UM FENÓMENO CHAMADO ALESSANDRO BOCCI

Por Mário João Marques*

Alessandro Bocci

Quando comecei a ler e colecionar a série Dampyr, entre muitos e bons desenhadores dois nomes sobressaiam nas minhas preferências. Falo de Maurizio Dotti e de Alessandro Bocci, cujo estilo e puro talento, pelo menos numa fase inicial criaram-me alguma dificuldade em distinguir quem era quem entre os dois. O tempo veio dar-me razão nesta minha preferência, pois quer Dotti, primeiro, quer Bocci, mais tarde, acabaram por prestar provas em Tex e cimentarem-se na série de maior popularidade no panorama do fumetto, algo a que muitos talentosos autores aspiram e tarde ou nunca conseguem. Mas não é apenas este percurso comum em Dampyr e Tex que acompanha a carreira destes dois talentosos desenhadores, também o Clube Tex Portugal tem a honra e o orgulho de poder ter tido a oportunidade de se “imiscuir” neste trajeto. Primeiro, pelo facto de ambos já terem estado em Portugal, nomeadamente em diferentes edições da Mostra de Anadia, Maurizio Dotti em 2016 e Alessandro Bocci em 2018, assim como, depois de Dotti ter desenhado as magníficas capas do nº 5 desta nossa revista, surge agora a oportunidade para Bocci, de igual modo, nos presentear com outros magníficos trabalhos.

Alessandro Bocci nasceu em Siena em 1965 e desde muito cedo cultivou uma grande paixão pelos quadradinhos, primeiro com o fascinante mundo da Disney, sobretudo Mickey, e posteriormente com Astérix, o pequeno herói gaulês de Goscinny e Uderzo: “eu gostava muito das histórias que viam esses poucos gauleses oporem-se à grande potência de Roma de forma humorística, mas o fundamental eram os desenhos, belíssimos ainda hoje”.[i] Tal como aconteceu, por exemplo, com Fabio Civitelli, outro grande nome do fumetto e de Tex, Bocci não teve nenhuma formação artística e, apesar do seu desejo em estudar no Instituto de Arte de Siena, acabou por se tornar agrimensor. Estávamos no início dos anos oitenta do século passado, época em que este Instituto não gozava de boa reputação, o que, a juntar ao facto de não poder contar com o apoio dos pais, levou-o a optar por uma atividade pouco motivadora e que não o preenchia, algo de que ainda hoje se arrepende. Curiosamente, Bocci também foi designer de interiores de lojas, tendo trabalhado na montagem e instalação das lojas Stefanel, inclusive em Portugal.

No entanto, a recusa expressa dos pais nunca foi contra o desenho, mas sim com a entrada do filho no Instituto, pois sabiam da sua paixão, o que motivou Bocci a nunca abandonar os lápis, as canetas e os pincéis, ocupando os seus tempos livres a desenhar. Quando soube que a Star Comics procurava jovens desenhadores para um novo projeto de super-herói, Bocci foi apresentar o seu trabalho à editora. Os seus desenhos, ao estilo americano, convenceram pouco o editor responsável Sergio Cavallerin que, mesmo assim, sugeriu que Bocci voltasse mais tarde, mas desta vez com material mais adaptado ao estilo italiano, dado que se aproximava o Festival de Lucca, durante o qual a editora iria apresentar oficialmente uma nova personagem. Bocci acabou por viajar até ao certame, mas cansado e desiludido por não ter conseguido encontrar Sergio Cavallerin e mostrar os seus novos desenhos, acabou por sentar-se num sofá. “Ao meu lado sentaram-se casualmente dois jovens que eu não conhecia e que começaram a falar, com termos muito técnicos, de quadradinhos e roteiros. Deixei-me ali estar a escutar, até que lhes perguntei se podiam ver os meus desenhos. Eles olharam e apreciaram muito. Esses dois jovens eram Ade Capone (criador de Lazarus Ledd) e Stefano Vietti (futuro roteirista de Nathan Never)”.[ii]  Bocci acabará por entrar para a Star Comics, iniciando assim a sua aventura no mundo mágico da banda desenhada, transformando o que era um hobby numa atividade profissional motivante, que vai pedir ao desenhador o maior sacrifício e empenho.

