O WESTERN NA BD EUROPEIA

Texto da Revista Selecções BD nº 29, de Março de 2001
Por Jorge Magalhães[1]

O “WESTERN” NA BD EUROPEIA

FOI NA EUROPA QUE AS HISTÓRIAS AOS QUADRADINHOS DE “COW-BOYS” ENCONTRARAM O SEU CAMPO FAVORITO E OS SEUS CRIADORES PRIVILEGIADOS, GRAÇAS AO INTENSO FASCÍNIO PELO GÉNERO QUE, ALIADO A CONSIDERÁVEIS DOTES ARTÍSTICOS, PERMITIU AOS AUTORES EUROPEUS TRANSPLANTAREM PARA O SEU PRÓPRIO TERRENO AS RAÍZES DO MITO SEM PERDA DE CREDIBILIDADE, FENÓMENO QUE TEVE CORRESPONDÊNCIA NOS “WESTERNS SPAGHETTI” DIRIGIDOS POR REALIZADORES COMO SERGIO LEONE, DUCCIO TESSARI E SÉRGIO
CORBUCCI, EMBORA OS ACTORES QUE ENCARNAVAM OS PAPÉIS PRINCIPAIS FOSSEM PREFERENCIALMENTE AMERICANOS.

O “WESTERN” NA BD EUROPEIAMuitos dos maiores desenhadores europeus renderam-se á magia e ao sortilégio do “western” desde os primórdios da sua carreira. E escolas como a inglesa, a italiana e a francesa, em que a tradição da BD realista cedo começou a impor-se, como catalisadora de uma intriga puramente aventurosa, produziram um florilégio de séries e de personagens que procuravam imitar o ritmo e o movimento dos “westerns” americanos, por vezes ainda com menores resultados.
Desde os pioneiros como Walter Booth com Rob the Rover [Pelo Mundo Fora] (1920), Marijac com Jim Boum (1931), Reg Perrott com a sua mítica The Golden Arrow [A Flecha de Ouro] (1937), que deslumbrou os leitores do Mosquito, Rino Albertarelli e Walter Molino com Kit Carson (1937), Le Rallic com Poncho Libertas (1944), René Giffey com Buffalo Bill (1946), Jesus Blasco com Cuto nos Domínios dos Sioux (1946), E.T. Coelho com Falcão Negro (1946), Francisco Batet com El Coyote (1947), Camilo Zuffi com O Pequeno Xerife (1948), Bonelli e Galleppini com Tex Willer (1948) — Tex WillerInquestionavelmente o mais famoso “cow-boy” da BD europeia, tanto pela sua longevidade como pela evolução gráfica que sofreu, ao longo de 50 anos, nas mãos de diversos desenhadores —, Dut e Marijac com Sitting Bull (1948) — uma obra-prima com mais de 300 paginas e um dos primeiros “westerns” realistas a abordar sem maniqueísmos o confronto entre brancos e índios, antecipando-se a filmes como Broken Arrow [Flecha Quebrada] —, De Vita e Paparella com Pecos Bill (1949), Lecureux e Nortier com Sam Billie Bill (1949), Vitor Péon com Tomahawk Tom (1950), os artistas da velha Europa mantiveram sempre vivo o seu fascínio pelo “western“, acompanhando com entusiasmo o desenvolvimento da própria matriz cinematográfica. E o fruto dessa intensa relação foram algumasobras admiráveis, cujos padrões artísticos, temáticos, sociológicos, éticos e culturais elevaram o género a um nível raramente atingido nos “comics” norte-americanos.

A IDADE DE OURO DO “WESTERN” EUROPEU

A idade de ouro do Western EuropeuA evolução do “western” nos anos 50 fez com que o género, seguindo rumos diferentes na Europa e nos Estados Unidos se alargasse progressivamente a outros tópicos, englobando-os no mesmo esquema típico, como, por exemplo, a aventura de fundo histórico baseada em acontecimentos verídicos — viagens de exploração, guerras coloniais e da Independência, episódios da conquista do Oeste, biografias de figuras célebres —, sem esquecer um tema com múltiplos atractivos: a saga dos índios vista por dentro, numa perspectiva mais romântica e redutora do que cultural.

