O editor italiano de Tex, Sergio Bonelli, depois de ter dedicado ultimamente vários editoriais relacionados a Tex no Brasil, dá prosseguimento ao tema, dedicando agora o editorial de Tex Nuova Ristampa #267, datado de 15 de Novembro de 2010, ao famoso plágio que a Editora Press Ltda, do Brasil, cometeu quando em 1987 publicou dois volumes chamadosHistórias do Oeste em Quadrinhos, com aventuras escritas e desenhadas por Wilson Fernandes, intituladas, respectivamente,Um jovem pistoleiroeO retorno fatal.
Neste importante texto, Sergio Bonelli, como faz questão de informar no próprio editorial, teve a imprescindível colaboração de Júlio Schneider, tradutor e consultor Bonelliano da Mythos Editora e um dos elementos principais do staff do nosso blogue, pelo que nos apressamos a dar conhecimento das palavras de Sergio Bonelli, na nossa língua:
Caros amigos,
na edição anterior eu prometi contar um episódio negativo verificado no curso da nossa lenta e árdua conquista do público brasileiro. Um episódio do qual, para ser sincero e para confirmar mais uma vez o mau estado da minha memória, eu havia esquecido completamente; ainda bem que um grande amigo de além-mar, o advogado Júlio Schneider, tradutor entusiasta das nossas séries publicadas pela Mythos Editora, veio em meu socorro, a reconstruir para nós todas as fases daquele que, a roubar o título de um filme famoso, podemos definir como o grande assalto. A capa mostrada no alto, à direita, era do primeiro número da série mensal Histórias do Oeste em Quadrinhos, que a Editora Press Ltda colocou em circulação no Brasil no final dos anos Oitenta, quando a importadora oficial e autorizada de Tex naquele País ainda era a famosa Editora Globo.
Os leitores habituais das aventuras do nosso Ranger não acreditaram no que viram quando, a folhear Um Jovem Pistoleiro – este o título da primeira revista – e sua continuação, O Retorno Fatal, se deram conta de que o protagonista de ambas as histórias era justamente Tex Willer! Evidentemente o nome do herói havia sido modificado (mas nem tanto, visto que se chamava Wes) e a trama continha algumas diferenças; mas não havia um só quadradinho que não fosse inspirado ou, em alguns casos, descaradamente copiado (como se pode ver pelos dois exemplos reproduzidos à direita, acima o original e embaixo a cópia) das páginas em que Fernando Fusco havia visualizado uma história escrita (olha só) justamente por mim, sob o costumeiro pseudónimo de Guido Nolitta, que chegou às bancas da Itália em 1976 (nas edições 183-185 de Tex).
Como eu já disse em outras ocasiões, a defesa dos direitos de autor, com relação a obras de BD, sempre foi problemática e, apesar de nossos protestos, os culpados desse plágio grosseiro saíram ilesos de sua desagradável iniciativa. Na verdade, mais ou menos ilesos, porque onde não chegou a mão da justiça, chegou a condenação do público: no mesmo ano em que publicou o falso Tex, 1987, a Editora Press teve que fechar as portas e sumir do mercado brasileiro, por não vender quase nada.
A mim resta a consolação de entregar à história da BD o nome do culpado, duplamente culpado por ter clonado de modo insípido e aproximativo os belos desenhos de Fusco. Ele se chamava Wilson Fernandes e, pelo que sei, sumiu de circulação e deixou atrás de si pouco ou nada além desta e de outras iniciativas semelhantes. Quem sabe, talvez ele tenha se arrependido e se enclausurado num convento para expiar.
Antes de me despedir – e como eu também não quero ser acusado de plágio – devo registar o documentado artigo que os amigos do sítio Internet uBC dedicaram a esta desventura (também por sugestão do probo Schneider). O título é Fake Tex (ou seja, falsos Tex) e, além de relembrar a – curta, por sorte – existência do Wes/Tex inventado pela Editora Press, traz à memória outros casos de Rangers, digamos assim, apócrifos. Mas esta, como se costuma dizer, é outra história. Pode ser que um dia desses eu a conte.
Um abraço.
