Entrevista exclusiva: ALFONSO FONT

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, Jorge Magalhães e  Luis Sierra na formulação das perguntas e de Tizziana Giorgini na tradução.

Alfonso Font e NinaMestre Alfonso Font, bem-vindo ao blogue português de Tex. Pode apresentar-se aos nossos leitores?
Alfonso Font: Pois, meu nome é Alfonso Font, nasci em Barcelona em 1946 e sou desenhador de banda desenhada e também argumentista de muitas das histórias por mim desenhadas, embora não seja este o caso em relação a Tex.
Moro num povoado perto dos Pirinéus, cercado de montes mas estou ligado com o mundo graças à Internet, ao telefone e a um par de estradas que levam a outros lugares.
Gosto de ler, de passear por estes montes, de catar cogumelos, e também gosto de animais; minha esposa e eu convivemos com três gatos. E não sei que mais posso contar da minha vida sem entediar ninguém…

La parábola de El Marciano DesconocidoQue lugar teve a banda desenhada na sua infância?
Alfonso Font: Na minha infância, não havia televisão em Espanha, o cinema estava submetido à censura dos bispos e acho que os únicos filmes aptos para todos os públicos, fora Bambi ou Peter Pan, eram aqueles sobre as vidas dos santos e temas afins aceites pelo regime do ditador. As histórias aos quadradinhos eram o único refúgio onde poder viver sonhos e emoções ao alcance ergonómico dos garotos que, como eu, têm agora mais de sessenta anos. Portanto, os quadradinhos foram muito importantes para mim.

Como nasceu em si a paixão pelo desenho e em que momento decidiu que essa seria a sua profissão?
Alfonso Font: Que eu me lembre, sempre me vejo tratando de desenhar algo em folhas soltas, cadernos ou até mesmo nas margens dos livros didácticos. Se via um filme de piratas, não podia deixar, ao chegar a casa, de desenhar galeões e flibusteiros. Penso que acabar sendo desenhador foi um processo inevitável, acho que não houve um momento preciso em que eu tenha decidido: “bem, a partir de hoje passarei a me dedicar a isso profissionalmente”.

Arte de Alfonso FontQuando trabalhou para o mercado inglês, nos anos 60, antes de se tornar um artista conhecido internacionalmente, que tipo de histórias desenhou? E que lembranças guarda desse período, que permanece tão obscuro na história da BD europeia?
Alfonso Font: Trabalhava através de agências como Bardon Art ou Selecciones Ilustradas para um mercado tanto europeu como norte-americano. As histórias variavam bastante pois desenhei temas bem diferentes que iam da 1.ª guerra mundial a crimes famosos, passando por vampiros, o monstro de Frankenstein, ou o faroeste.
As minhas lembranças daquele tempo não podem ser más, nem que seja só porque naquela época eu era jovem, e é muito raro que desânimo e juventude formem parceria.

Ojos VerdesO senhor colaborou com muitos editores, inclusive fora da Espanha. Que trabalhos foram fundamentais até chegar a esse seu estilo tão próprio reconhecido internacionalmente?
Alfonso Font: Para ser sincero, acho que quando se está a começar nesta profissão, qualquer coisa de que se goste, por pequena que seja, acaba por nos influenciar de alguma forma. Cada vez que se vê como os diferentes artistas solucionam tecnicamente os problemas a que se enfrentam, por pura admiração gostaríamos de tornar nossos todos esses recursos que nos deixam maravilhado e voluntariamente acabamos nos deixando influenciar. Pouco a pouco, é assim que se vai aprendendo e melhorando o nosso próprio trabalho até que um belo dia, sem se dar conta, começamos a deixar fluir o nosso próprio estilo, que se vai polindo e transformando com o tempo.

A mestria de Alfonso FontConsiderando que o senhor tem uma longa carreira recheada de séries famosas como “Os Robinsons da Terra“, “Clarke e Kubrick“, “Alise e os Argonautas“, “O Prisioneiro das Estrelas“, “Táxi“, “Histórias Negras“, “Rohner” e muitas outras, pode dizer-nos qual delas é a sua favorita? E gostaria de retomá-la, um dia, se a oportunidade surgisse?
Alfonso Font: Cada uma delas preencheu uma pequena parte da minha vida e no seu devido momento também cada uma delas foi a mais importante.
Retomar uma série é mais complicado do que parece. Seria preciso fazê-lo de forma que o leitor soubesse do que se trata sem quiçá ter lido nenhum dos antigos álbuns. Além disso, a criação de cada personagem costuma ser produto de um tempo, de um determinado momento da nossa vida, que é plausível pensar que tenha mudado e possivelmente o espírito dessa personagem, retomado hoje, já não seria o mesmo.

Estúdio Alfonso FontO género de Ficção Científica figura em muitas das suas criações, sendo óbvio que é um dos seus preferidos. Mas, como começou a sua carreira a desenhar “westerns“, sente a mesma identificação com este universo tão peculiar?
Alfonso Font: O caso é que, na verdade, eu comecei desenhando faroeste, e quando surgiu a oportunidade de desenhar o Tex foi como voltar à minha juventude. Gosto de desenhar e as histórias do Oeste norte-americano pois permitem um amplo leque de possibilidades gráficas; há velhas aldeias rústicas, cavalos, vastas e distintas paisagens, diferentes tribos índias, caubóis, trens, nuvens tempestuosas, neve… enfim, um imenso deleite para quem desenha.

O Tex de Alfonso FontPassemos agora ao Ranger que dá nome a este blogue: como você chegou a Tex?
Alfonso Font: Há alguns anos atrás, durante a celebração do Salón del Cómic de Barcelona, Sergio Bonelli propôs-me que eu desenhasse um Texone, um desses grandes volumes de publicação anual. Acabou sendo o intitulado “Gli Assassini” com argumento do Mauro Boselli.

