Capas Aurelio Galleppini – Edições Tex “Normal” nº 6 a 10

Por José Rivaldo Ribeiro *

Capa original - Tex nº 73 - Novembro 1966Tex nº 6 – O Vale do Terror

Publicação desta capa no Brasil: (Três vezes)
Não há relação entre capa/história!

Capa original: Tex nº 73 – Novembro 1966
História: Tex nº45/46 – La Valle della Paura – Ago/Set 1964

Tex nº 6 - Editora Vecchi - Agosto 19711ª – Tex nº 6 – Editora Vecchi – Agosto 1971

Esta capa tem algo que eu não poderia deixar em branco; já li muitas história de Tex nas quais os cavalos em meio a tiroteios são utilizados como “escudos” ou muitas vezes são sacrificados como forma de desarmar o inimigo; ainda bem, que se trata de ficção!!
A história que abre a edição é excepcional. O Vale do Terror é um título forte. O texto foge um pouco do convencional do que conhecemos; o título poderia ter sido bem adaptado para “As Belas e a Fera”; e para aqueles que criticam a falta de uma “Bella Donna” em aventuras do Ranger, esta história é uma boa pedida!
Em Tempo: A aventura “O Vale do Terror” foi republicada em 1996 pela Globo; certo? Errado!
Trata-se de outra história com o mesmo título; a Globo traduziu literalmente: ( La Valle del Terrore – Tex Albo Speciale nº 9) lançada na Itália em Junho de 1990 ; no Brasil saiu em Tex Especial – Dez/1996 – Globo e  Tex Especial Gigante nº 13 – Abr/2004 – Mythos.
Mas são histórias distintas, pois não há ligação entre as mesmas! O Vale do Terror de Magnus (Roberto Raviola), que fala de Seita e Vingança é considerada pelos leitores, uma das mais belas aventuras de Tex, foi inclusive premiada com o troféu HQ Mix de 1996. Eu,devorei a edição eu um único dia!
Mesmo em italiano os títulos são confudíveis! Em TXC#72 a Globo acertou em cheio ao traduzir correctamente La valle della paura/O Vale do Medo e ao utilizar a capa oficial.

Tex nº 6 - Segunda Edição - Editora Vecchi – Setembro 19772ª – Tex nº 6 – Segunda Edição – Editora Vecchi – Setembro 1977

Cores totalmente modificadas pela Vecchi! A capa foi tão mal-repintada que o nosso Ranger ganhou uma camisa e um chapéu na cor roxa, nessa versão!  E o cavalo certamente é Dinamite que é branco, mas ficou castanho!

Tex Coleção nº 109 – Editora Globo - Fevereiro 19963ª –  Tex Coleção nº 109 – Editora Globo – Fevereiro 1996

Capa fora da ordem cronológica, utilizada como simples encaixe!
A Globo fez algumas mudanças nas cores dessa capa, mudando tudo, comparativamente com o original!

Capa original - Tex nº 63 – Janeiro 1966Tex nº 7 – Drama na Pradaria
Publicação desta capa no Brasil: (Três vezes)

Capa original: Tex nº 63 – Janeiro 1966
História: Tex nº63/64 – Dramma nella prateria – Jan/Fev 1966

Tex nº 7 - Editora Vecchi - Setembro 19711ª – Tex nº 7 – Editora Vecchi – Setembro 1971

Há relação entre capa/história, mas no original italiano a edição de Tex nº 63, finalizava uma aventura nas primeiras páginas, havia outra pequena história completa no meio e iniciava-se na mesma edição Dramma nella Prateria e talvez por esse motivo, Galep tenha usado uma capa “genérica”.
Em Tempo: A Saga de Tex passa-se há mais de 100 anos, mas as suas histórias às vezes parecem-nos bem actuais; é o caso de “Drama na Pradaria”, pois ficamos colados em cada “quadrinho” e mesmo já prevendo o final, ficamos  a torcer por justiça! Sendo Giovanni Luigi Bonelli italiano, às vezes acho que não foi tão difícil para ele elaborar histórias como esta e tantas outras! O banqueiro Big Ben Barries lembra-nos os antigos chefões da máfia ou até mesmo figurões políticos actuais! Esta edição também não traz os famosos números que dividem cada tira.

