TEX WILLER EM 2008 – O RENASCIMENTO DE UM MITO

Renovação na Escrita

Mauro BoselliSem ter ocorrido uma verdadeira revolução editorial, a verdade é que 2008 marca o renascimento de Tex, precisamente no ano em que comemorou os seus sessenta anos de existência, pelo facto de ter conseguido inverter a curva descendente que vinha ocorrendo na qualidade das suas aventuras.

Muito pelo papel mais activo de Mauro Boselli, eleito para principal argumentista da série e sobre quem recaíam grandes expectativas. Confirmando todo o seu talento, Boselli afirmou-se como um dos responsáveis pelo ganho de qualidade, mercê de aventuras menos lineares, menos repetitivas, assumindo antes maior espessura dramática e crescendo psicológico, aventuras que jogaram sempre com várias personagens, acabando por conferir uma qualidade como não se via desde há alguns anos.

Está Sergio Bonelli de parabéns, o principal responsável, porque soube com calma e ponderação resolver uma questão que vinha levantando acérrimo coro de protestos pelos fãs, protegendo o tão criticado Nizzi e elegendo outros autores não só nos argumentos como sobretudo nos desenhos.

Claudio NizziNizzi, nunca é demais sublinhar, soube dotar o ranger de sucesso ao longo de anos, caindo agora em desgraça, mas mesmo assim acabou por assinar três das aventuras do ano. Quando comparadas com trabalhos anteriores, estas trouxeram algum ganho de qualidade, mas pouco acrescentaram ao universo texiano, ao contrário de autores como Boselli e do falecido Gino D’Antonio, este com uma aventura que trouxe novos temas e realidades, numa narração fluida e sem desvirtuar o modelo. Já Pasquale Ruju acabou por ficar num meio-termo, pois as expectativas eram maiores do que a qualidade que o seu argumento acabou por alcançar, principalmente porque não soube construir um Tex mais decisivo. E não esqueçamos ainda Guido Nolitta um dos autores do épico Buffalo Soldiers, verdadeiramente uma das melhores aventuras do ano.

Tito FaraciOu seja, se 2007 tinha marcado a estreia de Faraci (de quem se aguarda com natural ansiedade um novo trabalho, curiosamente a sua primeira aventura, cuja publicação tem vindo a ser sucessivamente adiada devido ao ritmo lento dos irmãos Cestaro) e se 2008, como já se disse, elegeu Boselli como principal argumentista da série, em substituição de Nizzi e ainda conseguiu apresentar trabalhos de Ruju e D’Antonio, tudo aponta para estarmos em presença de uma renovação na escrita, à semelhança do que já fora iniciado no plano gráfico.

Podemos ainda ter em consideração dois outros factores que podem ajudar a compreender a boa qualidade dos argumentos. Temas do agrado dos leitores como a epopeia histórica, revelada na aventura Buffalo Soldiers, ou temáticas como o horror, o sobrenatural e o misterioso, plenamente conseguidas em Omicidio in Bourbon Street, conseguiram entrar no imaginário mais clássico do leitor texiano. Finalmente, outro factor a ter em conta, baseou-se na estratégia editorial da Bonelli Editore, ao libertar os argumentistas das grilhetas que um número concreto de páginas para cada aventura os amarrava, deixando-os muitas vezes reféns de um espartilho que mais não servia do que condensar a sua liberdade imaginativa. Ao terminar esse limite, deixa no autor a liberdade suficiente para poder contar a história como ele a vê, como ele a sente e sobretudo, como ele a pretende apresentar ao leitor.

Renovação Gráfica

Página de Marco Santucci & Marco BianchiniAqui, a renovação já vinha fazendo sentir-se desde há uns tempos. Em 2007 assistimos à estreia de novos valores, 2008 veio continuar esta estratégia editorial, com nomes como Santucci, Bianchini, Devescovi, Filippucci e Cossu a estrearem-se na série, assim como Rossi e Seijas a regressaram para a sua segunda participação.