Depois de um início duro, devido aos muitos testes que Capone pediu a Bocci, o desenhador vai estrear-se finalmente em 1994, no número 16 de Lazarus Ledd, um trabalho que vai conquistar crítica, leitores e os próprios responsáveis da Star Comics, que acabarão por entregar as capas da série ao jovem desenhador, logo a partir do número 18. O habitual capista, Giancarlo Olivares, passou para outro título e deixou o trabalho para Stefano Raffaele que, por seu lado, acabou por abandonar a editora e rumar aos Estados Unidos. Bocci desenhará cerca de 100 capas entre a série regular e os especiais, o que se tornou num envolvimento fascinante, mas ao mesmo tempo um trabalho que exigiu sempre muita concentração: “desenhar uma capa é muito gratificante, mas também muito difícil. Encontrar uma nova imagem todos os meses é algo complicado, mas dá-te também a oportunidade de estares constantemente presente nas bancas com o teu trabalho. Naturalmente, eu segui muitos autores, observei como faziam o seu trabalho e passo a passo fui construindo o meu estilo. Este é um dos segredos desta tarefa… nunca deixar de ser curioso, observar o trabalho dos colegas e aprender com eles algo que te possa ajudar a melhorar… não copiar, mas observar e aprender![iii]”. O trabalho de capista acabará por valer a Bocci o Prémio Inca da melhor capa de 2001 com Il Cavaliere di San Giorgio. Mas este não será o primeiro dos vários prémios, entretanto obtidos por Bocci, porque já em 1997 o autor tinha sido galardoado com o Prémio Fumo di China para o melhor desenhador jovem.

Nesse mesmo ano de 1997, Bocci realiza um episódio de Conan para a Marvel Itália: “Conan é uma das personagens mais famosas da Banda Desenhada e eu, como leitor, sempre achei as suas aventuras excecionais, especialmente porque os desenhos eram fabulosos. Por isso, poder desenhar uma aventura era algo incrível, até porque também me permitiu conhecer pessoalmente John Buscema que para mim foi e será sempre um verdadeiro mito. Passei um dia inteiro com ele e conversámos muito sobre desenho, sobre o seu trabalho e também sobre o meu, visto que eu tinha comigo as primeiras páginas do meu Conan. Ao ver o meu trabalho, ele deu-me conselhos valiosos e revelou-me alguns truques e segredos da nossa função. Foi um dos melhores dias da minha vida profissional”[iv].

Chega então um telefonema de Mauro Boselli a convidar Bocci para trabalhar em Dampyr, para a Sergio Bonelli Editore. Apesar de ter despontado na Star Comics e ciente do papel que Ade Capone representou neste período da sua carreira, nomeadamente na confiança transmitida, que lhe permitiu crescer quer a nível  gráfico/narrativo, quer na personalidade e segurança nos próprios meios[v], a verdade é que a editora já não oferecia ao desenhador certas garantias. Além disso, o convite de Boselli permitia-lhe continuar a trabalhar na banda desenhada e fazer o que mais gostava, o que o leva a mudar-se para a Via Buonarroti. Curiosamente, esta mudança poderia ter acontecido mais cedo na carreira de Bocci, dado que já tinha surgido a oportunidade de trabalhar em Nathan Never, o que acabou por não se concretizar devido à quantidade elevada de desenhadores na série de Serra, Vigna e Medda.  

