Tex – ‘Minstrel Show’, na análise de Hugo Pinto

Por Hugo Pinto [*]

Tex – “Minstrel Show“, de Mauro Boselli e Marco Ghion

Depois de um interregno de quase três anos, A Seita voltou a trazer-nos um novo volume da série Tex. Este é o quinto Tex editado pela cooperativa e difere dos demais por ser a preto e branco. E não só. Denomina-se  Minstrel Show e é uma belíssima obra que tem o condão de inserir a icónica personagem de Tex Willer num contexto histórico rico e complexo. 
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Com argumento de Mauro Boselli e ilustrações de Marco Ghion, Minstrel Show apresenta uma certa militância social ao abordar temas sensíveis como o racismo e a discriminação, naturalmente ambientados nos tempos do faroeste, mais precisamente no período pós-Guerra Civil Americana. 
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A trama, como o próprio nome faz menção, é sobre os denominados “minstrel shows”, que eram espetáculos que reuniam um misto de teatro e música e que eram populares no século XIX. Normalmente, as companhias que apresentavam estes tipo de espetáculo andavam em digressão, percorrendo os vários saloons do país. E sempre que havia um novo espetáculo deste género na cidade, havia um entusiasmo geral. Aos olhos de hoje, este tipo de apresentações de entretenimento tinham representações estereotipadas e frequentemente depreciativas dos afro-americanos. E os atores que representavam os próprios negros nestas atuações eram atores brancos com a cara pintada de carvão.
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É a partir deste tema, não muito explorado, que o argumentista Mauro Boselli desenvolve uma história que mistura ficção e realidade e que acaba por fazer uma reflexão profunda sobre as tensões raciais da época sem, no entanto, e felizmente, ser demasiado panfletária.
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Joey Nelson é um afro-americano amigo de infância de Tex. Depois de fugir das amarras da escravidão, Joey passa a integrar uma companhia de Minstrel Show enquanto músico, já que domina muito bem a guitarra. Ao contrário dos seus colegas da companhia, Joey Nelson não precisa de colorir a cara para parecer negro. Ele já o é de nascença. Eventualmente, alguém na plateia apercebe-se de tal facto, o que vai fazer com que a presença de Joey depressa cause tensões em plenos espetáculos, levando a que Joey Nelson acabe discriminado e ostracizado.

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Mas, claro, Tex Willer e Kit Carson acabam por interceder a favor do seu amigo. Entretanto, a trama intensifica-se quando na cidade de Lexington, no Missouri, ocorre um ataque por rebeldes sulistas liderados por Arch Clement e por Jesse James, o que leva Tex e Carson a terem que unir forças com alguns dos artistas do minstrel show para defender a cidade. Afinal de contas, em tempos de guerra os homens precisam ultrapassar os seus próprios preconceitos e antagonismos para o alcance de objetivos maiores.
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A amizade entre Tex e Joey serve, pois, como fio condutor para explorar as dinâmicas raciais e as injustiças enfrentadas por afro-americanos no Velho Oeste. Boselli constrói diálogos que evidenciam a hipocrisia e o racismo institucionalizados, desafiando o leitor a refletir sobre essas questões. Não de um modo de “cancelamento”, tão em voga nos tempos atuais, mas mais com o intuito de fazer compreender erros do passado para melhor podermos construir o futuro à nossa frente. Abordagem educativa que apreciei devido à sua maturidade intrínseca.
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À boa maneira de um livro de Tex, temos várias cenas de ação, com muitos tiroteios na clássica luta do bem contra o mal. Mas o que mais apreciei foi mesmo a capacidade do livro em nos induzir momentos de introspeção. São-nos dados de forma leve, mas não leviana. E nem sempre isso acontece nos livros de Tex onde, não raras vezes, as mensagens – mesmo tendo uma boa moral – são algo unidimensionais na forma e no conteúdo. Aqui não, o tema apresenta-se-nos com mais profundidade. Mesmo sendo através de um modo leve, repito.
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As ilustrações a preto e branco de Marco Ghion capturam com precisão a atmosfera do Velho Oeste. O traço detalhado e expressivo é elegante, conferindo profundidade e verossimilhança às personagens e aos cenários. O autor consegue brilhar quer em cenas de ação, com enquadramentos dinâmicos que transmitem movimento e urgência, que em momentos mais introspetivos e serenos, com a atmosfera cénica a ser retratada com beleza e permitindo que a narrativa possa acalmar antes ou depois de acontecimentos de maior ação.
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Destaque ainda para a forma eficaz como Ghion utiliza a luz, as sombras e os contrastes, criando uma ambientação que reflete a tensão e a gravidade dos eventos retratados. A escolha pelo preto e branco puro reforça o tom clássico da história, remetendo-nos para as origens do género western e da série Tex em particular.
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Em termos de edição, apreciei bastante o trabalho que A Seita nos dá nesta obra. O livro apresenta capa dura com um acabamento algo rugoso e agradável ao toque, que é diferente daquilo que normalmente encontramos nas edições portuguesas, e que me agradou bastante. Além deste detalhe, o livro tem bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. No início da obra, há uma nota introdutória de Mauro Boselli e, no final, há um dossier de extras com 6 páginas que reúnem uma entrevista feita a Marco Ghion por Mário Marques, uma coleção com vários esboços e estudos preliminares do ilustrador e as notas biográficas dos dois autores. 