Naturalmente que nem todos vão permanecer na equipa, por via de estratégias editoriais, por via da qualidade dos trabalhos apresentados, mesmo porque outros nomes se perfilam no horizonte, ou ainda porque valores seguros como Villa, Ticci, Civitelli, Venturi, Font ou os irmãos Cestaro têm o seu lugar reservado na equipa e nas preferências dos leitores. No entanto, toda esta renovação veio trazer uma certa lufada de ar fresco, veio trazer algo de novo que, aliado à boa qualidade da maior parte das aventuras, acabou por deixar no leitor e na crítica uma ideia de rejuvenescimento bem merecida.

Página de Rossano RossiParece então existir uma estratégia com alcance duplo. Por um lado, lançar novos valores, prevendo a saída num futuro próximo de nomes como Ticci, Fusco ou Ortiz, sobretudo pela idade de cada um. Curiosamente, ou talvez não, Fusco e Ortiz não estiveram presentes em 2008, aquele porque já tinha manifestado a sua intenção de não trabalhar em aventuras mais longas, o espanhol talvez porque o seu desenho já não apresenta a qualidade e o detalhe de outros tempos, se bem que prepare uma aventura escrita por Antonio Segura. Por outro lado, lançando novos valores, Sergio Bonelli assegura novas aventuras para os próximos anos, preservando a série de eventuais contratempos e do ritmo mais lento de autores como os irmãos Cestaro ou Andrea Venturi, este já afastado desde há algum tempo.

Para além dessa renovação na equipa, onde podemos salientar os nomes de Rossano Rossi e Lucio Filippucci como os que nos merecem maior destaque, 2008 confirma o talento de autores como Civitelli ou Font, demonstrando ainda que o grande Ticci, apesar do seu estilo mais sintético, ainda está para lavar e durar, mercê de um dinamismo e enquadramento gráfico como poucos.

As Aventuras

Tex - Dieci Anni DopoDieci Anni Dopo publicada em Janeiro e Fevereiro na série normal foi a primeira aventura do ano e das poucas escritas por Claudio Nizzi, agora “caído em desgraça”. A história narra o regresso de Tex e Carson a Paradise chamados por Marcus Glendon devido às ameaças de Rhonda Carpenter, uma ambiciosa criadora de gado. Nizzi recupera personagens de “Terra Prometida”, um dos clássicos da saga escritos por G.L. Bonelli e aproveita para deixar a sua mensagem sobre a ganância e expansão dos negócios a todo o custo, prejudicando aqueles que acreditam em valores e amam a terra. Apesar de uma boa ideia, é pena a habitual superficialidade com que Nizzi acaba por abordar toda a aventura, desenhada por Rossano Rossi, que se estreara em “O Fugitivo”, num estilo muito civitelliano, mas seguro.

Tex - La Palude NeraLa Palude Nera, publicada no Almanacco del West marca o regresso de Pasquale Ruju depois de Nella Terra dei Klamath e a estreia no desenho de Franco Devescovi, habitual em séries como Dylan Dog ou Martin Mystère. A história pode considerar-se como uma parábola sobre o destino dos homens e a condição humana. A história de Hannibal Cannon um caçador de prémios, pistoleiro como poucos, capaz de enfrentar Tex Willer, mas que o destino acabou por colocar lado a lado. Agora, já depois de retirado de uma vida plena de acção, quis esse mesmo destino que os dois se venham a enfrentar. Atmosfera dura, dramática e sempre em crescendo, numa aventura que peca na composição do ranger, sempre mais diplomático e muito nizziano. Já Devescovi desenha uma aventura com traço polido e limpo, mas que se adequa pouco à atmosfera crua do velho oeste.

Tex - Buffalo SoldiersBuffalo Soldiers, publicada entre Março e Maio, na série normal, constitui uma aventura a três mãos, com argumento de Boselli, segundo uma ideia de Nolitta e os desenhos do imenso Ticci.
Verdadeira epopeia histórica, a aventura realça as características de um notável grupo de homens que ajudou a construir a história norte-americana. Aqui respira-se pólvora, aqui o racismo convive com o humanismo, tudo servido pela grandiosidade gráfica de Ticci que, apesar de um traço mais sintético, compõe mesmo assim páginas de um dinamismo ímpar.

