Entrevista com o fã e coleccionador: Kael Thomas Ladislau

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Kael Thomas Ladislau: Sou Kael Thomas Ladislau, tenho 26 anos. Nasci no norte do Estado brasileiro do Espírito Santo, na cidade de Linhares, onde morei até os 21 anos, quando a deixei para fazer faculdade de Comunicação Social – Jornalismo, na Universidade Federal da cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Actualmente sou Analista de Comunicação Social nessa mesma cidade. Pretendo seguir na área de cultura popular, apesar de gostar muito de jornalismo desportivo.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Kael Thomas Ladislau: Com seis anos, comecei a receber histórias da “Turma da Mônica”, da Maurício de Souza, algumas revistas da Disney e posteriormente da Marvel, tudo de meu tio-padrinho Matuzalem Ladislau, que morava na capital do Estado (Vitória). Sempre lia compulsivamente, apesar da idade. Meus pais, Sheyla e Márcio, sempre me fizeram ler muito. Segundo ela, por esse facto, lia antes mesmo de entrar na pré-escola, por ter curiosidade de saber o que estava dentro do balão, rsrs.

Quando descobriu Tex?
Kael Thomas Ladislau: Esse tio, quando eu tinha oito anos (se não me engano) começou a me mandar algumas histórias em p/b: Tex. Ele comprava mensalmente e quando ia visitar meus avós na cidade onde morava, trazia-me as que ele tinha comprado entre uma visita e outra (por isso, nunca sofri em ter que esperar o outro mês para saber a conclusão de uma história, rsrs). Em sua infância, ele também a coleccionava. Então também me presenteava com edições antigas da editora Vecchi e os primeiros números da Globo. Foi viciante. Em dias de chuvas, eu lia o que conseguia ler. Quando estava muito empenhado focado na história eu deixava de brincar na rua com os meus amigos para continuar lendo…

Porquê esta paixão por Tex?
Kael Thomas Ladislau: Tex fez parte de meu imaginário na infância e adolescência. Passava horas lendo as histórias, imaginando-me no velho Oeste. Quando não tinha mais para ler, fazia a contabilidade de minha colecção: quem era o desenhador com mais presença nas histórias, o que escreveu mais. Lia pedaços de história que eu não tinha a conclusão, os correios da época…
Depois que entrei na faculdade, deixei de receber as revistas e como sempre ficava “apertado” financeiramente, não comprava as revistas. Fiquei todo o período académico sem ler muito, só mesmo algumas edições com histórias completas que eu não havia lido ainda. Mas ainda assim, muito pouco.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Kael Thomas Ladislau: Sempre achava os heróis muito fantasiosos, fantásticos demais, fora de realidade. Tex, apesar de toda ficção existente, é mais próximo do real, sem identidade secreta. É temido por ser ele mesmo.
O senso de humor, as aventuras… os desenhos são, para mim, o ponto alto da publicação!

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Kael Thomas Ladislau: Minha colecção era de cerca de 300 revistas! Tinha de todas as épocas: Vecchi, Globo e Mythos! Possuía grande parte da colecção normal, assim como todas as gigantes até o ano de 2009 e as Almanaques Tex até esse mesmo ano. Algumas Tex Ouro, Edições Históricas e as coloridas da época da Globo.
Infelizmente tenho que dizer tudo no passado: nestas últimas férias de final de ano, fui procurar a minha colecção e não a achei. Explico: meus pais são divorciados e depois que fui para a faculdade, deixei a minha colecção sob responsabilidade de meu pai. Minha colecção ficou guardada no meu antigo guarda-roupas e depois que sai de casa, guardada em caixa.
Porém, neste último ano, o meu pai precisou se ausentar de casa por cerca de oito meses e nesse tempo a casa ficou sozinha. Alguns parentes resolveram então fazer uma faxina na casa, pois temiam por insectos e ratos atraídos pelos papéis das revistas e assim se desfizeram da caixa em que estava a colecção. Fiquei desolado quando descobri. Não achei nenhuma revista!
Infelizmente, toda minha colecção de Tex com alguns números da década de 1970 estava desaparecida. Além dela, possuía a colecção “História do Oeste” da Record quase completa, além de alguns números da “Epopeia Tri”, a primeira dessa colecção de Sergio Tarquinio e Gino D’Antonio lançada pela Ebal. Possuía a rara “Almanaque do Faroeste”, da Globo, com a história “Caçador de Índios” com a primeira história de Andrea Venturi para o nosso Tex.
Foi uma perda lamentável, que agora estou disposto a recuperar a partir de 2014. Algumas pessoas se sensibilizaram e me presentearam com algumas edições avulsas em suas casas. Agradeço aqui a elas por isso, principalmente a minha mãe, que “achou” essas pessoas, rsrs.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Kael Thomas Ladislau: Como disse, minha colecção ia além de Tex. Possuía a colecção quase completa da “Epopeia Tri” da Ebal e sua republicação “A História do Oeste” pela Record. Possuía alguns números de Ken Parker, mas sinceramente não gostava muito.

