TEX no Diário As Beiras: 23 de Setembro de 2006

Texto do jornal Diário “As Beiras” de 23 de Setembro de 2006
Por João Miguel Lameiras

TEX DÁ A DESCOBRIR MAIS UM GRANDE DESENHADOR

Texto do jornal Diário “As Beiras” de 23 de Setembro de 2006Objecto habitual de referência neste espaço, por via da colecção “Tex Gigante” (os famosos “Texones”) onde grandes nomes da BD mundial dão a sua interpretação do ranger da Editora Bonelli, Tex, o cowboy criado por Bonelli e Gallepinni volta a ser notícia graças à distribuição do “Almanaque Tex” nº 23, uma revista que, depois de Aldo Capitano no nº 18, dá a descobrir aos leitores portugueses mais um excelente desenhador: o argentino Miguel Angel Repetto.

Digno representante de uma das melhores escolas da BD, a argentina, que deu ao mundo ilustradores como Alberto Breccia, José Muñoz, Horácio Altuna, Juan Giménez, Eduardo Risso, José Luís Salinas, Solano Lopez, Arturo del Castillo e Horácio Laila, entre (muitos) outros, Repetto é mais um grande desenhador que encontra no Western o terreno ideal para dar vazas ao seu talento, na linha de José Luís Salinas (o desenhador de Cisco Kid) e de Arturo Del Castillo (ilustrador, entre outras, da série “Randall” escrita pelo malogrado Hector Oesterheld). E falar de Del Castillo a propósito de Repetto não é despropositado, pois são bem evidentes as influências do traço elegante do primeiro no desenho do segundo, o que se compreende tendo em conta que Repetto substituiu Del Castillo como desenhador da série “El Cobra” na revista argentina “Skorpio”.

Para além do trabalho feito na sua Argentina natal, para as revistas “Skorpio”, “Misterix” e “Hora Cero”, Repetto trabalhou também para o mercado americano, desenhando as tiras diárias da série “Secret Agent X-9” (criada por Alex Raymond com argumento do escritor Dashiel Hammet) para a King Features Syndicate, até Sergio Bonelli o chamar para a equipa de desenhadores de “Tex”, série para a qual tem desenhado várias edições especiais.

António Segura, único argumentista não italiano a escrever histórias de Tex, tem sido um dos colaboradores preferenciais de Repetto, de quem tem a melhor das opiniões. Conforme refere o argumentista espanhol: “A minha experiência pessoal de trabalhar com Repetto foi a melhor. Ele é um grande profissional, que soube compreender e interpretar na perfeição o argumento que lhe dei. Se olhares para o álbum do Tex que ele desenhou (“I Due Volti della Vendetta”), poderás constatar que é raro encontrar um desenhador capaz de exprimir nas feições dos protagonistas um carga tão grande de intensidade dramática. As personagens de Repetto respiram os seus sentimentos através dos rostos, actuando como artistas eficazes. Até o mais insignificante dos figurantes da história interpreta na perfeição o seu papel. Repetto desenha, quanto a mim, mais com o coração que com a técnica fria do profissional e por isso a sua obra, as suas personagens, são humanas e credíveis.

Guerra no DesertoAlém do tratamento das feições, realçado por Segura, neste “Guerra do Deserto” destaca-se também o talento de Repetto para os detalhes, desde o magnífico cenário Fordiano do Monument Valley, até aos pequenos apontamentos da vida animal, que pontuam as vinhetas panorâmicas desta história passada no deserto do Arizona, em que Tex evita que as acções de um chefe rebelde provoquem uma guerra entre os índios Mescaleros e o exército americano, ao mesmo tempo que é perseguido pelo homicídio de um militar.

E se o eficaz argumento de Claudio Nizzi, claramente devedor do cinema de John Ford (o sargento Ross parece saído directamente de um dos filmes que Ford dedicou à cavalaria) e até do primeiro ciclo de aventuras do “Tenente Blueberry”, de Giraud e Charlier, não ficará certamente na história da série, tem sobretudo o grande mérito de deixar brilhar o traço detalhado e de grande elegância de Repetto. Um grande desenhador, cuja arte merecia ser reproduzida num formato maior. Mas quanto a isso, só nos resta esperar que Sergio Bonelli se lembre dele para desenhador de um dos próximos Texones…
(“Almanaque Tex nº 23: Guerra no Deserto”, de Claudio Nizzi e Miguel Angel Repetto, Mythos Editora, 194 pags, 4,40 €)

Copyright: © 2006 Diário “As Beiras”; João Miguel Lameiras
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