Entrevista com o fã e colecionador: Jorge Luís Cardoso Pereira (Jorginho)

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde nasceu? O que faz profissionalmente?
Jorginho: Oi, me chamo Jorginho, não… espera… me chamo Jorge Luís, isso, Jorge Luís Cardoso Pereira, mas faz muito tempo que abandonei tal alcunha. Jorge Luís é um adulto chato que paga contas, Jorginho é um artista aquariano e inquieto que está aqui falando com os leitores.
Nasci em Alvorada, região metropolitana de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Brasil, no dia 02 de fevereiro de 1977, escutando Bob Dylan, com a barba por fazer, desenhando com lápis 6b e com um monte de Banda Desenhada de Tex para ler.
Tá, tá certo…, não foi bem assim, mas poderia ter sido. Eu nasci em um hospital de Porto Alegre, realmente no dia e ano já citados. Minha mãe biológica não me queria e havia anunciado de antemão que me daria para adoção. Dona Ilza, que viria a ser minha mãe de fato, não conseguia engravidar e, num terreiro de Umbanda escutou através de uma médium que recebia a entidade espiritual Oxum, que adotasse uma criança que nascesse no dia de Iemanjá, que ela então seria mãe. Dia 02 de fevereiro é o dia em que se comemora o dia de Iemanjá aqui no Brasil, minha falecida madrinha Lourdes conhecia as minhas duas mães, e intermediou a adoção dois dias depois que vim ao mundo. Passados dois anos desse fato, minha mãe Ilza engravidou de sua filha natural, a médium acertou.
Profissionalmente, eu sou ilustrador, cartunista, desenhista de quadrinhos, filósofo, administrador do ColetiveArts (grupo de artistas e escritores do Brasil), edito o blog Coletive em Movimento (que vem crescendo cada vez mais) e sou Pedagogo, atuando na Educação Infantil.

Quando nasceu o seu interesse pela banda desenhada?
Jorginho: Desde muito pequeno, através dos Super Quadrinhos, suplemento de Banda Desenhada que saía aos domingos no jornal Zero Hora, ali eu ficava vendo as figuras e pedindo para os adultos lerem as histórias para mim. Eram histórias do “Hagar- o horrível”, do “Asterix”, de “Valerian – o Agente Espaço Temporal”, entre muitos que me marcaram.
Ali começou a minha alfabetização, minha madrinha chamada Tânia começou a me ensinar a ler, recortava as letras e figuras daquela páginas e ia me ensinando, o “H”mudo era de Hagar, o “H” com som de “R” era do Hulk, o “A” era de Asterix. Minha madrinha, dentro do seu entendimento, me educou considerando a linguagem da criança, sou muito grato a ela. Fui alfabetizado por volta dos seis anos, antes de entrar para a escola.

Quando descobriu Tex?
Jorginho: Eu descobri Tex antes de aprender a ler, por volta dos quatro anos para cinco. Meu pai e minha mãe tinham compadres que moravam em uma casa de aluguel e eles foram embora sem pagar os valores e sem realizar a manutenção do imóvel, cabendo aos meus pais e outros fiadores fazerem isso. Quando foram realizar a limpeza para pintar a casa, ali havia um exemplar de Tex, que minha mãe de forma “salomônica”, dividiu em duas partes, uma para mim, que fiquei com a capa e páginas do início e outra com meu primo que ficou com mais da metade da revista (que erro da minha mãe, ele nunca gostou de ler).
Assim, eu pedi para lerem pra mim um pouco da história que me coube, depois me lembro que recortei o mesmo, fazendo “homenzinhos de papel”, com os quais eu brincava, criando e recriando as aventuras de Tex e seus pards.
Em 1986, quando já tinha nove anos, pedi para minha mãe, que ia ao mercado, comprar na volta para casa um gibi usado na banca. Ela passou e comprou duas edições do Tex, N°198 e N° 201. Ali, acendeu uma paixão que dura até hoje.