Quais foram as primeiras preocupações que a personagem de Tex suscitou em si? E como se preparou para desenhar as histórias de Tex? Já o conhecia profundamente?
Alfonso Font: Eu conhecia o “Texas Bill” que era o nome com que o Tex tinha sido publicado em Espanha, mas já estava bem longe no tempo e tive de me sujeitar a um novo Tex transformado pelos anos. Recebi um bom número de edições mensais de Tex que foram muito úteis para que eu me actualizasse. Ainda assim, confesso que me custou muito conquistar a personagem e adaptar o meu estilo à série.

Página 131 da história inédita La mano del mortoComo foi trabalhar com Mauro Boselli como argumentista? E ele o ajudou muito em seu trabalho ou você teve que documentar-se sozinho?
Alfonso Font: Mauro Boselli?… Mauro Boselli… Maur… ah, sim, acho que é esse amador que escreve uns roteirinhos, não é?… Bah, não está mal, dá para o gasto…
E sabem do que mais? Já o estou a ver agora, pálido, lendo este comentário, com lágrimas nos olhos, com o moral lá em baixo…
Mauro, estou a brincar, fique calmo.
A bem da verdade, o Mauro Boselli surpreendeu-me logo desde o início com o argumento de “Gli Assassini”. Descobri uma história cheia de uma acção sem trégua, da primeira à última página, com uma mudança constante de ambientes e situações complexas, repleta de personagens bem vivazes. E o que é realmente incrível é que agora, depois de alguns anos trabalhando o Tex tendo a ele como único argumentista, posso dizer que as suas histórias nunca caem em repetições, nem de tema, nem de ambientes, nem de personagens, e isso é muito difícil de conseguir. Ele é muito exigente com o trabalho, o que implica que o desenhador não pode relaxar um momento sequer se não quiser cometer erros, mas ao mesmo tempo ele colabora fornecendo toda a documentação gráfica de que dispõe para solucionar uma cena, o que facilita o trabalho do desenhador.
Acho que neste mundo dos quadradinhos falta algum prémio importante que reconheça o trabalho dos bons argumentistas. Nesse caso, o Mauro seria dos primeiros em merecê-lo.

Página 134 da história inédita La mano del mortoDepois de realizar “Os Assassinos”, começou a desenhar também para a série regular. Já estava tudo previsto?
Alfonso Font: Não, não estava previsto, mas coincidiu que nessa época eu dei por terminada a minha colaboração com a agência Norma e uma coisa levou à outra.

Pelo que sabemos, você está a desenhar uma nova história de Tex. Pode nos antecipar alguma coisa? Quem é o argumentista, qual a ambientação etc.?
Alfonso Font: Foi Sergio Bonelli quem decidiu que o Mauro Boselli e eu formássemos uma parceria para Tex, por isso, como já disse antes, todos os roteiros que desenhei foram escritos pelo Mauro.
A nova história tem a ver, de certo modo, com intrigas… Um célebre assassinato, ocorrido há alguns anos atrás, parece voltar à actualidade quando um desconhecido está decidido a desvendar um antigo complô em que há muitos implicados e uma misteriosa vingança começa a tomar forma através de casos que aparentemente não parecem estar relacionados. E não confessarei nada mais a não ser na presença de Mauro Boselli.

Página 151 da história inédita La mano del mortoEstá satisfeito com o trabalho que está fazendo com o “seu” Tex?

Alfonso Font: Tive um velho mestre de desenho que me disse “no dia em que o senhor estiver plenamente satisfeito com o seu trabalho, terá chegado ao limite das suas capacidades, a partir desse dia já não poderá melhorar mais…” Não sei se se deve à impressão que me causaram essas palavras, mas acho que satisfeito, realmente satisfeito, nunca consegui estar com nenhum dos meus trabalhos.
Outra coisa é se me satisfaz trabalhar com Tex; nesse caso tenho que convir que sim.

Como se define como autor de Tex? Identifica-se de algum modo com algum dos outros anteriores autores?

Alfonso Font: Como me definiria? Não sei, tento ser honesto no meu trabalho, talvez tudo se resuma a isso. Quanto à segunda parte da pergunta, devo dizer que não, ao menos não conscientemente.

Página 165 da história inédita La mano del mortoO que significa para si desenhar histórias para uma lenda dos quadradinhos como Tex, que acabou de completar 60 anos de vida editorial?
Alfonso Font: Primeiro, agradecimento a Sergio Bonelli por confiar na minha capacidade. Segundo, saber que farei parte – ainda que seja uma parte pequenina – da história de uma lenda dos quadradinhos.

Que ambições ainda tem dentro da Sergio Bonelli Editore, com relação a Tex?
Alfonso Font: A minha ambição continua sendo a mesma que tive durante toda a minha vida: desfrutar com o meu trabalho.

Como é trabalhar para Sergio Bonelli?
Alfonso Font: À parte de ter trabalho, que isso nos dias que correm é mais do que importante, significa para mim ter tido a sorte de conhecer Sergio Bonelli que me parece, além do mais, uma boa pessoa, um editor honrado que ama o seu ofício, que se sente comprometido com o seu trabalho e que se preocupa com os seus colaboradores. Ele já sabe como penso.

