Tex Gigante 18: O Desfiladeiro da Cobiça

Capa Tex Gigante - O Desfiladeiro da CobiçaA leitura de uma edição gigante deixa-me sempre algo curioso, mas sobretudo ansioso. Curioso em descobrir como é que determinado autor vai interpretar Tex e o espírito da série. Ansioso, não só porque é um produto anual e por isso menos regular, também porque o formato é maior permitindo outra perspectiva, mas fundamentalmente porque se trata de uma edição onde sempre aparece algo de novo na série. Esta edição de 2006 não fugiu à regra e teve um acréscimo suplementar, o facto de me ter sido oferecido o original italiano pelo meu amigo José Carlos Francisco.

Uma edição com papel de boa qualidade e um formato ainda maior que o da edição brasileira da Mythos. Confesso que os meus conhecimentos da língua italiana são muito rudimentares e parti para a sua leitura com este óbice, o facto de  não  dominar  a língua e interpretar muitas passagens pelo seu sentido geral. Com algum custo, alguma determinação e muita paciência, muitas vezes recorrendo ao amigo dicionário, comprado para o efeito, consegui chegar ao fim, até porque a vontade de deixar aqui a minha apreciação era grande.
Vamos então por partes e comecemos pela história em si.

 Tex por Alessandrini O velho Sunday Jim parece ter coroado toda uma vida de buscas quando descobriu o acesso para o mítico Canyon Dorado, um desfiladeiro onde se encontra uma riquíssima extensão de ouro. Mas  é  também  um local guardado e vigiado pelos apaches e só muito a custo o velho Jim consegue escapar da justiça índia. Sunday Jim manda chamar Tex para que este interceda junto de Cochise, tendo em vista que  o  chefe  apache lhe restitua um pouco do ouro perdido ao fugir de Canyon Dorado. Entretanto, a notícia da descoberta corre célere e Sunday Jim vai ser alvo de rapto por parte do bando de Cimarron que, aliado ao sargento Brayton e ao renegado apache Anche Juh, vai também tentar chegar ao ouro.

O ouro cega e motiva a cobiça dos homens, levando-os a cometer os actos mais inconsequentes. O Desfiladeiro da Cobiça exalta esta ambição humana, mas também nos fala um pouco de lendas e da cultura índia, algo que o próprio Nizzi já tinha abordado, por exemplo, em O Pueblo Perdido com desenhos de Ticci, ou também J.M. Charlier e Gir para Blueberry, no excelente díptico da Mina do Alemão Perdido.

Nizzi sustenta a base da aventura num conjunto de homens com diferentes ambições, certamente, mas sintonizados no mesmo objectivo, conseguir chegar ao ouro. Se Cimarron e o sargento Brayton ambicionam o lado material da questão, tão somente enriquecer e mudar de  vida,  o  renegado Juh pretende obter os meios que lhe permitam adquirir  armas e  lutar contra o poder instituído de Gerónimo como chefe apache. Nizzi tinha aqui margem de manobra para aprofundar essa distinção sobre os motivos da ambição humana, no fundo o que move os diferentes actores em busca do ouro, exaltando as motivações de cada um. O autor  decide-se,  entretanto, por nunca explorar convenientemente essa via, o que certamente teria conferido outro interesse e outra espessura à aventura, acabando por cair numa certa falta de consistência e mesmo em algumas incongruências.

Índios por Alessandrini Será que esta ambição humana levaria com que um grupo de militares se aliasse tão facilmente a um renegado apache e a um bando de foras-da-lei? Será que Cochise, o chefe apache que abandonou a guerra e guiou inteligentemente a sua tribo pelos caminhos da paz nos montes Chiricahuas, seria uma presa assim tão fácil para o renegado Juh? Será que Cimarron, juntamente com mais dois ou três homens, controlaria e abateria uma coluna do exército, como o diabo esfrega um olho?

São questões que caracterizam uma aventura que peca por ser pouco convincente, onde tudo parece demasiado fácil, acabando Nizzi por dar uma certa razão aos seus críticos. Tex, Carson, Kit e Tigre parecem navegar ao sabor dos acontecimentos, passando muito da aventura  a  fugir.  Por outro lado e, apesar da presença dos quatro, a verdade é que Tex assume muitas vezes um papel solitário. As suas dúvidas, a sua incerteza perante a atitude a tomar com Cochise, reflectem um Tex pouco bonelliano, um Tex que não conduz os acontecimentos, um Tex que depende, um Tex pouco activo, um Tex pouco seguro da sua conduta e que se encontra isolado e encostado à parede perante a melhor solução a adoptar.

Giancarlo AlessandriniPor fim, o desenho: quanto mais não fosse pela característica muito própria desta publicação, permitir que diversos autores deixem a sua marca pessoal, o trabalho de Alessandrini levantava natural curiosidade, em face de alguma celeuma entretanto provocada. Por isso,  para  que  não fiquem dúvidas, afirmo desde já que não gostaria de ver Alessandrini  no  staff  texiano. Mas isso não invalida que o autor não apresente um  trabalho  digno  e de qualidade. Esta minha renitência prende-se apenas com a composição da figura texiana, um Tex  sempre  de  semblante distante, com  um  olhar rumo ao horizonte,  algo frio e sem aquela rudeza, aquele cinismo que tanto o caracteriza. Consciente desta dificuldade em desenhar um Tex bonelliano, Alessandrini defende-se com muitos planos indirectos do ranger ou até com planos nocturnos que ajudam a atenuar este óbice, digamos mesmo esta fraqueza.

Pelo contrário, todo o restante trabalho demonstra e afirma um Alessandrini em boa forma, com um traço correcto, cenários de grande qualidade e contrates que não oferecem crítica. Mesmo a composição das diferentes personagens (excepção aos nossos heróis) é merecedora da nossa atenção, onde destacaremos em concreto as figuras  do  velho Sunday Jim, com quem o leitor facilmente simpatiza, e sobretudo Cimarron, um verdadeiro crápula, daqueles que se destacam no horizonte.

Texto de Mário João Marques

Um comentário

  1. Depois de ler essa crítica, perdi a vontade de comprar a edição encadernada, que acaba de chegar à banca do meu bairro.

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