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Em suma, Tex – Minstrel Show consegue um equilíbrio muito interessante ao apresentar, em tom de homenagem, uma certa dinâmica e estilo próprios dos western mais clássicos, por um lado, enquanto transcende o próprio género, oferecendo uma reflexão social, por outro. E esta última valência é algo mais raro de encontrar em banda desenhada de cowboys. Especialmente em Tex. É, por isso mesmo, o melhor Tex publicado pel’ A Seita chegando mesmo a remeter-me por vezes para o meu Tex favorito de todos: Tex – Patagónia.
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NOTA FINAL (1/10)
8.7
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Ficha técnica
Tex – Minstrel Show
Autores: Mauro Boselli e Marco Ghion
Editora: A Seita
Páginas: 136, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2024

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[*](Texto publicado originalmente no blogue “Vinhetas 2020“, em 20 de Fevereiro de 2025)

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A prova gráfica, a capa e quatro páginas de Tex #773 – Caccia al navajo

Tex #773 – Caccia al navajo
Argumento: Pasquale Ruju
Roteiro: Pasquale Ruju
Desenhos: Yannis Ginosatis
Capa: Claudio Villa
Lançamento: 7 de Março de 2025

Enquanto o sanguinário bandido El Escorpión está pronto para realizar um grande assalto no condado de Lincoln, o navajo Julio está em fuga, acusado de um assassinato brutal… Na verdade, foi em defesa legítima, mas Tex e Carson, além de restabelecerem a justiça no rancho da bela Elaine, devem caçar os desperados de Escorpión, que podem contar com um aliado traiçoeiro…

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Vídeo Tex: Boselli apresenta o ‘Charro Negro’!

No dia 20 de Fevereiro chega às bancas italianas o novo cartonado de Tex, o vigésimo álbum ‘à francesa’ do nosso Ranger. “A Maldição do Charro Negro” é desenhado por Carlos Gomez a partir de textos de Mauro Boselli. O próprio Boselli apresenta-nos a obra.

Condenado por seus crimes a vagar para sempre até encontrar alguém para ocupar o seu lugar, um espectro negro com cara de caveira esconde-se entre as macabras máscaras do Festival dos Mortos. Na pista de um homicídio, Tex e Carson revelam uma história amaldiçoada de ódio, ressentimentos e culpas secretas sob o céu estrelado do México…

Nas bancas e lojas especializadas em banda desenhada espalhadas por toda a Itália, a partir de 20 de Fevereiro, “La maledizione del Charro Negro” é o novo Romanzo a Fumetti de Tex, o cartonado “à francesa” que semestralmente se junta às demais publicações inéditas do Ranger criado por Gianluigi Bonelli e desenhado por Aurelio Galleppini.

Escrita por Mauro Boselli para os desenhos de Carlos Gomez e as cores de Laura Piazza, a aventura combina os ambientes sombrios e coloridos do Dia dos Mortos mexicano com os mais tipicamente western que os leitores do Tex conhecem bem.

Para preparar os leitores para a leitura, o argumentista e editor do personagem Mauro Boselli criou este pequeno vídeo que aborda os pontos fortes do volume:

Apresentação GIOVANNI FREGHIERI: Desenhador de Tex presente em Anadia nos dias 3 e 4 de Maio integrado na 10ª Mostra do Clube Tex Portugal

Giovanni Freghieri estará em Anadia nos dias 3 e 4 de Maio para deleite dos fãs de Tex

Por Mário João Marques

Natural de Piacenza, onde nasceu em 1950, ainda adolescente começa a desenhar no estúdio de Giancarlo Tenenti. Colabora com a editora Universo nas revistas Intrepido e Il Monello, e com a Eura Editoriale, nas revistas Lanciostory e Skorpio.

Em 1984, segue-se a Sergio Bonelli Editore, começando em alguns episódios de Bella & Bronco, antes de se mudar para Martin Mystère. Entra na equipa de Dylan Dog como um dos principais desenhadores, desenhando inúmeras aventuras, incluindo as dos especiais onde o Detective do Pesadelo se encontra com Martin Mystère.

Giovanni Freghieri, estrela texiana que abrilhantará a 10ª Mostra do Clube Tex Portugal, nos dias 3 e 4 de Maio de 2025, na cidade de Anadia

Em 1986, colabora com a Comic Art, desenhando “Rolls Royce” para L’Eternauta, escrita por Alberto Ongaro. Desenhador muito prolífico, Freghieri já desenhou quase todas as personagens na Bonelli, colocando o seu estilo inconfundível, que joga muito com os efeitos de contraste, ao serviço de Zagor, Dampyr, Brendon, Nick Raider, Morgan Lost, Volto Nascosto, Le Storie ou ainda a mini-série Hellnoir.

Em 1993, juntamente com outros desenhadores, realizou o portfolio “I volti segreti di Tex”. Em 2022, entrou para o seleto grupo de desenhadores de Tex, ao desenhar o Texone “I due fuggitivi”, seguindo-se mais duas aventuras para a série mensal do ranger, a última (Il ranch sulla Sierra), substituindo Ernesto Garcia Seijas, entretanto falecido. A sua entrada em Tex apenas ocorreu depois do autor ter abandonado o projeto por três vezes. Além da banda desenhada, Freghieri cultiva a paixão pela fotografia.

Giovanni Freghieri e Tex estarão no Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, nos dias 3 e 4 de Maio de 2025 (auto-retrato onde Tex avalia com afectuosa benevolência o valor ironicamente auto-atribuído num cartaz de recompensa pelo desenhador Giovanni Freghieri)

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