Página 166 da história inédita La mano del mortoComo é o seu processo criativo? Você faz uma página completa e depois passa para outra? E quais instrumentos de trabalho usa?
Alfonso Font: Imponho-me completar a página a lápis, o que normalmente consigo em pouco mais de meia jornada e começo a passar a tinta até onde aguento. Às vezes uma única vinheta, outras vezes, meia página…
No dia seguinte começo outra página a lápis e começo a passar a tinta, e assim sucessivamente até completar o trabalho do mês. Nos últimos três, quatro ou, às vezes, cinco dias dedico-me a terminar todas e cada uma das páginas, apagar a sujidade do lápis, a ocultar as pequenas manchas acidentais com têmpera (guache) branca.
Nem sempre trabalhei utilizando este método, mas assim venho fazendo há alguns anos.
O material que uso é cartolina Schoeller, lápis de grafite macio de diversas espessuras, penas Guillot e pincéis de pêlo de marta, e também sintéticos, borrachas macias e rígidas, etc.

Página 184 da história inédita La mano del mortoQuanto tempo leva para desenhar uma página? Você tem horários? Como é a sua jornada padrão entre trabalho, leituras, manter-se informado, lazer, vida familiar?
Alfonso Font: Depende da dificuldade da página. Embora muitos opinem o contrário, não sou um desenhador rápido. Como já expliquei antes, é claro que posso terminar uma página em um dia e meio de trabalho, às vezes em dois dias.
Levanto-me cedo, por volta das sete da manhã. Às sete e meia tomo um café com leite – isso é um ritual sagrado – ouvindo as notícias. Saio para caminhar durante mais ou menos uma hora, volto e começo a trabalhar… Almoço por volta da uma da tarde, leio um pouco ou converso com minha esposa sobre coisas que nos apaixonam a ambos. Volto ao trabalho, jantamos, conversamos ou lemos, alguma sessão de cinema às vezes… Nada extraordinário que muita, muita gente não faça.

Página 189 da história inédita La mano del mortoComo argumentista de algumas das suas séries mais conhecidas, como encararia a hipótese de escrever o seu próprio guião para uma aventura de Tex? E, como conhece bem o Oeste selvagem, qual o cenário que elegeria para essa aventura, ou seja, que tipo de ambientes gosta mais de desenhar em histórias de “cowboys“?
Alfonso Font: Deixo os argumentos do Tex para o Mauro porque não quero fazer má figura. Quanto aos ambientes, devo dizer que gosto de desenhar o Tex precisamente porque os ambientes são diferentes a cada momento.

Concorda com Sergio Bonelli quando ele diz que a BD “western” tem os dias contados, por falta de adeptos entre as novas gerações, como acontece no cinema, e que nem mesmo heróis de longa data como Tex e Blueberry escaparão à crise?
Alfonso Font: Não sei. É de se supor que os filmes de faroeste são um género ameaçado, contudo aparecem títulos como “Os imperdoáveis” ou “Dança com lobos” e são tremendos sucessos de bilheteira. Na televisão continuam a passar velhos filmes de bangue-bangue e não deixam de ter fãs. Tex ainda tem muito, muitos amigos…

Tex e Alfonso FontNa sua opinião, o declínio do género western (salvo casos esporádicos como “Dança com lobos” e “Os imperdoáveis” de há já alguns anos) deve-se à desmistificação que vem acontecendo nos últimos decénios (do western à italiana de Sergio Leone ao cinema revisionista dos anos setenta), ou tem antes que ver com o desinteresse por parte do público e, portanto também dos autores?
Alfonso Font: Tenho a sensação de que o público em geral “sofre” uma super oferta maciça de cinema, video-jogos, revistas, música… Penso que as antigas companhias cinematográficas deram espaço às grandes multinacionais do negócio do entretenimento que carecem de qualquer outro objectivo que não seja o acúmulo de lucros imediatos e o crescimento perpétuo; se descobrem que os efeitos especiais atraem o público, abandonam tudo o mais e passam a se dedicar apenas a isso. Até a saciedade, até a náusea… Eu já deixei sistematicamente de assistir a filmes de efeitos especiais, já não aguento mais, é sempre a mesma coisa. E acho que não sou o único. A cada dia há mais entusiastas dispostos a recuperar o velho cinema preto e branco tanto americano quanto europeu, a recuperar filmes que têm argumento além de imagens… Quem sabe, se algum dia esses mercadores do espectáculo se derem conta disso, talvez possamos recuperar o cinema de verdade…

Alfonso Font no EstúdioSabemos que o senhor é um leitor apaixonado, entre outras, das obras de Robert Louis Stevenson. O que o fascina mais da narrativa deste autor inesquecível: as histórias de mar (“A ilha do tesouro” e outras) ou as que indagam sobre a ambivalência da alma (“O médico e o monstro”)?
Alfonso Font: Tudo. Acho que Stevenson é um autor pouco compreendido pela crítica, que lhe atribui uma etiqueta única de escritor para jovens. Uma parte da obra de Stevenson menos conhecida, como os seus contos breves, parece-me extraordinária. Para mim, dentre eles há um – “Olalla” –  do qual me pergunto por que ainda não o utilizei para uma história de banda desenhada.

Alfonso Font numa sessão de autógrafosA ficção científica é outra das suas paixões. Acha que pode haver alguma relação – para citar um exemplo notório – com obras cinematográficas tipo “2001: Uma odisseia no espaço” de Kubrick ou “Guerra das estrelas” de Lucas?
Alfonso Font: Sou um admirador de Kubrick, daí que uma das minhas personagens de ficção científica se chame assim. Lucas recuperou os velhos romances de ficção, nos quais a fantasia era prioritária acima de qualquer argumento científico e obteve um sucesso merecido, embora para mim, as terceira e quarta partes que pretendem ser retroactivas para passarem a ser as primeiras na saga e nas quais a mão negra das multinacionais do dólar fácil já se faz notar, deixaram de me interessar. Não digo que sejam más, só que a mim já não me interessam.

