O desenho proibido

Por Sergio Bonelli*

Sergio Bonelli desenhado por Claudio VillaDepois de tantos anos de contactos com os leitores, acabei por me dar conta que na realidade, boa parte do público ignora as características e a dificuldade do trabalho dos “fumettari” (profissionais da banda desenhada). Quantas vezes, de facto, cheguei a revelar que, em média, desenhar uma página requer mais de um dia de trabalho, que as legendas (por uma opção nossa) são ainda efectuadas à mão e que também uma solução gráfica aparentemente simples pode tornar-se objecto de longas e acaloradas discussões! Para não falar, por outro lado, das capas…

Tendo às costas, já centenas e centenas de imagens, cada nova proposta obriga-nos a procurar situações insólitas. Paciente e tolerante, Claudio Villa, o desenhador oficial das capas de Tex, imagina, por vezes confinando-se a esboços, as sugestões que lhe chegam da redacção. E infelizmente, algumas sugestões parecem interessantes quando tomam forma na nossa mente, mas revelam-se inaptas, contraproducentes e por vezes, em alguns casos, burlescas quando se materializam no papel.

Para dar um exemplo, proponho-vos um pouco abaixo destas linhas, o esboço de um dos muitos mini-pósteres incorporados nas revistas de “Tex Nuova Ristampa”.

O desenho proibido

Neste caso, a inspiração provinha de uma aventura (“I dominatori della vale”, publicada nos números 289-292 da série mensal italiana e no Brasil em Tex Ouro número 1 com o título “Cheyenne Club”),  em que Águia  da  Noite faz uma visita ao luxuoso Cheyenne Club, sede de uma associação de poderosos criadores do Wyoming, determinados a expulsar da região todos os pequenos proprietários de ranchos, mesmo a custo do recurso à violência homicida. E o face a face entre Tex e o líder do Cheyenne Club, o coronel Watson, acontece precisamente defronte de uma mesa de bilhar. Eu mesmo, na veste de argumentista da aventura em questão, considerava a ideia intrigante: em suma, um Tex que joga bilhar não se vê decididamente todos os dias!

Desenho substitutoPorém, à medida que o Comité de Aprovação da Casa Bonelli analisava a imagem, cada um dos participantes encontrava qualquer coisa de descabido, de anti-heróico, de quase caricatural na atitude do Ranger. Eu permaneci firme na minha opinião, mas no final, assim como Giuseppe Garibaldi, pronunciei de má vontade um respeitoso: “Obedeço!”. Assim, mesmo tendo em conta que Claudio Villa tivesse resolvido brilhantemente as poses e as expressões dos dois protagonistas, aquele desenho permanece incompleto na minha gaveta, e foi substituído por um outro, representando uma situação indubitavelmente mais dramática, como se pode ver aqui ao lado.

*O texto é de Sergio Bonelli, argumentista e editor de Tex na Sergio Bonelli Editore.
Tradução e adaptação a cargo de José Carlos Francisco

Material apresentado na edição número 75 da collezione storica a colori, i fumetti di Repubblica-L’Espresso

Copyright: © 2008, Sergio Bonelli Editore S.p.A. e Gruppo Editoriale L’Espresso S.p.A.

6 Comentários

  1. Um bom desenho, realmente, mas o poster final está bem melhor, em dramaticidade (quando vai virar capa da Mythos, Zeca?)

  2. Este póster certamente virará capa de Tex Edição Histórica quando esta história sair nessa colecção, se bem que há várias capas possíveis, uma vez que Claudio Villa fez vários pósteres baseados nesta história e tudo dependerá da escolha da Mythos.

  3. Muito interessante matéria. Na minha opinião, no contexto do argumento o desenho faz todo o sentido. Fora do argumento (como poster), só cabe na histórias de Tex porque tem o chapéu e a pistola. Sem esses dois elementos, era uma cena de Tex nos tempos livres… Imaginem o poster na vossa sala (sem o chapéu nem a pistola), entrava alguém, que perguntava? Talvez “ah, gostas de bilhar?”. Mas a criatividade e arrojo são sempre óptimos e as ideias são isso mesmo, pensamento que deve poder ser livremente exposto. Um abraço. Orlando Santos Silva

  4. Todos devemos saber a hora de recuar e aceitar a opinião de outros. Principalmente quando é um Conselho intituído. Que a atitude de Sergio Bonelli seja um exemplo à todos. O Dono recua frente a uma decisão da maioria. PARABÉNS! ! ! !

  5. Interessante. Um herói não pode ter vícios, principalmente se for o jogo. Maravilhoso desenho do Villa, como sempre.

  6. Com esse fato, vemos como eles prezam pela qualidade do material a ser publicado. Não é à toa a longevidade do Tex. Tudo é sempre analisado e pensado, sob a ótica da qualidade e da preocupação em não descaracterizar o personagem. Parabéns à equipe da SBE.

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