Sergio Bonelli
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Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente? Paulo Santos: Nasci em Fevereiro de 1979, sou casado e tenho uma filha linda, Olga, que segue a trilha dos quadradinhos, lendo a Turma da Mônica do mestre brasileiro Maurício de Souza. Moramos na cidade de Campina Grande, agreste do Estado da Paraíba, Brasil, mas nasci no Estado vizinho, Pernambuco, na cidade de Caruaru.
Sempre gostei de aventuras, não só nos quadradinhos, aos 15 anos, durante o ensino médio, fui escolhido entre todos da escola para participar da Expedição Ruta Quetzal Argentaria-Mundo Inca 1995, viajei com mais 400 jovens de diversos países ibero-americanos pela Espanha, Equador e Peru durante 60 dias, passando nesses últimos, três dias nas ruínas da cidade inca de Machu Picchu, isso depois de fazermos o caminho inca e escalarmos o maior vulcão inactivo do mundo, o Cotopaxi.
Hoje sou pós graduado em Medicina Veterinária e técnico em agropecuária e trabalho numa unidade de pesquisas das potencialidades da região semi-árida e do bioma caatinga.
Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada? Paulo Santos: Desde quando aprendi a ler. Sabe aquelas excursões religiosas de igreja? Numa dessas, a minha mãe comprou ‘O conto da vaca‘; lia e relia, adorava, surgiu aí o meu interesse pela leitura.
Quando viajávamos, nas rodoviárias, ela sempre me levava nas bancas de revistas e deixava-me escolher as revistas de quadradinhos que eu queria. Lembro como se fosse hoje, comprei a revista ‘Heróis da TV‘ com histórias do Homem de Ferro e Hulk, Batman ‘Ano dois’, que mostrava um Batman cheio de adesivos depois duma surra com o vilão Ceifador e em casa tinha uma edição inesquecível de Tex ‘O Clã dos Cubanos‘ (reeditada recentemente no Brasil em TEX Coleção – Mythos Editora), lembro dessa edição, com a capa inesquecível de Galep, maravilhoso esse tempo. Entretanto, foi só em 1993-1994, com as edições especiais ‘A Morte e O Retorno do Super-Homem‘ da Editora Abril, isso mesmo, quadradinhos americanos, que comecei, sistematicamente, a coleccionar histórias em quadradinhos, ‘gibis‘ como chamamos no Brasil e não parei mais até hoje. Leio quase tudo da Marvel, da DC Comics, TEX, os quadradinhos brasileiros, de um paulistano muito bom, Lourenço Mutarelli e recentemente, vendo os desenhos de Corrado Mastantuono, comecei a ler Mágico Vento.
Quando descobriu Tex? Paulo Santos: Em 1997, já lia Batman emprestado de um primo e coleccionava as revistas do Super-Man, não tinha passado no meu primeiro vestibular, quando folheei numa banca de Caruaru-PE uma história em que uma das personagens tentava dormir nas ruínas de uma velha missão, isso era TEX 331 da Editora Globo (Na trilha da Vingança); releio sempre essa cena, acho maravilhoso esse clima nocturno do velho oeste. Li TEX regularmente durante quatro anos; acompanhei edições especiais, de histórias fechadas e voltei regularmente de novo recentemente com a publicação excelente e indispensável para quem gosta da nona arte, de TEX em cores da Editora Myhtos.
Porquê esta paixão por Tex? Paulo Santos: Cada quadradinho das histórias de TEX renderia um ampliado em forma de quadro numa galeria de arte ou um belo quadrante de um grandioso filme; cada conto, cada trama, transporta-nos através da história e molda não só as personagens, mas a nossa mente, a nossa imaginação. Uma viagem por um tempo de costumes de uma época, de uma civilização, de homens e mulheres que existiram realmente, tudo isso com uma personagem inteligente, sagaz, amiga e que sabe usar as suas qualidades em grupo.
O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos? Paulo Santos: Realismo e história, atrelada a boa arte, numa personagem mista de super- herói (com uma mitologia coerente), bandido (a época exigia atitudes arrojadas), galã (o cara é ‘presença’), justiceiro (um ranger do lado da lei) e com amigos únicos (um índio, o filho, e um parceiro ‘mais usado’, os rangers e o povo navajo).
Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si? Paulo Santos: Tenho pouco mais que 100 edições, entre Gigantes, Coleção, Ouro, Normal, Férias, Histórica e Cores. As mais importantes são fáceis de dizer: a primeira e a última lida: TEX 331 – Na Trilha da Vingança, da Editora Globo (1997) e TEX em cores nº 6 – O Rei do Gatilho, da Editora Mythos (2010). Entretanto tenho uma bedeteca (no Brasil, gibiteca) com outros géneros com mais 2.000 exemplares.
Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana? Paulo Santos: Além dos quadradinhos, que é minha paixão, colecciono filmes clássicos de western, verdadeiras jóias do cinema e das artes, como Rastros de Ódio, Rio Bravo, Matar ou Morrer, Consciências Mortas, Eldorado, Marcha de Heróis, Legião Invencível, O Cavaleiro Solitário, Os imperdoáveis, Era Uma Vez no Oeste…; os meus preferidos são os dos mestres directores John Ford, Howard Hawks e Sérgio Leone.
Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir? Paulo Santos: Os especiais (Almanaque Tex e Gigantes) com extras e dossiers de filmes clássicos de western e sempre com desenhadores convidados, como por exemplo as edições gigantes ilustradas pelos grandes Corrado Mastantuono, Joe kubert e Joe Bernet.
Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista? Paulo Santos: É difícil escolher. ‘O Ídolo de Cristal‘ de Bonelli e Galep – TEX Coleção nº 252 (Editora Myhtos), ‘Na Trilha da Vingança‘ – TEX nº 331 e 332 (Editora Globo) e ‘O Clã dos Cubanos‘ – TEX Coleção nº 282 (Editora Mythos). Os melhores argumentistas são Gianluigi Bonelli e Claudio Nizzi e os desenhadores F. Fusco e Claudio Villa.
O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos? Paulo Santos: O que mais me agrada: a sua inteligência frente aos inúmeros desafios nas diversas sagas vividas, a sua capacidade de trabalhar em equipa (e que equipa!), isso tudo em cenários belíssimos e históricos que nos remontam a clássicos tempos. O que menos me agrada: o ‘cara’ fuma.
Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é? Paulo Santos: Se eu fosse uma mulher exaltaria as suas maiores qualidades: ele é bonito, tem bom carácter, ‘tipão’. Mas na minha condição de fã o que o faz um ícone é sem dúvida a sua mitologia criada para durar sempre.
Costuma encontrar-se com outros coleccionadores? Paulo Santos: Acabo de conhecer um espaço na cidade em que moro, onde os leitores e coleccionadores se encontram: a Praça do Coreto. Sempre que encontro alguém comprando quadradinhos na banca ofereço amizade, pego e-mail, telefone e tento trocar algumas informações.
Para concluir, como vê o futuro do Ranger? Paulo Santos: Existem personagens criadas em muitas mídias, mas as criadas nas histórias em quadradinhos são fabulosas, fantásticas, carismáticas e só existem lá, são impensáveis em outras mídias. Creio que é isso o que os tornam tão eternos e feitos para sempre. TEX possui isso. Aqui no Brasil, num futuro próximo, todas as edições mensais podem ser coloridas, como é feito na Itália. Edições especiais com histórias fechadas continuariam no formato tradicional em preto e branco. Creio que isso acontecerá, temos no comando duas editoras competentes e que fazem um excelente trabalho com a publicação da nona arte, a Mythos e a Panini.
As publicações do ranger ultrapassarão gerações e mais gerações, pela sinceridade com que são feitos e por serem personagens que contam e falam por si só. Tudo isso, claro, graças aos condutores dessa maravilhosa personagem, aqueles que usam as sua pranchetas, os seus teclados, as suas canetas, os seus nanquins e fazem de TEX não só mais uma obra literária, mas uma obra de arte que deve ser apreciada por todos, sempre!
