Tex “Salt River”: Entrevistas exclusivas com os autores Mauro BOSELLI & Stefano ANDREUCCI

Mauro Boselli e Stefano Andreucci, por Bira Dantas

ALERTA: As entrevistas que se seguem com Mauro BOSELLI & Stefano ANDREUCCI revelam algumas surpresas da história “Salt River(Tex italiano nº 627 e 628 de Janeiro e Fevereiro de 2013), e a sua lida antes da publicação da revista no Brasil e Portugal pode tirar toda a graça, emoção e suspense que se cria com relação à aventura..

Entrevistas conduzidas por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli e Sandro Palma na formulação das perguntas, de Bira Dantas nas caricaturas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino nas traduções e revisões.

MAURO BOSELLI

A história tinha, em fase de elaboração, o título Tonto Creek. O primeiro dos dois volumes é intitulado Salt River, e combina com as primeiras vinte páginas que foram reescritas para Andreucci. Visto que inicialmente a aventura devia ser ambientada numa cidade fantasma e não nas corredeiras de um rio – e que só se chega ao Riacho Tonto nas páginas finais do segundo volume – como nasceu esse título de trabalho?
Mauro Boselli: Eu tinha em mente que a história se desenvolveria na região do Tonto Rim, e já na primeira metade do primeiro volume se chega à Reserva do Tonto Creek.

Ainda sobre o título, porque passou-se de Tonto Creek a um menos evocativo como Salt River?
Mauro Boselli: Para os italianos, tonto tem uma conotação negativa: quer dizer tolo, alguém que demora a entender.

Nesta história, também pelas suas mãos, prossegue a evolução de Kit Willer: provavelmente a personagem lhe permite inserir aqueles picantes duetos homem/mulher que, de outra forma, você dificilmente poderia colocar na saga. Ou estamos errados?
Mauro Boselli: Correcto! Mas o mesmo poderia ser dito de Kit Carson. Um dia, quem sabe…

Falemos do relacionamento terno e delicado que se cria em torno das figuras de Kit Willer e Sarah Wyatt. No segundo volume, depois do sonho destruído, você criou esta fala para Tex: “Hmm… eu até diria que você não tem muita sorte com as namoradas, meu rapaz!“. Ou seja, Kit Willer age como o cortês paladino medieval que corre para salvar a mulher, mas depois você confirma a tese convencional de que ele sempre é rejeitado quando se aproxima de alguma saia. Há alguma chance de que, no futuro, o resultado seja menos evidente?
Mauro Boselli: Quièn sabe?, como diria Tex. Esta é só UMA história. Normalmente eu não gosto de fazer tramas semelhantes entre si.

Jack Curtiss é um fora da lei bastante habilidoso para organizar complicados planos estratégicos. No final, Tex acerta as contas com ele. Você chegou a sentir a tentação de salvá-lo, para em outra ocasião ele voltar a cruzar o caminho dos nossos heróis?
Mauro Boselli: E porque? A história não deve ter uma solução final? Porque manter vivo a qualquer custo uma personagem não particularmente original?

Entre as personagens, a figura de Sarah Wyatt é a que impressionou os leitores mais abertos: a solução final foi, de algum modo, sugerida pelo carácter turbulento da jovem, ou você já havia planeado tudo desde o início?
Mauro Boselli: Normalmente eu não sei o que há NO MEIO de uma história, mas o final, excepto por alguns casos raros, já está claro na minha mente.

Esta história também será lembrada pela incomum aura de violência que a caracteriza. No segundo volume três personagens acabam pendurados num galho de árvore e a própria doutora Sarah corre o risco de ser enforcada pelo mesmo grupo de vigilantes improvisados. Num certo sentido, é uma leitura dedicada sobretudo a um público adulto. Não é uma crítica, longe disso, mas na SBE vocês não temem hostilidades de alguma associação?
Mauro Boselli: Não. E porque? Eu não concordo que esta história seja mais impiedosa do que outras escritas por mim ou por Gianluigi e Sergio Bonelli (penso nos enforcados de Caçada Humana e Cheyenne Club).

STEFANO ANDREUCCI

Voltar a desenhar Tex depois de vários anos comportou dificuldades ou correu tudo bem?
Stefano Andreucci: Devo dizer que foi mais difícil. Talvez porque, em relação à vez anterior, eu usei uma técnica diferente, ou talvez porque desta vez eu queria dar mais. Eu busquei ver o Oeste com olhos modernos, sem sair dos padrões habituais de Tex. Eu usei perspectivas um pouco exageradas, planos inclinados e dinâmicos que não são usuais na série, e isso atrasou-me um pouco.

