Tex Série Normal: As Colinas dos Sioux

As Colinas dos SiouxArgumento de Claudio Nizzi, desenhos de Vincenzo Monti e capas de Claudio Villa (nº 396, 398 e 399) e Fabio Civitelli (nº 397).
Com o título original Le Colline dei Sioux, a história foi publicada em Itália nos nº 480 a 482 e no Brasil, pela Mythos Editora nos nº 396 a 399.

As Colinas do Vento são território Sioux que o governo norte-americano quer comprar devido à sua enorme riqueza em ouro. Nos últimos tempos são muitos os que ali chegam desejosos de extrair o vil metal, sem se importarem em obterem licença. Por isso, os incidentes vão surgindo devido à cupidez dos brancos, não olhando a meios para atingirem os seus fins. O chefe Sioux Nuvem Branca quer preservar estas terras nos índios porque são consideradas sagradas.

Tex por Vicenzo MontiTex vai tentar obter uma solução de compromisso que passa por deixar aos brancos apenas o direito de exploração, mantendo as terras como pertença dos Sioux. No entanto, esta solução não colhe os favores do Coronel Drake que está à frente de Forte Walsh e vê os índios como algo a abater.

As aventuras texianas que tratam das relações entre brancos e índios com Tex a servir de mediador são, modo geral, ricas. Ricas na composição das personagens, ricas nos acontecimentos, ricas na carga dramática ou mesmo no rigor dos diálogos.

O Vento do ÓdioNizzi consegue também aqui construir um argumento que congrega todas estas características. Com um enredo perfeitamente delineado e cada personagem a jogar bem o seu papel, o autor entra mais uma vez pela história da conquista do oeste, pela história do relacionamento entre brancos e índios, a bem ver, por acontecimentos que moldaram a aventura norte-americana.

Tudo se joga entre duas personalidades distintas, tudo gira em torno da humanidade de Nuvem Branca e a inflexibilidade do coronel Drake, servindo Tex de mediador, tentando obter uma solução de compromisso que agrade a ambas as partes. Em determinadas passagens a acção texiana é mesmo impotente perante a força dos acontecimentos, sendo o ranger ultrapassado por estes. Mas a verdade é que este papel de Tex, menos interveniente em termos de acção e mais diplomático e conciliador, surge mesmo como um aspecto positivo em toda a aventura, ao contrário do que vem sendo habitual em Nizzi.

Arte de Vicenzo MontiPorque Tex nunca esquece que em ambos os lados existe o bom e o mau (vejam-se os exemplos do capitão Orwell e do renegado sioux Nariz de Corvo) e também porque o ranger conhece bem os direitos de cada parte e o que cada passo pode determinar. Ou seja, predominando os diálogos (sem esquecer a acção), o papel texiano é decisivo no modo e na forma como vai influenciar as partes e os seus comportamentos.

Trata-se de um aspecto interessante numa aventura capaz de transmitir ao leitor sensações fortes e com um epílogo amargo, mas ao mesmo tempo profundo e revelador da força de um homem capaz de ser chefe de um povo.

Ataque na Montanha SagradaQuando Tex entra no acampamento militar com o corpo de Nuvem Branca e perante as colunas militares ordenadas pelo General Davis afirma a si mesmo “Velho bastardo! Recebe o cadáver de Nuvem Branca com honras militares” revela que o outro lado soube compreender a grandeza das motivações índias e curvar-se perante alguém que foi capaz de sacrificar-se pelo seu povo.

O desenho de Monti não colhe na sua totalidade, mas para sermos sinceros, surpreende pela positiva. Surpreende, porque Monti nunca foi para mim um desenhador que me atraísse sobremaneira. O seu estilo muito ticciano agradou-me nas primeiras aventuras por ele assinadas, mas depois veio a assumir um grafismo naturalmente mais personalizado que trouxe para Tex feições mais estáticas e menos uniformes.

Sacrifício por um PovoNesta aventura, apesar de Monti desenhar um Tex mais à sua maneira em primeiro plano e mais ticciano em planos de fundo, o seu desenho vai alternando de planos e de enquadramentos, o que acaba por dotar a aventura de uma certa fluidez gráfica. E Estamos a falar de um autor que assinava aqui a sua penúltima aventura, sendo mesmo a sua última completa.

Os seus traços são fortes e carregados, o que nas feições humanas, sobretudo nos primeiros planos, tende a desvirtuar um pouco a sua expressividade. Onde Ticci, por exemplo, é cinematográfico, tal o dinamismo patente na acção, Monti revelava-se com um desenho algo estático que, nesta aventura, talvez tenha conseguido ultrapassar em inúmeras passagens. Ao contrário de Tex, a figura de Carson está sempre homogénea, não sofrendo alterações em função de planos e perspectivas. Em resumo, um bom trabalho de Monti.

Texto de Mário João Marques

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