Prezado pard Paulo Santos, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu. (Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
A Banca de Quadrinhos (programa da TV brasileira voltado para os fãs de histórias em quadradinhos e cultura pop, no qual se fica a par dos principais assuntos desse rico universo) foi cobrir a edição 2010 do Fest Comix (o maior evento de toda a América Latina relacionado com a banda desenhada) e aproveitou para entrevistar duas lendas da BD mundial: Fabio Civittelli (desenhador do TEX há mais de 25 anos) e David Lloyd (autor britânico conhecido principalmente por ser o artista de V for Vendetta, de Alan Moore).
Assim sendo, o blogue do Tex tem o prazer de divulgar a reportagem vídeo realizada pela Banca de Quadrinhos no 17º Fest Comix de São Paulo com destaque para as entrevistas a Fabio Civittelli e David Lloyd realizadas por Rodrigo Febronio (um agradecimento especial ao TexianoRodrigo Bratz pela edição do vídeo que tornou possível a sua publicação no blogue do Tex):
Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de José Manoel Alvarez na formulação das perguntas e de Bira Dantas na caricatura.
Olá, Wilde Portella, e bem-vindo ao blogue português de Tex. Para os que ainda não o conhecem, vamos a uma pequena apresentação de si mesmo e do caminho percorrido na sua carreira. Que lugar tiveram os quadradinhos na sua infância? E quais foram as suas leituras de BD na infância e adolescência? Wilde Portella: Os quadradinhos sempre estavam na minha cabeceira durante a infância. Tomei contacto com as histórias em quadradinhos lendo O Pequeno Xerife, que era publicado em tiras e sempre ficava em continuação como os velhos seriados do cinema. Depois descobri Texas Kid, o Tex Willer, também tiras. Mas um dia passei diante de uma banca e vi a capa de uma revista do Capitão América e fiquei louco para ter uma daquelas em minhas mãos, o que não aconteceu. Depois consegui uma outra revista com o título de O Guri, com as aventuras de Tom Mix. Não parei mais de ler revistas de histórias em quadradinhos.
O que é para si a Banda Desenhada, como linguagem e como experiência profissional? Wilde Portella: Como linguagem eu acho muito importante como veículo de comunicação de massa, pois muitos leitores aprenderam a ler através da banda desenhada. Além disso transporta-nos para a cultura de diversos países. Como experiência profissional para mim foi uma realização, pois passei para a história dos quadradinhos brasileiros ao escrever todas as histórias da personagem Chet. Antes eu havia criado outros heróis que também foram importantes para a minha formação como roteirista de BD.
Como você se tornou escritor de banda desenhada? Foi por vocação ou por acaso? E quais foram as suas influências? Wilde Portella: Acredito que tenha sido por vocação, pois aos 12 anos já desenhava e desenvolvia as minhas histórias criando personagens como Daniel Texas e Capitão Douglas. Acredito que a influência foram as histórias em quadradinhos em geral, mas para escrever Chet a influência foi do mestre G. L. Bonelli. Afinal ele é um dos meus ídolos e mestre.
A quais trabalhos você se sente mais ligado ou que mais importaram na sua formação, antes da chegada de Chet? Wilde Portella: Antes de Chet não me sentia ligado a nenhum trabalho em especial, pois criava e escrevia diversas personagens pois criava e escrevia histórias de ficção científica, detectives e de humor. Porém, um dos trabalhos que mais gostei foi a adaptação da história de Zumbi dos Palmares para os quadradinhos e também O Caçador de Esmeraldas.
Wilde, vamos falar agora de sua maior criação: CHET. Já lemos, em algum lado, que quem teria tido a ideia inicial do Chet foi o Lotário Vecchi. Quem realmente criou a personagem Chet: Você, o Watson, o Octacilio Assunção ou Lotário Vecchi? Wilde Portella: (…risos…) Sempre me perguntam isso. Acredito que foi uma criação colectiva, mas quando escrevi os capítulos que saíram como complemento de Ken Parker o nome da personagem era Lássiter, que eu tinha visto numa história de Zane Gray. Porém a ideia de criar um faroeste do tipo Tex foi do Lotário Vecchi. Octacílio, que foi um dos melhores editores de quadradinhos que conheci na minha vida, foi o articulador de tudo. E Watson foi quem deu o rosto ao Chet. Mas antes a personagem actuava sozinha, aí criei Blue e Rick. Ficou parecido com Tex, Kit Carson e Kit Willer não é? Mas a intenção era essa mesma. Se era para competir tinha que chegar junto do mestre Bonelli.