Alfonso Font e a ficção científicaNos últimos anos, a Espanha converteu-se económica, social e culturalmente numa das nações mais avançadas da Europa. Como está, hoje, a situação da banda desenhada no seu país?
Alfonso Font: E vocês acreditam na propaganda dos políticos?…
Qualquer passinho para além da idade média do franquismo pode parecer um passo deslumbrante, mas continua sendo um pequeno passo.
Em Espanha, uma história em quadradinhos que venda 2000 exemplares é um sucesso.

Na sua opinião, por que Tex não triunfa em países como a Espanha, embora os ilustradores e argumentistas façam óptimos trabalhos com esta mítica personagem?
Alfonso Font: Aqui a arte interessa apenas em função do seu preço por centímetro quadrado. Os quadradinhos carecem de categoria económica para serem levados em consideração a não ser por meia dúzia de insensatos entre os quais me incluo.

E como explica que o senhor e outros autores espanhóis, como por exemplo José Ortiz, triunfem em Itália e esse trabalho seja praticamente desconhecido em Espanha?
Alfonso Font: Provavelmente porque económica, social e culturalmente somos uma das nações mais avançadas da Europa, como vocês dizem.

Alfonso Font e Ervin RustemagicPara finalizar, como faria uma rápida análise da sua carreira?
Alfonso Font: Sempre fui apaixonado pelo desenho, e por este ofício desde que me entendo por gente. Sempre tive bem claro que queria ser desenhador de banda desenhada e nenhuma outra coisa.
Quando comecei a publicar os meus primeiros desenhos ainda era um péssimo desenhador. Na verdade, fui um desenhador bem ruinzinho durante muitos anos, mas felizmente o entusiasmo e o carinho com que fazia os meus trabalhos me impedia de ser consciente disso, provavelmente foi graças a essa incapacidade de autocrítica que não abandonei este ofício no devido momento. E assim até hoje…

Caro Mestre Alfonso Font, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Alfonso Font: Eu é que agradeço a vocês, a todos aqueles que continuam amando as histórias em quadradinhos, porque isto nos torna cúmplices de sonhos e esperanças.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

16 Comentários

  1. Mais uma grande entrevista no blogue do Tex, que traça um retrato humano e cativante de um dos mais extraordinários desenhadores espanhóis dos últimos decénios e, incontestavelmente, um dos valores mais seguros da actual equipa a quem a Bonneli confiou as aventuras de Tex.
    Apreciar a evolução do seu estilo – desde o tempo em que no “Jornal do Cuto”, há mais de 35 anos, descobri uma história de ambiente fantástico intitulada “Black Max”, que soube mais tarde ter sido desenhada por Alfonso Font, anonimamente, para uma revista inglesa – foi uma experiência fascinante. Outra recordação que guardo com carinho é a publicação de alguns episódios de “Histórias Negras” nas “Selecções BD”, série que, como o próprio título indica, se inseria numa vertente pouco politicamente correcta; mas o seu sucesso entre os leitores, e até entre o pessoal da redacção, foi imediato. Haverá melhor barómetro do talento e da actualidade de um autor?
    Penso que foi isso que Alfonso Font trouxe às aventuras de Tex… Um novo sopro de modernidade e inspiração, com o seu estilo rústico, de uma expressividade que poucos conseguem atingir, talvez só um Ticci ou um Ortiz, mas por meios bem diferentes. Font é único, um exemplo de talento e de modéstia, e um artista versátil, de raiz telúrica genuinamente espanhola – talvez o mais “espanhol” de todos os desenhadores de Tex – que se reencontrou, num momento feliz da sua carreira, com o universo do “western” e do “Texas Bill” da sua infância. E que vai certamente continuar a deleitar-nos, por muito tempo ainda, com os seus trabalhos, tão bons no Tex, a preto e branco, como nas fantásticas paisagens marinhas de “Rohner”, em cores que traduzem a beleza e a poesia das próprias histórias de Stevenson…

    Jorge Magalhães

  2. Sensacional esta entrevista… não desmerecendo as outras, essa foi disparado a melhor… sem palavras para descrever esse grande artista.

    Vida longa para ALFONSO FONT!!!

    Wagner Macedo

  3. Mais uma grande entrevista na já tradição do Blog.
    Ë sempre um grande privilégio e prazer poder conhecer um pouco mais dos Grandes Autores que levam em frente a lenda TEXiana.
    Font é seguramente uma das maiores aquisições para o staff da SBE.
    Parabéns ao Blog e ao fabuloso autor.

    Jesus Nabor Ferreira

  4. Alfonso Font tem vindo a subir de qualidade em cada aventura de Tex, sendo para mim já uma das referências actuais. Tive oportunidade de escrever que o seu mais recente trabalho “Terre Maledette” é o melhor de sempre na série. Grande desenhador, grande entrevista, grande momento no blogue.
    Parabéns
    Mário João Marques

  5. Prezado amigo Zeca,
    Meus parabéns, pela publicação da excelente entrevista com com o Mestre” Alfonso Font.
    Foi com muito prazer, que pude conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra, deste Artista Internacional dos Quadrinhos… Só mesmo você, caro Zeca (e todos os que colaboram), para proporcionar aos admiradores do Blog do Tex, estas importantes e preciosas entrevistas com os principais desenhistas do impagável “Águia da Noite”. Muito obrigado, por compartilhar comigo, mais esta sensacional reportagem, elaborada com muita capacidade e elegância! Parabéns!
    Atenciosamente, Cid.

  6. Adorei esta entrevista. Parabéns ao blogue! Um abraço, Orlando Santos Silva, Lisboa, Portugal

  7. Hello,
    I want to inform you that I used a photo from your site in one of my web text about strip art. In the spirit of good cooperation, I signed your site address below the picture. Please see my web-story and if you have an objection tell me. Also you can leave a your comment on my web-story. Thank you for your understanding.