Para a ocasião, depois de tantos anos passados a desenhar as histórias de Dampyr, que mudanças de estilo você adoptou?
Stefano Andreucci: Nenhuma mudança em particular. Eu só limpei um pouco os traços, mas o estilo é o mesmo usado para Dampyr nas quatro edições londrinas (n.t.: edições 133 a 136).

Você desenhou todos os quatro pards: exceptuando Tex, qual foi o mais difícil ou o mais divertido de realizar?
Stefano Andreucci: Eu desenhei três. Ainda não pude fazer Jack Tigre. Eu diverti-me muito com Kit Willer. Dos três era o que tinha maior margem de interpretação. Mas foi justamente com Tex que eu tive mais dificuldades. Ao menos na fase inicial. Já Carson é o mais simpático e muito caracterizado pelo seu belo bigode. Divertido.


As suas personagens são todas extremamente caracterizadas como, em particular, o grupo de reféns que são libertados no deserto, pela quadrilha de Curtiss. Ou a belíssima doutora Wyatt. Para buscar inspiração, quem ou o que você buscou?
Stefano Andreucci: Geralmente eu me inspiro no cinema, nas pessoas que encontro, nos animais, em tudo. Para a doutora eu usei o rosto de uma actriz de alguns anos atrás, que me foi indicada por Mauro (Boselli). Mas eu o usei apenas como inspiração.

O resultado final ficou muito bom. Há algum detalhe que não o deixou totalmente satisfeito? E há algo de que você se sente justamente orgulhoso?
Stefano Andreucci: Dá para perceber claramente a busca de um estilo e a experimentação, e disso resultou um trabalho um pouco heterogéneo. Mas creio que atingi um objectivo e, no próximo Tex, eu me concentrarei apenas na história, para obter o melhor resultado possível.

Entre o primeiro e o segundo volumes que compõem a história, percebe-se uma evolução de estilo, observada também pelos entendidos mais exigentes. De que forma você pretende afinar os seus traços na próxima história?
Stefano Andreucci: De facto, eu creio ter atingido um equilíbrio satisfatório, e no próximo trabalho haverá um pouco mais de segurança. E isso fará bem à história.


Quanto tempo você levou para desenhar esta aventura?
Stefano Andreucci: Tempo demais.

Qual cena lhe deu mais trabalho – do ponto de vista técnico – e qual lhe proporcionou mais diversão na realização?
Stefano Andreucci: O trem foi muito difícil de fazer, também a considerar-se o facto de que boa parte do segundo volume acontece no comboio. Especialmente os interiores, porque o ambiente é apertado e a acção resulta um pouco sufocada, meio sem espaço. Eu desenhei como se fosse um storyboard de cinema, como se estivesse a olhar de trás de uma câmara de filmagem. O quadro que mais me agrada é aquele em que um dos bandidos e um passageiro do trem trocam tiros a poucos passos de distância, dentro do vagão. Um confronto muito realístico e moderno, do qual devo agradecer a Boselli. E a cena do trem também foi a que me deu mais satisfação.


Como podia contar com o seu talento, nesta história Boselli o fez passar por desfiladeiros, corredeiras do rio, pelos espaços sem fim da planície, pelos pequenos povoados do Arizona e até elaborar um trem, uma das coisas mais difíceis de desenhar. Pois bem, ao que tudo indica, o seu próximo trabalho será um Tex Gigante, um Texone: sobre isso, você teria algum pedido particular a fazer ao autor?
Stefano Andreucci: Agradeço pela oferta de intermediação, mas são coisas que se resolvem, digamos, em casa. Mas satisfaço a curiosidade e digo que eu gostaria de desenhar um faroeste um pouco crepuscular, colocado num ambiente selvagem e hostil!
Um abraço.


(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

4 Comentários

  1. Belíssima entrevista!
    Quanto à história deve estar espetacular, os enquadramentos das páginas vistas na entrevista são arrojados e colocam o leitor dentro da cena. Vai ser uma ótima leitura!
    Abraço a todos!

  2. Estou ansioso para ver isso publicado em português, Zeca! Boselli dispensa comentários, Andreucci, como disse AMoreira, é um excelente desenhista. É aguardar!!! Parabéns pela entrevista. Abraços

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