As Leituras do Pedro – Deadwood Dick: Black Hat Jack

As Leituras do Pedro*

Deadwood Dick: Black Hat Jack
Baseado na novela Hide & Horns, de Joe R. Lansdale
Mauro Boselli (argumento)
Stefano Andreucci (desenho)
Panini Comics
Espanha, 22 de Abril de 2021
195 x 259 mm, 200 p., pb, capa dura
ISBN: 9788413348728
22,00 €

E agora algo (não) completamente diferente…

Tenho Deadwood Jack como um dos melhores westerns que li nos últimos anos. E podem ter a certeza que têm sido muitos – e bons! – os westerns que tenho lido.

As principais razões? A cor negra do protagonista e o humor – também negro – que pontua os relato.

Neste terceiro volume, encontrei algo diferente. Mas igualmente muito aconselhável.

A diferença, principal – até porque a o tom da pele de Dick não poderia ser mudado – é a ausência quase completa do humor que distinguia os volumes anteriores. Há um apontamento aqui e ali, mas a verdade é que esta terceira adaptação das novelas do escritor norte-americano Joe R. Lansdale assume – assume mesmo – um tom mais introspectivo e sério, na recriação da segunda batalha – real! – de Adobe Walls, um pequeno posto avançado em que duas dezenas de caçadores de búfalos repeliram um ataque de centenas de guerreiros comanches, cheyennes, kiowas e arapahoes.

Estando o resumo feito, alguns poderão perguntar o que pode ter de especial um relato em que – previsível e realmente – há diversos tiroteios, muitos mortos – especialmente entre os índios – e uns quantos gestos heróicos. Mas isto tudo soa, sem dúvida, de forma mais próxima do leitor pela consciência que está a assistir ao relato – embora ficcionado – de um confronto que aconteceu realmente e, sobretudo, pela forma como Black Hat Jack está narrado.

Ou seja, pela forma como Boselli, com mestria, coordena os pensamentos de Deadwood Dick com a acção, com esta, mais do que uma vez a interromper aqueles, com um efeito realista assinalável, pela forma como doseia momentos mais calmos com os picos de acção indispensáveis num relato sobre um assédio, ou, ainda, pela forma como desenvolve a narrativa para lá da batalha em si – que termina a dois terços do livro – aumentando o tom humano que – para surpresa de alguns – perpassa por um relato western recheado de confrontos e cenas movimentadas, para isso contribuindo também a adição de uma personagem feminina forte e de carácter bem definido, como é o caso de Millie…

Para além disto, embora de forma mais discreta do que nos relatos anteriores – mas com um imenso peso no final – o tom de pele do (co-)protagonista continua a fazer-se ver, continua a ser um obstáculo para muitos, sendo que a forma de estar, pensar e reagir destes nos mostra como o racismo – puro e duro – está há tantas décadas inserido no ADN norte-americano – com os efeitos que ainda hoje se sentem…

Este volume, tal como o anterior, brilha igualmente porque a arte de Stefano Andreucci é apresentada ao leitor no imaculado branco e negro com que o autor a plasmou no papel, sem a adição da cor.

Exemplo explícito da elevada qualidade gráfica de grande parte das edições da Sergio Bonelli Editore, este terceiro tomo de Deadwood Dick apresenta tudo que um western deve ter: cenários selvagens credíveis, rigorosa reconstituição de época – vestuário, armamento, usos, costumes (crua e violentamente mostrados)… – , seres humanos e cavalos anatomicamente perfeitos e um dinamismo narrativo que explode nas frequentes vinhetas que ‘dinamitam’ o modelo clássico Bonelli de 2 vinhetas x 3 tiras.

Veja-se, a título de exemplo, as várias cenas de conjunto que representam os ataques dos pele-vermelhas ao pequeno posto defendido pelos brancos e, especialmente, a dupla – sim, leram bem! – página que em enquadramentos frontais e opostos, nos mostra os defensores tensos e angustiados face aos excitados atacantes, poucos instantes antes do rebentar das hostilidades, num dupla cena muito poderosa.

Nota final

O volume, como tem sido hábito, conclui com um dossier de 12 páginas que inclui uma entrevista com o romancista norte-americano, centrada especialmente nesta novela, profusamente ilustrado com artes preparatória de Andreucci.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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