Entrevista com a fã e coleccionadora: Fernanda Martins

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Fernanda MartinsPara começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Fernanda Martins: Eu nasci na cidade de São Luís, na ilha do mesmo nome, no estado do Maranhão, nordeste do Brasil. Actualmente moro na cidade de Leusden, na Holanda, já lá se fazem 10 anos. Sou formada em Jornalismo, mas somente exerci a profissão a nível de estágio curricular da Universidade. Actualmente exerço a função de oficial de finanças em uma fundação holandesa que trabalha com o que por aqui se chama “cooperação ao desenvolvimento”. Em poucas palavras, trabalhamos conjuntamente com organizações situadas em países do “Sul” através de  co-financiamento, intercâmbio de profissionais e tecnologia, lobby, etc.. Se tiverem interesse em dar uma olhada, o site é www.icco.nl.

Fernanda Martins e Dorival Vitor LopesQuando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Fernanda Martins: Isso remonta há muito tempo, desde que, mais ou menos aos 4 anos de idade, aprendi a ler. Comecei com Disney, Mônica e vários outros. Cheguei a desenhar algumas histórias em quadradinhos, usando os famosos “calungas” (desenhos tipo aqueles que se usa para brincar de “forca”). A paixão pelo western e Tex, em particular, foi um pouquinho mais tarde. O namorado da minha tia, gaúcho de origem, adorava os bolsilivros e filmes de western. Ele comprava nas bancas e depois de lidos trocava-os na própria banca, numa proporção de dois velhos por um novo. Eu devorava esses livros. Foi então que apareceu o Tex numero 1 no Brasil, com a flecha e o arco de plástico que trazia de brinde. Eu comprei e daí nunca mais larguei o Tex. Infelizmente não tenho mais esse número 1, pois na época não me preocupava em coleccionar a revista, apenas lia.

Fernanda Martins e seus Tex'sPorquê o Tex e não outra personagem?
Fernanda Martins: Boa pergunta. Gosto de vários outros personagens de BDs, de vários e diferentes estilos, como alguns super-heróis, tipo Demolidor, Batman, Homem-Aranha e alguns satíricos e irónicos, como Asterix e Calvin & Hobbes. Mas Tex tem algo diferente de todos esses. Tex tem humanidade. E é exactamente esse aspecto que me atrai no Tex. Além de ser um personagem do velho oeste que, como falei acima, teve uma influência muito grande no meu gosto literário. E principalmente são as histórias em que Tex se apresenta com características mais humanas, ou seja, fraquezas também, as que eu mais gosto.

O que Tex representa para si?
Fernanda Martins e Levi TrindadeFernanda Martins: Tex representa um ídolo, um herói sem ser super herói. E porque não dizer também um personagem que é um amigo e um homem muito atraente (pena que essa característica não seja bem aproveitada nas histórias). Principalmente pelos pontos positivos que o Tex tem: honestidade, sentido de justiça, lealdade com os amigos, espírito paterno protectivo em relação a Kit, firmeza, liderança, etc., mas também pelos pontos fracos, como medo quando os amigos ou o filho estão com problemas, sede de vingança, impaciência e às vezes (muitas vezes) até intolerância.

Qual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Bibliotex de Fernanda MartinsFernanda Martins: Hummm… tenho que contar mesmo? Não tenho nenhuma relação de todos os livros que tenho, mas posso adiantar que tenho a Edição Histórica e a Tex Ouro completas. A Tex “normal” faltam-me muitos números. A Tex Gigante e a Tex Anual faltam-me uns poucos números e por aí vai. E das estrangeiras faltam-me alguns países. Ah, tem a italiana colorida Tex Republicca que coleccionei somente até o número 50, muito embora ela continue após isso.
Eu não tenho uma revista que seja a mais importante, mas sim várias delas. Por exemplo, o meu Tex Mondadori capa dura porque foi um presente inesperado de um amigo. Um Tex alemão, outra surpresa. O livro especial do Civitelli, outra grande surpresa. Todos os livros que ganhei do meu grande amigo José Carlos Francisco, a quem considero como um irmão do coração, e todos os livros que ganhei por causa da “cara-de-pau” dele. E por aí vai. Todos os Tex que ganhei de pessoas queridas e especiais e que também me deram a honra de apor seus autógrafos são aqueles mais importantes para mim.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
José Carlos Francisco e Fernanda MartinsFernanda Martins: Basicamente eu colecciono os livros do Tex, principalmente as edições brasileiras do Tex. Fora a colecção normal, minha preferida é o Tex Gigante, não tanto pelas histórias quanto pelo facto de ter diferentes desenhadores em cada livro. E, desenhadores que em geral não fazem parte do selecto grupo de Tex. Depois dessa, adoro os Tex Anuais, estes sim, em geral pela história, mas também pelas capas.
Além disso tenho várias edições em diferentes línguas estrangeiras, alguns Tex especiais (que não são necessariamente histórias) e alguns objectos relacionados a Tex, como cópia do único filme feito com o personagem, selo, botons, quadros litográficos, um desenho feito especialmente para mim pelo Claudio Villa, etc.. A maioria dessas aquisições foram principalmente presentes de amigos muito especiais. Não saio correndo atrás desses itens, como um coleccionador faz. Quando não os ganho, espero até encontrá-los pelo meu caminho. E não pago absurdos por nenhum item.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Claudio Villa e Fernanda MartinsFernanda Martins: Citar uma história favorita entre tantas do Tex é tarefa realmente impossível. Gostei demais do “Homem que Veio do Rio” por causa do ar de romance que existiu entre Tex e Aline. Outra história fascinante foi “El Muerto” e também a história desenhada por Joe Kubert, “The Lonesome Rider” ou “Os Quatro Assassinos” que retrata bem as histórias de western que conheço.
O desenhador que mais gosto é Civitelli. Depois dele, mas logo depois, bem pertinho mesmo, vem o Claudio Villa. Este último além de ser um excelente desenhador também é uma pessoa muito agradável, extremamente simpática que eu adorei conhecer (só falta agora conhecer o Civitelli para ter minha opinião dele como pessoa).
Argumentista que gosto mesmo é o Boselli. Suas histórias são sempre excelentes, na minha opinião. O Civitelli quando se mete a escrever Tex faz histórias com enredos de alta qualidade. Não é por menos que uma das minhas favoritas é exactamente uma história escrita e desenhada por ele. Nizzi escreveu e escreve tantas histórias que várias terminam por ser também muito boas.