    Sincerely,

    Goran Necin

  8. Dear Goran Necin,
    It was an honor to the Portuguese blog have a photo on another website from a high quality as yours. Thanks very much for adding the source of the photo (and also for the link).

    Greetings,

  9. Encalhei nesta entrevista na pesquisa sobre “Desenhadores de Tex” que sairá no BDjornal #28. E só um reparo político: o Jorge Magalhães que me desculpe, mas o Alfonso Carreras Font não é “espanhol”, mas catalão. A ignorância em relação à história política da Península Ibérica leva a esmagadora maioria dos portugueses a esquecer que, se não fosse a restauração de 1640, hoje eram tão “espanhóis” como os catalães, os galegos, os valencianos, os aragoneses, os bascos… e falaríamos castelhano, dizendo, se calhar alegremente, que falávamos “espanhol”…

  10. Embora o meu comentário a esta entrevista com o Alfonso Font já tenha sido publicado há muito tempo, este comentário muito mais recente do Machado-Dias, em que sou directamente confrontado com um “reparo político”, obriga-me a reflectir sobre a tal realidade histórica e política da Península Ibérica (já conhecida como Hispânia no tempo dos romanos e dos fenícios), em que parece que se confunde a diversidade de povos, tradições, costumes e idiomas com a autonomia administrativa de regiões que, por serem autónomas, não deixam de pertencer ao mesmo espaço, à mesma nação, e ter uma identidade comum, apesar dessas diferenças. Também na Madeira e nos Açores as raízes culturais e linguísticas divergem das do continente, mas nem por isso a identidade nacional deixa de existir. Senão, estaríamos a falar de madeirenses, de açorianos, de alentejanos, de transmontanos, de algarvios, etc, e não de portugueses.
    Tenho (ou tive) vários amigos na Catalunha, com quem convivi durante muitos anos, e nunca os ouvi considerarem-se catalães “tout court“, nem falarem exclusivamente catalão. Um deles foi Jesús Blasco.
    A Espanha não é uma manta de retalhos, uma abstracção geográfica assente em diversas nacionalidades fragmentadas, apesar dos problemas políticos existentes nalgumas dessas regiões e dos ideais separatistas, mas um país com uma forte identidade nacional (tal como se tem notado durante esta crise económica e financeira da Zona Euro).
    Quando o Dr. Alberto João Jardim (ou os seus sucessores) concretizar o seu sonho de uma Madeira independente, e já não se considerar português “de facto”, como proclama publicamente tantas vezes, ainda os catalães, os bascos, os galegos e outras nacionalidades farão parte da grande Espanha Ibérica.
    Mas, em última análise, talvez fosse mais curial perguntar ao próprio Alfonso Font, principal razão destes comentários, se se considera mais catalão do que espanhol.
    Um abraço.

  11. Caríssimo Jorge Magalhães, não queria estar a prolongar muito este assunto neste espaço, dedicado à BD e a Tex (que até é bem enquadrado historicamente), uma vez que fiz apenas um comentário levezinho, como tantas vezes o faço a propósito daquilo que considero uma desconsideração que a maioria dos portugueses cometem acerca dos nossos vizinhos “espanhóis”.

    Mas o meu amigo comete na sua resposta ao meu singelo comentário, logo à partida, dois “pequenos” lapsos de análise, que não posso deixar passar em branco e depois, peço desculpa, vou por aí fora.

    Os lapsos: Em primeiro lugar, nem os Açores, nem a Madeira, nem o Alentejo, o Algarve, Trás-os-Montes, etc…, falam outra língua que não o português desde há quase novecentos anos (excepto a Madeira e os Açores, que foram colonizados apenas no séc. XV, mas onde não vivia ninguém até essa altura), ao contrário de Aragoneses, Catalães, Bascos, Galegos, Valencianos, que têm todos línguas próprias e – veja o basco, o aragonês-catalão-valenciano e mesmo o galaico-português – muito diferentes do castelhano. Depois, nunca os Açores, Madeira, Alentejo, Algarve, etc… foram reinos independentes durante séculos como a Galiza, Aragão, Valência, Navarra (bascos) e até Leão – muito antes do condado de Castela (fundado, já agora, pelo reino de Navarra), se tornar num reino.

    Por isso considero, ao contrário do meu amigo, que a Espanha é mesmo “uma manta de retalhos, assente em diversas nacionalidades fragmentadas”, porque a aglomeração se fez sob o domínio de um dos povos, o castelhano, imposta pela força. Sendo corrente ouvir dos meus muitos amigos por essa península fora, expressões como o “Estado de Madrid”, o “Rei de Madrid”, a “Monarquia de Madrid”, e muito raramente, talvez apenas quando esses amigos são castelhanos, “a Espanha”. Penso mesmo que o único sentimento forte de aglutinação neste momento, será com a selecção de futebol, por ser a campeã da Europa e do Mundo, mas à qual raramente chamam selecção de Espanha, mas sim “la roja”. E, mesmo assim, já ouvi alguns catalães defenderem que a Catalunha devia ter a sua própria selecção, tal como a Escócia, ou o País de Gales. E que essa selecção é que seria a campeã da Europa e do Mundo – por causa do FCBarcelona, claro. E, já que falou na “forte identidade nacional (tal como se tem notado durante esta crise económica e financeira da Zona Euro)”, leia por favor a imprensa galega, basca e catalã – se conseguir ler o catalão e o basco –, para perceber o que eles dizem acerca disso e vai ter grandes surpresas. E por isso é que eu digo que a esmagadora maioria dos portugueses não percebe nada do que se passa com os nossos vizinhos: porque não estão nem informados, nem atentos!

