Tex Série Normal: Acima da Lei

Tex 371Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Victor De La Fuente e capas de Claudio Villa.
Com o título original Al di sopra della legge, a história foi publicada em Itália nos nº 456 e 457 e no Brasil, pela Mythos Editora nos nº 370 a 372.

Os Justiceiros, uma associação que comete crimes em nome de uma justiça que não funciona, deixa Tom Devlin impotente perante uma série de homicídios que vem afligindo São Francisco. Esta terrível associação justifica os seus actos em nome de uma ética perdida, porque, segundo ela, os culpados acabam sempre por ficar impunes e fugir da justiça.

Tom Devlin chama Tex e Carson para o ajudarem  e,  em  breve, os dois rangers vão defrontar-se com um véu  de  mistério.  Em ambiente urbano, Tex e Carson defrontam-se contra um misterioso grupo de assassinos, o que parece ser corrente nas aventuras texianas. O que parece fugir dos habituais cânones são  as  reais  motivações que levam esse grupo a cometer uma série de homicídios e aqui, forçosamente, encontramos uma certa originalidade, mas sobretudo uma acentuada crítica de Nizzi às sociedades actuais. Ora, estas hoje movem-se por teias de corrupção, chantagem e crime, factos que por si só caem, ou pelo menos deveriam, na alçada da justiça.

O Tex do Victor De La FuenteO que se assiste, bem  pelo  contrário,  é  uma ausência generalizada da justiça das leis, uma justiça que não funciona e que até acaba por se demitir em casos onde altos interesses estão em jogo. Por isso, Nizzi apresenta uma aventura protagonizada por uma associação de homens que pretendem fazer justiça pelos seus  próprios  meios,   fazer a sua própria justiça, pelo simples motivo de que os tribunais pouco funcionam.  Esta  associação  age contra a lei instituída, mas fá-lo sob pressupostos próprios de ética  e  moral.  A bem ver e, até certo ponto, a conduta texiana move-se também ela por certos pressupostos éticos e morais que muitas vezes vão para além da justiça das leis e dos homens.

Tex 372Mas o que separa esta conduta da prática dos justiceiros são menos os fundamentos e mais os meios e o resultado que se pretende, porque a partir do momento em que estamos perante crimes e obtenção de dinheiro, deixa de existir, para além da justiça, a tal ética e a tal moral. Toda esta dinâmica está patente ao longo de toda a aventura, o que se revela sempre muito interessante, uma vez que ela conduz fatalmente ao aprofundamento da ideia inicial, a tese de que as leis não funcionam.

Se Tex e Carson acabam por desmantelar o grupo, será que funcionou a verdadeira justiça ou esta,  bem pelo  contrário,  não continuará a demitir-se de atacar rente todos os que não agem de acordo com a lei? Nizzi não responde a esta questão, porque bem no fundo ele próprio  sente-se  impotente  em assumir uma atitude, uma vez que, enquanto a justiça não for cega ela nunca será verdadeira e, com isso, estará a semear o terreno onde outras associações poderão florescer.

Tex Willer por Victor De La FuenteEsta  é  a  última aventura  desenhada  por De La Fuente antes de abandonar Tex. O desenhador revela aqui as suas reais aptidões que o guindaram a um certo estatuto no panorama europeu, sobretudo no exigente mercado franco-belga, onde obteve êxito com séries  como  Mathai-Dor  ou  os  Guerrilheiros. De La Fuente tem um traço elaborado, elegante e suficientemente dinâmico,  com  uma  boa construção de personagens e ambientes. Aliás, esta aventura citadina vem demonstrar  a   facilidade com que o autor  muda  de  cenários,  já   evidenciada em outras aventuras  texianas  todas  situadas  no  velho e extenso oeste. Onde De La Fuente se afasta é mesmo na sua composição do ranger, longe dos cânones habituais, mas onde também já revela um outro à vontade e uma versatilidade em mergulhar na personagem.

Texto de Mário João Marques

«Okay, sou um herói do bem mas não uma espécie de santo»

Por Mauro Boselli *

L’Osservatore Romano beatifica TexAqui no Texas não chega o L’Osservatore Romano. Foi o meu amigo El Morisco a expedir-me um telegrama de Pilares, lá em baixo no México. Aquele velho sábio que sempre tem tanto que fazer como todos os sacerdotes. Li e pensei que era uma brincadeira. Mas o egípcio não é um burlão e parece que seja tudo verdade. Que coisa dizem de mim, em Roma?

