Fernando Fusco é conhecidíssimo em Itália mas também em Portugal, no Brasil e em muitos outros países devido à sua actividade ligada ao mundo da banda desenhada, sobretudo por ter desenhado TEX WILLER, por quase 40 anos, para a Sergio Bonelli Editore, tornando-se um dos autores mais apreciados pelos fãs e coleccionadores de Tex espalhados pelo mundo. Porém nem todos conhecem a actividade predilecta de Fernando Fusco, a PINTURA, paixão a que se dedicava desde sempre nos tempos livres entre uma e outra página do famoso Ranger e que o levou a definir-se como “um pintor emprestado à banda desenhada“.
Natural de Ventimiglia, na Itália, onde nasceu a 1 de Agosto de 1929, dedicou-se desde muito jovem à pintura e à arte gráfica. Em 1957 ao mudar-se para Paris aprofunda a sua pesquisa artística e trabalha como ilustrador com as principais editoras europeias. Em 1970 retorna a Itália estabelecendo-se em San Giustino intensificando a sua actividade no mundo da banda desenhada, passando a fazer parte da grande família que fica por trás do pano desenhando as aventuras de Tex em 1974.
Mas voltando à pintura, em Fighille durante o ano de 2002 foi-lhe dedicada uma exposição relacionada com esta sua paixão, onde foram expostas muitas obras inéditas da sua colecção privada, mostra essa que obteve um grande sucesso. Hoje o blogue do Tex quer dar a conhecer melhor o Fusco pintor publicando algumas das suas pinturas dos anos 70, extraídas da monografia “F.Fusco“ de 1979:
. Mais recentemente e já depois de Fernando Fusco ter abandonado a sua carreira de desenhador (Almanacco del West 2010, “La banda dei messicani”, de Janeiro de 2010 foi a sua última história de Tex publicada na Itália), o consagrado autor foi um dos protagonistas da Via Crucis Fighille-Petriolo realizada em 2011 em memória de Casi Americo realizando a Estação IV: Jesus encontra a mãe. .
Seguem-se algumas fotografias de Fernando Fusco, no seu estúdio, precisamente no dia da entrega desta sua obra destinada à Estação IV. Nelas também se pode ver uma importante página da sua vida: revistas do Ranger e a mesa de desenho onde nasceram dezenas de aventuras de TEX para a Sergio Bonelli Editore.
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli e Roberto Pagani na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.
Quais foram as suas leituras de BD na infância e na adolescência? Maurizio Dotti: Os quadradinhos de que eu mais gostava na adolescência eram os que contavam histórias de aventura. Eu literalmente devorei BD de aventura, principalmente as de faroeste. Essa minha inclinação acabou por condicionar também os meus gostos literários e, naturalmente, cinematográficos. Tex, Blueberry, Comanche, História do Oeste, mas eu também gostava demais de histórias de ambientação colonial, como O Comandante Mark e O Grande Blek. Eu recordo-me dos momentos ligados a essas leituras como dos meus espaços mais intimamente ricos de emoções agradáveis. Foram momentos determinantes para as minhas escolhas futuras.
Que leituras ou sugestões o levaram a envolver-se com o desenho? Ou essa sua paixão foi cultivada desde criança? Maurizio Dotti: As leituras e sugestões alimentaram uma paixão que eu já possuía. Desde os 9 ou 10 anos eu sabia que o desenho era uma necessidade imprescindível. Eu não fazia outra coisa, só desenhava, em qualquer lugar, em qualquer superfície. Eu copiava muitos autores, sobretudo Giovanni Ticci, que era um dos meus autores preferidos ao lado do francês Jean Giraud. Para mim esses dois autores eram o ponto de referência constante, eu estudava o estilo deles e tentava reproduzir com dedicação quase doentia.
Você teve uma formação artística? De que tipo? Maurizio Dotti: Nos anos 70 eu frequentei o Instituto Estatal de Arte de Monza. Belíssimos anos transcorridos sob a condução de professores excelentes que transmitiram-me paixão e método, mas também pode-se dizer que todas as minhas conquistas técnicas foram fruto de muito suor e insistência. Eu agarrava-me como um mexilhão aos recifes a todos os professores que poderiam me ajudar no meu objectivo. Eu buscava absorver como uma esponja tudo o que me parecia extraordinário e perfeito no universo desenhado. A fascinação diante de certas obras da mente criativa de alguns desenhadores era tanta quanto eram o desconforto e a frustração ao me sentir longe daquele nível. Mas era justamente essa condição de perene inadequação a estimular-me. A minha sorte foi a de saber, desde a mais jovem idade, passar verdadeiros períodos de isolamento voluntário, nos quais eu vivia apenas de desenho.
Quais foram os desenhadores italianos e estrangeiros a quem você inspirou-se no curso da sua carreira? Há algum que, mais que os outros, você considera seu mestre ideal? Maurizio Dotti: O termo mestre é muito forte, incómodo e pressupõe um conhecimento pessoal – além de artístico – muito aprofundado das figuras artísticas de referência para que alguém possa merecê-lo. Dito isso, é claro que todo desenhador tem preferências ditadas pelo gosto, pelo estilo, pelas inclinações artísticas. Alguns desenhadores eu já citei: Jean Giraud, aliás Moebius, Giovanni Ticci. Esses são seguramente os dois desenhadores que por muitos anos representaram o contínuo e quase doentio ponto de referência que guiou-me em meu aprendizado. Muito diferentes entre si mas com o gosto comum pelo realismo, um realismo evocativo de imagens sempre convincentes e cativantes. Suas cenas jamais eram estáticas, mas vivas e movimentadas, animadas por uma narrativa forte e intensa, verdadeira nas posturas das personagens e autenticamente descrita nas esplêndidas paisagens muito bem definidas; para mim esse tipo de desenho sempre foi o modelo a seguir, mas infelizmente creio que não cheguei nem perto. E também admiro muitos outros desenhadores, tanto os da antiga geração quanto os da nova: D’Antonio, Toppi, Di Gennaro, Uggeri, Gattia, Capitanio mas também Frisenda, Majo, Carnevale, Mastantuono, Villa, Milazzo, são muitos e não posso citar todos, embora eu gostasse, vista a grande admiração que nutro por eles.
A sua entrada no mundo dos balões falantes aconteceu em 1976, no estúdio de Giancarlo Tenenti. Na época era costume para os jovens que se iniciavam na BD estrear com histórias de poucas páginas. Isso certamente representava menos temor se comparado com as 94 páginas do padrão bonelliano que devem encarar os novos autores de hoje em dia. O que se recorda daquele período? Quais publicações apresentaram trabalhos seus? Maurizio Dotti: Quando eu fazia o quarto ano, após o horário das aulas eu me dedicava ao aprendizado como desenhador de BD no estúdio de Giancarlo Tenenti, prolífico desenhador de revistas como L’intrepido e Il monello, seduzido pelo estilo americano dos anos 50 e 60. Foi um momento frutífero para a minha formação, sobretudo na técnica de arte-finalizar que Tenenti sempre executou com método e rigor. Ele apreciava muito a minha versatilidade no desenho e, depois de um curto período em que eu fazia a página a lápis que ele depois finalizaria, passei a fazer histórias inteiramente desenhadas e arte-finalizadas por mim. Eram todos roteiros de ambientação faroeste, visto que aquele sempre foi o meu universo aventuroso de referência. Esse período passado como experiência, digamos assim, durou cerca de sete anos, dos quais me recordo cheio de entusiasmo e de tarefas de grande expectativa. Ao olhar hoje o trabalho daqueles anos, posso dizer sem piedade que pouquíssimas histórias eram dignas de ser publicadas, mas eram anos em que, bem ou mal, a ninguém se negava a publicação.
Em 1982 você se dedicou ao teatro, de cenografia à recitação. Qual foi a exigência que o conduziu a essa forma de expressão? Maurizio Dotti: Eu comecei a fazer teatro durante o ensino médio e imediatamente apaixonei-me por essa esplêndida forma expressiva. Foi o meu professor de Letras, director de uma importante companhia milanesa de marionetas de longa e refinada tradição, a Carlo Colla & figli, quem me transmitiu essa grande paixão. Para um menino de 11 anos foi imediato deixar-se arrastar no vórtice das extraordinárias emoções que aquele valioso universo onírico feito de papel pintado, madeira magistralmente esculpida, luzes fantasmagóricas e tecidos finíssimos sabia evocar. Durante essa minha experiência de quase vinte anos eu aprendi as técnicas de recitação, de manobrar as marionetas, as técnicas de cenografia, em suma, a fazer teatro. Por um certo período eu consegui conciliar, com muito esforço, ambos os trabalhos, mas justamente pela característica que os dois têm de absorver integralmente, em 83 eu tive de abandonar um deles com grande desprazer, e coube aos quadradinhos.
No reencontrado trabalho de desenhador e ilustrador, a experiência teatral foi útil? Maurizio Dotti: A característica comum é que se contam histórias, é isso que sempre me interessou: contar histórias. Seja a fazer isso num teatro lotado de gente que ouve, seja que se tente fazer com papel, lápis e tinta. A exigência de narrar é o fio condutor dessas duas experiências na aparência tão distantes mas também muito próximas por certas afinidades: a recitação das personagens, as ambientações, os trajes e, por fim, o roteiro que, a seu modo, pode ser considerado um texto teatral. Voltar a desenhar quadradinhos em 95 (recomecei a ter material publicado na revista Il Giornalino) não foi nada fácil. Eu me dei conta de que o retorno era lento e difícil, como poderia ser para um músico que, depois de anos de interrupção, volta a tocar o seu instrumento. Os anos de inactividade pesavam e levei um bom tempo antes de adquirir uma segurança satisfatória.