    Mas, vamos a um pouquinho de história (onde tudo se percebe melhor), que não faz mal a ninguém:

    Para começar, lembro que o Reino de Aragão, na altura em que se dá a união dinástica (com o casamento de Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão), englobava, além de Aragão propriamente dito, o condado da Catalunha, os reinos de Valência e Múrcia, as Ilhas Baleares, o Reino da Sardenha e Córsega, o Reino de Nápoles-Sicília e o Ducado de Atenas. Era portanto uma potência Mediterrânica. E falava catalão, que não tem nada a ver com o castelhano, mas sim com a “langue d’oc”!!

    Depois, tenho que esclarecer que o título de Rei das Espanhas (e não Rei de Espanha), só foi utilizado – não oficialmente nos documentos da chancelaria de Madrid, mas apenas usado na correspondência internacional e na cunhagem de moedas, por exemplo – a partir do momento em que Filipe II anexou Portugal, englobando assim na “Monarquia de Madrid” (como lhe chamam as crónicas da altura) todos os reinos peninsulares. Portanto, de facto, Reis da Hispania, no sentido romano do termo, foram apenas os três Filipes, que entram na história portuguesa. Quando o Bourbon Filipe V (neto de Luís XIV de França e fundador da actual Dinastia), no início do séc. XVIII, herdou a “Coroa de Madrid”, aboliu todos os privilégios dos antigos reinos incorporados nessa “Monarquia de Madrid”, centralizando efectivamente o poder, à maneira francesa, mas continuando a usar o título de Rei das Espanhas, mesmo já não o sendo de Portugal. Apenas o italiano Amadeo I de Sabóia (no trono de Madrid por apenas três anos, de 1870 a 1873), usou pela primeira vez o título de Rei de Espanha e daí para cá, ficou assim. Portanto, o título de Rei de Espanha só existe desde 1870!!!

    Lembro até, a propósito do título de “Rei de Espanha” que, quando Fernando II de Aragão, após a morte de Isabel I e depois de ter conquistado o reino basco de Navarra, em 1515, assim se intitulou, o rei português Manuel I respondeu de imediato, enviando uma carta violentíssima ao seu sogro, dizendo que ele não podia intitular-se Rei da Espanha, porque “na Hespanha há outro reino com rei próprio e natural dele” – acompanhando o envio da carta com a ordem para movimentar uma frota naval para o Algarve. Fernando II percebeu as intenções do genro e nunca mais usou o título.

    Mas podemos até estabelecer por essa Europa fora, um único paralelo com a Espanha, porque só existe outro país na Europa do mesmo género: o Reino Unido da Grã Bretanha! A Inglaterra, com o Acto de União de 1707, depois rectificado em 1800, incorporava, debaixo da coroa inglesa, os reinos da Inglaterra, Escócia, Irlanda e o Principado de Gales, impôs o inglês como língua oficial – mas não destruiu, nem proibiu a aprendizagem do celto-gaélico da Escócia, nem o celto-gaélico de Gales, ou o celto-gaélico da Irlanda. Isto ao contrário das ditaduras centralistas do andaluzo Primo de Rivera ou do galego Francisco Franco, na “Espanha”, que proibiram o ensino das línguas maternas, impondo o castelhano que, indevidamente e por razões políticas, se tornou no “espanhol” (uma língua que não existe!!!).

    Podemos até fazer outras comparações com países europeus e vemos que não existe nada parecido: A França, com Luís XIV centralizou todos os territórios que hoje a compõem e conquistou mais alguns, uniformizou o francês da zona de Paris em todo o território, mas onde não havia verdadeiramente países autónomos. Em termos de língua, apenas a Bretanha, a Navarra francesa e a Occitânea região do langue d’oc, no Sul, eram particularismos que ainda hoje persistem. A Alemanha incorporou (primeiro num Império, depois sabiamente numa Federação) todos os territórios de língua germânica, excepto a Áustria. A Itália, uniformizou todos os dialectos – que não eram muito diferentes entre si – sob o padrão da língua que se falava na Toscânia, que é o actual italiano.

    Depois disto tudo, amigo Jorge, aconselho-o a falar com alguns galegos, alguns bascos e alguns catalães e verá que eles, raramente ou nunca, se referem à “Espanha”, mas ao “Estado de Madrid”. Se calhar, o meu amigo, nunca perguntou ao Jesús Blasco Monterde (que viveu a maior parte da vida adulta sob a ditadura de Franco, em que se corria o risco de prisão se se dissesse outra coisa que não fosse a versão oficial), o que pensava ele deste assunto. Quanto ao Alfonso Font Carrera, aguardo uma oportunidade para o questionar quanto à questão da nacionalidade e depois lhe direi.

    E para terminar, devo dizer que considero que a maior desconsideração que os portugueses fazem em relação aos nossos vizinhos, é não reconhecerem nunca o papel fundamental dos catalães, aquando da revolta da Catalunha, em 1640 – iniciada no dia do Corpus Christi desse ano (meados de Junho) e que levou à proclamação da República da Catalunha em 1641, depois aniquilada pela “Monarquia de Madrid” – , conjugada, segundo consta, com os “restauradores” portugueses e que levou, por sua vez, à Restauração da Independência de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640. Esta revolta da Catalunha, com o apoio efectivo da França (e era esta a potência mais perigosa e causa de maior atenção), levou a que o Conde-Duque de Olivares, tivesse que atalhar primeiro a ela, passando o “caso” português para segundo plano. Não fosse essa revolta (e também a Guerra dos Trinta Anos, em que se inseriu), Portugal, hoje, faria parte dessa “grande Espanha Ibérica” que o meu amigo refere e falaria “espanhol”, tendo-se o galaico-português tornado numa língua quase morta. Veja que a maioria dos galegos (59%, segundo cálculos actuais), os chamados “reintegracionistas”, lutam actualmente, por uma aproximação à sintaxe portuguesa, contra uma minoria de galegos-castelhânicos, que preferem a castelhanização do galego.

