As Leituras do Pedro – Le Storie: Sangue e gelo

As Leituras do Pedro*

Le Storie: Sangue e Gelo
Colecção Bonelli #5
Tito Faraci
(argumento)

Pasquale Frisenda
(desenho)
Levoir/Público
Portugal
, 10 de Maio de 2018
190 x 260 mm, 120 p., pb/cor capa dura
13,90 €

Estigmas

Por vezes há obras, séries, autores que, aos olhos de um leitor – de um grupo de leitores – ficam estigmatizados. As razões nem sempre são fáceis de explicar, raramente o bom senso e o sentido crítico imperam e, dessa forma, perdem-se – no que a este blog interessa – boas leituras.

Foi o caso, durante muitos anos, das produções da Sergio Bonelli Editore, em Portugal.

Li os meus primeiros Tex em meados da adolescência. Equiparei-os, na altura, às muitas edições – belos tempos! – que pululavam nos quiosques e bancas portuguesas.

Havia diferenças? Algumas… A língua brasileira – o que na época estava longe de ser um impedimento, porque todos liam as revistas Disney e da Turma da Mônica nessa língua, bem como as muitas edições ‘similares’ (Luluzinha, Pantera Cor-de-Rosa, Riquinho, Hanna Barbera… que cá chegavam; as edições mais encorpadas – 100 páginas contras as habituais 32 ou 40 das revistas portuguesas; o pequeno formato; o (mau) papel de jornal – comparado com o alvo branco das edições nacionais (algumas e dependendo das épocas…)

E quando se comparavam estas edições (da Globo, da Record, da Vecchi, mais tarde da Mythos…) com a colorida e ‘enorme’ Tintin ou mesmo com o heterogéneo Mundo de Aventuras, compreende-se que Tex e os seus pards ficavam a perder.

Por isto – por tudo isto – durante anos, Tex, primeiro, e depois as restantes sériesMartin Mystère, Dylan Dog, Mister NO, Nick Raider… tudo o que tinha proveniência Bonelli – ficaram estigmatizadas, com uma aura negativa que me impediu de aproximar delas durante anos – até porque entretanto o ‘império’ dos álbuns dava os primeiros passos (firmes) e aí, as diferenças eram ainda mais profundas.

Dessa forma, perdi boas histórias, uma qualidade média assinalável para séries de produção mensal e, principalmente, passei ao lado de muito bons desenhadores.

Esta situação que eu vivenciei, foi certamente partilhada por muitos, não só em Portugal, mas um pouco por toda a Europa.

Dar-lhe a volta, foi afinal muito simples. Bastou que as mesmíssimas obras passassem a ser editadas em boas edições de maior formato, com capa dura, papel branco de boa gramagem, às vezes coloridas. Na prática, retirou-se-lhes a simpática e atractiva adjectivação de ‘populares’ para passarem a ser edições de livraria. Ganharam novo público – deslumbraram muitos dos leitores que já eram fiéis – foram descobertas e elogiadas por aqueles que as ostracizaram tanto tempo, passaram a gozar do estatuto que a forma impedira o conteúdo de gozar.

Para além do implícito mea culpa – reconhecendo que o maior perdedor fui eu… – a que propósito vem este texto, que para mais ‘repete’ uma leitura aqui no blog?

Exactamente porque repeti recentemente essa leitura, estas linhas são apenas uma chamada de atenção para que este tipo de estigmas – que alguns ainda mantêm – não impeçam ninguém de desfrutar de Sangue e Gelo, um dos volumes da (muito aconselhável) série Le Storie, pelo facto de ter sido incluído na colecção Bonelli que a Levoir e o Público (muito bem) propuseram há uns quantos anos. Em boas edições, de maior formato, com capa dura, papel branco de boa gramagem, às vezes coloridas…

Porque, sem repetir o que escrevi na altura e convido a (re)lerem, Sangue e Gelo é uma belíssima banda desenhada fantástica e de terror, em fundo histórico, muito bem narrada – numa interessante cumplicidade entre o narrador e os leitores – e melhor desenhada numa ampla paleta de tons de cinza aguados, nos quais as aplicações pontuais de uma cor – o vermelho vivo – fazem uma enorme diferença.

Neste caso – como em muitos outros – o conselho só pode ser um: ignorem os estigmas, ultrapassem os preconceitos. O leitor que há em cada um, vai agradecer.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. Ótima leitura. Trabalho formidável tanto no roteiro quanto nos desenhos.
    Zeca, uma dúvida: não tenho visto histórias assinadas por Tito Faraci nas publicações mais recentes de Tex. Desatenção minha ou ele tem estado sumido da redação do ranger?

    • Prezado pard Luciano, de facto o Tito Faraci tem andado afastado de Tex… aliás só há uma história dele em produção que nem se sabe quando será publicada porque quem está a desenhar é o Horacio Altuna e de momento na redacção da Bonelli nem sabem quando é que a história será finalizada, isto se o Horacio Altuna acabar de a desenhar porque há quem vaticine que não a concluirá…

      • Grato pelo esclarecimento, Zeca. Fico na torcida para que Faraci retorne à redação texiana. Gosto muito das histórias dele.

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