Tex nº 7 - Segunda Edição - Editora Vecchi – Outubro 19772ª – Tex nº 7 – Segunda Edição – Editora Vecchi – Outubro 1977

Capa com cores totalmente modificadas pela Vecchi! Se bem que o fundo azul ficou bem bonito!!
Em Tempo: Penso que todo o coleccionador de Tex já sabe disso, porém quem sabe se esta informação atinja alguém que ainda não sabe: A segunda edição de Tex foi cancelada no nº 149 com um saldo de 150 exemplares! A Vecchi faliu em 1983 e imaginem, nem tinha papel para a impressão de “Pacto de Sangue” que saiu pela metade. Darei mais detalhes desta história em Tex nº 94.

Tex Coleção nº 84 – Editora Globo – Janeiro 19943ª – Tex Coleção nº 84 – Editora Globo – Janeiro 1994

Capa fora da ordem cronológica, utilizada como simples encaixe!
Esta versão da Globo está excelente, cores perfeitas, tudo na medida!!

Capa original Tex nº61 - Novembro 1965Tex nº 8 – Horda Selvagem
Publicação desta capa no Brasil: (Duas vezes)

Capa original Tex nº61 – Novembro 1965
História: Tex nº60/61 – L’orda selvaggia/Morte nella Neve – Out/Nov 1965

Tex nº 8 - Editora Vecchi - Outubro 19711ª – Tex nº 8 – Editora Vecchi – Outubro 1971

É curioso como às vezes uma simples mudança de cor pode alterar uma paisagem; a capa original é da história “Morte nella Neve/Cidade sem Lei”, mas parece que aqui a neve ficou parecendo barro, ao menos nesta versão!!! Aventura que começa com Tex sendo designado para capturar bandidos; dessa vez “A Horda Selvagem”, que escapam e conseguem chegar à América do Sul.
Em Tempo: Surpreendentemente, Tex e Carson vêm parar nestas terras a fim de capturar os dois últimos elementos que restavam! G. L. Bonelli e Galep não deram muitos detalhes dos locais por onde os nossos Rangers passaram em solo Latino. Quem sabe se com os  novos argumentistas na saga, Tex e Carson ainda aportam um dia no Brasil (na sua época, lógico). História com números que separam as tiras!


Tex nº 8 - Segunda Edição - Editora Vecchi - Novembro 19772ª – Tex nº 8 – Segunda Edição – Editora Vecchi – Novembro 1977

Capa com cores totalmente modificadas pela Vecchi. Agora sim, nesta capa pelo menos a neve ficou com a sua cor original!
Em Tempo
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Esta capa não foi republicada pela Globo ou pela Mythos.

Capa original - Tex nº 34 – Agosto 1963
Tex nº 9 – O Louco do Deserto

Publicação desta capa no Brasil: (Duas vezes)

Capa original: Tex nº 34 – Agosto 1963
História: Tex nº 34/35 – Il totem nel deserto – Ago/Set 1963

Tex nº 9 - Editora Vecchi - Novembro 1971

1ª – Tex nº 9 – Editora Vecchi – Novembro 1971

Capa e história idênticas ao original italiano.
Nesta história, Tex fica realmente frente a frente com um puma, mas Aurelio Galleppini preferiu fazer uma “junção” entre as duas capas de Tex nº 2 e nº 14 da Sexta Série do Ranger, como se pode ver um pouco mais abaixo; notem a posição estranha da mão de Tex nesta “montagem”; já na capa TXC#57, numa situação similar entre Tex e um puma, a capa ficou mais interessante..
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Capas de Tex nº 2 e 14 da Sexta Série

Em tempo: Apesar da mais famosa e mais conhecida história de “Pat, O Irlandês” ter sido somente publicada em Tex nº 82, é de facto a sua estreia oficial. Este Tex nº 9, traz mais uma belíssima aventura com o Pard desastrado. Ops!! Caros amigos, na realidade a história “O Louco do Deserto” nada mais é do uma espécie de “continuação” da famosa história de Tex nº 82, “Pat, O Irlandês“. É que por motivos nada óbvios, saiu antecipadamente no Tex nº 9. Duvida? Basta confirmar no seu acervo: Tex#09 e 82 da primeira edição ou Tex#09 e 82 da segunda edição; mais detalhes em TXC#55,56,57!