Quem criou o nome Chet? Dizem que Chet foneticamente é Tex ao contrário. Era essa a intenção, associar a personagem ao sucesso de Tex? Wilde Portella: Claro que tínhamos que associar Chet ao sucesso maravilhoso de Tex Willer. Mas esse negócio de Tex ao contrário (Xet) virou lenda. Na realidade precisávamos de um herói com o nome curto e que desse impacto ao ser publicado. No entanto, e eu acredito nisso, o nome Chet vem de Chet Baker, um jazista americano. E tinha também um Chet num seriado de televisão, mas que era uma personagem que funcionava em segundo plano.
Como foi estabelecido o universo das personagens do Chet. Como surgiu cada personagem? Foi um processo demorado? Wilde Portella: O processo foi demorado. Quando surgiu a ideia, Octacílio D’Assunção Barros encomendou-me uma sinopse de um herói do faroeste. Disse ele que eu estaria concorrendo com mais dois outros roteiristas. Um do Rio de Janeiro e outro de São Paulo. Fiz a sinopse com a história se desenrolando na Guerra da Secessão e enviei. Aguardei por vários meses a resposta. Finalmente Ota disse-me que Chet sairia como complemento da revista Ken Parker, em seis capítulos. Eu já tinha uma certa bagagem como contador de histórias para os quadradinhos. Não foi difícil para mim. Quanto ao universo de Chet e de seus pards eu tentei fugir da linha do mestre Bonelli, tanto que, durante o tempo em que passei escrevendo os roteiros dos seis capítulos deixei de ler a revista Tex. Sabe como é esse tipo de coisa. Fã de Bonelli, fã de Tex Willer… Fatalmente iria sugar alguma coisa (…risos…).
A personagem Blue, principalmente nos traços do Watson lembra um pouco o visual do Tenente Blueberry. Coincidência ou foi uma homenagem? Wilde Portella: Não foi homenagem não. Blue é mestiço, filho de índia com um mexicano, e não estava cotado para entrar na história de Chet. Mas Watson gostou tanto de Blue que deu uma atenção toda especial à personagem. Se ele lembra os traços do Tenente Blueberry é mera coincidência (ou não… risos…) pois Watson é fã de Blueberry.
Como era o processo criativo? Você trabalhava no Rio de Janeiro, ou mandava as sinopses e os textos desde Recife? Wilde Portella: Interessante a pergunta. Eu trabalhava mesmo no Recife enquanto Watson estava no Rio de Janeiro. Mas Octacílio nunca me pediu para enviar sinopse. Eu já mandava o roteiro pronto indicando as tomadas de cena para os desenhadores, as legendas e as falas. É um processo meio que trabalhoso, mas que eu gosto muito de fazer, pois quando estou escrevendo histórias em quadradinhos tudo se passa na minha mente como num filme. Tem algo de curioso em mim como roteirista de BD: detesto fazer sinopses. A ideia da história surge e eu desenvolvo sem saber até quem vão ser as personagens secundárias (e às vezes pontos centrais na narrativa) que vão surgir.
Por que Chet começou saindo em capítulos na revista Ken Parker? Era para sentir o mercado? Havia uma estratégia definida já pensando numa revista própria? Wilde Portella: Foi uma estratégia de Octacílio Barros. Ele queria publicar no Ken Parker para sentir como reagiria o público leitor. O importante é que Chet conquistou fãs e logo eu estava escrevendo o roteiro das três primeiras revistas solo de Chet. E, de facto, desde a publicação na Ken Parker que se pensava numa revista própria. O sucesso adiantou o processo.
Recordamos que Chet também saiu no primeiro número da revista Histórias do Faroeste, outro grande sucesso na época, com desenhos do Ofeliano. Por que não continuou saindo também nessa revista? Não dava para conciliar? Wilde Portella: Daria para conciliar sim e eu achei genial aquela história desenhada por Ofeliano para a revista Histórias do Faroeste. Mas eu não queria, pois estava com uma carga de trabalho muito grande. Escrevia os roteiros e me mandava para o jornal onde actuava como repórter. Bom, vivia escrevendo sem parar, mas não reclamo. Amo a minha profissão de roteirista de histórias em quadradinhos e de jornalista.
