EU E TEX, por Moreno Burattini

Por Moreno Burattini*

Eu e Tex, por Moreno Burattini – Página 41

Conheci Tex pouco depois de ter conhecido Zagor. Foi mais ou menos em 1970. Naquela época, as revistas publicadas em Itália por Sergio Bonelli (cuja editora ainda se chamava Cepim) publicitavam outras revistas da editora na terceira ou na quarta capa. Por isso, em cada novo volume do Espírito da Machadinha (1) eu via as capas do Pequeno Ranger, do Comandante Mark e da Coleção Rodeio que estariam nas bancas naquele mês. E também havia a de Tex, ilustrada por Galep. Gostava bastante das capas de Galep. Sempre preferira as que Gallieno Ferri fazia para Zagor, mas Aurelio Galleppini vinha imediatamente em seguida, quase em simultâneo. Por isso, quando eu trocava revistas aos quadradinhos com os meus colegas de escola, ou quando eu as ganhava num jogo de cartas e entre elas havia volumes de Águia da Noite, imediatamente as lia, porque, pela lógica, se uma capa era cativante (e as de Galep eram), a aventura que a retratava também deveria ser boa.

Percebi que Tex era demasiado duro para mim. Nas suas aventuras faltava humor, uma caraterística que se destacava em Zagor, cujas revistas eu comprava no mesmo dia em que saíam nas bancas e devorava nos trinta minutos seguintes, para mais tarde as reler várias vezes. Com Tex, pelo contrário, era mais difícil chegar ao final. Tinha consciência que eram aventuras com um notável conteúdo, mas preferia a garantia das aventuras do Rei de Darkwood (2) ao western puro do Ranger do Texas. Tanto é verdade que, naqueles anos, as histórias de Águia da Noite que mais me marcaram e que várias vezes reli, foram aquelas com Mefisto e com El Morisco.

Ao analisar, hoje percebo que Tex era uma BD um pouco mais para gente grande do que para miúdos da minha idade. De resto, Sergio Bonelli, no papel de Guido Nolitta (o pseudónimo com que assinava os seus argumentos), tinha criado Zagor com o objetivo de atingir um público mais jovem do aquele do seu pai. Zagor e Tex foram pensados para serem diferentes e não para fazerem concorrência um ao outro: o primeiro dirigido aos mais jovens, o segundo para os adolescentes e adultos; o primeiro era ambientado na Velha Fronteira (aquela de O Último dos Moicanos) nos anos trinta do século XIX; o segundo no sudoeste, após a Guerra da Secessão; o primeiro jogava com uma diversidade de géneros, misturando realismo e fantástico; o segundo privilegiava tramas puras de western.

Crescido e tornado adulto, continuei a sentir-me mais ligado ao Espírito da Machadinha (eu já estava marcado), mas finalmente comecei também a apreciar a fundo as histórias de Águia da Noite, as quais, a partir de certa altura, nunca mais abandonei. Fiz toda a coleção e conheço de cor cada página. Foi um amor tardio, mas daqueles que duram toda uma vida.

No passado, de resto, havia uma espécie de rivalidade entre os leitores de Tex e os de Zagor. Os texianos consideravam os zagorianos um pouco como os irmãos menores da família, que perdiam tempo com infantilidades, considerando-se a si próprios como entendidos e com melhor gosto. Por outro lado, os zagorianos gozavam um pouco com a arrogância dos texianos, mantendo-se leais ao seu herói de Darkwood, mais humano e muitas vezes vencedor, certamente, mas com os ossos quebrados. Com o tempo, talvez porque a diferença de idade entre os dois públicos reduziu-se até desaparecer (hoje as duas personagens são dirigidas ao mesmo público), as diferenças recíprocas reduziram-se acentuadamente e é cada vez mais raro encontrar quem as queira mencionar. Particularmente, aprecio a diversidade de temas de ambas as séries e acompanho-as com o máximo de satisfação. São duas leituras igualmente belas e não vejo porque deveria privar-me de uma em favor da outra, podendo apreciar ambas.

De resto, o Guido Nolitta que criou Zagor também escreveu belíssimas histórias de Tex (como El Muerto), e sobretudo preservou com determinação e previdência a herança do seu pai Giovanni Luigi. Aquilo que sempre me impressionou no comportamento de Tex, o motivo pelo qual o aprecio e admiro (e invejo), é o facto dele saber sempre e de modo imediato qual é a coisa justa. No fundo, a vida consiste em responder diariamente à eterna questão: “o que fazer?“. Eu nunca sei se faço ou não a melhor escolha, ao contrário de Tex. Por isso que ele é um herói.

Quando, de simples leitor, passei a escrever artigos e ensaios sobre autores de comics e heróis de papel, quase de seguida comecei também a ocupar-me de Tex. Nem podia ser de outra forma, Águia da Noite é um mito com o qual qualquer um que se interesse por BD deve inevitavelmente confrontar-se. Durante trinta anos de atividade crítica, acabei por publicar tanto material dedicado a Tex Willer quanto o que havia feito para Zagor. São dezenas e dezenas de artigos e livros sobre o chefe branco dos navajos assinados por mim, incluindo uma enciclopédia em cinco volumes intitulada Cavalgando com Tex, onde analisei detalhadamente cada uma das histórias do Ranger. Para fazer uma lista, indicando todos os títulos, ocuparia muito mais espaço do que aquele que tenho à disposição (não invalida que no futuro, se assim o desejar, não possa ainda vir a aumentar a minha bibliografia de crítica texiana). Como se sabe, depois desta minha atividade de crítico e ensaísta, passei à de roteirista (as duas juntas, sobrepostas, nunca tendo interrompido a primeira para passar à segunda).

Passar a escrever Zagor era um sonho que se realizava (a minha primeira história é de 1991), mas nunca imaginei que também chegaria a escrever Tex, apesar de (por enquanto) se limitar a duas histórias curtas. Mas aconteceu. Sempre considerei Águia da Noite um herói acima das minhas possibilidades, tal como uma vaga numa Seleção Nacional o é para um jogador de uma pequena equipa regional. Mas o facto é que me foi pedido para apresentar argumentos, fi-lo com entusiasmo, e dois foram aceites. Escrever as duas histórias (de trinta e duas páginas cada) foi uma árdua tarefa, porque em cada quadradinho fiquei aterrorizado com a ideia de enfrentar uma lenda, consciente que deveria contentar um público exigentíssimo. No entanto, atingi o objetivo. A primeira das duas aventuras, desenhada por Giuseppe Camuncoli, já foi publicada em Itália (3), recolhendo, felizmente, opiniões positivas. A segunda, desenhada por Michele Rubini, será publicada em 2016. Não sei se terei outros trabalhos, mas espero que sim. Em todo o caso, desde as primeiras leituras dos anos setenta, o destino levou-me a passar de estudioso das aventuras de Águia da Noite também a autor, um entre tantos que puderam dar o seu contributo. Um percurso pelo qual estou grato a quem escreve a história da minha vida.

(1) Nome pelo qual também é conhecido Zagor
(2) Outro nome pelo qual Zagor é conhecido
(3) Incontro a Tularosa,  publicada em novembro de 2014 no Color Tex 6

Eu e Tex, por Moreno Burattini – Página 42

* Texto de Moreno Burattini publicado originalmente na Revista nº 2 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2015.

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