Tex nº 9 - Segunda Edição - Editora Vecchi – Dezembro 19772ª – Tex nº 9 – Segunda Edição – Editora Vecchi – Dezembro 1977

Capa com cores e tons modificados pela Vecchi!
Em tempo: Esta capa não foi republicada pela Globo nem pela  Mythos e certamente jamais será.

Capa original - Tex nº 76 – Fevereiro 1967Tex nº 10 – A Flecha Negra
Publicação desta capa no Brasil: (Três vezes)

Capa original: Tex nº 76 – Fevereiro 1967
História: Tex nº 75/76 – La freccia nera/Deserto Bianco

Tex nº 10 - Editora Vecchi - Dezembro 19711ª – Tex nº 10 – Editora Vecchi – Dezembro 1971

Esta capa é espectacular; porém não me recordo de ter visto Tex rio abaixo numa canoa. Na história citada, há um índio, mas isso faz-me lembrar, caros amigos, que muitas vezes uma capa não retrata o conteúdo de uma aventura, figura apenas como mera ilustração!!Que aventura!!!
O Difícil é imaginar como Tex e Carson foram parar no Alasca a cavalo!! Dentre todas as aventuras em que Gros-Jean participou, em minha opinião esta é a melhor!!! Apesar dos famosos cortes da Vecchi, eu não poderia deixar de salientar que o último “quadrinho” da história foi cortado na 1ª edição mas não ficou de fora na 2ª.
Aventura com números que separam as tiras!

Tex nº 10 – Segunda Edição - Editora Vecchi – Fevereiro 19782ª – Tex nº 10 – Segunda Edição – Editora Vecchi – Fevereiro 1978

Capa com cores e tons modificados pela Vecchi; apesar disso nesta segunda versão vemos detalhes antes ocultados na  1ª edição!


Tex Coleção nº 112 – Editora Globo – Maio 19963ª – Tex Coleção nº 112 – Editora Globo – Maio 1996

Capa fora da ordem cronológica, utilizada como simples encaixe!
A Globo fez algumas mudanças nas cores e a imagem saiu virada ao contrário!


* José Rivaldo Ribeiro é um grande coleccionador brasileiro de banda desenhada, tendo participado activamente de pesquisas para edições, blogues e sites referentes a BD de diversos géneros!
Considera-se um crítico de banda desenhada e é também leitor e coleccionador de Tex.

Póster Tex Nuova Ristampa 70

Póster Tex Nuova Ristampa 70

Neste dinâmico desenho de Claudio Villa, vemos Tex Willer e Dick Dayton, mais conhecido como Dick Furacão, fugindo a cavalo, do acampamento militar de Buffington, onde Dick se encontrava detido, aproveitando uma gigantesca confusão motivada por um ataque dos “Sulistas” ao acampamento.

Desenho INÉDITO no Brasil e inspirado na história, “Tra due bandiere” de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #113 a #115).
(Para aproveitar a extensão completa do póster, clique no mesmo)

Texto de José Carlos Francisco

Entrevista com o fã e coleccionador: JORGE MAGALHÃES

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Jorge MagalhãesPara começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Jorge Magalhães: Nasci na nobre cidade do Porto, rua de Cedofeita, em 22 de Março de 1938. Tive vários empregos, nomeadamente na função pública, antes de enveredar pela Banda Desenhada, em 1974, quando comecei a coordenar o “Mundo de Aventuras” da Agência Portuguesa de Revistas, função que exerci durante 12 anos, passando depois a colaborar com outras editoras, como a Futura, a Distri, a Meribérica e a Asa. Em suma, mais de 30 anos dedicados profissionalmente à 9ª Arte, com muitos obstáculos pelo caminho mas sem nunca me arrepender da opção que tomei quando, após o 25 de Abril, decidi não voltar a Angola, onde era funcionário do Instituto do Café. Actualmente, estou reformado mas ainda escrevo de quando em quando e faço traduções, além de ler muita BD (risos…).