Nos anos Noventa você então iniciou uma colaboração com Il Giornalino. De quais desses trabalhos você ainda se recorda com satisfação? Maurizio Dotti: Foi com a adaptação em quadradinhos de Os Sete Magníficos (no Brasil, Sete Homens e Um Destino) que retomei a minha actividade de desenhador de BD, nas páginas de Il Giornalino. Era 1995 e eu estava bastante enferrujado. Apesar disso a coisa agradou-me muito, foi um momento de grande entusiasmo e de renovadas energias criativas que, naquele período da minha vida, deram-me uma nova carga vital típica dos anos de juventude. Mas ainda bem que foram poucos a ver os resultados, naturalmente. Os desenhos sofriam claramente com o longo período de inactividade. Eu tive que suar para buscar um caminho, um estilo, recuperar a técnica: não foi fácil. Eu dediquei-me à realização de séries como Lassie, Águia Azul, mas acho que a personagem do pequeno índio Uskik, da série Cheyenne, foi a mais interessante a realizar.
A sua entrada na SBE aconteceu em 1995 de um modo bastante particular: você fez os lápis de uma aventura de Tex que foi arte-finalizada por Alarico Gattia. Como aconteceu essa colaboração repentina na série principal da Editora? Maurizio Dotti: Para ser exacto, o verdadeiro começo dos trabalhos com a Sergio Bonelli Editore começou em Janeiro de 96, com uma história de Zagor roteirizada por Mauro Boselli: O Anjo da Morte. Mas é verdade que os traços a lápis que eu fiz em 95 para a história de Tex Glorieta Pass me valeram, de um certo modo, como cartão de visitas para o início de uma colaboração que, felizmente, continua ainda hoje. Sempre foi o meu sonho chegar a trabalhar com essa grande Editora, desde quando, muito jovem, eu me deliciava com a leitura de histórias esplêndidas, magistralmente realizadas por outros. Em anos diversos, por várias vezes eu me apresentei à Editora para uma colaboração eventual, mas sem sucesso. Quis o destino que Alarico Gattia, amigo de velha data a quem foi proposta a história, me pedisse uma ajuda para os traços a lápis que depois ele arte-finalizou. Naquela época eu colaborava com Il Giornalino e trabalhava como ilustrador para algumas das agências de publicidade mais importantes de Milão, mas a ideia de fazer por inteiro o lápis de um episódio do famosíssimo ranger, excitou-me ao máximo. Eu fiquei entusiasmado e dei o melhor de mim, tanto que em 96, quando bati novamente à porta da Bonelli, no meu book havia fotocópias das páginas a lápis e essas chamaram a atenção de Boselli, o que levou a iniciar-se o relacionamento profissional que eu tanto almejava.
Como é o seu relacionamento com Tex? Você gostaria de continuar a trabalhar com a BD mais longeva da Itália ou sente mais afinidade com outros géneros, sobretudo com o terror de Dampyr, série da qual você é uma das colunas de sustentação desde a estreia nos quiosques? Maurizio Dotti: Durante a infância, a leitura de Tex, junto a poucas outras de género faroeste que eu apreciava, foi a centelha que fez estourar a paixão. Paixão pelo desenho, pelo faroeste em todas as suas formas, literárias e cinematográficas, além de gráficas. Nele eu reencontrava as emoções que – desculpe pela comparação que aos apreciadores do clássico pode parecer irreverente – poemas como a Ilíada e a Odisseia haviam suscitado em mim. Eu creio que o género faroeste, ainda que hoje esteja meio por baixo, pode ser considerado como a história épica moderna. Dito isso, pode-se imaginar o quanto eu gostaria de poder realizar histórias do nosso apreciado ranger. A par disso, eu aprendi a apreciar as atmosferas, as ambientações e mecanismos narrativos que o género terror exige. A amizade com Mauro Boselli, feitas das mesmas sintonias estéticas e do recíproco senso de respeito pelo trabalho, simplificaram-me a abordagem a um género que, ainda que distante dos meus interesses, aprendi a conhecer e apreciar.
Depois da breve experiência texiana, à qual voltaremos a seguir, você passou a desenhar Zagor. A sua versão do mundo do Espírito da Machadinha é muito realista, seja ao retratar o herói, seja ao representar caçadores, soldados ou peles-vermelhas. Sem esquecer o cuidado com as armas. Foi uma necessidade cultural sua ou foi delineada pelas sugestões de Mauro Boselli, no período em que era o editor da série? Maurizio Dotti: Aprecio que essas particularidades do meu trabalho com Zagor tenham sido percebidas. Foram os primeiros trabalhos para a Bonelli e neles é visível a insegurança gerada pela inexperiência. Mas o que eu gostaria que se visse, além da imperícia, é o gosto pela pesquisa histórica. É verdade que Zagor move-se num universo narrativo que é mais fantasioso que realista, mas com Mauro nós decidimos pela segunda opção, inclusive na dinâmica dos tiroteios, sem esquecer que, naquela época, as armas de fogo eram todas de carga pela boca. Apreciei bastante que Mauro aceitasse a ideia de ver o exército dos Estados Unidos representado com os uniformes da época e não com a versão mais conhecida. Eu me lembro que foi divertido, eu gosto de representar o realismo das épocas históricas por meio das personagens, do ambiente e das roupas: para esse tipo de coisa eu sou curioso e detalhista, e aprecio, com uma ponta de inveja positiva, quem é mais do que eu.
Para Zagor você ilustrou duas histórias (O Anjo da Morte, com texto de Boselli, e Os Exterminadores, escrita por Colombo). O que se recorda dessa experiência? Você sentiu-se à vontade com o pitoresco mundo zagoriano e algumas de suas personagens – sobretudo Chico – sempre a oscilar entre drama e farsa? Maurizio Dotti: Eu recordo-me da agradável e excitante sensação do teste. Eu estava cheio de entusiasmo: finalmente estava a colaborar com a Bonelli, a editora que havia povoado a minha adolescência de ávido leitor compulsivo, de inesquecíveis mitos aventurosos. Eu e Mauro Boselli nos entendemos de imediato. Ele é muito seguro de si, sabe o que quer e decide rapidamente; para mim foi uma óptima escola. Ele perguntou-me qual a ambientação que eu preferia para fazer as personagens actuar e depois falou-me rapidamente de um argumento que naquele momento tinha em mente: tornou-se a história O Anjo da Morte. Cavalos, índios, caçadores e um vilão de respeito: o que mais eu poderia querer? Não menos satisfatória foi a experiência com Maurizio Colombo. A sua conhecida predisposição a contar histórias duras, fortes e dinâmicas nas cenas de acção entusiasmou-me. A história em duas partes Os Exterminadores e Uma Bala Para Kelso satisfez plenamente a minha fome de faroeste. A presença de uma personagem cómica como Chico é útil ao leitor como agradável intercalação leve e interessante para o desenhador que tem, assim, a chance de pôr à prova a sua veia humorística. Além disso, o binómio herói e personagem cómica já foi mais que testado e tem longa tradição. A BD apropriou-se desse esquema amplamente usado na literatura e com ainda mais sucesso no cinema.
Certo, em Zagor você trabalhou com Mauro Boselli e com Maurizio Colombo, e nos dois trabalhos observa-se um óptimo relacionamento artístico. Ao elaborar ambos os trabalhos, o que você sentiu ter em comum com esses autores? Maurizio Dotti: Nos primeiros três ou quatro anos eu trabalhei com os dois com grande satisfação. Mauro tem um estilo de escrita bem pensado e prolífico, com situações ricas de personagens que se movem em tramas articuladas nas quais o uso sábio da narrativa concretiza-se em histórias nunca banais e sempre dosadas na justa alternância de acção e descrição. Os roteiros de Maurizio Colombo são cheios de acção e movimento, e creio que lhe custe um certo esforço atenuar, por óbvias razões ditadas pela linha editorial justamente atenta na forma de representar a violência, as cenas cruentas e sangrentas. Mas ele não tem dificuldade para trabalhar o seu estilo dentro dos limites impostos. Eu nunca senti o peso do tédio ao dar forma gráfica às histórias deles. Isso significa que tenho fortes pontos de contacto com ambos.
Pouco depois, a colaboração com Boselli e Colombo levou-o às páginas da nova personagem criada por eles, Dampyr (2000), série da qual você é uma das colunas. Como foi a sua abordagem ao realismo fantástico da série? Maurizio Dotti: Eu creio que aceitaria qualquer coisa que me propusessem. Eu já trabalhava há três anos para a Bonelli e, quando me pediram para desenhar Dampyr, fiquei lisonjeado e preocupado ao mesmo tempo. Eu não tinha convicção de que poderia elaborar as atmosferas de terror-noir, que são a marca estética dessa BD. Eu sequer sentia-me preparado para o género fantástico, que exige uma boa dose de criatividade visionária.