    Que me desculpem os amigos Texianos (e também o meu amigo Jorge Magalhães, que muito prezo) por esta incursão histórica, especialmente pela sua extensão – mas só assim conseguiria explicar aquilo que penso – porque além de ser um bedéfilo ferrenho de longa data, tenho quase quarenta anos de estudo e pesquisa em História Ibérica (e também do Império Romano e dos Descobrimentos Portugueses, já agora) em cima e não consigo ignorar alguns dislates mal esclarecidos, que tornam os portugueses no povo mais mal informado (para não dizer ignorante) em matéria histórica na Europa, apesar de, diz-se, gostarem muito de História.

    Um abraço.

  12. Como não estamos numa cátedra de História, mas sim de BD (especialmente no que ao Tex diz respeito), considero que estes comentários estão a entrar num terreno que pode gerar alguns equívocos:
    1º – que eu pretendi corrigir o pensamento político do Machado-Dias ou questionar os seus conhecimentos em matéria histórica (aos quais, aliás, tiro o chapéu!)
    2º – que quis desconsiderar os nossos vizinhos espanhóis, por quem sempre tive especial simpatia – talvez, em princípio, por causa das minhas leituras, n’O Mosquito e no Diabrete, das histórias do Jesús, do Alejandro Blasco, do Emilio Freixas, do Puigmiquel e de outros – ou os catalães que (como diz o Machado-Dias) não se consideram espanhóis. De facto, nunca pus essa questão ao Jesús Blasco, porque não se proporcionou nem veio a lume em nenhuma conversa, mas tenho a impressão de que era um assunto que não o preocupava. Outros amigos catalães que tive, infelizmente também já desaparecidos, pareciam bem integrados na ideia de uma Espanha una, católica e europeísta.
    Como não conheço o catalão, mas apenas (menos mal) o castelhano, não costumo ler jornais galegos, bascos e catalães, o que lamento… talvez fosse interessante saber o que eles pensam dos portugueses.
    Quanto ao Alfonso Font, espero que queira elucidar-nos sobre a (magna) questão da nacionalidade, já que foi ele o “detonador” desta troca de comentários.
    Por último, não partilho a opinião do Machado-Dias (cuja amizade de longos anos também muito prezo), ou melhor, a sua visão derrotista de uma revolta de 1640 falhada, caso não tivesse havido a insurreição da Catalunha (ou a revolta dos ceifeiros) no mesmo ano… e de que hoje estaríamos todos, neste cantinho à beira-mar, a falar castelhano. Então, o galego e outras línguas não sobreviveram até hoje? E Portugal não soube defender também a sua independência em Aljubarrota? Aliás, é opinião consensual entre os historiadores que a Espanha não tinha meios, em 1640, para abafar a revolta na Catalunha e muito menos em Portugal, por causa da Guerra dos 30 Anos. O momento foi bem escolhido para desencadear essas revoltas e os catalães só foram vencidos porque a França, que de início os apoiara, como referiu o Machado-Dias, lhes virou a cara para ficar com uma parte do seu território. Por outro lado, nós, portugueses, recusámo-nos a participar no recrutamento ordenado pelo conde-duque de Olivares para combater os catalães e, com esse gesto, ajudámos a sua rebelião a vigorar por mais tempo, até 1652. Portugal aguentou-se 28 anos! A soberba castelhana cuidou derrotar-nos logo às primeiras investidas… mas estava redondamente enganada! Tanto assim que até tomámos a iniciativa, em várias ocasiões, entrando em território espanhol.
    No entanto, de facto, é quase um milagre termos conseguido resistir sozinhos, mal armados e com uma economia em ruínas, a um poderio como o da Espanha. Talvez porque somos um povo que nunca se deixou dominar, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. E que deu tanta tareia nos espanhóis que até os pôs a ridículo na cidade papal, quando tentavam de todas as formas impedir que a Cúria Romana reconhecesse a nossa independência (como escreveu Júlio Dantas).
    O Alfonso Font, se ler estas linhas, que me desculpe, mas estamos a falar de uma personagem execrável, como todos os ditadores, o conde-duque de Olivares (embora não fosse rei, era primeiro-ministro com plenos poderes).
    E por aqui me fico.
    Um abraço, com a minha amizade e admiração, para o Machado-Dias.

