As críticas do Marinho: Tombstone Epitaph

As críticas do Marinho: Tombstone Epitaph

Por Mário João Marques

Charles Damon, um poderoso rancheiro, não hesita em matar todos os que possam impedir a expansão das suas terras. Quando a voz livre de Frank Banyon, jornalista do Tombstone Epitaph vem denunciar o clima de violência e de medo que reina, acaba por ser assassinado, o que leva Tex, Carson e Kit a intervirem. Juntamente com a sobrinha de Banyon, que entretanto decide deixar a grande cidade e instalar-se em Tombstone para vingar a memória do tio, os três pards vão defrontar-se com o poderoso rancheiro, que não hesitará em recorrer a um grupo de assassinos profissionais para poder preservar o seu poder.

Num oeste violento qual a força das palavras perante o poder do chumbo? Eis a questão que perpassa por toda esta aventura, onde o jornal Tombstone Epitaph, que ainda hoje se publica desde 1880, surge como uma voz de alerta numa cidade dominada pelo medo e onde até as forças da lei se curvam perante o poder do senhor local. Boselli apresenta uma aventura urbana, muito influenciada pelos westerns cinematográficos clássicos, sobretudo por “Rio Bravo”, sublime filme de Howard Hawks, não só em toda a sua envolvência, como nos cenários, na espantosa cena do duelo, que Boselli tão densamente e em crescendo apresenta, ou mesmo na capa da 2ª parte da aventura, toda ela perfeito espelho da aventura e onde só parecem faltar mesmo John Wayne e Dean Martin, os protagonistas do filme de Hawks.

Tombstone Epitaph assume-se como um hino à coragem, numa aventura onde todos os protagonistas assumem a sua, naturalmente em moldes diferentes. Se Damon é corajoso debaixo da protecção dos seus homens (apesar de saber perfeitamente quem está a defrontar quando avisa o filho “Credi forse che nessun altro abbia mai avuto la tua stupida idea? L’hanno avuta in tanti… I tutti ora sono in fondo a due metri di terra… cibo per vermi”), Tex, Carson e Kit, fiéis à sua própria natureza e personalidade, assumem a sua coragem guiados pela sede de justiça, sem nunca esquecerem o poder das armas, de que é perfeito exemplo a voz de Carson quando avisa um dos homens de Damon: “I ti avverto… la mia pazienza é scarsa e il mio índice molto nervoso… uomo avvisato” . Mas a coragem que mais importa em Boselli é mesmo a das palavras e de todos quantos a servem, como Banyon ou da sua sobrinha Billie (sem esquecer o velho Wesley ) que enfrentam poderes instalados com a força do verbo e a veemência do substantivo.

Para além da extensa galeria de personagens, tão frequente e apreciada em Boselli, a introdução de duas personagens femininas na aventura assume, não diremos alguma originalidade, até porque o autor já o fez em anteriores trabalhos, mas não deixa no entanto de significar mais um passo rumo a uma modernidade que Boselli tanto acarinha, assim como vem acentuar o lado romântico e clássico da aventura. Beth é a filha de um rancheiro que sofre na pele o poder de Charles Damon e que depressa se vai sentir atraída por Kit (apesar de nada de explícito acontecer), já Billie aparece como a herdeira do jornal, com uma personalidade muito forte e interessante.

Estreia de Gianluca Acciarino, um valor seguro da Bonelli e que desenhava para a série Brendon. Com um traço fino e elaborado, a lembrar Garcia Seijas, a verdade é que o autor nunca assume qualquer influência para Tex, preferindo o seu próprio modelo. Nem Ticci, nem Villa ou mesmo Civitelli, Acciarino oferece antes uma composição pessoal das principais personagens, apresentando um trabalho que vai subindo de qualidade ao longo da aventura. As suas cenas de acção são bem trabalhadas, os cenários bem elaborados, sobretudo os urbanos, alternando ângulos e enquadramentos de modo eficaz e com alguma originalidade.


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