A necessidade de dever desenhar vampiros e criaturas fantásticas em geral assustou-o? Maurizio Dotti: O que me assustava era envolver-me com um mundo que eu não conhecia, com padrões expressivos característicos: como no faroeste não podem faltar o sol, a poeira, os cavalos, no género terror predominam o escuro, as atmosferas inquietantes e o suspense. Eu saberia representar graficamente tudo isso de modo convincente?
O que você mais aprecia nas histórias de Dampyr, ao menos naquelas desenhadas por si? Maurizio Dotti: Eu aprecio o facto do desenhador de Dampyr não se entediar. Isso deve-se às infinitas variedades narrativas pelas quais a BD se expressa. As ambientações podem ser infinitas, a considerar-se também os vários saltos temporais presentes de vez em quando na série, até chegar-se a histórias inteiras ambientadas no passado.
Em Dampyr as histórias muitas vezes são ambientadas em várias regiões do mundo. Entre as ambientações já feitas, qual você mais se sentiu gratificado ao ilustrar? Maurizio Dotti: A ambientação que mais cativou-me, à parte o resultado final que não cabe a mim julgar, foi a história dupla A Quadrilha dos Mortos-Vivos e Arizona Killers. Falo uma obviedade, a se considerar a minha propensão pelo género faroeste. A verdade é que eu amo todas as histórias em que há uma boa parte da aventura, se não toda, ambientada em outras épocas históricas.
. Quanto tempo você leva para desenhar uma página? Segue horários? Como é o seu dia entre trabalho, leituras, informação, ócio, vida familiar? Maurizio Dotti: Boa pergunta! Como é o dia de uma pessoa que se diverte muito a trabalhar e que ainda é paga para isso? Somos em quatro na família, os filhos são mais que adolescentes, mas isso não comporta falta de responsabilidade e deveres, como sabem todos que têm filhos assim. Com esforço, chego a fazer cerca de vinte páginas por mês, mas também tenho interesses pessoais que cultivo: leitura, espectáculos, cavalgar, frequentar a piscina com certa regularidade, ver os amigos e estar com os meus entes queridos nos momentos de vida familiar: como se consegue fazer isso tudo quando entre a vida e o trabalho há uma simples porta, a do estúdio, que, por ser em casa é tão fácil de abrir, tão fácil que muitas vezes representa um problema? Fazer BD muitas vezes quer dizer não ter medo de ficar até tarde sobre uma página e, para mim, essa é uma situação crónica. Na minha opinião, para fazer este trabalho deve-se ter uma esposa apaixonada, paciente e compreensiva, e eu creio que tenho essa sorte.
Como é trabalhar na Sergio Bonelli? Maurizio Dotti: Desde sempre foi o meu sonho e, depois de quinze anos de feliz colaboração, posso dizer que não tenho nada, absolutamente nada do que reclamar. Muitos colegas meus procuraram caminhos franceses, creio que mais pelo mito que sempre envolveu a BD de além dos Alpes do que pelo verdadeiro prazer de ter material publicado naquele País em que, segundo muitos, nem tudo o que brilha é ouro. Claro que, para quem como eu tem ritmos bastante intensos, o tempo nunca é suficiente, mas eu penso que deve-se achar o equilíbrio certo que saiba satisfazer as exigências de qualidade e as da produção. Eu creio que na Bonelli essas duas características estão presentes, seguidas com grande profissionalismo por todos os que colaboram na confecção do produto. Eu estou muito contente por trabalhar nessa Editora. Sem qualquer intenção de adular, eu posso dizer que sempre admirei muito Sergio Bonelli, e lhe sou grato por ter contribuído para, com o fruto de seu trabalho, tornar belos os distantes anos da minha adolescência, a alimentar em mim aquela paixão que hoje promove e sustenta-me como profissão: eu poderia não lhe ser grato?
A sua parceria com o argumentista Mauro Boselli começou nas páginas de Tex, desenvolveu-se com Zagor e consolidou-se graças às centenas de páginas para Dampyr. Em todas essas histórias transparece uma grande afinidade laboral que instaurou-se entre vocês no passar dos anos. Que particularidades comporta trabalhar por tanto tempo com um dos argumentistas de ponta da SBE, considerado detalhista e particularmente exigente com vocês, desenhadores? Maurizio Dotti: A forte personalidade de Mauro Boselli impressionou-me de imediato e posso dizer que de imediato também entramos em sintonia. A sua grande cultura e a enorme variedade de interesses ficou evidente quando, no segundo encontro, há uns quinze anos, eu comentei sobre o virtuosismo técnico do baixo profundo que, no papel de Sarastro da Flauta Mágica de Mozart, deve-se acompanhar com a nota mais baixa já cantada na ópera lírica, e ele começou a cantar o trecho. Para mim, a sua principal característica é a grande segurança ao decidir; para um desenhador é muito importante trabalhar com uma pessoa como Mauro, que sabe decidir sem hesitações. Seus roteiros são bem trabalhados, explicam em detalhes, inclusive em forma gráfica (ou seja, com pequenos esquemas feitos com setas direccionais e uns poucos esboços de imagens), o desenvolvimento da acção. Seguir as suas indicações significa não errar. O que se pede é que o roteiro seja seguido, ao desenhador é deixada muita liberdade nos enquadramentos, mas a excessiva carga criativa não pode arruinar a exigência prioritária da legibilidade. Trabalhar com pessoas como Mauro significa aprender a contar com clareza; quase sempre o desenhador é levado pelo desenho, privilegia o enquadramento cativante em prejuízo de outro que, apesar de mais banal, é mais claro é legível: contar por imagens significa encontrar o equilíbrio certo entre todos os componentes em jogo. Quando acontece de haver desacordo na montagem de uma página, o que não acontece com frequência, eu busco defender e motivar as minhas escolhas, mas diante da sua lógica arrasadora, muitas vezes devo mudar de opinião. Nos raros casos em que consigo levar a melhor, ele solta um lacónico “você convenceu-me!“.
Passemos de novo ao Ranger que dá nome a este blogue. Quem ou o que é Tex, em sua opinião? O que mais lhe agrada no Ranger e o que menos lhe agrada? Maurizio Dotti: É o herói sem mancha e sem medo, talvez tenha tido alguma manchinha em seu passado, mas logo se redimiu. Um herói das antigas que, talvez justamente por isso, conseguiu fascinar diversas gerações de leitores graças à sua capacidade de renovar-se sem mudar. Seus narradores foram capazes de contar sem se repetir, o que não é fácil quando se pensa nos restritos limites expressivos de um género como o faroeste. Personagem granítica, que não se abala, segura de si e, o que mais a caracteriza, vingador de malfeitores e tenaz executor de bandidos. Que outra personagem poderia melhor satisfazer no leitor o inato e confortador senso de justiça? Sem sombra de dúvidas é uma personagem de grande carisma, diante da qual o mecanismo de transferência é espontâneo. É evidente que uma personagem desse género também pode suscitar antipatia: a sua extrema segurança e a famosa infalibilidade podem criar uma legítima irritação, mas se assim não fosse, não seria Tex.
Você acha que Tex mudou nos últimos anos? Se sim, sob quais aspectos? Maurizio Dotti: A tradição sempre é um ponto de partida, jamais um ponto de chegada. Se Tex não tivesse sabido transformar-se, não teria sobrevivido à sucessão de gerações de leitores. Os argumentistas vivem o tempo presente e, mesmo a manter intactos os padrões expressivos por meio dos quais a personagem fala de si, são autores fortemente sugestionados pelo nosso clima cultural e desse são os portadores naturais. Creio que todos podem reconhecer nas tramas, nas personagens e nas ambientações, a benéfica influência que cinema e literatura exercitam e exercitaram com inegável benefício. Os novos narradores souberam manter intacto o carácter da personagem, e souberam satisfazer as expectativas de leitores mais exigentes que os do passado.
Você está a seguir as pegadas de outros colegas (como Marco Torricelli, Stefano Andreucci, Mauro Laurenti) nas peregrinações de Boselli de uma série a outra da Editora, não? Nos últimos anos o quadro de desenhadores de Tex cresceu bastante, e a sua passagem para o Ranger foi certamente facilitada por alguns factores: você conhece a personagem, já abordou temáticas de faroeste e, comparado a muitos de seus colegas, também é bastante rápido. Maurizio Dotti: Para mim, voltar a desenhar BD de faroeste significa uma nova carga, novo entusiasmo. Isso não significa que eu não gosto de desenhar Dampyr, ao contrário, mas em razão da inata insatisfação que aflige o ser humano, sempre em busca do que considera melhor, para mim é a coroação de um desejo.
O que pode nos dizer sobre a história de Tex em que está a trabalhar? Maurizio Dotti: Sinto decepcionar, mas bem pouco. Pela grande quantidade de roteiros que Mauro Boselli escreve ao mesmo tempo, seria impensável que desse a história inteira ao desenhador. No momento eu tenho vinte páginas em mãos, então não sei muita coisa da trama. Posso apenas dizer que essas primeiras vinte páginas são de grande acção, ambientadas no México. Infelizmente é só isso.
