Extraterrestres e Cowboys

* Por Edgar Indalecio Smaniotto

Parte I: Tex

Em geral podemos identificar um género literário pelos ícones que pertencem a este determinado género. Se estamos diante de seres com poderes fantásticos é quase certeza que se trata de uma história de super-herói, se falamos de robôs e alienígenas é provável que estamos a ler uma história de ficção científica, mas se nos deparamos com nativos americanos  (índios) e cowboys estamos a ler faroeste.

Classicos Tex com a história O Vale da LuaSou leitor de banda desenhada desde criança, e minha primeira revista foi uma revista de faroeste, e também sempre fui leitor de ficção científica, sendo que tenho algumas centenas de livros de FC em minha biblioteca. Como fã destes dois géneros sempre me chamou à atenção histórias em que estes se misturavam.

Actualmente existe todo um género de ficção, conhecido como Steampunk, em que elementos típicos do século XIX, como a tecnologia a vapor, acaba por ter um desenvolvimento para além daquele que realmente teve no século XIX.

Ao mesmo tempo a narrativa incorpora outras tecnologias e elementos que se tornaram parte de nosso imaginário apenas no século XX. Podemos citar, para ficar apenas nos quadradinhos e no cinema, como obras típicas deste movimento: A Liga Extraordinária de Alan Moore,  As loucas aventuras de James West (filme e série), a série O Mundo Perdido, a BD Rocketeer, o filme Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, o desenho animado Steamboy e a BD Docteur Mystère.

Tex (um mundo perdido) se surpreende ao descobrir uma nave alienigenaNos quadradinhos Bonelli (quase um sinónimo para quadradinhos italianos), do qual o mais famoso é TEX, mas também já foram editados no Brasil outros géneros destes quadradinhos, além de dois outros faroestes que fazem sucesso entre o publico brasileiro: Zagor e Mágico Vento, elementos de steampunk sempre estiveram presente, assim por vezes podemos ver extraterrestres, robôs, naves espaciais e outras coisas impossíveis no século XIX ‘real’ em meio a histórias de faroeste.

Neste artigo, em três partes, pretendo comentar as aparições de extraterrestres nas histórias de faroeste destas três personagens: Tex, Zagor e Mágico Vento. Sendo o primeiro o faroeste mais tradicional dos três, o segundo o faroeste mais fantástico e o terceiro o mais realista, mesmo quando trata de temas fantásticos.
Tex, apesar de ser um faroeste mais tradicional, tem algumas histórias voltadas para temas fantásticos. Inclusive aqueles que são considerados por muitos leitores seus maiores inimigos: Mefisto, seu filho Yama e Zhenda, são feiticeiros. Em outros momentos Tex já enfrentou Vikings, lobisomens, o Sasquatch e até dinossauros. Vamos às histórias com possíveis extraterrestres:

Tex enfrenta o alienigena do Vale da LuaO Vale da Lua: Em Wilcox, sopé dos Montes Dragoon, depois de um encontro com um velho amigo chamado Ben Rufus, Tex acompanha o amigo até a mina no Vale da Lua, onde descobre que um estranho ser, portando uma arma futurista, aterroriza os garimpeiros da região do Vale da Lua. Este ser faz dos apaches Chiricahuas, que o consideram filho do Grande Espírito, seus escravos. Esta história saiu em Tex n.º  17, Tex Edição Histórica n.º 32 e Os Grandes Clássicos de Tex nº 18.

A Flor da Morte: Uma flor, trazida por um meteorito, provoca a morte daqueles que entram em contacto com ela,  para resolver este enigma Tex procura a ajuda do bruxo El Morisco. História publicada em Tex n.º 65 e Tex Coleção n.º 212, 213 e  214.

O professor que influenciado pela descoberta de uma nave extraterrestre (Um mundo perdido) cria uma seita em torno de si.Um mundo Perdido: Tex Willer, Kit Carson, Jack Tigre e Kit Willer, em uma expedição ao monte Rainer encontram uma misteriosa seita, que segue as ordens de um professor enlouquecido após ter contacto com uma nave extraterrestre e seus segredos. História publicada em Tex nº 188 e 189.