Bocci estreia-se em Dampyr em 2003, com a aventura Il Mare della Morte, com a qual obtém o prémio Cartoomics-If como jovem promessa. E é em Dampyr que o desenhador vai acentuar o seu traço realista, o que torna as suas páginas de uma beleza quase fotográfica, característica que não é alheia ao facto de os cenários onde se desenrola a ação serem reais: “… para desenhar assim é necessário procurar muitas fotos, entrar num mecanismo de trabalho que conduz a uma documentação bastante apurada. Para isso, como documentação eu uso muitos filmes, livros fotográficos ligados ao tema e sobretudo – ainda bem – a internet, com todos os motores de busca fotográfica disponíveis. Para cada história eu arquivo uma quantidade enorme de imagens…”.[vi]  Prova disso, encontra-se, por exemplo, na história de Dampyr ambientada em Portugal (Lo sposso della vampira), na qual o desenhador revela um grande rigor nos cenários e nos trajes das gentes de Trás-os-Montes, tudo extraído de fontes na internet, com exceção do castelo de Monforte da Estrela, que Bocci vai desenhar misturando a realidade com uma visão pessoal. Dampyr foi para Bocci “… uma série divertidíssima de desenhar e que, ainda hoje, considero como dos melhores produtos da Sergio Bonelli Editore”.[vii] E é ainda com o seu trabalho nesta série que o desenhador vai conquistar outro prémio Fumo di China, desta vez em 2005, como melhor desenhador realista, com a aventura I Danatti di Praga.

Em 2004, o autor vai desenhar a Contrada dell’Istrice (um bairro de Siena), a história da última vitória deste bairro no célebre Palio de Siena, uma corrida de cavalos que se desenrola no centro de Siena, e na qual participam 17 bairros, que desfilam com trajes tradicionais e bandeiras. Bocci aceitou fazer o trabalho na condição que lhe fosse fornecida toda esta documentação iconográfica, acabando por ser uma experiência que o autor guarda com carinho.

Entretanto, a sua carreira vai sofrer uma nova mudança, uma vez que, depois dos ambientes góticos, surreais e de horror de Dampyr, Bocci vai colocar toda a sua arte ao serviço de Tex, o western italiano por excelência e o maior símbolo do fumetto, novamente convidado por Mauro Boselli. Desenhar Tex sempre foi um dos objetivos de Bocci, mas a verdade é que o convite tardava em chegar. Numa entrevista concedida ao blogue Tex Willer em 2009, foi o próprio desenhador que fez eco deste seu desejo, sugerindo à editora que lhe propusesse uma série de testes, sabendo de antemão que desenhar Tex não era uma tarefa fácil e que um dos segredos do seu sucesso está na elevada qualidade gráfica dos seus autores. Aldo Capitanio e Giovanni Ticci são desenhadores que impressionaram Bocci, mas é em Civitelli que o autor vai colher influência: “Sempre gostei e gosto do Tex desenhado por Civitelli, porque foi em suas páginas que estudei para me tornar desenhador de quadradinhos.”[viii]

A estreia no ranger ocorre no Tex Magazine 2016, com a breve história Maria Pilar, que relata um episódio da juventude de Kit Carson, quando o ranger vai em auxílio de uma caravana de hispânicos guiada por uma jovem corajosa mulher. “Na verdade, a minha estreia em Tex deveria ter acontecido com uma história para um Color Tex, mas quando estava na redação para falar sobre este trabalho, de repente, Mauro Boselli propôs-me que fizesse a história com Carson e eu, obviamente, aceitei imediatamente. Como nasceu a ideia na cabeça de Boselli eu realmente não sei, mas fiquei muito feliz e orgulhoso em a ter realizado”.[ix] Bocci adapta o seu traço rico e detalhado ao género, oferecendo ao leitor pranchas de enorme impacto e eficácia. A composição de Carson constituiu um enorme desafio para o autor, que vai tomar como referência o pard desenhado por Carlo Marcello em Il Passato di Carson. Bocci vai tentar construir uma personagem fiel ao seu modo de desenhar as anatomias, e por isso o seu Carson surge ainda mais jovem, resultando daqui uma magnífica reconstituição nos gestos, nas expressões e sobretudo na postura física e psicológica que o leitor tanto aprecia na personagem do “velho camelo”. A já referida história que deveria ter marcado a estreia de Bocci em Tex surge no mesmo ano, no Color Tex 10, Il Mescalero senza volto, uma aventura de 32 páginas a cores escrita por Jacopo Rauch e que conta a história de um cavaleiro mascarado que aterroriza o sudoeste dos Estados Unidos.