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Kael Thomas Ladislau: Onde morava, em Linhares no Espírito Santo, nunca chegavam com frequência as revistas, tampouco outros artigos. Por isso, minha colecção limitava-se a revistas. Mas sempre tive curiosidade de saber mais do álbum de cromos (figurinhas) que a Vecchi lançou. Também gostava muito dos Tex Gigantes, que sempre traziam mais dos autores da história. Tem uma, que se não me engano é o que a Globo lançou “Tex, o Grande” que trazia tudo de Tex: seus inimigos, seus amigos, os pards principais… Sempre relia essas matérias que falavam mais do Ranger e talvez fossem elas as que eu gostava mais de possuir. Também gostava das revistas especiais de aniversário e as que fechavam 100, como a “Oklahoma!” especial 300.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia?
Kael Thomas Ladislau: Sem dúvida nenhuma: Guglielmo Lettèri é o meu desenhador favorito!! Não sei se por gostar muito de seus traços, a história favorita é dele: “Retorno a Pilares”, que hoje é a maior do Ranger. A trama é cheia de suspense que fica só para o final ser revelada. O que envolve com o Kit, a sede de Tex em resolver a questão. Os mistérios Astecas… pena não ter o Carson na história, mas o Montales o substitui à altura. Além de Lettèri, aprecio muito os traços de Ticci.
De argumentista nunca tive uma preferência fervorosa como tenho pelo desenhador. Mas as histórias de G. L. Bonelli sempre têm um toque mais clássico, mas faroeste nostálgico.  Boselli também conseguiu desenvolver grandes clássicos!! E Nolitta (S. Bonelli) tem clássicos que valem ser destacadas, como a própria “Retorno a Pilares” e uma que gosto muito também e que para mim é uma obra-prima tanto de argumento quanto aos desenhos derradeiros de Giolitti e de seu discípulo Ticci, que é a história “Massacre de Red Hill”. Para mim, sinceramente, é difícil dizer de qual argumentista prefiro mais, rsrs.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Kael Thomas Ladislau: O senso de justiça do Ranger é o que mais me agrada. Justamente por isso, as aventuras são desvendadas sempre punindo quem merece. Não há exageros como costumamos ver em aventuras de grandes heróis, com prédios destruídos, cidades em chamas. Creio que o Oeste tenha sido bem próximo do que é em Tex (mesmo que tenha alguma fantasia, como em casos de bruxos e entidades indígenas).
As histórias de Tex situadas em grandes centros nunca foram as minhas favoritas. E talvez seja isso o que menos me agrade nas histórias. Gosto do Tex das padrarias, não em meio a prédios do Leste rsrs.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Kael Thomas Ladislau: Creio que a Sergio Bonelli faz um trabalho fantástico para a permanência da vida da personagem. Estou vendo agora vários artistas fantásticos tomando a pena do Ranger. Essa continuidade faz a personagem crescer e ser o que é.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Kael Thomas Ladislau: Não, infelizmente. Mas creio que com esse acesso cada vez maior de informação pela Internet possa um dia a ir num encontro…