A Ameaça do Espaço: Um meteorito, carregado com estranhos microorganismos, provoca mutações em diversas pessoas, que transformam-se em Zumbis. O primeiro homem contaminado pelos microorganismos foge da perseguição imposta por Tex e acaba por contaminar toda uma tribo indígena, então estes contaminados iniciam uma trilha de massacres e novas contaminações até que são detidos e mortos por Tex e Kit Carson. História publicada em Tex nº 333, 334 e 335.

A ameaça do espaçoNestas histórias de Tex nota-se uma profunda influência do mestre do terror cósmico H. P. Lovecraft, devido à origem enigmática destes supostos extraterrestres, a história A Ameaça do Espaço tem nítidas similaridades com o famoso conto A Cor que caiu do Céu, conto clássico de contaminação por organismo extraterrestre.  Há nestas histórias também uma perplexidade e estranhamento das personagens frente ao mistério extraterrestre que também são típicas das histórias de H. P. Lovecraft. Estranhamento este perfeitamente compreensivo, tendo em vista que estamos falando de um homem do século XIX (Tex) frente a um fenómeno para o qual a sua cultura não o preparou para entender (extraterrestres).

Parte II: ZagorFOGO NO CÉU ZAGOR

Zagor  é uma mistura de Tarzan ou Fantasma com Tex. Para criar um Zagor basta bater em um liquidificador  um cowboy, um aventureiro pulp e um super-herói, e ter o talento de Guido Nolitta (argumentista criador da personagem). O nome Zagor é uma abreviação de Za-gor-te-nay, ou seja, “O espírito da machadinha“. Zagor possui extraordinários reflexos e dotes atléticos e é extremamente hábil no uso de sua machadinha. Os seus feitos, além da impressão causada por suas vestes (azul e vermelha, com um símbolo enorme no peito) e por seu grito de guerra (AAHHYAAKK!) o fazem ser considerado pelos índios como uma espécie de semi-deus enviado por Manitú.

O herói vive naquela que seria a época da consolidação dos Estados Unidos como nação e início da expansão americana para o Oeste, mais ou menos nos anos de 1830. Nesta época os Estados Unidos já haviam adquirido (em 1803), através de compra, o enorme território da Louisiana, que dobrou a extensão territorial do país. Uma segunda guerra sem vencedores tinha sido travada com os britânicos, a Guerra de 1812, os Estados Unidos também tomaram a força a Florida Ocidental (administração de James Madison) e compraram a Florida Oriental (administração Moore).
Já na década de 1830, o governo federal deportou forçosamente tribos indígenas do sudeste do país para territórios menos férteis no oeste. Este caso foi parar na Suprema Corte americana, que julgou o caso a favor dos indígenas. Mesmo assim, o Presidente americano na época, Andrew Jackson, ignorou o mandato da Suprema Corte. Esta história foi contada numa das melhores histórias já escritas de Zagor “A Longa Marcha” , publicada em Zagor Especial 8 e 9, em um total de 330 páginas de aventura.

ZAGOR DESCOBRE NAVE EXTRATERRESTRENa fictícia floresta de Darwwood, que teoricamente existiria no triângulo que forma as fronteiras dos estados da Pensilvânia, Virgínia Ocidental e Ohio mora Zagor, que busca defender os indígenas do local (vale destacar que nenhuma reserva indígena existe actualmente nesta área). Além das tradicionais histórias de faroeste, como aquela apresentada no recente Zagor Especial 30 anos de Brasil “Homens na Tempestade”, Zagor também se vê às voltas com  vampiros, druidas, lobisomens, robôs,  mutantes, bandidos super inteligentes e até extraterrestres.

Na história “O Raio da Morte“, Zagor n.º 6 da Editora Record (edição muito lembrada pelos fãs da personagem por ter tido 432 páginas de história, graças ao empenho editorial de Otacílio d’Assunção Barros, ou simplesmente OTA, o eterno editor da MAD no Brasil), Zagor enfrenta alienígenas do planeta Akkron, aliados ao cientista Hellingen, no meu entender o inimigo mais perigoso de Zagor. Na história Zagor quase é derrotado pela tecnologia superior dos alienígenas (vale lembrar que estamos em 1830, e nem se quer temos rifles de repetição).