Porquê esta paixão por Tex?
Jorginho: Eu acredito que a cultura do faroeste sempre esteve presente em quem se criou nos anos 1970 e quem nasceu naquela década, pois os anos 1980 traziam muitas reprises de filmes e séries nos canais de televisão brasileira. Eu assistia a Durango Kid, a Bonanza, Lancer, Chaparral e depois eu ia brincar nos fundos de casa, recriando e contando as aventuras que eu tinha acabado de ver. Ali estava a semente da paixão.
Também acho que ter brincado com “os homenzinhos de papel de Tex” foi muito importante, ou seja, mais uma semente. Mas creio que a paixão por Tex seja explicada por causa da construção do herói e seus pards, pois li muitos faroestes, mas jamais tive nem de perto o sentimento que tenho quando leio Tex, adoro Ken Parker também, mas Tex é insuperável.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Jorginho: Eu sou um pesquisador, um colecionador de quadrinhos, meu filho chama-se Peter por causa do Homem Aranha, minha filha Maitena por causa da cartunista argentina, ou seja, eu leio muito e gosto demais. Então, eu já li histórias ruins de outros personagens, histórias fracas, com arte não tão boa. Agora, EU NUNCA LI UMA HISTÓRIA RUIM DE TEX. Nunca me decepcionei. As pessoas que cuidam da equipe criativa de Tex tem um cuidado e um esmero para com o leitor do ranger que salta aos olhos da gente.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua coleção? E qual a mais importante para si?
Jorginho: Ela já foi enorme, como coleção ampla e como coleção de Tex, após eu me separar da minha primeira esposa, tive que recomeçar a comprar as coisas que eu amo, sabendo que nunca vou ter tudo que um dia tive, então vou adquirindo aos poucos. Hoje tenho cerca de 215 revistas de Tex, luto para completar algumas coleções. Hoje a mais importante para mim afetivamente é a Tex Gigante n°34 com texto de Mauro Boselli e arte da Laura Zuccheri, que trata sobre a Vingança de Doc Holliday. Foi o primeiro contato que tive com a Laura, da qual a partir dali me tornei fã, a entrevistei para o ColetiveArts no ano passado (em uma série de matérias preparando para o evento online Cavalgando com Tex), uma artista maravilhosa e uma pessoa maravilhosa.

Coleciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Jorginho: Eu leio muito e em todos os gêneros, BD, livros, resenhas. Minha coleção sobre Tex vai por tudo aquilo que eu conseguir do personagem, desde revistas até sovenirs dos mais diferentes estilos. Mas é claro, observando tudo, hoje vou completando uma coleção, depois outra e vou adquirindo aos poucos o que vem me surgindo.

Qual o objeto Tex que mais gostaria de possuir?
Jorginho: Olha para alegrar e realizar um sonho de criança, uma estrela de Ranger. Sabe, nunca tive uma, nem de plástico. Mas é claro que eu queria muito ter a coleção que saiu na Itália compilando as primeiras edições de Tex em formato original, em formato talão de cheque (como se fala no Brasil) e a coleção de moedas, ela é linda demais!

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Jorginho: Bom aí geralmente complica muito, e sei que muitos pards têm uma predileção por histórias, escritores e desenhistas que geralmente acabam se repetindo em entrevistas. Alguns chegam a me dizer que são “Tex Raiz”, que não aceitam fulano escrevendo ou desenhando o personagem.
Pois vou fugir a esse estereótipo. Meu roteirista favorito é o Mauro Boselli e a desenhista é a Laura Zuccheri, e a minha história favorita será a próxima em que os dois trabalharão juntos, até vir a próxima, e a próxima, e assim sucessivamente.
Não podemos ficar presos ao passado, que surjam cada vez mais novos roteiristas e artistas para trabalharem com Tex.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Jorginho: No personagem o que mais me agrada é a construção de caráter que ele tem, a maneira com que lida com as situações das mais diversas que aparecem pela frente. Nas aventuras, todo o contexto histórico e cronológico de suas aventuras. Também é na cronologia que às vezes acho que poderia ser melhor trabalhado, por exemplo, um personagem comum, um figurante que apareceu em uma aventura x, de uma edição do passado em uma cidade, deve aparecer novamente, pois isso daria mais credibilidade e noção histórica ao personagem. As cidades não eram tão numerosas e os nossos rangers eram figuras de destaque, por isso, às vezes estranho quando leio uma história passada novamente em uma cidade e já não existe nenhum personagem coadjuvante que tenha aparecido na história anterior aparecendo nessa, nem que seja de relance.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Jorginho: É uma grande soma de fatores, que vai desde o personagem em si, passando por todo o compromisso e a seriedade com que as equipes criativas tratam o mesmo, seus parceiros e seus leitores.
Tex é sem sombra de dúvidas o maior personagem de quadrinhos de faroeste já criado, cada aventura sua é um grande roteiro para um bom filme. Ler Tex é sempre uma experiência incrível, por isso ele é um ícone.