Tex - Il fuggiasco.

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Il fuggiasco de Boselli e Seijas, uma pequena aventura publicada em Maio e Junho, confronta Tex com Frank Harris, um pistoleiro simpático e com valores, alguém que conseguiu escapar do ranger e se converteu a novos rumos na sua vida. Uma aventura onde Boselli afirma a sua esperança na capacidade humana em mudar e que nos traz uma galeria rica em personagens femininas, superiormente desenhadas pelo argentino Garcia Seijas.

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Tex - Terre MaledetteJunho e Julho assistem à publicação de Terre Maledette na série normal, com argumento de Boselli e desenhos do espanhol Font, uma dupla que se vem afirmando nos últimos tempos como verdadeiramente imbatível na construção das melhores histórias do ranger. Mais uma vez, a aventura assim pode ser classificada no panorama anual, porque se Boselli consegue compor mais uma notável galeria de personagens espessas psicologicamente, Font é bem capaz de ter aqui o seu melhor trabalho de sempre na série. Pelo meio, um Tex pujante e decidido em defesa de um jovem advogado e de uma família de rancheiros, perante os homens de Ben Lowe, homem de peso em Amarillo, mas também perante a força da mãe natureza.

Tex - SeminolesO Speciale de Junho trouxe-nos Seminoles, uma aventura feita de estreias, a de Filippucci no desenho e de Gino D’Antonio no argumento, infelizmente desaparecido em 2006. Tex e Carson vão até ao Louisianna, onde devem tomar a seu cargo um índio seminole e conduzi-lo a julgamento no Texas. Narração fluida e sobretudo um conjunto de mensagens muito válidas, como a ambição política elevada ao extremo, a conquista de novas terras empurrando tribos de índios para outras paragens ou ainda a velha questão do esclavagismo, tudo sem desvirtuar a realidade texiana, acaba por criar empatia e deixar a questão de saber até onde um autor como Gino D’Antonio poderia levar Tex. O desenho de Filippucci é de grande qualidade com apurado sentido do detalhe, conseguindo sempre dotar Tex de um olhar incisivo e penetrante.

Tex - Sul Sentiero dei Ricordi

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Uma das formas encontradas para comemorar os 60 anos de Tex foi a publicação de Sul Sentiero dei Ricordi, uma aventura totalmente a cores, saída para as bancas em Setembro e que “renasceu” a personagem de Lilyth. Escrita por Nizzi e desenhada por Civitelli, a aventura narra um episódio vivido entre Tex e Lilyth durante um dos períodos mais felizes na vida do ranger. Inspirando-se em algo do passado da série, como vem acontecendo ultimamente, a trama apesar de muito linear e inocente capta pelo facto de juntar novamente Tex e Lilyth, assim como pelo superior desenho de Civitelli, engrandecido aqui pela magia da cor.

Tex - Omicidio in Bourbon Street.
Omicidio in Bourbon Street
, publicada entre Outubro e Dezembro na série regular, marca o regresso em força do sobrenatural, do horror e do misterioso em Tex. Boselli reúne todos os ingredientes, aliando a magia ao fantástico e a alquimia ao esotérico, numa aventura caracterizada pelo auxílio de Tex e Carson a Nat Mac Kennett, impotente perante uma série de misteriosos homicídios que ocorrem em Nova Orleães. Falta aqui o elemento emocional e épico de outras aventuras bosellianas, mas o resultado final é de grande qualidade, numa aventura graficamente feita a duas mãos: traços de Santucci com acabamentos de Bianchini, que nos deixam boa impressão geral, muito por força de rigor e detalhe e de cenários espectaculares, apesar de uma construção do ranger pouco conseguida.

