“Tempestade sobre Galveston” (da Polvo Editora) analisada por Rui Cunha

Por Rui Cunha

Raramente se vê num livro ou numa revista de BD uma tão perfeita definição de espaço e tempo de acção e muito menos essa definição é conseguida quando se trata duma revista de pequeno formato como acontece com a maioria deste género de publicações. Mas a verdade é que há excepções e se existe alguma publicação que consegue transmitir ao leitor  essa tão perfeita definição de espaço e tempo, ela é a revista Tex que há várias décadas nos transporta para essa época encantadora e aventurosa que é o Oeste Americano. Viagem essa plenamente conseguida na mais recente encarnação nacional que são os Romances Gráficos das aventuras do Ranger e que conheceram agora o seu segundo volume, “Tempestade sobre Galveston”, luxuosamente editado pela chancela da “Polvo Editora”, depois do sucesso que foi a edição de “Patagónia”, o primeiro volume desta nova colecção.

O Coronel Woodlord, administra a sua plantação como se a escravatura não tivesse sido abolida em 1863 e posteriormente proibida em 1865, ajudado por um Juiz de índole suspeita que lhe permite a utilização e exploração de mão-de-obra negra, ao mesmo tempo que tenta, por todos os meios possíveis, legais ou não, obter a localização de um tesouro, herança deixada por um famoso jogador de cartas e exímio pistoleiro à sua filha que é proprietária de um “Saloon” na cidade de Galveston. Os Rangers, Tex Willer e Kit Carson, que se encontravam de passagem na cidade, acabam também eles, por se ver envolvidos na intriga carregada de peripécias e de reviravoltas.


Tempestade sobre Galveston”,  com texto de Pasquale Ruju e desenho de Massimo Rotundo, abre com um quadro onde se vê uma plantação e uma casa tipo mansão e situa-nos  no Texas Meridional (percebemos depois ao longo da história, pela conversa de algumas personagens, que a acção se situa algures junto ao Golfo do México ). Este primeiro quadro é das imagens mais poderosas que se encontra em toda a história porque nos situa logo, sem um grande esforço, no centro da acção e percebemos pelos quadros seguintes que esta plantação terá importância capital na história e que aqui ainda se vive no pesadelo que foi a escravatura  que, anos antes, levou os Estados Unidos a uma guerra civil, entre o Norte e o Sul, que durou quatro anos e que quase arruinou o país.

A acção, sempre importante nas aventuras do Ranger, está presente praticamente em toda a história, tão bem orquestrada nos desenhos de Rotundo (principalmente em toda a sequência que mostra o ataque dos Rangers ao esconderijo de Garras que acontece durante uma chuvada), que a tempestade que se aproxima de Galveston é relegada para segundo plano até quase ao final do livro onde, conjugada com a revolta e ataque dos escravos da plantação à mansão do coronel (numa série de várias pranchas nas quais ambos acontecimentos são apresentados paralelamente e que mostram bem a arte do desenhador), aí sim adquire uma importância capital e também devastadora.

A história passa-se num espaço temporal de pouco mais de dois dias, durante os quais o cenário vai enegrecendo cada vez mais, o desenho de Rotundo adquire um tom cada vez mais negro (que nos é mostrado através dos quadros onde surgem nuvens cada vez mais negras, inspirados, talvez, em “Ran – Os Senhores da Guerra”, a obra-prima cinematográfica que Akira Kurosawa realizou em 1985), desde o já citado quadro inicial, onde as nuvens, ao longe, pronunciam aquilo que está para chegar, passando pela chuva que acontece durante o tiroteio no refúgio de Garras e seus homens, ganhando plenitude no primeiro quadro da página 165 onde a tempestade já se encontra sobre a cidade e seus arredores. Também a narrativa de Pasquale Ruju se vai alterando ao longo de toda a aventura, adquirindo, do meio para o final, aproveitando a chegada da mãe natureza, um ritmo imparável e de consequências imprevisíveis para todas as personagens envolvidas.

Na edição portuguesa de “Tempestade sobre Galveston” evidencia-se, uma vez mais, tal como já acontecera com “Patagónia”, o esforço e a vontade de mostrar algo a que o leitor português não está habituado: a qualidade duma edição totalmente portuguesa de uma obra deste género e se “Patagónia” já o conseguira, graças aos esforços conjugados do José Carlos Francisco e da sua tradução esforçada do texto original para “Português de Portugal”, e do editor Rui Brito e da sua editora “Polvo” numa iniciativa inédita em Portugal, com “Tempestade sobre Galveston” chega-nos à mão um produto muito próximo da excelência e numa aposta dupla (igualmente arriscada) de o mesmo livro ser apresentado em duas edições com capas distintas e conteúdos igualmente distintos.

Ambas as capas são excelentes concepções gráficas da autoria de Massimo Rotundo, mas a minha preferência recai sobre aquela que é a capa exclusiva da edição nacional em que a tempestade já se encontra sobre a cidade, Tex está no meio do desenho ( se quisermos, o centro da acção)  e à sua volta  esvoaçam algumas cartas nas quais se vêem os rostos das personagens principais da história de acordo com a sua importância em cada naipe ( Rei de Espadas para o Coronel Woodlord, o Valete de Paus para Diego Garras e a Dama de Copas para Eleanor Hood), que acaba por ser à volta de quem gira toda a narrativa.

Estão novamente de parabéns Rui Brito e a editora Polvo pela excelente apresentação deste segundo Romance Gráfico de Tex impresso num papel de altíssima qualidade no qual  ganha relevância o texto de Ruju e sobressai largamente a arte de Rotundo. Estão também de parabéns, Mário Marques pelo belo texto de apresentação da obra e José Carlos Francisco por, mais uma vez, meter a ombros a enorme tarefa que é traduzir um texto desta dimensão, do original italiano para o “Português de Portugal” que, apesar do grande cuidado posto na tarefa, ainda não foi totalmente conseguido, aqui e ali ainda existem palavras ou pequenas frases que “escorregam” para o léxico brasileiro o que estraga, por vezes,  uma cena, uma frase ou até um diálogo, o que é uma pena. Gostaria de poder ler algum dia uma obra desta envergadura num texto totalmente escrito e traduzido para português, sem variantes brasileiras ou outras que tais! Fica aqui lançado o desafio!

Tempestade sobre Galveston” é o tipo de Tex que gostamos e queremos continuar a ler, aquele Tex que sabemos, de outras aventuras, que nunca vacila perante nenhum obstáculo, o Tex que confia em si mesmo e nos seus companheiros (aproveitamos aqui para uma vez mais reiterar que a ausência de Kit Willer e Jack Tigre nesta e nas mais recentes aventuras do Ranger é um factor negativo pois a sua presença nas mesmas era sempre uma mais- valia entusiasmante para as histórias).

Venham mais Romances Gráficos de Tex  para enriquecer a biblioteca de todos os texianos espalhados pelo mundo!


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