Costuma encontrar-se com outros colecionadores?
Jorginho: Sim, sempre que possível, seja pessoalmente ou virtualmente. Já organizei dois eventos de quadrinhos em Feiras do Livro na cidade de Gravataí/Rio Grande do Sul – Brasil, organizei o evento online Cavalgando com Tex (estamos indo para a segunda edição dia 30/09/22) e estamos em tratativas para mais um evento texiano presencial em Gravataí também, no próximo ano. Se der certo, será um evento para marcar a cidade e ficar na memória de todo leitor texiano.

Fale um pouco do evento que você organiza anualmente em prol do Tex.
Jorginho: O Cavalgando com Tex surgiu depois que o professor e escritor brasileiro Paulo Kobielski e eu conversamos sobre o fenômeno cultural que era Tex, e me lembro de sugerir para ele escrever um Dossiê Kobielski (coluna sobre quadrinhos que o Paulo escreve para o Coletive) sobre o personagem. Ele, além de tudo, fez uma entrevista com o colecionador GG Carsan. Quando fui dar os parabéns para o Paulo sobre a matéria realizada, ele me disse que queria realizar um encontro na cidade de Alvorada/Rio Grande do Sul – Brasil, com os leitores de Tex da cidade, mas por causa da pandemia de Covid 19, não teria como. Então me veio a ideia de realizarmos um encontro virtual, conversamos a respeito e o Paulo topou. No outro dia mostrei a programação quase toda fechada, falamos com o Carsan que se juntou ao grupo e foi indicando outros pards que enriqueceram o evento.
No primeiro ano fizemos muitas matérias, lançamos dois podcasts, exposição virtual com artistas, exposição virtual do dia nacional do Tex, grandes pards como Adriano Rainho e Ricardo Elesbão, muitos cosplayers se vestindo em uma live que foi uma festa, uma reunião de fãs que foi assistida por gente de todo o Brasil e do mundo. Foi o maior evento virtual dedicado ao personagem no mundo.
Este ano será um evento mais enxuto, mas feito com muita paixão pelo personagem. No dia 30 teremos muitas postagens surpresas no blog do Coletive e à noite novamente uma live com sorteio de brindes, e para concorrer aos brindes tem que estar de olho no que foi publicado no blog durante o dia.
No próximo ano será maior, se tudo der certo como falei, será com programação presencial e online, tudo feito com muito amor para este personagem que tanto nos cativa.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Jorginho: Eu sou otimista e esperançoso, pois os fãs de Tex renovam sempre. Claro que é necessário trabalhar na formação de novos leitores, na fidelização daqueles que o herói já possui.
Acho o trabalho que a Mythos faz com o personagem aqui no Brasil fantástico, mas por exemplo não terminaria o Tex Coleção no número 509, eu prepararia uma edição com mais páginas para um derradeiro número 510. Nele, além de uma aventura completa, colocaria depoimentos de leitores falando sobre a importância que a revista Tex Coleção teve para eles, colocaria um pôster, tornaria a edição um marco de colecionador. Assim, fideliza mais o personagem com o leitor/colecionador. Também muitos fãs com quem eu falo me comentam sobre o tão sonhado álbum de figurinhas, isso atrairia novos leitores e realizaria o sonho de muita gente.
Acho que enquanto houver Banda Desenhada, vai haver quadrinhos de Tex, espero que surjam novos roteiristas, novos artistas para sempre dar o ar de vitalidade que um personagem precisa para continuar existindo de forma relevante para seu público.
Ao responder esta entrevista quero relatar que me deu saudades dos “Homenzinhos de papel” do Tex que eu criei, dos fundos da minha antiga casa onde uma vassoura virou o cavalo de um jovem cowboy, da minha mãe trazendo gibis usados da banca de revistas e do meu falecido pai olhando faroeste na TV.
Viva Tex Willer!

