Tex Série Normal: O Passado de Kit Carson

Argumento de Mauro Boselli, desenhos de Carlo Raffaele Marcello e capas de Claudio Villa. Com o título original Il passato di Carson, a história foi publicada em Itália nos nº 407 a 409 e no Brasil pela Editora Globo nos nº 317 a 320.

Esta é seguramente uma das melhores aventuras de toda a saga texiana. Mérito de Boselli, que aqui, logo na sua estreia, relata um episódio do passado de Carson, conseguindo reunir eficazmente uma grande densidade dramática com uma notável galeria de personagens, servido pelo desenho de Marcello que acaba por interpretar a contento todo o cenário envolvente, convidando o leitor a mergulhar literalmente na aventura.

Tudo começa no Montana quando os sobreviventes de uma terrível quadrilha, conhecida como “Os Inocentes”, reúnem-se após vinte anos de separação, com o objectivo de se vingarem do seu antigo chefe (o xerife Ray Clemonds) que os traiu no passado. Enquanto isso, Tex e Kit vão a caminho de Tucson para se encontrarem com Carson.

Mas nesta cidade, um dos elementos da quadrilha reconhece Carson e tenta liquidá-lo. Carson, que lutou contra “Os Inocentes” quando estes espalhavam o terror, acaba por descobrir que os seus elementos planeiam reunir-se novamente em Barrock e, sem aguardar pela chegada de Tex e Kit, acaba por partir sozinho para esta cidade. Ao chegarem a Tucson, Tex e Kit são informados dos propósitos de Carson e resolvem ir também para Barrock. Durante o caminho, Tex relata a Kit todos estes acontecimentos ocorridos no passado de Carson, quando ambos ainda não se conheciam, ressuscitando um episódio que ficou por resolver e que agora parece querer ajustar contas com o destino.

Com esta história iniciou-se o sucesso de Mauro Boselli, porque o autor congregou logo aqui grande parte dos seus atributos: uma extensa e importante galeria de personagens, todas superiormente desenvolvidas; uma intriga capaz de reunir temas como o romance, a amizade, o ódio, a vingança, a traição, ou a coragem, verdadeiras características de um argumento clássico, certamente, mas que o autor organiza dinamicamente e com um ritmo narrativo moderno; além de dois pontos importantes que vieram revolucionar algo a que o leitor texiano porventura não estaria habituado, como a introdução de personagens femininas com real importância no argumento e uma presença do ranger, eventualmente com menor protagonismo, mas sempre preponderante. Ou seja, uma aventura que na época marcou uma certa ruptura com o que vinha sendo feito na série, com Boselli a provar que Tex podia adaptar-se ao sabor dos novos tempos, evoluindo para argumentos mais densos e menos maniqueístas, trilhar novos rumos, mas nunca descurando os valores da personagem e da série.

Verdadeiro argumento cinematográfico, esta é uma história feita de flashbacks e onde todas as balas são literalmente disparadas. Uma história onde Tex não se reduz a um papel menos preponderante, apesar de ser uma aventura mais focada no velho (e no jovem) Carson. Dividindo o protagonismo, Tex e Carson nunca se assumem, por assim dizer, donos da história, porque a aventura está sempre recheada de acontecimentos que acabam por realçar outras relações, dotando grande importância a outros actores. Começando em Kit Willer, passando por Donna, Lena, ou Ray Clemonds e terminando em cada um dos elementos do bando, todas as personagens adquirem a sua espessura e as suas características, todas assumem um papel concreto capaz de se moldar ao ritmo da história. Este é um toque pessoal que Boselli trouxe para a série, tornando as aventuras mais ricas, menos lineares, aventuras onde o leitor é muitas vezes surpreendido pelo rumo empreendido ou pela capacidade de determinada personagem em optar por um comportamento ou por uma atitude menos aguardada. Boselli preocupa-se menos em construir o seu Tex, optando antes construir para Tex, o que equivale afirmar que, sem descurar a sua visão pessoal do Ranger, o autor prefere sempre mais contribuir para o evoluir da série e das personagens.

Apesar dos seus posteriores trabalhos, é nesta aventura que Marcello tem a sua melhor prestação em Tex.

Marcello consegue dotar a aventura de uma atmosfera única, integrando-se perfeitamente no espírito do argumento. A sua representação de Carson em novo é memorável, enquanto as personagens femininas de Lena e Donna são belíssimas.