Matt MarriottQuando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Jorge Magalhães: A paixão pelas histórias aos quadradinhos nasceu, por assim dizer, logo que aprendi a soletrar. Nesse tempo, com cinco anos, já gostava de folhear o “Mosquito“, que me ajudou bastante a decifrar as primeiras letras. Fui sempre um leitor assíduo de revistas infanto-juvenis e, depois do “Mosquito” e do “Diabrete“, comecei a coleccionar o “Cavaleiro Andante” e o “Mundo de Aventuras“. Não houve praticamente revista de BD que não me tivesse passado pelas mãos.
Quando fui para Angola, em 1961, desfiz-me de muitas delas, mas ao regressar a Portugal, alguns anos depois, voltei a sentir a febre do coleccionador e o resultado foi a colecção enorme que hoje possuo e que me rouba muito espaço em casa.
Forte LaramieO meu interesse pelo Tex surgiu mais tarde, como é evidente, pois as edições brasileiras só começaram a circular entre nós nos anos 70. Mas a série não me agarrou logo. Só quando descobri nas bancas os primeiros números com histórias desenhadas por Jesús Blasco, comecei a procurar a revista. Esse primeiro passo levou-me a comprar também o Tex Coleção, desde o 1º número (mas infelizmente com algumas faltas pelo meio), e a partir daí todas as séries de Tex editadas no Brasil.

Porquê o Tex e não outra personagem?
Jorge Magalhães: Bem, no meu caso, a paixão pelo Tex não é exclusiva, pois (e cingindo-me só ao campo do ‘western’) coleccionei também a  “Epopeia-Tri” — com a magnífica História do Oeste criada por Gino d’António, Renzo Calegari, Sergio Tarquinio e outros —  e Ken Parker, um dos ‘westerns’ que mais admiro e que me agrada tanto como Tex, por ser uma série diferente, que trata os temas do Oeste numa dimensão simultaneamente realista, psicológica e poética.

Ken ParkerDakota Jim

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Mas como sou desde miúdo um adorador fanático do ‘western’, as minhas referências na BD vão muito mais além e devorei montes de histórias com personagens das mais variadas origens, como Jerry Spring, Comanche, Mac Coy, Jonathan Cartland, Buddy Longway, Sunday, Matt Marriott, Matt Dillon, Wes Slade, Cisco Kid… sem esquecer naturalmente Blueberry.
Epopéia TriAproveito a oportunidade para relembrar alguns dos ‘westerns’  italianos que li no “Cavaleiro Andante“, como “Lobo Branco” e “Forte Laramie“, de Renato Polese, “Dakota Jim“, de Caprioli, “O Forte do Huron“, de Gino D’Antonio, e “Pocahontas, a Princesa Pele-Vermelha“, de Sergio Tarquinio, que me revelaram essa magnífica escola nascida nas páginas da célebre revista “Il Vittorioso” e com ligações também à editora Bonelli.
E por que não referir, já agora, as inolvidáveis criações da ‘prata da casa’ no “Mosquito” e no “Mundo de Aventuras“, como Falcão Negro, de E.T. Coelho, e Tomahawk Tom, de Vítor Péon, dois grandes e saudosos mestres da BD portuguesa, que tive a honra e o privilégio de conhecer pessoalmente.

A Volta da Mão VermelhaO que Tex representa para si?
Jorge Magalhães: De certa forma, um regresso ao passado, quando as histórias de ‘cowboys’ estavam na moda, uma viagem nostálgica por um tempo em que a BD ainda era uma forma de entretenimento sem pretensões intelectuais, tal como os ‘westerns’ de série B que nos atraíam ao cinema, muitos deles rotulados hoje de clássicos que moldaram o género.

Qual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Jorge Magalhães: Nunca cheguei a contabilizar os exemplares que possuo, mas já devem rondar as quatro centenas, pelo menos, contando com todas as colecções paralelas de Tex. Quando as revistas da Mythos chegaram às bancas, também comprei Zagor, Mister No, Martin Mystère, Dylan Dog, Mágico Vento, Júlia e outras, mas infelizmente a distribuição desses títulos tornou-se tão irregular, a partir de certa altura, que me fui desinteressando.
Fumo di China e os 40 anos de TexÉ difícil escolher a revista de Tex com mais significado para mim, porque já me proporcionaram muitas horas de emocionante leitura, mas simbolicamente e por uma razão sentimental elejo a primeira que chamou a minha atenção, aquele nº 214 com o início da grande aventura “A Volta da Mão Vermelha“, desenhada pelos irmãos Blasco.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
Jorge Magalhães: Até hoje, só livros e revistas. Já não tenho espaço para mais, mas continuo à procura dos números que me faltam, cada vez mais difíceis de encontrar, sobretudo em bom estado. Há alguns meses, na Feira do Livro de Cascais, tive a sorte de comprar, por um preço bastante razoável, um pequeno lote que incluía o nº 100! Também possuo algumas edições estrangeiras, especialmente monografias, porque há tanta coisa a aprender sobre Tex… e eu só sei que ainda sei muito pouco (risos…).