Todas essas vertentes desaguaram no mesmo espaço mítico, alargando geográfica e temporalmente as fronteiras do género, cujos códigos se tornaram, assim, muito mais difusos. Em vez da imagem, criada pelo Cinema, do tradicional “cow-boy” de lenço ao pescoço, chapéu de abas largas e safões compridos, cujo raciocínio era tão simples como o do seu inseparável “mustang“, mas disparava “mais depressa do que a própria sombra“, surgiram heróis dos mais variados tipos, mergulhando as suas raízes na tradição histórica e etnográfica, incomensuravelmente mais genuína, libertos do primarismo psicológico que se encontra em larga escala nas criações dos anos 30 e 40. Entre as séries que caracterizam a abordagem peculiar da mitologia do “western” pela BD europeia, na segunda metade do século XX, há várias dezenas de títulos que se distinguem pelo seu fulgor criativo, tendo alguns deles aberto novas vias à expressão gráfica da epopeia do Oeste:

Riders of the Range (1950), por Charles Chilton e Frank Humphris — o primeiro grande “western” inglês dos anos 50, publicado na Eagle, revista de referência dessa década;
Bessy (1952), por Willy Vandersteen — as aventuras de um herói canino, émulo da popular cadela Lassie, recheadas de apontamentos sobre a natureza e a vida animal, que fizeram as delicias de muitos leitores, transformando-a numa das séries carismáticas do Cavaleiro Andante, ou o exemplo perfeito de uma BD mais apoiada no argumento do que nos desenhos;

Jerry SpringJerry Spring (1954), por Joseph Gillain (Jijé) — a obra-prima de um pioneiro da BD franco-belga e grande especialista do “western“, com quem Jean Giraud aprendeu todos os segredos do oficio;

Matt Marriott (1955) por Tony Weare — um “western” adulto, com personagens verosímeis e de grande espessura psicológica;
Gun Law (1956), por Harry Bishop — com Matt Dillon, o famoso “marshall” de Dodge City e astro da série televisiva Gunsmoke;

Wes Slade (1960) por George Stokes — outro vigoroso “western” inglês, embora mais tradicional na sua concepção do que Matt Marriott;
Tenente BlueberryTenente Blueberry (1963) por Gir e Charlier— a mais célebre saga do Oeste à escala mundial, concebida por dois dos maiores autores do género, com personagens indeléveis, de pitoresco recorte, e um ritmo e uma montagem que remetem claramente para os “westerns” de Ford, Hawks e Leone;