ZAGOR CONVERSA COM O EXTRATERRESTREPor fim Zagor consegue vencer os alienígenas, para tanto usa armas místicas, que anteriormente foram usadas por um lendário guerreiro indígena. Pode até parecer uma histórias absurda, um sujeito que luta com arco e flecha contra alienígenas, mas no trama geral da história este aparente absurdo se torna coerente, em uma história muito bem escrita. Recentemente o cientista Hellingen reapareceu nas histórias de Zagor ainda tentando usar a tecnologia dos alienígenas de Akkron para vencer Zagor (Zagor Extra, Editora Mythos, n.° 41 e 42).

Mais recentemente na revista mensal de Zagor n.° 81 e 82 (Mythos Editora) foi publicada a história em duas parte O fogo que veio do Céu (1º parte ) e Ameaça Alienígena (2º parte), nesta história uma nave alienígena cai em Darkwood. Zagor e Chico vão investigar o local do impacto e descobrem que um dos pilotos, de aparência monstruosa, está morto, enquanto outro sobreviveu e vaga pela floresta. Alguns caçadores e índios se depararam com o monstro e entram em confronto com o mesmo.

Zagor alienígenasEnquanto Zagor sai atrás dos rastros do extraterrestre, Chico alertar a aldeia Onondaga que fica próxima sobre a ameaça. Mas quatro guerreiros saem à caça do monstro ao mesmo tempo em que um caçador (que assassinou um homem e uma mulher numa fazenda) se aproveita para jogar a culpa dos homicídios no alienígena.

Quando Zagor consegue fazer contacto com o alienígena descobre que ele não é a ameaça que todos pensam, mas, não convence um grupo de caçadores que passa a perseguir Zagor e o alienígena. Por fim o alienígena é resgatado por outra nave e todos compreendem o erro de julgamento cometido sobre o alienígena (perpetuado pelo caçador que queria esconder seus crimes).

Vale ressaltar que o alienígena presente nesta história tem semelhança visual com aquele do filme “O Predador” estrelado por Arnold Schwarzenegger, enquanto os alienígenas da história “O Raio da Morte “, os akkronianos, tinham semelhança visual com os tradicionais Grays, aqueles alienígenas cinzentos que são capas de revistas de ufologia e aparecem em séries como Taken e Ficheiros Secretos (no Brasil, Arquivo X).

Parte III: Mágico Vento

Mágico Vento é uma das melhores BDs seriadas que já aportou em terras brasileiras. Cada história é mais surpreendente que a outra, sem falar que os roteiros são bastante diversificados, com histórias de faroeste, terror (em geral envolvendo mitologia indígena), misticismo, espionagem, guerra e intrigas políticas.

Mágico Vento - ReplicantesEntre tal variedades de temas, certamente não podia faltar uma história de ficção científica. História esta publicado no n.° 41 “Os Replicantes”. Mas antes de comentar esta história em especifico vamos falar um pouco da personagem Mágico Vento.

Mágico Vento é na verdade o nome indígena de Ned Ellis, único soldado sobrevivente de um massacre, ocasião esta em que teve cravado em sua cabeça um estilhaço de metal, este lhe proporcionou o dom de ter visões, mas causou-lhe a perda de sua memória.

Ned Ellis é então encontrado pelo xamã Cavalo Manco dos Sioux, indígenas do norte dos Estados Unidos, e uma das ultimas nações indígenas a se render aos brancos, após a famosa batalha de Little Big Horn. Nesta batalha,  juntos a outras nações indígenas, os sioux derrotaram a 7° Cavalaria dos Estados Unidos sob o comando do General George Armstrong Custer.

Reconhecido por Cavalo Manco como um Waaytan (homem que tem o dom da visão), Ned Ellis passa a ser conhecido como Mágico Vento, e torna-se um xamã sioux, treinado para substituir o velho Cavalo Manco. No decorrer de suas aventuras Mágico Vento estará envolvido com questões indígenas (tanto em batalhas como em seu papel como xamã), mas também com intrigas políticas (envolvendo uma poderosa sociedade secreta) e também tentando recuperar seu passado perdido.