Esta é realmente uma história lendária, belíssima, a ler e a reler sem nunca nos cansar.

Texto de Mário João Marques

9 Comentários

  1. Pela descrição, deve mesmo ser uma história fantástica. Como sou leitor de Tex há apenas 3 anos, ainda não pude ler essa aventura. Mas essa história sairá num dos próximos Tex Ouro, e não vou deixar passar essa boa chance de conhecer essa obra-prima.

    Saudações, amigos!

  2. Certeira análise, caro Mário. Boselli e Marcello constroem uma grande aventura, criando dois personagens que serão importantes para o universo do Ranger.
    Boselli reconstrói o mítico Kit Carson. Seu Carson jovem é um herói à altura e talvez maior que o próprio TEX. Por outro lado, há também a figura dubia do herói/bandido – Clemonds. Um homem determinado a levar ás ultimas consequências seus propósitos. Mas mesmo este homem, graças à pena de Boselli, tem valores que ficam acima do bem e do mal.
    E, na minha opinião, o grande mote desta aventura, o que mais se destaca nela é o sentimento de AMIZADE. Boselli, inspiradíssimo, mostra que para UM AMIGO, TUDO E MUITO MAIS !

    Jesus Ferreira

    • Amigo Jesus.
      Eu não diria que se trata do Kit Carson jovem, e sim de como ele era, e o que fazia na época em que conheceu Tex Willer, pois entendo que nesta época ele já deveria estar chegando aos 50 anos e Tex Willer com mais ou menos 30, certo?
      Pois não é essa + ou – a diferença de idade entre os dois?
      Falta ainda uma H.Q do Kit Carson que conte a sua juventude, e início de “carreira”.
      Abraços.

      AMoreira

      • Amigo AMoreira,
        Por um lado você tem razão, pois na época (flash back) em que conta a aventura, Carson já era um Ranger, portanto se presume que ele já não está nos seus verdes anos. Porém, desta época até o momento em que Tex conta a história a Kit, passaram-se pelo menos vinte anos. Ou seja, é uma história de um Kit Carson vinte anos mais jovem, ou não?
        Não creio que Carson estivesse com muito mais 35, 40 anos na época que conheceu TEX. E Tex deveria andar pela casa dos 25. Se supormos que a diferença de idade entre ambos seja em torno de vinte anos…
        Acho que o amigo Zeca pode nos dar mais dados a este respeito…
        Um grande abraço, pard.
        Jesus Ferreira

  3. Penso que a diferença de idades entre Carson e Tex ronde os 15/16 anos, já que na edição nº 265 de Tex (“Fuga de Alcatraz”), quando lhes é perguntada a idade (para constar constar em documentos falsos) Tex revela que a sua idade é de 40 anos e a de Carson 56, embora Carson o corrija, dizendo que na realidade tem 55.

  4. Então estamos falando de uma diferença de idade de 15 anos.
    Pois então?
    Se Kit Carson tinha uns 40 anos quando conheceu Tex, este teria uns 25 anos.
    Vocês não acham que é pouco para um cara (Tex) que já era, na ocasião, o herói que conhecemos hoje?
    De qualquer forma (esquecendo a idade de Tex), e voltando para o “X” da minha questão, o amigo Jesus tem que concordar que ainda não conhecemos a Juventude de Kit Carson, certo?

    • Amigo AMoreira, claro que concordo contigo: Ainda não temos uma grande aventura contando a juventude e os primeiros anos do grande Kit Carson. Quem sabe Boseli não estará preparando já este argumento???
      Um grande abraço
      Jesus Ferreira

  5. Boa escolha para tema, esta história é ótima!!!
    Eu às vezes me pego pensando se Lena & Donna voltarão a participar das histórias de Tex. Afinal, Kit Willer deixou algo pendente no ar…

    Estêvão

  6. Lembro-me quando ia comprar quilos de quadrinhos na minha loja cá. Lembro-me também que, ao abrir e ler a primeira página desta história, sentia algo como uma ruptura com tudo o que já foi feito em Tex. Além disso, quando tinha o quadrinho nas mãos (tinha mais ou menos 15 anos), não parava de ver o Kit Carson na tapa, quase em filigrano. Já achava que esta história tinha algo de mistério…
    Hoje em dia, sabendo que ainda não li todas as últimas histórias do grande ranger, acho que é a melhor história de Tex, a que não nos deixa respirar até a palavra “FIM”.
    Gostaria também ter uma história assim sobre a juventude do Tex.

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