Sargento Kirk, por Hector Oesterheld e Hugo Pratt — um militar rebelde que toma o partido dos índios, criado na Argentina em 1953, dez anos antes da saga de Forte Navajo se estrear no Pilote, e que deu o título a uma revista célebre, onde as criações de Pratt e de outros artistas italianos foram largamente divulgadas a partir de 1967. Da colaboração entre Pratt e Oesterheld nasceram também duas grandes epopeias, com a guerra entre franceses e ingleses como pano de fundo: Ticonderoga (l957) e Fort Wheeling (1962), demonstrando a vitalidade da escola argentina, que teve em Oesterheld, escritor versátil e de espírito abertamente progressista, um dos seus maiores expoentes;
Storia del West (1967), por Gino d’Antonio, Renzo Calegari, Sérgio Tarquínio e outros — a mais longa saga até hoje escrita e desenhada sobre o Oeste americano, e uma das mais perfeitas no plano artístico e narrativo, acompanhando a vida e atribulações de uma família de pioneiros, num fluxo contínuo assinalado pelos principais acontecimentos da história da colonização, desde a queda do Álamo e a marcha para o Oeste ao extermínio dos índios e ao crepúsculo dos pistoleiros;
A idade de ouro do Western Europeu - Parte 2Comanche (1969), por Hermann e Greg — um dos melhores “westerns” europeus, fiel também aos cânones de Hollywood, que poderia ter rivalizado com Blueberry se Hermann não tivesse seguido outros caminhos;
Sunday (1970), por Vitor Mora e Vitor de la Fuente — um lacónico e soturno aventureiro que carrega lembranças amargas, numa errância solitária onde se cruza com personagens tão atormentadas como ele;
Manos Kelly (1970), por António Hernandez Palácios — obra-prima do “western” hispânico, cujo estilo barroco se expande pelas tonalidades ardentes e o ritmo dolente da narrativa;
I Protagonisti (1971), por Rino Albertarelli — o estilo minucioso de um veterano da BD italiana, numa obra rigorosamente documental com as biografias verídicas de alguns dos principais protagonistas da história do Oeste: Billy the Kid, Custer, Gerónimo, Wyatt Earp, Wild Bild Hicock, etc;
Buddy Longway (1972) e Celui qui est né deux fois (1981), por Derib —dois “westerns” de cariz ecológico, onde se respira a largos haustos a comunhão com a natureza. Em 1988, Derib iniciou uma nova série com o mesmo tema, Red Road, centrada sobre a actualidade e o difícil desafio que constitui para os índios americanos a integração num mundo que repudia o seu espírito panteísta;
Jonathan CartlandJonathan Cartland (1974), por Blanc-Dumont e Laurence Harlé — um dos mais originais “westerns” europeus, que explora a profundidade dos grandes espaços, os abismos da mente humana e o misticismo das crenças primitivas, afastando-se abertamente de outros expoentes do género;
Mac Coy (1974), por Gourmelen e Palácios — a mais fiel aproximação aos tiques e convenções dos heróis do “western“, depois de Blueberry;
Os Peles-Vermelhas (1974), por Hans Kresse — uma longa saga sobre as tribos índias do sudoeste americano, por um desenhador holandês de traço firme e expressivo com um sólido fundo documental e histórico;
Grandes Mitos del Oeste (1975), por José Toutain e José Ortiz — outra série excelentemente documentada sobre os heróis célebres (alguns de triste memória) da epopeia do Oeste, que tem a valorizá-la o traço vigoroso e expressionista de um dos maiores desenhadores espanhóis da sua geração;
West (1975), por Eleuteri Serpieri — as figuras lendárias de Custer, Sitting Bull, Crazy Horse e outros mitos do Oeste recriadas, num estilo barroco e sumptuoso, pelo famoso autor de Druuna, que ao fascínio do erotismo alia a paixão do “western“;
Jim Cutlass (1976), por Charlier, Giraud e Rossi — curioso exercício à margem de Blueberry, explorando caminhos mais exóticos, num estilo gráfico desenvolto que Rossi se esforçou por manter;
L’Indien Français (1977), por Ramaioli e Durand — um dos mais estranhos “westerns” da B D europeia, que revive, num estilo influenciado por Gir e Jijé, o genocídio da raça índia, aliando o fantástico e a magia ao realismo dos cenários e das personagens;
Ken Parker (1977), por Berardi, Milazzo, Calegari e outros — excelente exemplo da maturidade do “western” italiano, com todos os ingredientes do género vertidos num guião inventivo e inteligente, que o traço fluido e dinâmico de Milazzo valoriza ainda mais;
Welcome to SpringvilleWelcome to Springville (1977), por Berardi, Calegari e Milazzo — a história de uma cidade e do destino individual dos seus habitantes, em que se entrelaçam habilmente humor, drama e aventura.
Los Gringos (1979), por Charlier, Guy Vidal e Vitor de la Fuente — um “western” terminal, no cenário da guerra civil mexicana, onde surge, a páginas tantas, um Blueberry gasto e envelhecido, à beira da reforma;
Durango (1981), por Yves Swolfs — a atmosfera do “western-spaghetti” numa série dura e violenta que veio dar novo fôlego à BD “western” de expressão francesa;
Les Pionniers du Nouveau Monde (1982), por Jean-François Charles e Ersel — uma romântica e telúrica epopeia, que prima pela veracidade histórica, no quadro da guerra colonial entre as duas maiores potências europeias da época;
Verão Índio (1983), por Pratt e Manara —o fôlego épico de um mestre da aventura e a envolvente sensualidade de um mestre do erotismo, num grande fresco histórico em que o desejo, a luxúria, o ciúme e o ódio provocam -ma série de acontecimentos trágicos; História do Far-West (1985), por Marcello, Serpieri, Frisano, Buzzelli, Bielsa, d’Antonio e outros — obra repartida por diversos episódios, publicados em fascículos pela conceituada Larousse, contando a história factual do Oeste americano, com a colaboração de excelentes artistas;
Trent (1988), por Rodolph e Leo — o inesperado regresso da BD a um tema que parecia mergulhado num profundo letargo: as aventuras da Polícia Montada.
Outra obras — embora de menor fôlego e, nalguns casos, sem um herói titular, destinadas maioritariamente ao mercado das revistas, numa época em que ainda não proliferavam os álbuns — merecem também especial referência: TeddyBill (1950), por Le Rallic; As Grandes Águas (1951), por Roudolph e Giovannini: Lobo Branco (1953), por Gellardini e Polese; Dakota Jim (1954), por Caprioli; O Forte do Huron (1956), por Gino d’Antonio; O Tambor do Regimento (1957), por Ron Embleton; Billy James (1962), por Milani e Pratt; Wapi (1962), por Paul Cuvelier; Teddy Ted (1963), por Lecureux e Forton; Ringo (1965), por Acar e Vance; Los Guerrilleros (1968), por Jesus Blasco; Loup Noir (1969), por Ollivier e Kline; Larry Yuma (1970), por Nizzi e Boscarato; Go West (1971), por Derib; A Saga do Grizzly (1971), por Auclair; Nevada Hill (1973), por Buzzelli; Amargo (1975), por Mora e La Fuente ; Ayak, o Lobo Branco (1979), por Ollivier e E. T. Coelho; Jesuite Joe (1980), por Hugo Pratt; Quatro Dedos, o Homem de Papel (1982), por Manara; A Índia Branca (1983), por Serpieri; Irigo (1985), por Dufaux e José Pires.