Como você recebeu o convite? Maurizio Dotti: Estava programado que a minha passagem a Tex aconteceria dentro de um ano, o tempo de fazer outras duas histórias de Dampyr, uma de Mignacco e um especial de Mauro ambientado na Islândia. Foi um telefonema simpático em que Mauro disse que o programa havia mudado, que não faríamos mais o especial islandês porque – disse ele – “Tex nunca esteve na Islândia“. Eu pedi para que ele repetisse isso duas vezes, entre pausas de satisfeito e incrédulo estupor. Foi um momento belíssimo e ainda é, cheio de novo e prolífico entusiasmo; Eu revivi e revivo os anos do frenesi juvenil por este extraordinário e incrível trabalho, e por isso nunca deixarei de agradecer a Mauro. Ele acreditou em mim, tanto que deixou Dampyr, a série da qual é criador, sem um dos colaboradores mais prolíficos: não é pouca coisa.
Como você se sente a se envolver com o Ranger numa história completa? Maurizio Dotti: A primeira coisa que me vem à mente é entusiasta, mas aí, quando penso com a cabeça fria, entendo que é uma prova a superar. Afinal, é o título mais importante da Editora e a qualidade do desenho deve estar à altura. Não me preocupa elaborar a ambientação faroeste, que faz parte do meu estilo, mas a representação das personagens. As quatro principais devem ser críveis, carismáticas e imediatamente reconhecíveis pela sua carga expressiva. Sobretudo Tex que, apesar de actuar com poucas, estereotipadas e padronizadas expressões faciais e de postura, como é típico do herói bem delineado e firme em suas certezas, deve dar a ideia imediata do protagonista ao qual estamos acostumados. Creio que este é o problema maior quando se trabalha com personagens de tal notoriedade: torná-las imediatamente reconhecíveis.
Então você gosta de faroeste. Acha que, depois do encerramento de Mágico Vento, o porta-bandeira da BD desse género seja apenas o eterno Ranger ou há espaço para efectuar-se novas tentativas? Maurizio Dotti: O quanto e porque eu aprecio o género, creio já ter dito bastante e não quero entediar mais o pobre leitor, que já sentiu a minha irrefreável prolixidade. Mas a realidade, infelizmente, é que não somos muitos a amar o faroeste, por isso não é de espantar-se que no panorama italiano as propostas sejam tão poucas. Seria preciso uma ideia genial que soubesse propor o assunto de uma forma nova e criativamente eficaz, o que não é fácil para um tema sobre o qual já se disse tudo.
Como você vê o futuro do Ranger? Maurizio Dotti: Pergunta difícil! Quem pode responder? Já é milagroso que uma personagem como essa tenha atravessado todos esses anos, feitos de contínuas e repetidas mudanças culturais e de gosto, sempre a manter imutável a sua aparência e inalterado o apreço do leitor. A esperança é que a sua vida ainda possa durar muito, mas… como se diz, essa é uma esperança muito, mas muito interessada.
Fora da Bonelli você fez ilustrações de livros para jovens. Fale um pouco dessa experiência. Maurizio Dotti: Eu trabalhava para a MIA (Milan Illustration Agency) que tem sede em Milão e contactos no mundo todo. Essa agência cuida de ilustrações e promove a obra de diversos autores graças aos seus contactos internacionais e por meio da participação nas várias feiras do livro que acontecem em muitas partes do mundo. Usei o verbo trabalhava porque há muito tempo eu não mexo mais com ilustração; o trabalho com BD, se feito com seriedade e dedicação, não deixa tempo para outra coisa. Eu fiz trabalhos para a Nova Zelândia, para a França e, em parte, também para o mercado italiano, entre 1993 e 2000. Eram ilustrações de livros para a juventude aos quais eu gostava de dedicar-me de tempos em tempos. Usar cores sempre foi a minha grande paixão, exige perícia e atenção, mas também uma grande dose de instintividade sabiamente temperada com competência. De cenografias teatrais aos esboços dos trajes para depois passar ao trabalho interessante de ilustrador de publicidade e, por fim, de editoria, posso dizer que empastei quilos de papel com as cores e me diverti muito, e agora vejo o mundo em preto e branco.
A BD da SBE sempre foi o seu objectivo ou você gostaria de fazer a chamada BD de autor como Pratt, Battaglia, Toppi, Manara? Maurizio Dotti: Como eu disse antes, desde que tinha 11 ou 12 anos e copiava mal o magnífico Tex do grandíssimo Giovanni Ticci, eu fazia isso com o propósito, mais ou menos consciente, de um dia bater à porta da Editora Bonelli, com a minha pasta de desenhos em baixo do braço. Eu nunca pensei em BD de autor, e nem o faço hoje. Não sei por qual razão, talvez pelo medo de me colocar em jogo, talvez por aquela sensação de insegurança que sempre acompanhou-me na vida – e a despeito da qual eu obtive o que desejava – ou talvez porque seja mais simples contar histórias escritas por outros, talvez por todas essas razões e por outras que não sei, nunca pensei em fazer histórias minhas – salvo raras pequenas excepções que ficaram engavetadas. Quem sabe, talvez no futuro.
O que nos pode dizer sobre os seus projectos futuros? Maurizio Dotti: Não tenho grandes aspirações a realizar além daquela de prosseguir a colaboração com a Editora Bonelli. Afinal, essa sempre foi a minha aspiração: o que mais posso desejar?
Quais quadradinhos você lê actualmente, com quais mais se identifica? Maurizio Dotti: Eu leio principalmente Dampyr, como é natural, e Tex, de vez em quando. Algumas BD de autor, quando gosto muito dos desenhos: sim, esse é um meu limite, os desenhos devem me agradar muito para que eu leia. Posso dizer que a última BD que realmente me enfeitiçou e que eu gostaria muito de desenhar é Ken Parker, uma personagem extraordinária, com tramas narradas de forma extraordinária.
Além de BD, que livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música? Maurizio Dotti: Como o meu tempo livre é muito limitado, costumo privilegiar a leitura de um livro. Para mim a leitura é algo necessário e indispensável, um acto compulsivo e frequente. Eu arriscaria a comparar com o guloso diante de uma mesa farta com todo o tipo de delícia que não sabe por onde começar, pega de tudo e mais do que pode comer. Com Mauro geralmente conversa-se sobre livros, e lamentamos a brevidade da vida em relação ao facto de que não será suficiente para ler tudo o que gostaríamos. O típico efeito gerado com atitudes desse tipo é a clássica pilha de livros começados e lidos ao mesmo tempo em momentos alternados, na vã tentativa de conseguir enganar o tempo e a vida. O que prefiro é o romance noir e de ambientação histórica; aprecio muitíssimo os clássicos mas não desdenho ensaios filosóficos com predilecção pelos panfletos sobre ética, religião e laicidade. Devoro com paixão (como o guloso que mencionei antes) os ensaios sobre cinema e as biografias de actores e directores, principalmente da época de ouro de Hollywood. Devo parar, em casos assim é duro fazer isso, mas não posso abusar da paciência do incauto leitor, porque eu começaria com uma lista de títulos e seria o fim. Limito-me a citar Dumas, Hugo, Stevenson, Dostoevskij, Stendhal, Melville, Dickens, Céline, London, Hammett, Thompson, Goodis, Woolrich, King, Leonard, MC Carthy, Lansdale, Follett, etc.
E chegamos ao fim. Há alguma coisa que você gostaria de dizer? Algo que não lhe foi perguntado e que gostaria que nossos leitores soubessem? Maurizio Dotti: Eu seria um sádico se quisesse impingir mais coisa aos leitores. Agradeço pelo convite, que me permitiu falar sobre assuntos que aprecio e agradeço a quem, com uma boa dose de virtuosa paciência, dedicar-me-á atenção. Eu faço parte daquela categoria de pessoas que trabalham para preencher o tempo livre, e o ocupam com aquele ócio que espero e acredito ser criativo, tão útil às nossas delicadas e efémeras células cerebrais. Eu sinto-me bem no meu papel e espero que seja o mesmo para vocês: boa leitura para sempre a todos!
Caro Maurizio Dotti, em nome do blogue português de Tex agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
Intervista condotta da José Carlos Francisco, con la collaborazione di Giampiero Belardinelli e Roberto Pagani per la formulazione delle domande, di Júlio Schneider (traduttore di Tex per il Brasile) e di Gianni Petino per le traduzioni e le revisioni e di Bira Dantas per la caricatura.
Quali sono state le tue letture fumettistiche nell’infanzia e adolescenza? Maurizio Dotti: I fumetti che prediligevo durante il periodo dell’adolescenza, erano quelli che raccontavano storie d’avventura. Mi sono letteralmente cibato di fumetti d’avventura, soprattutto di genere western. Questa mia inclinazione ha finito col condizionare anche i miei gusti letterari e naturalmente cinematografici. Tex, Blueberry, Comanche, “La storia del west”, ma amavo moltissimo le storie d’ambientazione coloniale: “Il comandante Mark” e “Il grande Blek”; ricordo i momenti legati a queste letture, come i miei spazi più intimamente ricchi di piacevoli emozioni. Sono stati momenti determinanti per le mie scelte future.
Quali letture o suggestioni ti hanno poi spinto a cimentarti con il disegno? O questa tua passione l’hai coltivata già da bambino? Maurizio Dotti: Le letture e le suggestioni hanno alimentato una passione che già sentivo di possedere. Fin dall’età di 9, 10 anni mi sono reso conto che il disegno era una necessità imprescindibile. Non facevo altro che disegnare, dovunque, su qualsiasi superficie. Copiavo moltissimi autori, soprattutto Giovanni Ticci, che era uno dei miei autori preferiti insieme al francese Jean Giraud. Questi due autori erano per me il punto di riferimento costante, mi studiavo il loro stile e cercavo di riprodurlo con maniacale dedizione.