O Watson, seu irmão, participou do processo desde o início? Wilde Portella: Sim. Desde o início Watson esteve presente na criação do Chet. Foi ele quem deu o rosto, o corpo, a roupagem às três personagens. Desenhou os capítulos para a revista Ken Parker e chegou a fazer o lápis dos dois primeiros números da revista solo.
Como entraram para o staff de Chet o Vetillo, o Ofeliano e o Antonino? Wilde Portella: Isso foi um trabalho que ficou por conta de Otacilio. Nós tínhamos que ter três revistas prontas antecipadamente e prontas para rodar enquanto uma ia para as bancas. Era muita correria, então Watson abandonou Chet e foi cuidar da vida dele desenhando outros tipos de histórias. Então o natural foi essa “convocação geral”. Foi aí que tive a honra de trabalhar com Eduardo Vetillo, Ofeliano e Antonino Homobono (que faleceu em 2001 por causa de problemas no coração).
Aliás o Antonino assinava com vários nomes, “Antonino, Homobono, Balieiro e Saiti… Por que isso, se o seu estilo era inconfundível, independente do nome que assinava? Wilde Portella: Olha, às vezes a gente enche o saco de assinar sempre o nosso nome. Eu mesmo já escrevi com o nome Duda Zamorano e Watson como Barroso. Acho que foi o caso de Antonino.
É verdade que as vendas de Chet chegaram a superar as de Ken Parker, que já era uma personagem conhecida e consagrada? De quanto exemplares era a venda média de Chet? Wilde Portella: Importante essa pergunta. Para minha surpresa e também surpresa do Otacílio e do próprio Lotário Vecchi, já no quarto número a revista de Chet ultrapassou a vendagem de Ken Parker e ficou ali no pé do Tex Willer. Chet em pouco tempo vendia 25 mil revistas, chegando aos 80 mil exemplares. Bom…Tex vendia cerca de 140 a 150 mil. Fiquei feliz com isso, não porque se tornou a segunda revista de quadradinhos mais vendida da Vecchi, mas pelo facto de saber que tanto esforço e dedicação tinha valido a pena.
Quantos números de Chet saíram? Wilde Portella: Aqui no Brasil saíram 22 números incluindo um especial em que Octacílio reuniu os capítulos que havia saído em Ken Parker e lançou com o nome da série: Desejo de Vingança. Bom, com esta nova que acaba de sair são 23 (…risos…).
Certa vez, numa destas listas ou fóruns sobre quadradinhos na Internet, rolou uma conversa de que haveria, até hoje, uma história inédita de Chet, que teria sido extraviada? Aconteceu mesmo? Será que foi a concorrência tentando boicotar o herói Made in Brazil? Wilde Portella: Houve na realidade duas histórias de Chet que ficaram inéditas e acredito que tenham sido extraviadas. Mas acontece que nesse período a Vecchi estava entrando em falência por causa da briga entre a família Vecchi. Todo mundo estava saindo da editora. Ota foi o primeiro a ser dispensado. Watson já estava numa outra editora e eu fiquei no barco até ele afundar de vez. Mas não foi a concorrência que boicotou não. Não acredito nessa história. Se quisesse o Sergio Bonelli teria ditado as regras do jogo, mas ele ficou na dele. Afinal o seu produto nunca foi e nunca será ameaçado por Chet ou qualquer um outro herói de faroeste no Brasil e no Mundo. Afinal são 62 anos de publicação.
Como grande admirador da arte do Watson, foi uma pena ele ter parado de desenhar Chet. Não foi possível conciliar Chet com outros trabalhos dele, que era bem requisitado na época? Wilde Portella: Watson é realmente um dos grandes desenhadores deste planeta. Mas com o sucesso da revista dele, Paralelas, ficou impossível ele desenhar Chet. Além disso Watson Portella gosta de fazer seus trabalhos autorais. Só uma vez ele desenhou uma história curta de Chet, Vingança Navajo, que recentemente descobri que foi publicada até no Canadá.