  13. Vou deixar só mais uma notazinha, porque como muito bem diz Jorge Magalhães, isto não é propriamente uma cátedra de História, obviamente. Mas acho que passei uma impressão errada ao meu amigo Jorge, que gostaria de esclarecer melhor.
    Eu não tenho uma visão derrotista da revolta portuguesa de 1640, de modo nenhum. Apenas a enquadrei no seu preciso momento histórico-político-militar da altura.
    Vejamos abreviadamente: as revoltas de Portugal e da Catalunha inserem-se numa reacção contra as políticas do conde-duque de Olivares, especificamente por causa da intenção do valido de Filipe IV querer criar um super exército, a chamada “União de Armas”, que reuniria 140.000 homens em todos os territórios da Monarquia Hispânica dos Habsburgos – isto porque a dita Monarquia se encontrava em guerra com a França e outras potências europeias, naquela a que se chamou “Guerra dos Trinta Anos”. A Flandres aceitou de bom grado esta decisão – até porque era a região da dita Monarquia que mais precisava de reforços militares – mas a Catalunha revoltou-se de imediato, com a chamada revolta dos ceifeiros (“Els segadors” em catalão), ocorrida em 7 de Junho de 1640, havendo contactos com os “conspiradores” portugueses que já preparavam revolta idêntica em Portugal. Perante o apoio francês – no contexto da Guerra dos Trinta Anos – à revolta catalã, Olivares teve que atacar de imediato essa revolta com todas as forças que tinha (que não eram já muitas) e, quando seis meses depois os portugueses se revoltaram, o exército da Monarquia, desprevenido, estava desguarnecido para uma frente portuguesa, sem quaisquer possibilidades de se reforçar. Basta lermos as crónicas castelhanas da altura para compreendermos o ridículo que foram as tentativas de constituição de um exército que repusesse a situação em Portugal. E a França de Luís XIII, ou seja, do Cardeal Richelieu, para não dizer que não fazia nada em relação à revolta portuguesa, só conseguiu enviar alguns “conselheiros militares” para cá, porque tinha os efectivos todos no apoio à Catalunha e a guarnecer a fronteira com a Flandres.
    Por isso é que digo que, se os portugueses se tivessem revoltado antes dos catalães, Olivares teria enviado para cá todas as forças que enviou para a Catalunha e Portugal não teria conseguido a independência, tal como a Catalunha não o conseguiu, mesmo com o apoio francês e apesar de ter proclamado a República em 1641. Até porque seria difícil aos franceses darem a Portugal o apoio que deram à Catalunha, por razões geográficas. Isto também, porque temos de ter em atenção que Portugal nessa altura não tinha meios para recrutar um exército suficiente – os meios (leia-se os impostos), não esqueçamos, iam para Madrid – nem para adquirir armas suficientes e consistentes. Perceber isto é uma questão de lógica.
    Quanto à questão dos franceses terem deixado de apoiar a Catalunha, isso não é verdade. O que se passou foi que Olivares executou um contragolpe, que teria sido genial, se não tivesse corrido mal: o exército da Monarquia atacou nas Ardenas francesas para forçar a um abandono do apoio efectivo do exército francês na Catalunha. Mas o exército “espanhol” (os famosos Tércios da Monarquia Hispânica), comandados (vá lá saber-se agora se isto teve alguma conexão) pelo português Francisco de Melo, capitão geral dos Tércios da Flandres, foram completamente derrotados, pela primeira vez ao fim de quase cem anos – nunca ninguém os tinha derrotado –, na famosa batalha de Rocroi. Isto para além de que a França teve que enfrentar, após a morte de Richelieu em 1642, ela própria, uma Guerra Civil (La Fronde), pelo que os apoios de guerra não puderam ser mais profícuos na Guerra da Independência portuguesa.
    E já agora, reforçando um pouco o que disse no comentário anterior – a propósito do domínio castelhano sobre os outros reinos ibéricos –, leia-se esta passagem da carta (talvez profética, pelo que se passará nos séculos seguintes) que Olivares escreveu em 1625 a Filipe IV:
    “… Vuestra Majestad no debe contentarse con ser el rey de Castilla, Portugal, Aragón, Valencia, conde de Barcelona, Señor de Flandres, entre otros… Vuestra Majestad debe trabajar para lograr en estos reinos los modos, leyes y costumbres de Castilla… e llamarse a si mismo solamente Rey de España…”
    Mas Filipe IV, talvez por dever de consciência, não foi nesta cantiga. Apenas o francês Filipe V cumpriria este programa, quase vinte anos depois.
    Isto quer dizer alguma coisa, não?
    E fico-me por aqui (até porque, para “notazinha”, já foi um bocado longa), esperando, já agora, a resposta ao email que José Carlos Francisco tomou a iniciativa de enviar a Alfonso Font Carrera sobre a questão das nacionalidades. Mas o Zé Carlos diz também, no email que me enviou a notificar da resposta do Jorge Magalhães e onde me informa do email que escreveu a Alfonso Font Carrera, “que eu comprei uma guerra com o Jorge Magalhães”, o que não é verdade. Isto não é guerra alguma. É apenas uma troca de opiniões, que eu considero mais como uma “conversa de café” entre amigos, do que outra coisa qualquer. E, já agora, desviou um bocadinho as atenções dos nossos amigos texianos, das sua obsessões com o Tex. Não penso que tenha sido mau de todo.

  14. Eu falei em “guerra” no bom sentido de uma “querela” animada e sobretudo muito interessante para todos que adoram saber um pouco mais sobre a grandiosa história da Península Ibérica, como é o meu e por exemplo o do pard brasileiro Jesus Nabor 😉

    E é fantástico ver o vosso conhecimento (e como tenho aprendido com os vossos “comentários”), isto porque nos dias de hoje, a História Portuguesa já quase nem é ensinada aos nossos alunos, a minha filha mais velha que o diga, pois da História Portuguesa só sabe que o 1º Rei português se chamava Afonso Henriques…

  15. Estou de acordo com o Machado-Dias de que estes comentários não se assemelham a uma espécie de guerra entre dois “rivais”, mas sim a uma amena e proveitosa, embora nem sempre concordante, troca de opiniões entre dois velhos amigos (e friso já que não estou a usar a expressão no sentido literal, porque o Machado-Dias é bastante mais novo do que eu).
    Concordo também com o José Carlos sobre os parcos conhecimentos dos jovens estudantes de hoje no que se refere à nossa História (e a outras matérias). Muitos nem sabem quem foi o 1º Rei de Portugal ou o 1º Presidente da República. E não será o novo ministro da Educação que poderá mudar este panorama, com a sua conhecida vocação para as Matemáticas. Oxalá me engane!
    Abraços para todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.