Hai avuto una formazione artistica? Di che tipo? Maurizio Dotti: Ho frequentato negli anni ’70 l’istituto statale d’arte di Monza. Bellissimi anni trascorsi sotto la guida di insegnanti eccellenti che mi hanno trasmesso passione e metodo, ma si può certamente dire che tutte le mie conquiste tecniche me le sono sudate con grande caparbietà e tenacia. Mi abbarbicavo come un mitilo allo scoglio, a tutti gli insegnanti che mi potevano essere utili allo scopo. Cercavo di assorbire come una spugna tutto ciò che mi sembrava straordinario e perfetto nell’universo disegnato. Tanto era grande la fascinazione di fronte a certe opere dell’ingegno creativo di alcuni disegnatori, quanto lo sconforto e la frustrazione nel sentirmi tanto lontano da quei livelli d’eccellenza. Ma era proprio questa condizione di perenne inadeguatezza a farmi da stimolo. La mia fortuna è stata quella di sapere, sin dalla più giovane età, cosa volessi fare nella vita. Mi sono ritrovato più volte in gioventù, a trascorrere veri e propri periodi di autosegregazione, nei quali vivevo solo di disegno.
Quali sono i disegnatori italiani e stranieri a cui ti sei ispirato nel corso della tua carriera? Ce n’e’ qualcuno più di altri che consideri idealmente il tuo maestro? Maurizio Dotti: Il termine “maestro” è troppo impegnativo, ingombrante e presupporrebbe una conoscenza personale, oltre che artistica, molto approfondita delle figure artistiche di riferimento, perché possano meritarsi un tale appellativo. Ciò detto, è chiaro che ogni disegnatore ha delle preferenze dettate dal gusto, dallo stile, dalle inclinazioni artistiche. Alcuni disegnatori li ho già citati: Jean Giraud alias Moebius, Giovanni Ticci. Questi sono sicuramente i due disegnatori che hanno rappresentato per molti anni, il continuo e maniacale punto di riferimento che mi ha guidato nel mio apprendistato. Molto diversi tra loro, ma accomunati dal gusto per il realismo, un realismo evocatore di immagini sempre convincenti e accattivanti. Le loro vignette non erano mai statiche, ma vive e pulsanti, animate da una narrazione forte ed intensa, vera nelle posture dei personaggi e autenticamente descritta negli splendidi paesaggi riccamente definiti; quel tipo di disegno è sempre stato per me il modello cui tendere, non penso in ogni caso di esserci nemmeno mai arrivato vicino, purtroppo. Ammiro comunque moltissimi altri disegnatori, sia della vecchia generazione che della nuova: D’Antonio, Toppi, Di Gennaro, Uggeri, Gattia, Capitanio ma anche: Frisenda, Majo, Carnevale, Mastantuono, Villa, Milazzo, sono troppi e non posso citarli tutti anche se mi piacerebbe, data la grande ammirazione che nutro per loro.
Il tuo ingresso nel mondo delle nuvole parlanti avviene nel 1976, presso lo Studio di Giancarlo Tenenti. All’epoca era consuetudine, per i giovani che si accostavano al medium fumetto, debuttare con storie di poche pagine. Ciò incuteva sicuramente meno timore rispetto alle canoniche 94 tavole bonelliane con le quali si devono confrontare i nuovi autori al giorno d’oggi. Cosa ricordi di quel periodo? Su quali testate hai pubblicato? Maurizio Dotti: Mentre frequentavo il quarto anno, dopo l’orario scolastico mi dedicavo all’apprendistato come fumettista nello studio di Giancarlo Tenenti, prolifico disegnatore di testate come “L’intrepido” e “Il monello”, sedotto dallo stile americano anni ’50 e ‘60. Fu un momento proficuo per la mia formazione, soprattutto nella tecnica del ripasso che Tenenti ha sempre praticato con metodo e rigore. Egli apprezzava molto la mia versatilità nel disegno e, dopo un primo breve periodo nel quale realizzavo le tavole a matita che lui avrebbe in seguito inchiostrato, passai alla realizzazione di storie interamente disegnate e inchiostrate da me. Erano tutte sceneggiature d’ambientazione western, visto che quello è sempre stato il mio universo avventuroso di riferimento. Questo periodo passato, diciamo così, “a bottega” come si usava nell’ambiente, durò circa sette anni, che ricordo pieni di entusiasmo e carichi di grandi aspettative. Riguardando il lavoro di quegli anni posso dire, molto impietosamente, che pochissime storie erano degne di essere pubblicate, ma quelli erano anni nei quali, nel bene e nel male, a quasi nessuno si negava la pubblicazione.
Nel 1982 ti dedichi al teatro: dalla scenografia alla recitazione. Qual è stata l’esigenza che ti ha condotto verso questa forma d’espressione? Maurizio Dotti: Ho cominciato a fare teatro durante la scuola media e mi sono innamorato immediatamente di questa splendida forma espressiva. Fu il mio insegnante di lettere, capocomico di una importante compagnia di marionette milanese di raffinata e lunghissima tradizione, “la Carlo Colla & figli”, a trasmettermi questa grande passione. Fu immediato per un ragazzino di 11 anni, lasciarsi trascinare nel vortice delle straordinarie emozioni che quel prezioso universo onirico fatto di carta dipinta, legno magistralmente scolpito, fantasmagoriche luci e ricchissimi tessuti, sapeva evocare. Durante questa mia esperienza quasi ventennale ho imparato le tecniche di recitazione, la manovrazione della marionetta, le tecniche della scenografia, insomma a “fare teatro”. Per un certo periodo riuscii a conciliare, a prezzo di grande fatica, entrambi i lavori, ma proprio per la caratteristica totalizzante di ciascuno, dovetti nell’83 abbandonare con sommo dispiacere uno dei due e toccò al fumetto.
Nel ritrovato lavoro di disegnatore e illustratore, ti è servita l’esperienza teatrale? Maurizio Dotti: La caratteristica comune è che si raccontano storie, è questo che mi ha da sempre interessato: raccontare storie. Sia che lo si faccia in un teatro gremito di gente che ascolta, sia che lo si provi a fare con carta, matita e inchiostro. L’esigenza di narrare è il filo conduttore di queste due esperienze in apparenza tanto lontane, ma anche molto vicine per certe loro affinità: la recitazione dei personaggi, le ambientazioni, il costume e infine la sceneggiatura che può essere considerata, a suo modo, un testo teatrale. Riprendere nel ’95 a disegnare fumetti (ricominciai a pubblicare su “Il Giornalino”) non fu per nulla facile. Mi resi conto che la ripresa era lenta e difficile, come potrebbe esserlo per un musicista che dopo anni d’interruzione, riprenda a suonare il suo strumento. Quegli anni di inattività si facevano sentire e mi ci è voluto molto tempo prima di acquisire una soddisfacente sicurezza.
Negli anni Novanta intraprendi una collaborazione per “Il Giornalino”: quali di questi lavori ricordi ancora con soddisfazione? Maurizio Dotti: Fu con la trasposizione fumettistica de “I magnifici sette” che ripresi la mia attività di disegnatore di fumetti, sulle pagine de “Il Giornalino”. Era il ’95 ed ero abbastanza arrugginito. Ciò nonostante mi piacque molto, fu un momento di grande entusiasmo e rinnovate energie creative che, in quel periodo della mia esistenza, mi ridiede la vitale carica tipica degli anni giovanili. I risultati, naturalmente, è bene che siano in pochi ad averli visti. I disegni, infatti, risentivano chiaramente del lungo periodo di inattività. Dovetti cercare faticosamente una strada, uno stile, riappropriarmi della tecnica: non fu facile. Mi dedicai alla realizzazione di serie come “Lassie”, “Aquila blu”, ma credo che il personaggio del piccolo indiano Uskik, della serie “Cheyenne”, sia stato il più interessante da realizzare.
Il tuo ingresso alla SBE avviene nel 1995 in una maniera abbastanza particolare: realizzi infatti le matite di un episodio di Tex poi inchiostrato da Alarico Gattia. Come si è concretizzata questa estemporanea collaborazione alla testata regina della Casa Editrice? Maurizio Dotti: Per la precisione, l’inizio vero e proprio della collaborazione con la Sergio Bonelli editore comincia nel Gennaio del ’96, con una storia di “Zagor”, su sceneggiatura di Mauro Boselli, intitolata “L’angelo della morte”. E’ vero però, che le matite di Tex che realizzai nel ’95 per la storia dal titolo “Glorieta Pass” mi valsero, in un certo modo, da biglietto da visita per l’inizio di una collaborazione che, felicemente, tuttora prosegue. E’ sempre stato il mio sogno quello di riuscire a collaborare con questa grande casa editrice, sin da quando, giovanissimo, mi deliziavo della lettura delle splendide storie, magistralmente realizzate da altri. In anni diversi, svariate volte mi proposi alla casa editrice per una eventuale collaborazione, ma senza successo. Il caso ha voluto che Alarico Gattia, amico di vecchia data, al quale venne proposta la storia, mi chiedesse un aiuto per la realizzazione delle matite, che in seguito avrebbe inchiostrato. In quel periodo collaboravo con “Il Giornalino” e lavoravo come illustratore per alcune delle agenzie di pubblicità più importanti di Milano, ma l’idea di realizzare per intero le matite di un episodio del famosissimo ranger, mi galvanizzò all’inverosimile. Ero entusiasta e ce la misi tutta, tant’è vero che nel ’96, quando bussai nuovamente alla porta della Bonelli, nel mio Book c’erano le fotocopie delle tavole a matita, che piacquero a Boselli, tanto da dare inizio a quel rapporto di lavoro, nel quale tanto avevo sperato.