Fernanda Martins na BibliotexO que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Fernanda Martins: Esta é simples. O que me agrada mais em Tex, como já falei acima, é exactamente quando ele demonstra seu lado mais humano, ou seja, quando ele falha, quando ele sente medo, quando ele teme pela vida do seu filho, dos seus parceiros, quando fica melancólico. Aí ele chega perto de nós, simples mortais, e nós o sentimos como aquele amigo a quem também podemos confortar, que também precisa de nós. Infelizmente esse lado do Tex não é tanto explorado quanto eu gostaria.
O que me desagrada mesmo é exactamente o oposto, o Tex invencível, super-herói, que luta com seres extra-terrestres.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?
Desenhos de Claudio Villa e Fabio CivitelliFernanda Martins: Na minha opinião o Tex é ícone de duas gerações diferentes por duas características bem diferentes. Da minha geração para cima, ou seja, a geração dos “mais velhos”, dos que conhecem Tex há mais tempo, ele é ícone pela humanidade que possui e pela nobreza de seu carácter.
Já da minha geração para baixo, ou seja, os leitores que estão conhecendo o Tex agora, ele representa uma espécie de herói que luta contra os bandidos e está do lado dos mocinhos. É aquela figura implícita do Pai Herói, até porque grande parte desses leitores são influenciados a conhecer e até gostar do personagem através de seus pais.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Sergio Bonelli, Fernanda Martins e Gianni PetinoFernanda Martins: Eu acho que o Tex ainda vai continuar por muito tempo connosco, até porque a geração que o lê mais (pelo menos eu acho) é bem fiel e Tex já é consolidado em seu gosto. Entretanto, de uma maneira ou de outra, acho que daqui a alguns anos o Tex deve mudar um pouquinho. Como já mudou, desde o seu início para cá. Os roteiros são bem mais trabalhados, os desenhos são mais modernos, etc.. Qualquer mudança que aconteça não deve ser abrupta, no meu ponto de vista, mas que deve acontecer para o bem do personagem, deve acontecer sim.
Por exemplo, por não ser um super-herói eu acho que o Tex vai se tornar mais e mais humano e essa humanidade talvez seja à custa de mais violência nas histórias, como um reflexo da nossa realidade actual. Como uma contraposição a isso, acho que o Tex deveria tornar-se mais reflexivo, mais questionador dessa própria violência, e assim, continuar a ser o herói moralista que a geração que está surgindo tanto precisa.

Prezada pard Fernanda Martins, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
(Para aproveitar a extensão completa das fotografias acima, clique nas mesmas)

2 Comentários

  1. Como é bom ouvir o relato e as experiências de uma texiana, olha que não são muitas.
    E a nossa Fernanda, Nanda ou Nanda Kid é muito especial por ser presente, por ser inteligente e por ser texiana.
    Com sua visão cosmopolita e alta sensibilidade, suas experiências como escritora, consegue vislumbrar atos e fatos que na maioria das vezes nos passam ‘batidos’.
    E vendo a foto dela segurando e lendo uma revista, vai-se a ficção de que mulher não ler gibi.
    Parabéns para a nossa amiga e que continue texiana.
    Abraços

  2. Belíssima entrevista, divulgada com destaque no TexBR. Parabéns, Nanda!

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