Eu, Tex Willer, cowboy, ranger, pistoleiro, chefe dos Navajos, agente índio, sou uma espécie de paladino dos valores. Um jornalista definiu-me como exemplo de rectidão moral. O resultado é que agora tenho de suportar as piadas do velho camelo do Kit Carson, ele que ainda não perdeu o vício de comer montanhas de batatas fritas e de perseguir rabos de saias.

Tex e seus pards

Não sou um daqueles que mete frequentemente os  pés  na igreja.  Matei vários homens. E por alguns deles não tenho remorsos. Não sou uma espécie de santo. Não me vejo verdadeiramente a estar  lá,  parado,  sobre um qualquer tipo de altar.  Aquilo  que  posso dizer é que não tenho vergonha de me olhar ao espelho e não tenho remorsos na minha consciência. Tenho a minha própria ideia de justiça. Não suporto os patifes e os prepotentes. Não suporto quem abusa dos mais fracos. Não sei se isto tem a ver com religião.
Só sei que tem a ver com aquilo que eu sou: um homem.

Lilyth, Tex e o pequeno KitA minha esposa, a doce Lilith, estudou nos Franciscanos, num convento de Santa Cruz.  Quando  morreu,  alastrada pela varíola e pela miséria de um bando de renegados, não tive piedade. Vinguei-me,  como  um  deus pela Bíblia. Mas mandei o meu filho para esses mesmos frades. Sei que Lilith teria desejado assim, para ensinar a Kit a palavra perdão. Nem sempre é fácil perdoar, mas por vezes eu e os meus pards conseguimos. A nossa ideia de justiça pode parecer aos janotas de Washington demasiado sumária. Se possível tento levar os ladrões e assassinos defronte de um juiz. Nem sempre eles estão de acordo e tentam enviar-me para o outro mundo e nesse caso eu disparo primeiro. Não é o melhor modo para limpar o  mundo,  mas no Oeste as coisas funcionam assim. A pistola, por vezes é a única lei.

Tex em acçãoAprendi que há valores que não posso renegar. Nunca deixei de amar Lilith. Aprendi com os índios que aquilo que te liga aos amigos é um pacto de sangue. Uma irmandade que não procura desculpas. Os amigos são aqueles por quem se está pronto a morrer. Isto faz de mim um santo? Não creio, mas é uma boa razão para estar nesta terra. O Oeste é um estranho horizonte. Os bons nem sempre acabam bem. O pacifismo é uma coisa de mórmones e não  escondo que  é  necessária uma certa coragem para oferecer a outra face quando se é esmurrado. Mas é uma coisa que não faz parte do meu carácter. Prefiro usar os punhos.

Por estes lados há gente que não merece  misericórdia.  Encontram-se imensos patifes.  Ricos  criadores  de gado que ditam leis a pobres desgraçados. Assassinos natos, traidores sem esperança de reconversão, pequenos homens prontos a vender-se por alguns trocos, gente ávida, sem valores, sem dignidade.

Tex WillerEu vivo numa encruzilhada de duas culturas. Jamais reneguei este  país,  mesmo  quando estava dividido entre duas bandeiras, na brutalidade da Guerra Civil. Jamais deixei de ser um branco. Mas casei com uma índia e vivo entre os meus Navajos.  E  isto  permitiu-me ver o mundo sem preconceitos. Não vejo brancos, negros, amarelos, vermelhos diante de mim. Vejo homens. Alguns justos, outros menos.

Conheci alguns verdadeiros satanáses. Alguns deles ainda me causam calafrios. Penso naquele feiticeiro do Mefisto. O mal absoluto.  El  Morisco uma vez usou uma palavra para definí-lo que ainda me custa a compreender: o mal metafísico. Não sei. Recordo só o olhar de Mefisto. Era horrendo já na primeira vez que o encontrei, quando era só um bruxo ambulante, um ilusionista. A sua loucura conduziu-o por caminhos que vão para além da natureza humana. Mas conheci também o  mal  banal,  aquele de todos os dias, os xerifes corruptos ou os generais imbecis.

AdiósBem, está a fazer-se noite, escrever não é o meu ofício. Carson começou a chamar-me São Tex. Vou agarrar-me a uma cerveja, com um bife de dois dedos de altura e uma montanha de batatas fritas.
Adiós Amigos.
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Mauro Boselli*O texto é de Mauro Boselli, o argumentista da banda desenhada editada pela Sergio Bonelli Editore.
Tradução e adaptação a cargo de José Carlos Francisco.