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Kael Thomas Ladislau: Como disse, o trabalho da Sergio Bonelli é fantástico. Assim como aqui no Brasil (e Portugal) com a Mythos. Por isso, vejo algo longínquo ainda.
Temi quando soube da morte de Sergio Bonelli. Achei que a publicação poderia ficar sem um norte, mas acho que isso não tenha acontecido. Esses grandes desenhadores surgindo, assim como a nova leva de roteiristas.
Os fãs também levarão longe. Vejo na Internet grandes fãs que estão dispostos a isso. Parabenizo a todos, e que esse trabalho seja levado a gerações por vir!
Vida Longa a Tex!!!

Prezado pard Kael Thomas Ladislau, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

12 Comentários

  1. Parabéns pela bela entrevista pard Kael!!
    Mas que coisa heim! Você deve ter ficado p da vida em perder sua coleção assim, nem quero pensar numa coisa dessa comigo, rsss. Mas o importante é não esmorecer e conquistar tudo novamente. Uma vez Texiano sempre Texiano!
    São pards como você que fazem a diferença.

  2. Ora viva…
    estava viajando e sem internet e só agora pude ver a entrevista com nosso amigo Kael x, vulgo super homem, prá não dizer o apelido verdadeiro… rsrsrs
    Parabéns.
    Gostei muito da entrevista, muito bem conduzida pelo Pard Zeca.
    Reforço as palavras do amigo Presidente do Fã Clube Tex Brasil, Jessé, você muito fez pelo clube e muito o fará ainda.
    Grande abraço e continue nos ajudando com o Fã Clube Tex Brasil sempre.
    José Leonardus, Presidente do Conselho Deliberativo do Fã Clube Tex Brasil.

  3. Grande Jessé!

    Espero ter contribuído sim! O Clube vai longe, certeza!

    Além da vantagem dos escalpos, tenho que assumir também que to muito mais bonito agora. Né não? haha

  4. Grande Kael, cara simples, humilde e que muito contribuiu para o crescimento do Clube Tex Brasil.
    Seu amor e fervor por esse grande personagem Tex Willer é muito bonito, e digno de exemplo a ser seguido.
    Parabéns por sua coleção e que ela cresça bastante, é uma pena que só sua coleção possa crescer porque sua cabeleira infelizmente já era, o lado bom é que você não pode ser escalpado pelos índios.
    Vida longa pard.
    Abraços e boa sorte com sua coleção.

  5. Rouxinol, com muita alegria li seu comentário. Mandei um email em particular a você! E já agradeço, imensamente!

    Por falar nisso, no meio tempo em que mandei a entrevista ao Zeca e a sua publicação, recebi o presente do pard Gege Carsan, e aproveito para agradecer novamente as cinco edições que me enviou!

    Jorge, certamente é uma perda que se repara fisicamente, mas confesso que a perda “sentimental” dificilmente será desfeita! hehe! De todo modo, minha leitura em Tex voltou a estar a mil!

    Abraços

  6. Mais uma bela entrevista, sem dúvida, e parabéns ao Kael pela sua faceta de leitor indefectível de Tex, apesar de ter ficado sem as suas antigas e preciosas revistas… mágoa essa que partilhamos, pois também vi, um dia, desaparecer grande parte das minhas colecções, que não pude trazer comigo, ao regressar de Angola. E que, mais tarde, tive de refazer, com grande paciência e sacrifício, porque os títulos mais antigos já atingiam altos preços no mercado. Nessa altura, ainda não coleccionava Tex, que chegara há pouco tempo a Portugal, senão a mágoa, provavelmente, teria sido ainda maior.
    O Kael também tem razão em não estar preocupado com o futuro do nosso Ranger, porque enquanto houver leitores jovens e entusiastas como ele a Sergio Bonelli não deixará de cumprir o seu papel, como tem vindo a fazer desde há décadas, sempre dentro de um sistema que encerra a “chave” do futuro: a evolução na continuidade.

  7. Valeu Zeca!

    O bom foi que as fotos compreendem a fase de minha “evolução” capilar! rsrsrs

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