“A minha história favorita (de Tex)”, na opinião do editor Dorival Vitor Lopes

Por Dorival Vitor Lopes*

Talvez seja exagero meu, mas creio que uma das tarefas mais difíceis neste mundo é escolher a melhor história de Tex. Claro que cada texiano deve ter a sua, escolhida pelas mais diferentes motivações, mas se alguém tentar fazer uma escolha consciente, motivada por análise fria do roteiro e do desenho é muito difícil escolher uma só. Afinal, são 67 anos de vida editorial, mais de 500 aventuras, que ocupam cerca de noventa mil páginas. Muitos leitores têm essa curiosidade de saber qual seria a melhor aventura de Tex. Até já me pediram para promover uma votação entre os fãs do ranger para ver se é possível pinçar uma única aventura, aquela que seria “A” história de Tex. Mas como poucos texianos se manifestaram indicando suas preferidas, ainda não tive votos suficientes para fazer uma escolha confiável. Como editor de Tex creio que já li todas as suas aventuras – até mais de uma vez –, mas para escolher uma só talvez eu tenha que repassar todas as histórias, e mesmo assim não sei se conseguiria. Fazer uma lista das dez ou vinte mais interessantes é bem mais fácil, mas eu gostaria de chegar na obra-prima definitiva e incontestável, na Mona Lisa das histórias aos quadradinhos do nosso ranger.

Tex atua em diversos terrenos e regiões: nas pradarias e montanhas do sudoeste americano, no norte do México, nas geladas terras do Canadá, nas grandes cidades do Leste, como Boston e Washington, nas do Oeste como São Francisco, nas do Sul como Nova Orleans. Dessas, histórias que sempre me agradam muito são as passadas no Canadá. Na chamada última fronteira, com seus bons amigos Jim Brandon e Gros-Jean, Tex e seus parceiros sempre viveram grandes e emocionantes aventuras. Numa lista das mais-mais, essas aventuras geladas certamente estariam presentes.

Mas enquanto eu não crio coragem para iniciar essa árdua tarefa, duas aventuras me vêm à mente sem precisar puxar muito pela memória. Uma delas é O Vale do Terror, de Nizzi e Magnus. Quando a li pela primeira vez, há quase vinte anos, ela me impressionou tanto que, mesmo depois de ler mais algumas dezenas de aventuras, ela sempre continuava na minha memória como a mais incrível. Nem tanto pela absurdamente detalhada arte de Magnus, mas principalmente pela história da criação e desenvolvimento da Califórnia, que Nizzi pesquisou e usou com tanta competência. Então essa seria a minha Mona Lisa? Talvez, se depois eu não tivesse lido a história O Resgate de Montales, uma história nem tão longa – 118 páginas, mas onde acontece tanta coisa que daria para contá-la em trezentas páginas sem encher linguiça.

O resgate de Montales

Essa história é do comecinho da aventurosa carreira de Tex, quando seu criador, G. L. Bonelli, usava a máquina de escrever como uma metralhadora giratória que disparava balas sem parar e sem nunca errar o alvo. Era um tempo em que as histórias não tinham título, nem começo, nem fim, pois mal Tex saía de uma confusão e já entrava em outra, sem tempo para respirar. Com desenhos de Mestre Galep, nessa história nosso herói se vê envolvido em uma briga de bar, em um duelo na rua principal e, traído por uma bailarina de saloon, tem que enfrentar uma patrulha de soldados mexicanos. Quando ele acha que vai ter um instante para descansar, encontra Lupe Velasco, uma linda jovem mexicana que está fugindo de seu prepotente e violento patrão. Claro que o herói fora da lei terá que enfrentar a fúria do homem e de seus guarda-costas. Em seguida, na trilha para salvar Montales, Tex alia-se sem querer ao desperado El Fierro e, quando é traído por este, mais tiroteios e fugas desesperadas, agora acompanhado de Lupe, que se revela uma corajosa e leal aliada, e de Drigo, um seguidor de Montales. Mais algumas peripécias na cidade, fuga em um trem desgovernado, e o trio parte para a Ilha Tiburón, onde Montales está preso. Porém, como nada é fácil, eles são traídos pelo capitão do navio e vão parar nas gaiolas de uma tribo de selvagens que querem vendê-los como escravos. Tudo isso nas primeiras 40 páginas da história. E como não quero estragar as surpresas e as emoções de quem vai ler ou reler essa história, não contarei mais nada. A esses ávidos leitores eu lembro que essa história saiu pela Mythos em Os Grandes Clássicos de Tex nr. 20 e em Tex em Cores 4 (a partir da página 197) e no início do 5.

Pois bem, amigos texianos portugueses e brasileiros, enquanto eu não fizer aquela famosa revisão de toda a coleção, eu afirmo para vocês que essa é a melhor aventura de Tex que já li. A história chamada “O Resgate de Montales”, mas que poderia se chamar “a aventura em que Tex encontrou aquela que deveria ter sido sua eterna companheira”. Nunca haverá outra mulher como Lupe Velasco. Hasta la vista.

Lupe Velasco e o pedido de casamento a… Tex!

* Texto publicado originalmente na Revista nº 3 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2015.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

2 Comentários

  1. Eu gosto muito do Tex Gigante do Villa, mas a estória que mais gosto de Tex são aquelas da dupla Boselli e Marcello. Foram poucas mas excelentes, sendo Os Sete Assassinos a minha preferida.

  2. Impossível escolher somente uma, e cada história mexe com o leitor de uma forma diferente, em uma época diferente da vida. Um caminho seria investigar o número de releituras de uma história, ficaria fácil descobrir se ela estaria numa lista mais “enxuta” de preferidas. Neste caso Patagônia, El Muerto, Tex, o Grande, A Grande Invasão e A Tragédia do Trem 809 com certeza estariam entre as minhas! Já perdi as contas de quantas releituras fiz dessas edições…

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