo-os até aos postos militares. Tex vai relatar todos esses acontecimentos e o modo como, juntamente com colonos, soldados e alguns condenados vão conseguir resistir às investidas comanche e chegar a salvo a Forte Quitman.

Boselli assina aqui uma verdadeira epopeia, a epopeia de um grupo de homens em luta por uma causa comum. Um grupo de homens liderado por Tex, mas cada um como cada qual, o que significa, cada um com as suas motivações, os seus anseios, a sua própria sensibilidade. Boselli constrói assim uma notável galeria de personagens onde as aparências da sua realidade estão iludidas por uma justiça por vezes cega e por vezes injusta.

Ranger TexNo grupo de colonos, cada um move-se pelo objectivo da salvação, uns pela salvação da sua própria vida, outros porque não têm outra alternativa. Os soldados também aparentam diferentes modos de estar, diferentes maneiras de cumprimento daquilo que julgam ser o seu dever. Mas no meio de uma fuga qual será o dever de cada um? Mas é sobretudo no seio do grupo de condenados que Boselli logra construir a riqueza psicológica da epopeia. Cada um cometeu o seu crime, porque afinal cada um teve o seu motivo para cometer semelhante acto.

Os Heróis do TexasE aqui surge-nos novamente um dos grandes temas da saga texiana: onde está a justiça das leis e dos homens quando esta não atende aos anseios legítimos de cada um? Bonelli e Nizzi tocaram bastas vezes neste tema, mas Boselli realça-o aqui na presença deste grupo de condenados. Entre ferro e fogo, Tex tem a oportunidade de descobrir e relacionar-se com homens em dívida para com a justiça, mas também homens com os seus anseios, sentimentos, ideais e principalmente atenuantes.

“A Grande Invasão” é assim mais que uma história de fugas, uma parábola da liberdade humana. A fuga aos ataques índios, mas também a fuga rumo a uma liberdade cerceada em nome de uma justiça que não vê nem obedece a atenuantes. Uma fuga que congrega diferentes vontades, mas onde tudo se resume afinal a uma luta por descobrir que todos temos os nossos segredos, todos somos motivados por anseios que algumas vezes levam a condutas onde a justiça das leis não encontra justificação, uma luta onde os homens vêem uma escapatória e onde todos souberam compreender que o destino lhes reservou uma segunda oportunidade.

Arte de Carlo Raffaele Marcello“A Grande Invasão” também fica na história da série por ser a último trabalho de Marcello para Tex, por ser o último trabalho do excelente desenhador que, sobretudo com Boselli, trouxe excelentes aventuras à saga texiana. Marcello assina aqui um trabalho pleno de dinamismo e de nervo, conseguindo sempre manter um ritmo alto da primeira à última página da aventura. Óptima a sua caracterização das personagens, onde Marcello consegue sempre interpretar graficamente a construção psicológica idealizada por Boselli. Devido a doença física que o priva de desenhar, foi este o último trabalho do autor.

Texto de Mário João Marques