Mágico VentoDiversas personagens perpassam as histórias de Mágico Vento, mas é Willy Richards, um jornalista tão idêntico ao escritor Edgar Allan Poe que recebeu o apelido de POE, o companheiro inseparável de Mágico Vento, e aquele que dá o norte das aventuras de espionagem desta série criada por  Gianfranco Manfredi.
Manfredi é argumentista, cineasta e romancista de grande renome na Itália, e com Mágico Vento criou um western inovador, misturando diversos géneros, com uma diferença de outros faroestes como Tex e Zagor. Enquanto Tex tem apenas histórias dispersas fretando com outros géneros, esta é a tónica de Mágico Vento, mas se em Tex  certas aventuras são pouco críveis, assim como em Zagor, Mágico Vento consegue ser extremamente realista, mesmo quando estamos à volta com demónios e outras entidades místicas.

Na aventura  “Os Replicantes” (n.° 41), Mágico Vento e Poe deparam-se com um atormentado jovem em uma instalação que serve como bar, pensão e mercearia. O jovem tem um pesadelo e acidentalmente começa um tiroteio, que só não vira um massacre devido à intervenção de Mágico Vento e Poe. Logo após o confronto índios da nação Mandan chegam e levam embora o misterioso jovem, que deixa para traz seus diários.

Bruno RamellaNestes diários Poe e Mágico Vento ficam sabendo da existência de um Observatório Astronómico nas imediações, no qual Theo (nome do rapaz) trabalha como ajudante de um astrónomo, assim como os índios mandans que o levaram. Em uma noite de observação os dois presenciaram a queda de um meteoro, que traz em seu interior misteriosos ovos, após algumas observações descobre-se que estes ovos contêm um liquido replicante, capaz de criar cópias iguais de qualquer animal. O astrónomo decide então testar o líquido em um índio mandan, descobrindo-se que pode-se replicar até seres humanos, entretanto a cópia é sempre mais forte que o original e acaba por matar o mesmo. Theo atormentado foge para alertar a comunidade científicas destas experiências, mas como já o sabem Mágico Vento e Poe, ele foi capturado novamente pelos índios Mandan  que servem o astrónomo.

Neste ínterim Mágico Vento conta a Poe a lenda das três raças, lenda indígena segundo a qual as três raças humanas teriam sido criadas a partir da queda de meteoros trazendo um líquido misterioso. O meteoro que caiu no mar, criou os brancos; o que caiu na lama, criou os negros; e o que caiu no solo firme, criou os indígenas (a raça amarela não aparece na lenda que foi elaborada provavelmente antes de qualquer contacto entre indígenas e pessoas desta raça).

Mágico Vento por RamellaNo decorrer da história ficamos a saber que o novo meteoro descoberto por Theo e pelo astrónomo está, a partir das cópias feitas pelo astrónomo dos índios mandans, produzindo uma nova raça, mais forte, para dominar a humanidade. Por sorte Mágico Vento e Poe destroem o líquido alienígena, após um terrível confronto com as cópias já produzidas.

Uma belíssima história, com roteiro impecável de Manfredi e desenhos super realistas de Sicomoro, que juntos conseguem apresentar ao leitor uma história unindo faroeste, ficção científica e terror. Mesmo com tantos géneros se entrecruzando a história consegue ser bastante crível e em nenhum momento corre o risco de virar um pastiche, como poderia facilmente acontecer com um roterista menos talentoso.

Em nossos próximos artigos abordaremos outras histórias de Mágico Vento, dando ênfase não só nas histórias em si, mas também  no rico contexto criado por Manfredi.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

* Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo, mestre em Ciências Sociais e doutorando do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UNESP – FFC Marília.  Resenhista do Jornal GRAPHIQ,  das revistas Scarium Magazine e  macroCOSMO.com e articulista da revista portuguesa BD Jornal.
Autor do livro: A FANTÁSTICA VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu, 2007. Contacto:
edgarsmaniotto@gmail.com.

4 Comentários

  1. Edgar, parabéns pelo artigo. Excelente! Gostei principalmente do texto sobre Mágico Vento. Embora já seja um leitor assíduo do MV, certamente seu texto despertará o interesse em novos leitores que ainda não conheçam a história deste cativante personagem. Mais uma vez, parabéns!!!

    Abraços

    Alvarez

  2. Estava procurando justamente este tipo de artigo sobre as séries da Bonelli. Obrigado pela matéria, muito bem redigida.

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