Qual è il tuo rapporto con Tex? Ti sarebbe piaciuto continuare la collaborazione con il fumetto più longevo d’Italia oppure hai nel tempo trovato maggiori affinità con altri generi, su tutti l’horror di “Dampyr”, serie della quale sei una colonna fin dal suo esordio in edicola? Maurizio Dotti: Durante l’infanzia, la lettura di Tex, insieme alle poche altre di genere western che prediligevo, è stata la scintilla che ha innescato lo scoppio della passione. Passione per il disegno, per il western in tutte le sue forme, letterarie e cinematografiche, oltre che grafiche. Ci ritrovavo le emozioni che, mi si perdoni il confronto che ai classicisti potrà sembrare irriverente, poemi come l’Iliade e l’Odissea avevano saputo evocare in me. Il genere western, anche se oggi un po’ in ribasso, credo che possa essere, a buon diritto, considerato come il racconto epico moderno. Data la premessa, puoi immaginare quanto potrebbe piacermi poter realizzare le storie del nostro apprezzato ranger. Ciò nonostante ho imparato ad apprezzare le atmosfere, le ambientazioni e meccanismi narrativi che il genere Horror richiede. L’amicizia con Mauro Boselli, fatta di coincidenti sintonie estetiche e reciproco senso del rispetto sul lavoro, mi hanno semplificato l’approccio con un genere che, sia pur lontano dai miei interessi , ho imparato ad apprezzare e conoscere.
Dopo la breve parentesi texiana (di cui torneremo tra un po’) passi a disegnare Zagor. La tua versione del mondo dello Spirito con la Scure è molto realistica: sia nel disegnare l’eroe sia nel rappresentare trapper, soldati o pellerossa. Senza dimenticare la cura delle armi. È stata una tua necessità culturale oppure è stata mediata dai suggerimenti di Mauro Boselli, in quel periodo curatore di testata? Maurizio Dotti: Mi compiaccio che, del mio lavoro su Zagor, tu abbia notato queste particolarità. Vuol dire che hai l’occhio dell’attento osservatore, del resto non ne dubitavo! Furono i primi lavori per la Bonelli e risentono visibilmente di una buona dose di insicurezza generata da inesperienza. Quello che però desideravo si vedesse, al di la dell’imperizia, era il gusto per la ricerca storica. E’ vero che Zagor si muove in un universo narrativo che è più spesso fantastico che realistico, ma con Mauro decidemmo per la seconda opzione. Tanto da decidere la dinamica della sparatorie, se ricordo bene, tenendo conto del fatto che in quel periodo le armi da fuoco erano tutte ad avancarica. Mi fece piacere che Mauro accettasse l’idea di veder rappresentato l’esercito degli Stati Uniti con le divise dell’epoca, piuttosto che nella versione stereotipata più nota. Ricordo che mi divertii molto, mi piace rendere graficamente il realismo delle epoche storiche attraverso i personaggi, l’ambiente e il loro abbigliamento: sono curioso e pignolo in queste cose e apprezzo, con una punta di benevola invidia, chi lo è più di me.
Per Zagor illustri due storie (lo speciale “L’angelo della morte” su testi di Boselli e la storia doppia “Gli sterminatori” scritta da Colombo). Cosa ricordi di questa esperienza? Ti sei trovato a tuo agio con il pittoresco “mondo” zagoriano ed alcuni suoi personaggi, Cico su tutti, sempre in bilico tra dramma e farsa? Maurizio Dotti: Ricordo la piacevole e fibrillante sensazione della “prova”. Ero pieno di entusiasmo: collaboravo finalmente con la Bonelli, la casa editrice che aveva popolato la mia famelica adolescenza di lettore compulsivo, di indimenticabili miti avventurosi. Con Mauro Boselli ci intendemmo subito. Lui è molto sicuro di sé, sa quello che vuole e decide rapidamente; è stata per me un’ottima scuola. Mi chiese quale fosse l’ambientazione a me più congeniale, nella quale muovere i personaggi, dopodiché mi parlò rapidamente di un soggetto che gli frullava in quel momento nella testa: divenne lo speciale “L’angelo della morte”. Cavalli, indiani, trappers e un “cattivo” di tutto rispetto: cosa avrei potuto chiedere di meglio? Non meno soddisfacente l’esperienza con Maurizio Colombo. La sua proverbiale predisposizione al racconto di storie dure, forti e dinamiche nelle scene d’azione, mi ha galvanizzato. La sua storia doppia, “Gli sterminatori” e “Una pallottola per Kelso”, ha soddisfatto appieno la mia voglia di western. La presenza di un personaggio comico come Cico è utile ai lettori come piacevole intercalare leggero e interessante per il disegnatore che ha la possibilità di mettere alla prova la sua vena umoristica. Del resto il binomio “eroe e personaggio comico” è sperimentato e di lunga tradizione. Il fumetto ha fatto suo questo schema ampiamente utilizzato in letteratura e ancor più felicemente applicato nel cinema.
Su Zagor hai lavorato quindi con Mauro Boselli e con Maurizio Colombo: dall’analisi di quei due lavori traspare un forte legame artistico. Cosa ti accomuna, nella realizzazione dei due episodi zagoriani, con gli autori citati? Maurizio Dotti: Per i primi tre, quattro anni lavorai per entrambi con grande soddisfazione. Mauro ha una scrittura meditata e prolifica, con situazioni ricche di personaggi che si muovono dentro vicende dalle trame articolate, nelle quali l’uso sapiente della narrazione si concretizza in storie mai banali e sempre dosate nella giusta alternanza di azione e descrizione. Le sceneggiature di Maurizio Colombo sono piene di azione e movimento, credo che la sua maggior fatica consista nel mitigare, per ovvie ragioni dettate dalla linea editoriale, giustamente assai attenta in fatto di raffigurazione della violenza, le scene cruente e sanguinose. Non ha grandi difficoltà, comunque, a mediare tra i suoi canoni espressivi e i limiti imposti. Non ho mai sentito il peso della noia, nel dar forma grafica alle loro storie. Ciò significa che ho forti punti di contatto con entrambi.
Di lì a breve la collaborazione con Boselli e Colombo ti porta sulle pagine della loro creatura Dampyr (2000), testata di cui sei una colonna. Com’è stato il tuo approccio al realismo fantastico della serie? Maurizio Dotti: Penso avrei accettato qualsiasi cosa mi avessero proposto. Lavoravo già da tre anni per la Bonelli e quando mi chiesero di disegnare Dampyr fui lusingato e preoccupato al contempo. Non ero sicuro di riuscire a rendere le atmosfere horror-noir, che sono la cifra estetica del fumetto. Non mi sentivo nemmeno preparato per il genere fantastico, che richiede una buona dose di creatività visionaria.
La necessità di dovere disegnare vampiri e creature fantastiche in genere ti ha spaventato? Maurizio Dotti: Ciò che mi spaventava era misurarmi con un mondo che non conoscevo, dai caratteristici canoni espressivi: come nel western non possono mancare il sole, la polvere, i cavalli, nel genere Horror a farla da padrone sono il buio, le atmosfere inquietanti e la suspence: avrei saputo rendere graficamente tutto ciò in modo convincente?
Cosa più apprezzi nelle storie di Dampyr, almeno in quelle da te realizzate? Maurizio Dotti: Apprezzo il fatto che il disegnatore di Dampyr non si annoia. Questo è dovuto alle infinite varietà narrative attraverso le quali il fumetto si esprime. Le ambientazioni possono essere infinite, se consideriamo anche i moltissimi salti temporali, variamente presenti nelle storie, fino ad arrivare, in certi casi, a calare l’intera vicenda nel passato.
In Dampyr le storie sono spesso ambientate in vari regioni del mondo: quale ambientazione, tra quelle realizzate, ti ha più gratificato illustrare? Maurizio Dotti: Non stupirà se dico che l’ambientazione più accattivante, al di la’ del risultato finale che non sta a me giudicare, è stata la doppia storia de “La banda dei morti viventi” e “Arizona killers”. Dico un’ovvietà, se si considera la mia propensione per il genere western. La verità è che io amo tutte le storie nelle quali c’è una buona parte dell’avventura, se non tutta, ambientata in altre epoche storiche.
.
