Tex – Patagónia, na análise de Hugo Pinto

Por Hugo Pinto [*]

TexPatagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda

Desde sempre que a série Tex me surpreendeu pelas suas características únicas. É que, se por um lado, Tex é o grande porta-estandarte da editora italiana Bonelli e um herói muito acarinhado pelos muitos fãs que tem em todo o mundo (e faço destaque ao próprio Clube Tex Português e ao fantástico blog que sustenta esse clube – Tex Willer Blog); por outro lado, é uma série que não chega a um verdadeiro público mainstream da banda desenhada. É extremamente bem sucedida mas, face a uma franja de mercado apenas. Nem toda a gente gosta… mas quem gosta, gosta muito! É fã acérrimo. Tex é, por isso, aquilo que costumamos apelidar de “série de culto”.
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Se me parece que, por vezes, Tex Willer é uma personagem demasiado unidimensional e, por esse motivo, bastante clássica nos valores e idiossincrasias que representa, a verdade é que isso também é facilmente justificável pela longa vida do personagem, a cavalgar planícies áridas desde 1948. E, em Patagónia, o fantástico trabalho do argumentista Mauro Boselli, traz-nos um Tex Willer que, mesmo preservando essa unidimensionalidade que referi acima, consegue, não obstante, pintar este Ranger do Texas com subtis pinceladas, que nos dão tonalidades mais cinzentas na postura da personagem. E isso é, sem dúvida, um dos muitos pontos a favor deste fantástico Patagónia.
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Em termos de história, esta é uma aventura única de Tex Willer e diferente daquilo que poderíamos estar à espera. Desta vez, Tex e o seu filho, Kit Willer, viajam dos Estados Unidos para as pampas argentinas, para servirem de intermediários entre o Governo argentino e as tribos indígenas locais. Tudo o que despoleta esta demanda é uma sequência de ataques mortíferos por parte dos índios e o consequente rapto de prisioneiros. À medida que a história se vai desenrolando, as reais razões desta missão dos Willer surgem dúbias. Por um lado, parece haver uma tentativa de negociação pacífica do Governo argentino – e esta, naturalmente, é a vontade de Tex – mas, por outro lado, uma facção do exército argentino parece querer resolver o assunto com o recurso à violência gratuita, manifestando vontade de dizimar as tribos de índios.
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Há uma vertente mais histórica nesta obra pois consegue transmitir-nos, com realismo, o genocídio das tribos de índios na Patagónia, levado a cabo pelo exército argentino, e como só através de muita determinação, espírito de sacrifício e incríveis perdas humanas, estas tribos de índios conseguiram ter uma palavra a dizer na história da Argentina. Tex Willer aparece aqui como um intermediário, um pêndulo de bom-senso e diplomacia que procura, de forma disciplinada, reunir consensos e cedências de parte a parte.
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Obviamente, um cowboy vindo do faroeste não é inicialmente bem-vindo. Nem junto dos oficiais argentinos – com exeção de Ricardo Mendonza, antigo companheiro de Tex e responsável pela sua chamada à Argentina – nem junto dos índios que olham de soslaio para o protagonista, por ter a pele branca. Eventualmente, Willer terá que conquistar a sua admiração através de alguns eventos, muito bem imaginados pelo argumentista Boselli.
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Uma coisa é certa: embora seja uma obra com bastantes momentos de ação, esta é uma história que demora bastante tempo a arrancar. As primeiras 40 páginas servem mais para que Boselli nos apresente a história, o tema, a demanda, os interesses em conflito. E isto não é necessariamente mau. É adulto. Leva-se a sério. Possivelmente, um jovem leitor ficará algo entediado com o ritmo lento da primeira parte da obra. No entanto, um adulto que procure uma história com cabeça, tronco e membros, apreciará a forma cuidada e rigorosa com que a narrativa está construída.
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Mais do que uma história de cowboys, esta é uma história de guerra. Entre soldados do regime argentino e os índios da Patagónia. E mesmo estando embebida de alguma moral relativamente ao erro de se ser preconceituoso, no que concerne a raças e culturas, também não é uma história demasiado moralista. Tenta ser até, bastante factual, na forma como narra os eventos. Se essa moral existe, é nos feitos e postura de Tex Willer, pelo seu exemplo de justiça, que a mesma é passada. Muito adulto, uma vez mais.