A Lança de FogoQual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Jorge Magalhães: Também não é fácil responder a esta pergunta, pois são muitas as histórias de Tex que me deixaram uma recordação indelével, como tantos ‘westerns’ do passado. Do saudoso Galep, cito a aventura “A Lança de Fogo“, publicada no nº 200, com uma montagem dinâmica de planos, pouco vulgar nas edições normais de Tex, por causa do formato mais pequeno. Não sei se em Itália ela foi publicada noutro formato, mas foi a primeira vez que pude admirar a arte de Galep liberta da regra tirânica das três tiras por página. Nesse episódio, ele constrói a página como uma unidade, usando os mais variados recursos estilísticos para embelezar a composição, como vinhetas circulares, imagens grandes e tiras que se entrecruzam, à maneira de uma ‘graphic novel‘.
Tex o GrandeOutra história que especialmente aprecio é “O Vale do Terror“, de Nizzi e Magnus, que pelo seu ineditismo gráfico e pelo recorte humano  e psicológica das personagens ficou certamente na memória de muitos, embora o estilo de Magnus, na minha opinião, seja completamente anti-Tex e anti-‘western’, o que não diminui o seu impacto estético.
Outro grande nome da BD italiana que passou fugazmente por Tex, mas deixando uma marca inconfundível, foi Guido Buzzelli, com a aventura escrita por Nizzi “Tex, o Grande“, que tive a ventura de ler numa das primeiras Edições Gigantes da Globo, comemorativa dos 40 anos do Ranger.
À parte estes exemplos, e num contexto mais genérico, a aventura de Tex que mais me empolgou e que aguardei com mais impaciência, foi incontestavelmente “O Cavaleiro Solitário“, publicada pela Mythos no Tex Gigante nº 9. Ou não fosse eu um grande admirador do Joe Kubert!… A propósito: alguém me pode informar se esta aventura foi publicada integralmente nos Estados Unidos pela Dark Horse? É uma teima que tenho há já algum tempo com o José Carlos Francisco (risos…).
Arte de Fabio CivitelliMas em relação aos desenhadores de Tex, não há dúvida que, desde que descobri Civitelli, o seu estilo límpido e harmonioso, de uma elegância que, de certa forma, me faz lembrar a de Caprioli e Giardino (dois dos maiores mestres da BD italiana), se impôs ao de todos os outros. E isto sem desprimor para artistas de tão grande calibre como Ticci, Villa, Fusco, Repetto, Ortiz, Font, De la Fuente, Ambrosini e outros, que igualmente muito admiro.
No tocante aos argumentos, destaco o trabalho e as ideias renovadoras de Mauro Boselli, mas também aprecio bastante a obra de Claudio Nizzi, numa abordagem mais convencional do universo de Tex… sem esquecer, é claro, o seu fundador, o grande Giovanni Luigi Bonelli, que criou, dentro da série, personagens tão carismáticas como o próprio Tex, feito que mais nenhum argumentista conseguiu ainda igualar. É claro que Bonelli imaginou Tex numa época diferente, em que as histórias de ‘cowboys’ eram mais elementares, em que a acção e a forma importavam mais do que o fundo, mas os seus extraordinários dotes de novelista revestiram-no de uma aura especial, que captou rapidamente a adesão dos leitores. Tex, como muita gente sabe, foi mesmo um herói que, para surpresa do próprio autor, não tardou a ultrapassar todas as suas outras criações.
O Cavaleiro SolitárioE o facto de G.L. Bonelli ter sido o primeiro, em histórias do Faroeste, a criar cenários transcendentes, explorando temas como a magia negra e o fantástico, contribuiu largamente para essa carreira de sucesso.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Jorge Magalhães: Para mim, Tex é o autêntico ‘homem do Oeste’, cujo padrão não foi corrompido pelo tempo nem  pelas transformações da cultura popular, que quase ditaram o fim do ‘western’, nos moldes em que o conhecemos. Felizmente que em Itália ainda existe um editor como Sergio Bonelli, que não se deixa manietar pela ditadura da crítica moderna – pouco receptiva, na sua maioria, a este género de histórias -, e um público fiel, que de geração em geração continua a apreciar a personagem e o seu modelo original, fenómeno que era quase impossível acontecer noutro sitio, pois fora de Itália as séries do Oeste, com excepção de Blueberry, têm definhado uma a uma. Nem mesmo Tintin, noutra vertente, escapou a essa morte súbita e hoje é uma espécie de ‘cadáver‘ de que uma multidão de biógrafos se aproveita, dissecando-o de todas as formas e feitios.
O Homem de AtlantaA cadeia de produção criada por Bonelli pai e mantida até hoje, com inegável ‘savoir faire’, permitiu que o Tex de Galep não envelhecesse nem morresse com os seus criadores, tornando-se uma personagem intemporal. Tex está vivo e de boa saúde e todos os críticos e estudiosos que multiplicam também as suas análises sobre ele, sabem que o futuro será tão aliciante como o passado. É um dos raros exemplos em que o método de criação americano foi aplicado com sucesso na Europa, mas continuando a permitir aos autores a expressão da sua individualidade artística (o que nem sempre acontece quando há dois ou mais desenhadores a fazer o mesmo trabalho, como na indústria dos ‘comic books’).
Quanto à característica de Tex que menos me agrada, talvez o seu exagerado conservadorismo nas relações com as mulheres, que na fase actual já devia ter sido ultrapassado. Quando Jordi Bernet desenhou “O Homem de Atlanta” (quem já se esqueceu da insinuante Lola Dixieland?), esperava-se que o seu exemplo pudesse abrir um pouco mais o véu da censura que ainda pesa sobre o Ranger, apesar da galeria feminina da série ser vasta e variada. Mas as expectativas não se confirmaram…