Sendo Chet uma revista de grande sucesso, por que parou de ser publicada? Ela não era rentável? Wilde Portella: Aí é onde está minha frustração em relação aquele período. Chet era mais do que rentável. Dava um lucro enorme à Editora Vecchi e por isso não havia motivo para sair de circulação. Só foi suspensa porque a editora pediu concordata.
E por onde anda o Watson actualmente? Porque ele não foi o desenhador desta edição especial dos 30 anos de Chet, para alegria de seus admiradores? Wilde Portella: Essa é uma história muito complicada que eu prefiro não contar pois implica numa série de motivos. Na realidade Chet era para ter voltado há muito tempo. O primeiro a fazer a proposta foi Franco de Rosa. Teria sido óptimo essa edição especial ter saído com a assinatura Watson e Wilde. Mas jamais voltaremos a fazer algo em parceria.
Como está sendo para você esta volta de Chet após 30 anos? E como nasceu a ideia do retorno de Chet? Wilde Portella: A volta de Chet foi gratificante para mim. Seu retorno ao mercado de quadradinhos surgiu porque um grande desenhador chamado Paulo José, que eu chamo de Pajo, fez um cartão de final de ano com um desenho de Chet. Então eu pedi a ele para desenhar o trio e coloquei o seu magnífico trabalho (que acabou por se tornar a capa do novo Chet) na Internet. Tratei de procurar editora e encontrei a Marca da Fantasia que me encomendou um álbum no tamanho de uma graphic novel. Foi então que a editora Ink Blood Comics entrou na parada e editou a revista.
Como os leitores e fãs portugueses de Chet podem encomendar esta edição comemorativa dos 30 anos? Wilde Portella: Os fãs portugueses… para encomendar, por enquanto, só através de sites especializados em vendas como a Bodega do Leo, por exemplo, ou encomendar a mim mesmo.
Para concluir o tema, os fãs de Chet podem aguardar novidades para breve? Há previsão de que a série prossiga? Wilde Portella: Claro que podem aguardar sim. Já estão em andamento duas novas histórias que estão sendo desenhadas. Há a pretensão da Ink Blood Comics de dar prosseguimento à série.
Voltando a Histórias do Faroeste, você escreveu histórias sobre grandes nomes do velho oeste: Jesse James, desenhado por Renato Sbrissa, e Butch Cassidy e Sundence Kid, com desenhos de Roberto Portella. Houve alguma outra personagem do faroeste que você tenha publicado na Vecchi ou em outra editora? Wilde Portella: Escrevi o roteiro de Grafter, uma outra personagem da faroeste, em parceria com o meu primo o desenhador Roberto Portella. O herói foi publicado em Portugal pela Feriaq e no Brasil saiu durante três meses em tiras diárias para o jornal Diário de Pernambuco. Mas é uma personagem que não me agradou. Não escreveria sua história novamente.
Passemos agora ao Ranger que dá nome a este blogue. Hoje que você é um autor afirmado, gostaria de trabalhar com Tex? Por acaso já lhe foi proposto? Wilde Portella: (…risos…) Isso é pergunta que se faça a um fã de carteirinha do Tex? Claro que eu aceitaria escrever alguma aventura do meu ídolo do Velho Oeste. Vocês agora deram-me água na boca. Mas acho que Tex tem uma linha muito particular e que já está em boas mãos tanto em se tratando de roteiristas quando de desenhadores. Mas, se abrir espaço eu entro. Pois!
O que significaria para si escrever histórias de uma lenda dos quadradinhos como Tex? Wilde Portella: Para mim e para qualquer roteirista escrever histórias do Tex seria uma honra, uma realização profissional.
Na sua opinião, quem ou o quê é Tex? Wilde Portella: Para mim o Tex é um símbolo das histórias em quadradinhos. É o herói que todo homem gostaria de ser. Além disso é de grande importância dentro do contexto das histórias de bang-bang porque suplantou os americanos do tipo Lone Ranger, por exemplo e serviu e serve de inspiração para qualquer autor até os dias de hoje.