Logótipo Il Giornale.itMaterial apresentado no sítio ilgiornale.it;

Copyright: © 15 Agosto 2008, IlGiornale.it

Vaticano não fica indiferente aos 60 ANOS DE TEX!

Quotidiano  L’OSSERVATORE  ROMANO  celebra os 60 anos de  TEX WILLER

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L’Osservatore RomanoSerá  talvez  devido ao novo estilo de diálogo integral  com  a  cultura laica lançado pelo director Gian Maria Vian, mas o facto é que o L’Osservatore Romano, o compostíssimo quotidiano da Santa Sé  (Cidade  do  Vaticano), na  edição  distribuída  hoje, dia 14 de Agosto, dedica um amplo espaço aos 60 anos de Tex Willer,  o herói da banda desenhada criado por Gian Luigi Bonelli, cujo primeiro exemplar  foi publicado em 1948.

Num vasto artigo dedicado à figura do ranger texano com a camisa amarela, já protagonista de outras 600 aventuras, o jornalista Roberto Genovesi reconstitui o nascimento do célebre personagem da banda desenhada italiana,  recém-chegado  às  bancas italianos após o fim da segunda guerra mundial, quando um povo italiano “destroçado por um conflito devastante do ponto de vista do sacrifício de vidas humanas mas também no plano moral ” acolhe de bom grado “um  justiceiro  americano com ideias claras, capaz de distinguir ’sem  ses  e  sem mas’, o bem do mal”

Tex 60 anosE por isto, escreve o L’Osservatore, que ”Tex mostra-se de imediato um herói interclassista. Agrada aos operários, aos estudantes, aos intelectuais e aos políticos”.

Contudo, observa o quotidiano da Santa Sé, Tex  “não  tem  um carácter com mil facetas, não tem uma psicologia complexa  e  as  suas acções são por vezes ditadas por escolhas claras”: “os seus métodos são expeditos mas prejudicialmente violentos”, e o ranger chega  a matar na sua  longa  carreira  “quase três mil pessoas,  uma média de sete cadáveres por edição”.
Aquilo que conta,  porém,  é que  “Tex é portador de comportamentos  irrepreensíveis  ditados  por valores não negociáveis mas ao mesmo tempo  torna-se  protagonista de acções que por vezes desembocam na justiça sumária”.

Tex Willer“Mas é ‘talvez esta ambiguidade’ de fundo –  observa o artigo  – que sempre agradou  aos  seus  leitores que têm defronte um herói de qualquer forma vigoroso na sua dureza.  Não  estamos assim diante de um anti-herói ou de um herói negativo. Não estamos defronte, em substância, de um protagonista que aceita conviver com o mal e com todas  as  suas  consequências inclusive superficiais. Não estamos diante de um homem que se esforça por aceitar as tonalidades do viver moderno, feito de compromissos porque –  conclui  –  nas histórias de Tex Willer o bem é sempre claramente distinguível do mal e jamais são propostas estradas alternativas aquelas boas e justas para conseguir o objectivo final”.

Para o  L’Osservatore  Romano existe ainda um outro aspecto ‘profético’ de Tex: “Ele  foi  de  facto o primeiro herói da banda desenhada, em tempos não suspeitos, se propôs com factos para incrementar uma ideia nova e  muito  mais  ’próxima à realidade’ dos nativos da América. Os índios, nas histórias de banda desenhada de Tex, não são quase nunca apresentados como os maus da fita”. Nas suas histórias, Tex sempre soube reconhecer à cultura e tradição dos peles-vermelhas “um papel de primeiro plano”, “uma função de precioso enriquecimento cultural”. Tex, juntamente com os seus fiéis amigos, todos expoentes de “culturas de minorias”, como “símbolo vivo  da  partilha entre duas culturas com uma abertura mental de verdadeira antecipação”.

O elogio a Tex é acompanhado de duas entrevistas: ao histórico desenhador Claudio Villa e ao novo argumentista  Tito Faraci,  e por um contributo do filósofo católico Marco Ivaldo que explica porque “aquele para comprar Tex seja, desde os anos  60,  um ritual mensal de paragem nas bancas dos jornais”.

Lendo o L’Osservatore Romano

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