Tex e o adeus a GalepEm sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?
Jorge Magalhães: Precisamente a fidelidade à matriz original, aos mitos do Velho Oeste que enformaram a sua criação, embora, nalguns aspectos, tenha evoluído com o tempo, sem perder as suas características primitivas. Tex representa para muitos leitores a personificação de valores éticos e morais como a coragem, a nobreza, a justiça e a lealdade, que definem – ainda que idealmente, na tradição romântica e folclórica do ‘western’ – os pioneiros da nova fronteira, os aventureiros que desbravaram o Oeste americano.
Mas os fãs de Tex, da velha e da nova guarda, apreciam também a estrutura clássica das narrativas e a escola realista implantada por mestres como Galleppini, Nicolò, Muzzi, Letteri e outros, cujos parâmetros, em linhas gerais, se têm mantido até hoje. A meu ver, o principal segredo da longevidade de Tex reside nesse conceito básico, que todos os continuadores de Giovanni Bonelli e Aurelio Galleppini — incluindo Guido Nolitta (Bonelli filho) — nunca esqueceram: embora evoluindo e modificando-se graficamente, a figura do Águia da Noite permanece, no âmago literário, igual a si própria.

Jorge Magalhães e Fabio CivitelliPara concluir, como vê o futuro do Ranger?
Jorge Magalhães: Promissor, considerando o batalhão de novos desenhadores – alguns deles autênticas revelações – que já se preparam para substituir os veteranos. Mesmo que os sinais de esclerose pareçam, por vezes, imperceptíveis, os heróis de ficção têm a tendência de envelhecer como os autores que lhes dão vida. Com Tex está garantido que isso nunca acontecerá. E acredito que, apesar da relutância de Sergio Bonelli, a sua personalidade possa sofrer gradualmente alguns retoques, sobretudo na abertura a um relacionamento mais adulto com o belo sexo… O que não contraria a minha afirmação anterior, pois para que um herói com 60 anos de existência continue a manter a sua popularidade impõe-se que haja algumas transformações subtis, em sintonia com a mentalidade dos próprios leitores, que não é imune à evolução dos costumes e da sociedade. Nessa lógica, e por ilusório que pareça, o cenário mítico do Faroeste só ‘fisicamente‘  é um espaço imutável. Mas os mitos consolidam-se e reforçam-se com o seu crescimento interior, como o próprio Tex…

Prezado pard Jorge Magalhães, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)