E em sua opinião, o que faz de Tex o ícone que é? Wilde Portella: Para começar Tex é um herói carismático. Está acima do bem e do mal. Suas histórias são uma verdadeira fábula, mesmo as que podem parecer surrealistas. Recentemente li a história O Castelo Sombrio, na qual Tex enfrenta o Tigre Negro. Na página 59 tem uma cena de Tex quebrando os vidros de um janelão e pulando nas águas do mar. É uma sequência de tirar o fôlego. Cinema puro. E mais uma vez fiquei admirado com o jeitão do Tex. Claro que o desenho de Andrea Venturi colaborou para tal.
Para concluir o tema, como você vê o futuro do Ranger? Wilde Portella: O futuro do Tex é aumentar cada vez mais o número de fãs. Ele é uma personagem que vai passando de pai para filho e neto. O nosso ranger tem muita e muita estrada pela frente. Não me admiro que jovens estejam coleccionando e lendo Tex, ele tem esse poder de conquistar o leitor de qualquer faixa etária.
Voltando a si, como você analisa a evolução da sua carreira? Wilde Portella: Evolução de minha carreira… Passei um longo tempo sem querer saber de histórias em quadradinhos devido à maneira como Chet saiu do mercado editorial. Mas acredito em evolução a partir do momento que eu não faria mais as histórias que fiz para o Chet da Vecchi. Hoje penso mais cinematograficamente. O Paulo José está desenhando Águia Branca (título provisório) que não tem legendas nem no flashback. E nessa edição que acabou de sair está bem Quentin Tarantino. Acho que foi uma das histórias mais violentas que já escrevi.
Quais são os seus projectos para o futuro? Pode nos antecipar alguma coisa? Wilde Portella: Primeiro a missão de fazer Chet voltar ao mercado editorial de forma definitiva. Depois cuidar de uma história que vem me martelando a cabeça e que tem muito a ver com a guerreira Joanna D’Arc. Aí sim, realizo-me. Outro projecto? Esperar o Sergio Bonelli me convidar para escrever Tex (que pretensão, hem?).
Que quadradinhos você lê actualmente e com quais mais se identifica? Wilde Portella: Olha, não é para bajular ninguém não. Mas actualmente só leio Tex. Identifico-me com Jack Tigre.
Como você explica o facto de que as melhores séries de faroeste (Tex, Blueberry, Comanche ou Lucky Luke, por exemplo, se bem que este último em estilo humorístico) sejam todas de origem europeia? Wilde Portella: O italiano tem essa tradição, não é? Veja o Sergio Leone. Os filmes dele são geniais. Nos quadradinhos eu li Epopeia Tri (nem sei o nome em italiano) e virei minha cabeça. Mas tudo isso é inspirado em quem? No Tex do Bonelli. Nos quadradinhos o faroeste dos italianos são imbatíveis, mesmo porque os americanos perderam o feeling.
Além de BD, quais livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música? Wilde Portella: Geralmente os livros que gosto de ler são biografias. Mas adoro Gabriel Garcia Marques, Isabel Allende, Vargas Llosa, Saramago, Jack Kerouac e Ariano Suassuna. No cinema há uma variedade de directores e actores. Mas ainda me delicio com um bom faroeste. Vivo “caçando” filmes de cowboy. Mas gosto muito de filmes franceses e italianos. Ah! Gosto muito da saga do Poderoso Chefão e de todos os filmes de Quentin Tarantino. John Ford não vale porque ele é “The Best”. Porém, estou orgulhoso do cinema brasileiro desde O Quatrilho.
Bem, chegamos ao fim. Há mais alguma coisa que gostaria de dizer? Algo que não lhe foi perguntado e que gostaria que nossos leitores soubessem? Wilde Portella: Eu gostaria de dizer que o meu maior desejo é relançar a revista Chet em Portugal. Caso esta não chegue ao país, a próxima chegará com toda certeza. E também quero agradecer ao carinho com que fui tratado pelo José Carlos Francisco (Zeca) e pelo editor Jorge Machado-Dias. E também agradecer muito aos meus amigos Antonio Carlos Moreira, a quem chamo de Duke Wayne, e ao Roberto Guedes (um dos meus grandes incentivadores).
Caro Wilde Portella, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que tão gentilmente nos concedeu.
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