“Tempestade sobre Galveston”, o livro de Tex com a chancela da Polvo n’As Leituras do Pedro

As Leituras do Pedro*

Tempestade sobre Galveston
Pasquale Ruju
(argumento)
Massimo Rotundo
(desenho)
Polvo
Portugal, Abril de 2016
245 x 185 mm, 228 p., pb, brochado com badanas

ISBN 978-989-8513-55-7
16,99 €

Uma boa edição faz uma boa história? Não.
Mas uma boa edição pode valorizar uma (boa) história? Sem dúvida.

Ao começar com Patagónia – ‘a história’ de Tex por excelência? – a ‘colecção’ da Polvo dedicada ao ranger herdou desde logo um problema: qualquer que fosse a história seguinte, a comparação com o livro de estreia seria menos abonatória. Obviamente, uma apreciação baseada neste único ponto, seria extremamente penalizadora e redutora.

Baseada nos Texones italianos – os Tex Gigante da brasileira Mythos – havia dois caminhos a trilhar: seleccionar os títulos dos autores mais apelativos – Joe Kubert, Magnus, Jordi Bernet… – ou utilizar como critério de selecção a vinda do autor a Portugal para participar nas Mostras do Clube Tex, escolhidas – naturalmente – como local de lançamento dos Tex da Polvo. A opção por esta última hipótese – e ambas eram igualmente válidas – ‘forçou’ a escolha de Tempestade sobre Galveston, devido à presença de Massimo Rotundo na Anadia, neste último fim de semana.

Escrito por Pasquale Ruju – que já nos ofereceu boas histórias de Tex como A Horda do Crepúsculo, Os Bandidos da Neblina ou Mestiço/A Revanche – este é um relato do ranger de cariz tradicional. Nele, após dizimarem um bando que perseguiam, Tex Willer e Kit Carson chegam a Galveston onde vão ser apanhados pelo ‘fogo cruzado’ de um confronto entre o rico fazendeiro local e o pouco justo juiz e a bela proprietária de um dos saloons da cidade.


Tomando o partido desta última, os rangers terão que utilizar toda a sua argúcia, força e, principalmente, capacidade de atiradores, para atingirem os fins a que se propõem e reporem a lei, a ordem e a justiça.

Com Galveston situada num estado sulista, Ruju acrescenta à trama alguns apontamentos relacionados com a escravidão e a exploração – legal… – de negros, e ainda a história de um grande jogador, uma mulher determinada e a busca de um tesouro escondido, tudo enquadrado pelas mudanças sociais aceleradas então em curso no Velho Oeste.

Com Willer e Carson iguais a si mesmos – dificilmente poderia ser de outro modo… – Tempestade sobre Galveston conta na sua galeria com algumas personagens interessantes, entre um bom número de vilões, intriguistas, prepotentes e ‘simples’ assassinos, um xerife digno da estrela que ostenta, a tal mulher determinada, um foragido decidido a mudar de vida, duas empregadas – diferente mas igualmente – dedicadas e um negro duplamente vítima – de si e do sistema de justiça corrompido de Galveston – tendo cada um deles papéis específicos mas determinantes, para que o conjunto funcione e faça sentido.

Tal como a enorme tempestade que se abate sobre a região – e demonstra a pequenez humana face ao poder dos elementos naturais – que vai também marcar – e de que maneira! – o desfecho deste relato de ritmo acelerado.

Chegado aqui, convém regressar às primeiras linhas deste texto para salientar a boa qualidade da edição da Polvo, a segunda da (agora definida como) colecção Tex Romance Gráfico – que terá novidades mais cedo do que muitos pensarão… Colecção que está vocacionada não só para os fãs de Tex – e duas capas (badanas e contracapas!) diferentes é um apelo irresistível para muitos dessas fãs, como já se viu na 3.ª Mostra do Clube Tex Portugal, em Anadia, onde este livro foi lançado – mas também para os leitores de BD exigentes, a quem as edições tradicionais mensais, de pequeno formato e papel inferior, não estimulam nem satisfazem.

Apesar do formato ligeiramente inferior ao original, nas suas páginas o belo desenho de Rotundo ganha nova força, renovada vida. Detalhado, ao nível dos rostos, dos corpos e das paisagens, sejam elas naturais ou fruto da mão humana, o traço de Rotundo destaca-se especialmente na forma como confere volume e profundidade às vinhetas e pela variedade de perspectivas utilizadas, tudo salientado pelos tons bem negros utilizados na impressão e pelo papel de boa gramagem, que realçam os contrastes claro/escuro e os jogos de luz explorados pelo desenhador, em especial na longa sequência final, em plena tempestade.


Seria injusto terminar estas linhas sem destacar a belíssima capa desenhada por Rotundo especificamente para a edição portuguesa que se torna, assim, ainda mais apetecível como peça de colecção para os muitos seguidores que o ranger tem em Itália, Portugal, Brasil e outros países.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

2 Comentários

  1. Dois belos exemplares parceiro!…
    Me parece aí pela imagem, que esse (da Polvo) de Portugal, é mais bonito.

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