Prezado pard Jorginho, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

9 Comentários

  1. Excelente entrevista amigo Jorginho. Gostei muito de conhecer essas histórias contadas aqui, pois só as conheceria um dia, talvez.
    Como vimos, você é muito preparado. Acrescento que vem se tornando o nome ideal para fazer a melhor divulgação de Tex nos próximos tempos e tomara que leve essa incumbência à frente, pois o Coletive Arts é muito bom e tem enorme credibilidade.
    Ótimo ensinamento para se fechar uma coleção. Quem sabe será utilizado doravante. Mas espero que demore muito acontecer.
    Por fim quero desejar grande sucesso e performance no evento Cavalgando com Tex em sua segunda edição. Estaremos juntos no dia 30. Obrigado pelo convite e até lá. G. G. Carsan

  2. Espetacular entrevista Pard Jorginho, muito interessante mesmo, fico imaginando como conheci Tex, e vejo como vc conheceu também, é sensacional, parabéns por tudo, e pela oportunidade do seu blog sempre apoiar nosso cawboy eterno.

  3. Pard Jorginho: que satisfação enorme ler esta sua entrevista! Quantas histórias de vida por demais interessantes, que riqueza os seus encontros com Tex, que amigo plural nós temos. Admiração minha que agora só cresceu por conhecer mais um pouco da sua trajetória, trabalhos e paixões. Como já te falei desde as primeiras ideias que trocamos, será sensacional o dia em que eu puder conhecê-lo pessoalmente e trocarmos um fraterno abraço texiano. Longa vida para suas obras e ações frente à Coletive Arts. Valeu pard Zeca e Tex Willer Blog, e um viva para nosso amado ranger em mais um mês de seu aniversário, aquele que nos reúne e que sempre nos proporciona momentos e pessoas especiais como nosso pard Jorginho!

    • Pô Rodrigo, esperando para termos um evento presencial para podermos nos encontrar! Viva Tex Willler!

  4. Obrigado Zeca pelo espaço, muito honrado em estar participando do maior blog dedicado a Tex e a Sergio Bonelli!
    Obrigado mesmo!

  5. Gosto de ler estes relatos de como as pessoas chegaram em Tex, e a influência dos personagem em seu cotidiano.
    E sou solidário a você, amigo e colega Jorge, nas vacas magras nos anos 80 começo de 90, vendi minhas coleções de HQs, incluindo Tex. Hoje tenho poucos Tex. Mas retomando o caminho, já que prefiro Tex em formato italiano e os gigantes, os formatinhos deixei pra trás.
    Mas tenho 13 Tex gigante, Graphic Novel do 1 ao 11 (as que saíram no Brasil). 4 Tex Willer, 1 Tex capa dura (A Cruz Trágica), e 8 Tex Edição Especial Colorida. E 1 Tex Gold Salvat.

  6. Jorginho, tudo bem?
    Parabéns pela entrevista, poderia me avisar do próximo evento que realizar, meu pai foi super fã e leitor do Tex (temos guardado uma coleção completa dele de quase 1.700 exemplares), infelizmente ele veio a falecer este ano. Estou aos poucos me conectando com fãs como ele e eu queria poder participar de algum evento sobre o TEX. Ele como bom Texiano participou de alguns eventos anteriores.

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