DA PARÓDIA AO NOVO REALISMO

Da Paródia ao novo RealismoMas falar da BD “western” europeia sem referir também as séries humorísticas é esquecer uma parte importante e significativa da sua produção, tanto mais que os artistas europeus foram aparentemente tão férteis, nesse domínio como os seus congéneres americanos.
Lucky Luke, criado por Morris em 1946, é a personagem emblemática do “western” humorístico e a sua popularidade conseguiu igualar a de Tintin e Astérix em muitos países, acabando também por conquistar o relutante mercado anglo-saxónico. Depois da sacramental passagem ao cinema de animação, o “cow-boy” que dispara duas vezes mais depressa do que a própria sombra foi também vedeta do grande ecrã em 1991, por intermédio de Terence Hill, num filme mal recebido pelo público e pela crítica.
Outras hilariantes criações, como Chapéus Negros (1950), de Franquin, uma aventura de Spirou, incansável “globe-trotter” e “groom” para todo o serviço; Blondin e Cirage no México (1951), de Jijé; Chick Bill (1953), de Tibet; Coco Bill (1957), do grande desenhador italiano Benito Jacovitti; Oumpah PahOumpah Pah (1958), de Goscinny e Uderzo; Whamoka (1963), de Devos e Salvé; Les Tuniques Bleues (1968), de Cauvin e Lambil; Zorry Kid (1968), de Jacovitti; Piccolo Dente (1970), de Lino Landolfi; Yakari (1970), de Derib e Job; Capitão Rogers (1981), de Cavazzano; Smith & Wesson (1983), de Tranchand; Cotton Kid (1999), de Pearce e Leturgie —, traçaram o percurso do “western” humorístico na BD europeia, paralelament à evolução do seu irmão mais velho, o “western” realista, de que foi sempre um reflexo irresistivelmente paródico.

A renovação da BD “western” nos anos 90, em França, originou um caudal de séries criadas por artistas jovens, mas já de grande maturidade gráfica, sem qualquer parentesco, na maioria dos casos, com o universo do “western” tradicional (leia-se, a propósito, o artigo de João Lameiras: O “western” na BD Contemporânea, publicado nas SBD nº 27). – Nota: Em breve o blogue do Tex, também apresentará este texto.

Selecções BD nº 29A singularidade de tais experiências, com propostas por vezes arrojadas e inovadoras, tanto formal como tematicamente, teve um impacto considerável e a BD “western” voltou a conquistar a preferência de largas camadas de público. Em Itália, séries de assinalável longevidade, como Tex e Zagor, continuam de pedra e cal como “bestl-sellers“, embora a produção de “westerns” italianos tlenha estagnado e obras como River Crossing (1996), de Renzo Calegari, Magico Vento (1997), de José Ortiz, e Cheyenne (1998) de Renato Polese, sejam hoje casos isolados.

JORGE MAGALHÃES
Copyright: © 2001 “Selecções BD nº 29″; Jorge Magalhães


[1] Editor, autor de banda desenhada (argumentista), autor de numerosos textos de estudo, análise e história da BD, em livros, revistas, jornais e fanzines e também leitor e coleccionador de Tex Willer.
(Para aproveitar a extensão completa das fotos e desenhos acima, clique nos mesmos)


As imagens deste artigo foram enviadas pelo jornalista João Miguel Lameiras.

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