CRONOLOGIA ESSENCIAL DE TEX – Década de 60

Outubro de 1961 – Os primeiros exemplares da série Navajo, apresentavam a história “Sangue Navajo” que implica a exploração de temáticas que teriam grande peso no decurso da série, ao menos durante toda a fase em que Gianluigi Bonelli foi o seu escritor: as relações de Tex com as instituições militares e o seu posicionamento nos conflitos entre os Navajos e o homem branco. Nesta história, Tex terá que fazer frente a um demente coronel do exército, quando os viajantes de um comboio começam a disparar contra uns jovens índios, que correm pacificamente junto à via e estes respondem ao fogo, gerando um conflito de graves proporções. Mas para além da história propriamente dita o que o episódio põe em manifesto é, por um lado a conflituosa relação que Tex sempre manteve com o exército, e por outro, o facto de que quando imerso em conflitos como os descritos, sempre prevalece o seu papel como chefe dos Navajos frente a qualquer outro.

Tex e o Coronel
Não se pode dizer que a visão de Gianluigi Bonelli das instituições militares seja demasiado favorável, mostrando sempre uma forte crítica frente aos altos quadros militares. Curiosamente, tanto nesta história como em muitas outras, será a imprensa quem terá de se erigir em defensora da verdade, pese os riscos que isso implicava a quem realizasse esse labor.

Dezembro de 1964 – A história “Agguato tra le rocce”, publicada nos números 25 a 30 da série Nebraska, traz o primeiro trabalho de Guglielmo Leterri na série. Letteri não foi o primeiro desenhador, aparte do seu criador, que desenhou Tex – Galep já tinha sido auxiliado ou substituído esporadicamente por desenhadores como Guido Zamperoni, Mario Uggeri, Lino Jeva ou Francesco Gamba – porém foi o primeiro com um grande peso específico posterior. Nascido em Roma em 1926, Letteri começou a sua carreira no mundo da banda desenhada na Argentina, lugar para onde havia emigrado em 1948. Depois de regressar ao seu país natal passa a fazer parte do grupo de desenhadores do staff, onde se manteve até ao seu falecimento em 2006.

Depois de Galep, Letteri foi o autor que mais páginas desenhou de Águia da Noite. Inclusive foi o criador gráfico de El Morisco, um egípcio estudioso de temas ocultos que reside no México. Letteri era um desenhador de traço clássico, influenciado como Galep, pelos grandes autores americanos – Raymond e Foster, principalmente – mas sem a chispa expressionista que tinha o criador gráfico da personagem. Pese tudo isto, Letteri foi um ilustrador sólido, com uma grande dinâmica narrativa – influência da sua formação na escola argentina – e que tanto em finais dos anos 60 como durante toda a década de 70 realizou sagas memoráveis na colecção, como El Morisco e Diablero.

Maio de 1966 – É publicado “Il passato di Tex”; uma das histórias mais aguardadas pelos seguidores do ranger, que vê a luz no número 24 da série Cobra e que não podia ser assinada por ninguém mais que os criadores da série. Tex decide contar a seu filho e a Jack Tigre a história mais bem guardada do seu passado: o motivo porque ele chegou a ter a sua cabeça a prémio. Na sua juventude Tex vivia no rancho do seu pai, no sul do Texas, porém o assassinato do pai por uma quadrilha de ladrões de gado, fará com que Tex persiga estes até ao outro lado da fronteira do México, acompanhado pelo seu mentor Gunny Bill. Tex encontrará numa cantina, os assassinos do seu pai, gerando-se então um tiroteio, que por sua vez fará com que os Rurales do México persigam Tex e Gunny, que terminará com o falecimento deste último.

No regresso a casa, Tex cederá a sua parte do rancho a seu irmão e abandonará a região devido aos problemas com a justiça. Entretanto, depois de um período em que fará parte de um espectáculo de rodeio itinerante, deverá voltar para esclarecer a morte do seu irmão. A resolução do assassinato do seu irmão não fará mais que aumentar os problemas de Tex com a justiça: o que explica a situação em que encontramos o protagonista no primeiro quadradinho da saga de Tex.

Arte de Giovanni TexJaneiro de 1967 – Os cinco primeiros episódios da série Rodeo – última das séries das striscias semanais – trazem a chegada à série de Giovanni Ticci, com ele que, junto com Galep e Letteri, se completa o triunvirato de desenhadores principais da personagem. Giovanni Ticci nasce em Siena em 1940, começando a sua carreira no mundo da banda desenhada somente com 16 anos, idade em que entrou no estúdio do desenhador Rinaldo Dami. Dois anos mais tarde colabora com Franco Bignotti em “Un ragazzo nel Far West“, primeiro trabalho escrito por Guido Nolitta – pseudónimo usado por Sergio Bonelli, no seu trabalho como argumentista -. “Judok”, série de ficção científica, encerrada em 1963 e escrita por Gianluigi Bonelli, provoca um dos seus primeiros êxitos e possibilita a sua entrada no restrito grupo de desenhadores de Tex. Desde então Ticci centrou a quase totalidade da sua produção nesta série, assim como no seu trabalho de ilustrador – quase sempre relativo ao mundo do Faroeste–.