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Apreciável também é a tal dimensão menos unidimensional de Tex e das personagens que o rodeiam. Gostei particularmente de como Ricardo Mendonza e Solano conseguem ter várias camadas entre o bem e o mal. Entre o certo e o errado.
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Mas, se a história é bem documentada, original pelo cenário onde acontece, e com personagens interessantes, a arte ilustrativa de Pasquale Frisenda é uma autêntica obra de arte. Uma maravilha para os olhos ao saber utilizar, com tanta mestria, o preto e branco, para nos dar um mundo verdadeiramente bem executado, para onde somos convidados a entrar. A minúcia dos pormenores que Frisenda deposita nos seus desenhos é incrível e merece ser observada com um olhar igualmente minucioso. Assim, não raras vezes, dei por mim a perder largos momentos em muitas vinhetas incríveis e majestosas no tratamento gráfico.
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A caracterização das personagens é excelente, com uma boa panóplia de emoções, que o autor utiliza sabiamente para dotar as personagens de sentimentos verossímeis. Mas é na caracterização dos ambientes, sejam eles paisagens distantes, olhares sobre os grandiosos acampamentos índios, cenas de desenfreado combate ou de cavalos em impetuosas cavalgadas, que mais fiquei surpreendido e apaixonado pela sua arte. De facto, a maneira como Frisenda capta o momento é magnífica e tem algo de poético, até. E isso não é comum em banda desenhada. O seu traço fino, elegante e muito seguro de si mesmo, representa a qualidade gráfica que uma série de culto como Tex merece. A meu ver, era difícil fazer um melhor trabalho no cômputo da arte ilustrativa.
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Se há uma coisa que não gostei tanto, e que diz respeito à história, é o final algo abrupto da mesma. Chega a ser frustrante se tivermos em conta que a história demora tantas páginas a desenvolver – e isso é bom, pois permite explorar as personagens e preparar o leitor para a grande missão de Tex – mas depois, no final, resolve a história em duas páginas, de forma demasiado seca. Não sei se isso aconteceu por causa de alguma pressão da editora sobre os autores, que tivesse que ver com deadlines, mas é uma pena, pois é um final demasiado brusco. Não é um mau final, note-se. Mas é um final mal explorado. Um livro destes merecia um final mais épico e bem conseguido.
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Quanto à edição da Polvo, mesmo admitindo que considero que esta obra de qualidade superior merecia uma capa dura, tenho que reconhecer que é uma edição com muita qualidade por parte da editora portuguesa. O papel é muito bom, a capa, com generosas bandanas, é muito bonita, e o trabalho gráfico também apresenta uma elegância muito apreciável. A introdução da obra por José Carlos Francisco também acrescenta informação pertinente à obra.
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Em conclusão, é fácil perceber porque é que Patagónia é uma das obras mais aclamadas de Tex Willer. As ilustrações de Frisenda são verdadeiramente magníficas e dignas de serem analisadas ao detalhe, enquanto que a história, que nos é oferecida por Boselli, é muito bem encetada, sabendo munir a obra de uma boa trama, que se desenvolve num cenário diferente daquilo a que estamos mais habituados a ver nas histórias do famoso cowboy. Pela parte que me toca, não tenho dúvidas que, se não for mesmo a melhor, é uma das melhores obras de Tex e um ótimo portal para mergulhar nas aventuras desde famosíssimo herói. Imprescindível.
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NOTA FINAL (1/10)
9.2

Ficha técnica
Tex – Patagónia
Autores: Mauro Boselli e Pasquale Frisenda
Editora: Polvo
Páginas: 228, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Maio de 2015 (2ª Edição: Maio de 2018)
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[*] (Texto publicado originalmente no blogue “Vinhetas 2020, em 17 de Fevereiro de 2021)

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