Quanto tempo impieghi per disegnare una tavola? Hai degli orari? Come si articola una tua giornata tipo fra lavoro, letture, tenerti informato, ozio, vita familiare? Maurizio Dotti: Bella domanda questa! Come si articola la giornata di una persona che si diverte moltissimo lavorando e che viene pure pagata per farlo? Siamo in quattro in famiglia, i figli sono più che adolescenti, ma ciò non è esente da responsabilità e oneri, come è noto a chiunque ne abbia. Riesco, a fatica, a fare circa venti tavole al mese, ma ho anche interessi personali che mi preme coltivare: la lettura, gli spettacoli, andare a cavallo, riuscire ad andare con una certa regolarità in piscina, vedere gli amici ed essere con i miei cari nei momenti di comune vita famigliare: come si fa a fare tutto questo, quando tra la vita e il lavoro c’è una semplice porta, quella dello studio, che essendo nell’abitazione è così facile da aprire, tanto facile che spesso rappresenta un problema? Fare fumetti, vuole spesso dire non aver paura di far tardi sulle tavole e per me questa è una condizione cronica. Penso che per fare questo lavoro si debba avere alle spalle una moglie innamorata, paziente e comprensiva, io credo di avere anche questa fortuna.
Com’è lavorare nella Sergio Bonelli Editore? Maurizio Dotti: Da sempre è stato il mio sogno e posso dire, dopo quindici anni di felice collaborazione, che non ho nulla, proprio nulla di cui lamentarmi. Molti miei colleghi hanno cercato sbocchi francesi, penso più per il mito di cui gode da sempre il fumetto d’oltralpe, piuttosto che per il vero piacere di pubblicare in quel paese, nel quale, a detta di molti, non è tutto oro quel che riluce. Certo, per chi come me ha dei ritmi piuttosto intensi, il tempo non basta mai, ma penso si debba trovare quel giusto equilibrio che sappia soddisfare le esigenze di qualità con quelle della produzione. Penso che alla Bonelli, queste caratteristiche siano entrambe presenti, perseguite con grande professionalità da parte di tutti coloro i quali collaborano alla confezione del prodotto. Io sono molto contento di lavorare in questa casa editrice. Fuor da ogni piaggeria posso dire che ho molta ammirazione per Sergio Bonelli, gli sono grato per aver contribuito ad allietare, con i frutti del suo lavoro, i lontani anni della mia adolescenza, alimentando in me quella passione che oggi promuove e sostiene come professione: potrei non essergli grato?
Il tuo sodalizio con lo sceneggiatore Mauro Boselli inizia sulle pagine di Tex, si sviluppa con Zagor e si consolida grazie alle centinaia di tavole per Dampyr. Da tutte queste storie traspare una grande affinità lavorativa nel tempo instauratasi tra di voi. Quali particolarità comporta collaborare così a lungo con uno degli sceneggiatori di punta della SBE, ritenuto pignolo e particolarmente esigente nei confronti di voi disegnatori? Maurizio Dotti: La forte personalità di Mauro Boselli mi colpì da subito, penso di non essere smentito se dico che da subito ci fu sintonia. La sua grande cultura e l’enorme poliedricità di interessi mi fu subito evidente quando, al secondo incontro, ormai quindici anni or sono, a una mia frase circa il virtuosismo tecnico del “basso profondo” che, nel ruolo di Sarastro dal “Flauto Magico” di Mozart, si deve cimentare con la nota più bassa che sia mai stata cantata nell’opera lirica, a colpo sicuro, incominciò a intonare il brano. Credo che la sua caratteristica principale sia la grande sicurezza nel decidere; è molto importante per un disegnatore lavorare con un persona come Mauro che sa decidere senza tentennamenti. Le sue sceneggiature sono accurate, spiegano esattamente, anche in forma grafica (vale a dire con piccoli schemi fatti di frecce direzionali e minimi abbozzi iconici), lo svolgersi dell’azione. Seguire le sue indicazioni, significa non sbagliare. Ciò che chiede è che si segua la sceneggiatura, al disegnatore viene lasciata molta libertà nelle inquadrature, sempre che l’eccessiva carica creativa non vanifichi la prioritaria esigenza di leggibilità. Collaborare con persone come Mauro, significa imparare a raccontare con chiarezza; il disegnatore è spesso trascinato dal disegno, privilegia l’inquadratura accattivante rispetto a una che, pur essendo più banale, è più chiara e leggibile: raccontare per immagini significa trovare il giusto equilibrio fra tutte le componenti in gioco. Quando ci capita di essere in disaccordo nell’impostazione di una tavola, cosa che non succede frequentemente, cerco di difendere e motivare le mie scelte, ma di fronte alla sua logica stringente, devo spesso ricredermi. Nei rari casi in cui riesco a spuntarla, mi tributa un laconico: “mi hai convinto!”
Passiamo di nuovo al Ranger che dà nome a questo blog: Chi o cosa è Tex secondo te? Cosa ti piace di più nel Ranger e cosa di meno? Maurizio Dotti: E’ l’eroe senza macchia e senza paura, forse qualche macchiolina nel suo lontano passato, ma dalla quale si è subito riscattato. Un eroe vecchio stampo, che, forse proprio per questo, è riuscito ad affascinare diverse generazioni di lettori, grazie alla sua capacità di rinnovarsi senza mutare. I suoi narratori sono stati capaci di raccontare senza ripetersi; cosa non facile, se pensiamo ai ristretti canoni espressivi di un genere come il western. Personaggio granitico, senza cedimenti, sicuro di se e, ciò che più lo caratterizza, vendicatore di torti e tenace persecutore di malviventi. Quale altro personaggio potrebbe meglio soddisfare, nel lettore, quell’innato, rassicurante senso di giustizia? Direi che è senza dubbio un personaggio di grande carisma, nei confronti del quale il meccanismo del transfert avviene spontaneo; è chiaro che un personaggio del genere può anche suscitare antipatia: la sua estrema sicurezza e la proverbiale infallibilità, possono destare qualche legittima irritazione, ma se cosi non fosse, non sarebbe Tex.
Ritieni che Tex sia cambiato negli ultimi anni? Sotto quali aspetti? Maurizio Dotti: La tradizione è sempre un punto di partenza, mai un punto d’arrivo; se Tex non avesse saputo trasformarsi, non avrebbe retto al susseguirsi delle generazioni di lettori. Gli sceneggiatori vivono il tempo presente e pur mantenendo intatti i canoni espressivi attraverso i quali il personaggio si racconta, sono autori fortemente suggestionati da questa nostra temperie culturale e di questa sono i naturali portatori. Penso che ciascuno possa riconoscere nelle trame, nei personaggi e nelle ambientazioni, la benefica influenza che cinema e letteratura esercitano e hanno esercitato con innegabile beneficio. I nuovi narratori hanno saputo mantenere intatto il carattere del personaggio, soddisfacendo le aspettative di lettori più esigenti rispetto al passato.
Tu adesso segui le orme di altri tuoi colleghi (ad esempio Marco Torricelli, Stefano Andreucci, Mauro Laurenti) nelle peregrinazioni di Boselli da una testata all’altra della Casa Editrice, no? Il parco disegnatori di Tex negli ultimi anni sì è costantemente sviluppato, ed il tuo passaggio su Tex è stato facilitato da alcuni fattori: conosci già il personaggio, hai già affrontato tematiche western e, in confronto a molti altri tuoi colleghi, sei anche piuttosto veloce. Maurizio Dotti: Per me, tornare a disegnare il fumetto western vuol dire nuova carica, nuovo entusiasmo. Ciò non significa che mi dispiaccia disegnare Dampyr, anzi, ma per l’innata insoddisfazione che affligge l’essere umano, sempre alla ricerca di ciò che ritiene il meglio, vuol dire per me coronare un desiderio.
Cosa ci puoi dire della storia di Tex alla quale stai lavorando? Maurizio Dotti: Mi spiace deludervi, ma ben poco. Dato il gran numero di sceneggiature che Mauro Boselli scrive contemporaneamente, sarebbe impensabile che desse al disegnatore l’intera storia, infatti al momento ho venti pagine nelle mie mani, quindi non so pressoché nulla della vicenda. Posso solo dirvi che le prime sono venti tavole di grande azione ambientate in Messico, purtroppo nient’altro.
Come hai ricevuto l’invito? Maurizio Dotti: Era nei progetti che il mio passaggio a Tex avvenisse fra circa un anno, giusto il tempo di realizzare altre due storie di Dampyr: una di Mignacco e uno speciale di Mauro ambientato in Islanda. Fu una telefonata simpatica, nella quale Mauro esordì dicendo che i programmi erano cambiati, che non avremmo più realizzato lo speciale islandese perché, così mi disse: “Tex non è mai stato in Islanda”, me lo feci ripetere due volte fra pause di compiaciuto e incredulo stupore. È stato un momento bellissimo e lo è tuttora, ricco di nuovo e prolifico entusiasmo; ho rivissuto e rivivo gli anni della frenesia giovanile per questo straordinario e incredibile lavoro e per questa ragione non finirò mai di ringraziare Mauro. Ci ha creduto, tanto da privare Dampyr, la testata di cui è creatore, di uno dei collaboratori più prolifici, non è una scelta di poco conto.