A principal qualidade de Giovanni Ticci é a de ser o único desenhador que conseguiu criar um modelo próprio dentro do conceito gráfico da personagem, aparte do de Galep. A diferenciá-lo do resto dos desenhadores que seguiram a esteira do criador da série, Ticci desde o primeiro momento foi impondo um estilo notoriamente diferencial, que com o passar do tempo, o seguiram alguns dos novos ilustradores da série; podemos inclusive dizer que o modelo derivado de Ticci é tão importante como o do próprio Galleppini. Ticci é hoje em dia o desenhador de referência da personagem e um dos maiores autores que deu o mundo da banda desenhada italiana.

Setembro de 1968 – O número 95 da série mensal traz a publicação do primeiro trabalho inédito dentro da colecção em formato livro. Curiosamente a primeira história realizada expressamente para o novo formato era de Letteri e não de Galep. A diferenciar o quase monopólio que o criador gráfico da personagem levou a cabo na colecção semanal em formato de tiras, durante os primeiros anos do novo formato, Galep repartia o trabalho com Giovanni Ticci, Erio Nicolò e, sobretudo, Guglielmo Letteri.

Dezembro de 1968 – Pela primeira e única vez, Tex é vencido num duelo de revólveres. Tal sucede na história “La sconfitta” que começa no número 98. Sergio Bonelli foi quem sugeriu a seu pai a ideia de realizar uma história na qual Tex saísse derrotado. A história começa quando Tex e Carson chegam à cidade de Silver Bell para descobrir que a povoação se encontra atemorizada ante as actuações dos homens do cacique local. Quando os protagonistas ajudam o xerife a impor a ordem, o manda-chuva contrata os serviços do pistoleiro Ruby Scott, que será quem vencerá Tex num duelo, utilizando para isso um coldre adulterado. Logicamente a coisa não fica assim, e Tex, pese estar ferido e ter o braço direito inutilizado, voltará a defrontar o pistoleiro utilizando a mão esquerda. Ao já conhecer o truque usado por Ruby, o resultado só pode ser a vitória de Tex.

Ruby Scott derrota Tex

Fevereiro de 1969 – É publicado o número 100 da série mensal, primeira revista a cores da personagem. A partir desse momento, todos os múltiplos da centena na série consistirão em um episódio especial a cores. Galep será o ilustrador de todos eles, excepto do número 500, desenhado por Ticci, sendo os três primeiros destes especiais escritos por Gianluigi Bonelli, enquanto Claudio Nizzi fará o mesmo com os dois seguintes.

Il GiuramentoJunho de 1969 – O número 104 traz o arranque de “Il Giuramento”, outra das histórias não contadas do passado da personagem Tex. Nessa ocasião Gianluigi Bonelli e Galep nos oferecem os acontecimentos relacionados com a morte de Lilyth, através do relato que Tex faz a Kit sobre o falecimento da sua mãe. O que Kit Willer e os leitores descobrem é que a epidemia de varíola assolou a tribo de Flecha Vermelha, não se propagou por causas naturais. Devido a isso, Tex e Jack Tigre procederiam a uma perseguição implacável aos responsáveis pelas mortes, que desgraçadamente não puderam completar ao escapar um dos responsáveis.

A razão pela qual Tex decide contar nesse momento a história a seu filho, é porque finalmente, depois de mais de vinte anos, e de forma quase acidental, deram com a pista daquele indivíduo, o que permitirá a Tex cumprir o juramento que realizou sobre a tumba da esposa.

7 Comentários

  1. Yudae, o primeiro trabalho de Nicolò não foi mesmo comentado neste artigo, porque não pretendemos fazer uma cronologia completa, senão teríamos que falar também dos primeiros trabalhos de Gamba, Muzzi, Zamperoni, Uggeri, Jeva, Raschitelli e todos que se seguiram…
    E quer queiramos ou não, Nicolò não teve uma importância tão grande na saga como tiveram Letteri e Ticci, mas o Nicolò teve a sua primeira história (Dramma nella prateria) concluída pelo Galep e como isso aconteceu 5 anos antes da segunda (quando entrou definitivamente para o staff), daí achar natural não estar na cronologia, até porque ela já está extensa e por isso dividida por décadas.

  2. Imaginei que não era completa mesmo. Mas fiz a pergunta por considerar o Nicolò um desenhista importante.

  3. Sobre a história em que Lilyth falece vítimada pela contaminação de varíola, como sendo a vingança da dupla Brenam & Teller, que mandaram uma carga de cobertores. Sendo a vingança devido ao momento em que Tex desmantelou o tráfico de armas da velha Bessie que negociava como os índios Navajos e Pés Pretos, a mesma comprava armas dessa dupla inescrupulosa, o que importava era somente o lucro. Após Tex destruir o tráfico com o auxílio de Kit Carson, dirigiram-se a Denver onde Tex se desligou do corpo dos Rangers devido a forma como foi conduzida a investigação e também após ter dado umas bordoadas em um comandante dos Rangers.

  4. Antonio Aldi Brilhante, parabéns pelo excelente complemento ao texto no que a essa história se refere.

  5. Matéria sensacional! Muito esclarecedora sobre a publicação de Tex, como nenhuma outra que eu tenha visto. Agora tenho uma dúvida: se a série de “striscias” foi encerrada em 1967 e a série “Tex” que compilava as tiras só passou a ter histórias originais em 1968, então os leitores italianos passaram cerca de um ano tendo apenas republicaçõesde Tex? Grato pela atenção!

    • É verdade, prezado Leandro Nogueira,
      Durante algum tempo os leitores italianos não tiveram à disposição histórias inéditas de Tex, porque somente no número 95 de Tex, página 34, é que começaram a publicar novamente histórias inéditas do Ranger!

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