Tex Série Normal: Irmão Branco

Irmão BrancoArgumento de Claudio Nizzi, desenhos de Giovanni Ticci e capas de Claudio Villa.
Com o título original Fratello bianco, a história foi publicada em Itália nos nº 542 e 543 e no Brasil pela Mythos Editora nos nº 448 e 449.
 
Já não é a primeira vez que Nizzi acaba por focar em determinadas aventuras realidades actuais, acabando por, conscientemente ou não, apresentar a sua visão crítica. No fundo, trata-se de transpor para as aventuras texianas factos que ainda hoje perduram nas sociedades e na política dos nossos dias. Se atendermos ao enredo, facilmente somos levados a concluir que o autor acaba por ser um espectador atento daquilo que o rodeia, servindo isso de influência para as aventuras texianas.
 
Arte de TicciTaiga é um chefe apache que anda fugido das autoridades, acusado de ter cometido um massacre nas minas de S. Cristobal, matando vários mineiros. Na sua peugada está o exército, assim como o xerife Jenson de Safford. Tex e Carson vão ajudar Taiga a fugir das autoridades, porque acreditam na sua inocência e porque acham que altas individualidades de Safford têm tudo a lucrar com as acusações a Taiga. É que desta forma o exército mantém-se na zona e precisa do armamento que alguns homens influentes de Safford vendem.
 
Tex em acçãoEsta acusação imposta aos apaches na figura do seu chefe Taiga, transposta para os dias de hoje acaba por demonstrar uma crítica mais ou menos subtil de Nizzi à indústria do armamento, onde altos interesses estão em jogo e onde rolam cabeças muito importantes sempre em nome do lucro. A corda acaba por esticar e soltar-se pelo lado mais fraco e é sempre a parte financeiramente mais capaz que acaba por levar a melhor. Talvez não, quando afinal surgem pela frente dois rangers dispostos a levar até ao fim os valores em que acreditam. E é nisso que talvez Nizzi ainda acredite, o facto da justiça ainda prevalecer sobre a lei daqueles que se julgam mais fortes.
 
Chantagem InfameEm termos narrativos, Nizzi acaba por apresentar um trabalho pouco homogéneo, uma vez que o ritmo anda sempre aos solavancos e nunca adquire uma velocidade consentânea com os acontecimentos. Por exemplo, a aventura inicia-se logo cerceada de vários acontecimentos, o massacre de São Cristobal, a fuga de Taiga ou a entrada em cena de Tex e Carson, que só vai surgir curiosamente já decorridas 25 páginas. Mas esta velocidade acaba por refrear ao longo da primeira parte da aventura, com Nizzi a incluir acontecimentos que não são importantes para o desenrolar do enredo. A bem ver, Nizzi poderia ter optado por aproveitar as primeiras páginas em proveito dos acontecimentos que não conta, até porque isso daria outra riqueza ao argumento. Um argumento que tende depois a acelerar novamente, até culminar de modo demasiado previsível e  muito fácil, demonstrando que o autor já teve melhores dias e já viveu outros momentos de inspiração.
 
Tex Willer em acçãoDevido ao peso da idade ou manifesta mudança de estilo gráfico, a verdade é que o traço de Ticci está hoje bem diferente do desenhador que, ao longo de décadas, representou a referência para todos os que lhe seguiram na série.
 
Apesar dos planos, apesar dos enquadramentos, apesar do dinamismos, das expressões, mesmo ainda do fulgor representativo de muitas pranchas, a verdade é que o traço ticciano já não tem a mesma precisão, o mesmo rigor, a mesma elegância de outras épocas.
 
Vinheta de TicciÉ nosso entendimento que isso se deve mais ao peso da idade do autor do que propriamente a uma mudança assumida do seu estilo. Hoje, o traço ticciano é intermitente, impreciso, apesar de ainda ser motivo de admiração e contemplação. Parece que o tempo ticciano que marcou uma época e a história de Tex, esse já foi ultrapassado.
 
Texto de Mário João Marques

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