Para um desenhador que ama o realismo e o detalhe, o western surge como o terreno ideal para Bocci patentear toda a arte. Naturalmente, existe o Western e existe o Western de Tex, o que obriga a estudar uma conotação gráfica e cénica muito precisa. Mas para Bocci, perceber uma personagem e o seu mundo é um dos melhores aspetos desta atividade e todo este esforço acabará por levar o desenhador a abandonar Dampyr e a dedicar-se em exclusivo a Tex, chegando à série mensal em 2009, com La Regina dei Vampiri (Tex italiano 701 e 702), aventura escrita por Gianfranco Manfredi: “depois de 21 anos de atividade… isto significou um ponto de viragem na minha carreira. Cimentar-se com um ícone do fumetto não é para todos e eu espero ter feito um trabalho à altura, até para poder retribuir a confiança que me foi dada pela editora”.[x] A história vai levar dois anos de trabalho a concluir e parece ter sido escrita à medida do desenhador, com ambientes estranhos e fantásticos, o irracional e a magia, trazendo de volta a personagem de El Morisco, numa aventura que se desenrola no México e que vem provar que Bocci está tão à vontade nas atmosferas mais sombrias, como nas cenas de pura ação.

Desde o início da carreira, Bocci guarda o desejo de publicar uma história por si idealizada. Inicialmente destinada ao mercado francófono[xi], em 4 ou 5 álbuns de cerca de 60 páginas cada, a verdade é que devido à evolução ocorrida em Itália nos últimos anos, sobretudo com a chegada da coleção Le Storie, que publica histórias auto-conclusivas e sem esquemas pré-concebidos, e a aposta cada vez mais saliente da Sergio Bonelli Editore no mercado livreiro, a oportunidade poderá surgir da própria editora, propondo a Bocci a sua publicação. Um dos géneros apreciados por Bocci são mesmo as novelas gráficas, em Itália também conhecidas por Romanzo a Fumetti, tendo também já recebido uma proposta de um seu amigo para uma história com um tema interessante e atual.

Ideias e projetos alimentam constantemente Alessandro Bocci, um “solitário” do desenho, não só pelo seu caráter autodidata, mas também pelo facto de não conseguir separar-se da relação individual que mantém com o seu trabalho: “fazer carreira como desenhador é a ambição de muitos jovens quando começam a trabalhar profissionalmente. Eu estou muito contente com o que já fiz, mas quero novos desafios, novas aventuras, porque neste trabalho nunca deixamos de aprender e sobretudo o melhor e o mais importante trabalho é sempre o próximo… eu tenho alguns projetos em mente, mas para já não tenho tempo para lhes dar continuidade, já que Tex consome todo o meu tempo e eu estou muito contente com isso.”.[xii]

[i] Entrevista ao Blogue Tex Willer de Portugal, conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, João Miguel Lameiras, Júlio Schneider e Gianni Petino – dezembro 2009.
[ii] Idem.
[iii] Pequena entrevista concedida pelo autor na preparação deste artigo.
[iv] Idem.
[v] Entrevista ao Blogue Tex Willer de Portugal, conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, João Miguel Lameiras, Júlio Schneider e Gianni Petino – dezembro 2009.
[vi] Idem.
[vii] Entrevista ao site UbcFumetti.
[viii] Entrevista ao Blogue Tex Willer de Portugal, conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, João Miguel Lameiras, Júlio Schneider e Gianni Petino – dezembro 2009.
[ix] Entrevista ao site UbcFumetti.
[x] Entrevista concedida ao site da SBE.
[xi]  Mercado para o qual Bocci trabalhou, tendo assinado Fontainebleau e um volume de Prométhea, ambos com Christophe Bec para a editora Soleil e Bunker Fondation, também com Bec, para a editora Dupuis.
[xii] Pequena entrevista concedida pelo autor na preparação deste artigo.

* Texto de Mário João Marques publicado originalmente na Revista nº 12 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2020.

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