Tex - Lo Squadrone InfernaleFinalmente, o Maxi Tex de Outubro trouxe a terceira aventura escrita por Nizzi durante o ano passado. Em Lo Squadrone Infernale, Tex e Carson estão na pista de um grupo de assaltantes que anda a semear a morte e destruição na região de Jefferson, logrando escapar sempre sem deixar rasto. Uma boa ideia de Nizzi, mas que infelizmente vai resvalar para um desenvolvimento simples e pouco cativante. Ugolino Cossu estreia-se em Tex, apesar de, tal como Franco Devescovi, também já ser um valor da Bonelli Editore. Um trabalho meritório, cujo traço fino é, no entanto, pouco adequado a ambientes mais duros como os do velho oeste.

Notas Finais

Como palmarés do ano, sempre subjectivo e de escolhas difíceis, tanta foi a qualidade apresentada, seleccionámos:

Melhor desenho: Giovanni Ticci em Buffalo Soldiers
Melhor aventura: Terre Maledette de Mauro Boselli
Melhor capa: Tex 573 Terre Maledette de Claudio Villa

Tex - L’Uomo Senza PassatoUma palavra ainda para outras edições texianas. A continuação da Collezione Storica a Colori com a sua publicação semanal sempre em grande ritmo, com vendas imparáveis e o adiar sucessivo do seu final, num ano cujas publicações da prestigiada editora Mondadori trouxeram duas aventuras de grande qualidade: o álbum a cores trouxe L’Uomo Senza Passato, magnífica aventura de Nizzi com sublimes desenhos a cores de Villa, enquanto que a Oscar  Best Sellers publicou Il Passato di Carson, para muitos a melhor aventura de sempre de Tex, com argumento de Boselli e desenhos de Marcello, numa justa e merecida homenagem ao grande autor italiano recentemente desaparecido.

Se mais não bastasse, 2008 vem assim sublinhar com evidência que Tex está vivo, bem vivo e sobretudo existe uma preocupação editorial que permite que a série acompanhe o evoluir dos tempos e os anseios e gostos dos leitores.

Texto de Mário João Marques

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

5 Comentários

  1. O Tex se renasce na verdade a cada ano. Mas a renovação do staff sem dúvida dará sangue novo ao ranger.

  2. Com certeza foi um tiro certeiro de Bonelli.
    Quem me atraiu até TEx na verdade foram os desenhos do Villa no especial da volta do Mefisto. Apesar do roteiro ser fraco, seus desenhos me chamaram a atenção para a série. Hoje tenho mais de 40 edições.
    Com certeza a vinda de novos desenhistas vai trazer novos leitores, mas o que vai prender a atençao deles serão mesmo os roteiros.
    E a matéria acima ainda não menciona GIANFRANCO MANFREDI…

  3. Excelente análise do ano 2008, parabéns Mário. No ano que passou o universo texiano foi “sacudido” por um tornado, no entanto confesso que apreciei bastante a mudança, apesar de ainda não conhecer o trabalho de alguns artistas posso afirmar que a entrada de desenhadores como Bianchini, Santucci e Filippucci elevaram bastante a qualidade dos desenhos, o Texone de Filippucci é para mim um dos melhores já desenhados.
    Quanto a 2009,aguardo com enorme expectativa a estreia de Torricelli e Picinelli, além dos argumentistas.
    Sérgio Sousa

  4. Nizzi, Nizzi, Nizzi, Nizzi, Nizzi, Nizzi
    Sempre o melhor.
    Tex não pode cair no efeito que deram a outros personagens Marvel e DC
    Preferimos Nizzi

  5. Os grandes apreciadores de Tex preferem Nizzi, Tex destacou-se dos demais roteiristas pela conservação de estilo, retratada nos argumentos Épicos de Bonelli pai, filho e do genial Nizzi
    Boselli como principal roteirisra desagrada muito, Nizzi tem muita lenha pra queimar, Boselli é acessório, não está à altura dos grandes apreciadores de Tex e Nizzi.
    Novidade é com outros personagens, autenticidade é com Tex.

    Antonio Marcos Matias

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