Come ti senti a misurarti con il Ranger in una storia completa? Maurizio Dotti: La prima cosa che mi viene in mente è “entusiasta”, poi, quando ci penso a freddo, capisco che è una prova da superare; dopo tutto è la testata più importante della casa editrice e la qualità del disegno deve esserne all’altezza. Non mi preoccupa la resa dell’ambientazione western, che sento essere nelle mie corde, ma la rappresentazione dei personaggi. I quattro personaggi principali devono essere credibili, carismatici e immediatamente riconoscibili per la loro carica espressiva. Soprattutto Tex, che pur agendo attraverso poche, stereotipate e canoniche espressioni facciali e posturali, come è tipico dell’eroe a tutto tondo, granitico nelle sue certezze, deve dare l’idea immediata del protagonista cui, da sempre, siamo abituati. Penso sia questo il problema più grande quando si affrontano personaggi di tale notorietà, renderli immediatamente riconoscibili. Ci sto provando!
Ti piace il western? Credi che, dopo la chiusura di Magico Vento, il portabandiera dei fumetti di questo genere rimanga solo l’inossidabile ranger oppure secondo te c’è spazio per effettuare nuovi tentativi? Maurizio Dotti: Quanto mi piaccia e perché il genere, credo di averlo detto più che ampiamente e non voglio tediare ulteriormente il povero lettore, già abbondantemente provato dalla mia irrefrenabile prolissità. Certo, purtroppo, la realtà è che non siamo in molti ad amare il western, quindi non c’è da stupirsi che nel panorama italiano le proposte siano così poche. Ci vorrebbe un’idea geniale che sapesse riproporre l’argomento in chiave nuova e creativamente efficace, cosa non facile per un tema sul quale si è detto tutto.
Come vedi il futuro del Ranger? Maurizio Dotti: Questa è una domandona! Chi può rispondere? Già è miracoloso che un personaggio come questo abbia attraversato tutti questi anni, fatti di continui e repentini cambiamenti culturali e di gusto, mantenendo immutata la sua patina e inalterato l’apprezzamento da parte del lettore. La speranza è che la sua vita possa durare ancora molto a lungo, ma… come dire, è una speranza molto, molto interessata.
Al di fuori della Bonelli, hai realizzato illustrazioni di libri per ragazzi. Parlaci di questa tua esperienza. Maurizio Dotti: Lavoravo per la MIA (Milan Illustration Agency) che ha sede in Milano e ha contatti in tutto il mondo. Questa agenzia che si occupa di illustrazione, promuove l’opera di diversi autori grazie ai suoi contatti internazionali e attraverso la partecipazione alle numerose mostre del libro che si tengono nelle più svariate parti del mondo. Uso il verbo “lavoravo” perché da diverso tempo non mi occupo più di illustrazione, il lavoro del fumetto, se fatto con serietà e dedizione, non lascia tempo per altro. Ho realizzato lavori per la Nuova Zelanda, per la Francia e in parte anche per il mercato italiano tra il ’93 e il 2000. Era illustrazione di libri per ragazzi e mi piaceva dedicarmici di tanto in tanto. Usare i colori è sempre stata una mia grande passione; richiede perizia e attenzione, ma anche una grande dose di istintività sapientemente temperata dalla competenza. Dalle scenografie teatrali, ai bozzetti dei costumi per passare poi al lavoro steressante di illustratore per la pubblicità e infine per l’editoria, posso dire di aver imbrattato chili di carta con i colori e mi ci sono molto divertito, ora vedo il mondo in bianco e nero.
Il fumetto della SBE è sempre stato il tuo obiettivo oppure avresti preferito fare il cosiddetto “fumetto d’autore” come Pratt, Battaglia, Toppi, Manara? Maurizio Dotti: Ho già avuto modo di dirlo, ma da quando avevo 11, 12 anni e scopiazzavo malamente il magnifico Tex del grandissimo Giovanni Ticci, lo facevo con il proposito, più o meno conscio, di bussare un giorno alla porta della casa editrice Bonelli, con la mia cartella di disegni sotto il braccio. Non ho mai pensato al fumetto d’autore, ne ci penso ora; non so per quale ragione, forse la paura di mettersi in gioco, forse per quel senso di insicurezza che mi ha sempre accompagnato nella vita e a dispetto del quale ho ottenuto ciò che fortemente volevo o forse perché è più semplice raccontare le storie di altri, per tutte queste ragioni e forse per altre che non so, non ho mai pensato, salvo rare piccole eccezioni, perlopiù riposte in un cassetto, a realizzare storie tutte mie. Chissà, forse in futuro.
Che progetti ci sono nel tuo futuro? Puoi già anticiparci qualcosa? Maurizio Dotti: Non ho grandi aspirazioni da realizzare, se non quella di proseguire la collaborazione con la casa editrice, dopo tutto è stata la mia aspirazione da sempre: cosa desiderare di più?
Quali fumetti leggi attualmente, ovvero con quali ti identifichi maggiormente? Maurizio Dotti: Leggo principalmente Dampyr, com’è naturale e Tex, di tanto in tanto. Qualche fumetto d’autore, sempre che mi piacciano molto i disegni: si, questo è un mio limite, mi devono piacere molto i disegni perché mi accinga a leggerlo. Posso dire che l’ultimo fumetto che mi ha veramente stregato e che avrei tanto desiderato disegnare è Ken Parker, un personaggio straordinario, dalle vicende straordinariamente narrate.
Oltre ai fumetti, quale tipo di libri leggi? E quali le tue preferenze nel campo del cinema e della musica? Maurizio Dotti: Devo dire che, essendo il mio tempo libero molto limitato, tendo a privilegiare la lettura di un libro. La lettura è per me qualcosa di necessario e indispensabile, un atto compulsivo e spasmodico. Potrei azzardare il paragone del goloso davanti a una tavola ricca di ogni ben di Dio, non sa da dove cominciare, prende di tutto e più di quanto lo possa saziare. Spesso con Mauro si parla di libri, del resto lui è un mio punto di riferimento, e ci si rammarica per la brevità della vita rispetto al fatto che non ci basterà per leggere tutto quel che vorremmo. Il tipico effetto che si genera con atteggiamenti di questo tipo, è la classica pila di libri iniziati e letti contemporaneamente a momenti alterni, nel vano tentativo di riuscire a beffare il tempo e la vita. Sicuramente il romanzo è il genere che preferisco, noir, d’ambientazione storica; amo moltissimo i classici ma non disdegno il saggio filosofico con predilezione per i pamphlet su etica, religione e laicità. Divoro con passione (come il nostro ghiottone di prima), i saggi sul cinema e le biografie di attori e registi, soprattutto dell’epoca d’oro di Hollywood. Devo fermarmi, in questi casi mi è difficile farlo, ma non posso approfittare troppo della pazienza dell’incauto lettore, comincerei con l’elenco dei titoli e sarebbe finita. Mi limiterò a citare Dumas, Hugo, Stevenson, Dostoevskij, Stendhal, Melville, Dickens, Céline, London, Hammett, Thompson, Goodis, Woolrich, King, Leonard, MC Carthy, Lansdale, Follett ecc…
Bene, noi avremmo finito. C’è ancora qualcosa che vorresti dire? Qualcosa che non ti è stato chiesto e che avresti assolutamente voluto far sapere ai nostri lettori? Maurizio Dotti: Sarei un sadico a voler infierire aggiungendo dell’altro. Grazie a te e ai tuoi collaboratori per avermi gentilmente chiesto di esprimermi su argomenti che mi sono cari e grazie a chi, con una buona dose di virtuosa pazienza, mi dedicherà attenzione. Faccio parte di quella categoria di persone che lavora per allietare il tempo libero, occupandolo con quell’ozio, che spero e credo creativo, tanto utile alle nostre delicate ed effimere cellule cerebrali. Mi trovo bene nel mio ruolo, spero altrettanto per voi nel vostro: buona lettura per sempre a tutti!
Caro Maurizio Dotti, a nome del blog portoghese di Tex ti ringraziamo moltissimo per l’intervista che ci hai così gentilmente concesso.
(Cliccare sulle immagini per vederle a grandezza naturale)
O Festival internacional de multimédia, artes e BD (vulgo MAB), comunica a toda a comunidade bedéfila a presença da autora Dominique Gobletassim como uma exposição de originais da personagem Zakarella.
A organização do MAB Invicta informa também que ainda estão em conversações com outros autores e que já está disponível o novo blogue online (faltando somente alinhavar algumas arestas no mesmo) do grandioso evento e nele irão encontrar alguma informação do que está a ser preparado para este Festival a realizar na capital do norte nos fins de semana de 10/11 e 17/18 de Marçoe que no que a Tex diz respeito, contará com a presença de Fabio Civitellino fim de semana de encerramento, assim como da exposição de homenagem a Sergio Bonellie que decorrerá durante todo o Festival.
Fabio Civitelli e Dorival Vitor Lopes, novo reencontro na cidade do Porto nos dias 17 e 18 de Março
Entretanto o blogue português do Tex, informa que para abrilhantar ainda mais o evento, teremos a honrosa presença do editor (de Tex, Zagor e outros títulos Bonellianos) brasileiro DORIVAL VITOR LOPES precisamente no fim de semana onde também estará presente o consagrado desenhador Fabio Civitelli. A presença do editor DORIVALmostra uma vez mais a importância que a Mythos Editora atribui aos eventos texianos realizados em Portugal e o carinho que o nosso querido editor tem pelos seus fieis leitores portugueses e é sem dúvida alguma mais um (GRANDE) atractivo para você, caro texiano, comparecer a este grandioso evento que traz o nosso mítico Tex Willer à cidade do Porto, por isso prezado pard, esperamos por si na Invicta!