Por Mário João Marques*
A primeira vez que reparei no nome de Stefano Andreucci foi no Almanacco Del West de 2003, cujo nome figurava nos créditos da aventura Eroe per Caso, ao lado de Mauro Boselli. Desde logo, o desenhador ficou na minha retina, não só pela sonoridade que emanava do seu nome, mas sobretudo pela força que transpirava do seu traço. Tentei então conhecer um pouco mais do seu percurso, nomeadamente na Sergio Bonelli Editore (SBE), onde tinha sido desenhador de Zagor e, na altura, era um dos grandes nomes em Dampyr, infelizmente duas séries que então não colecionava. Posteriormente, quando comecei a comprar a série mensal italiana de Dampyr, acabei por confirmar que não estava enganado, comprovando estar em presença de um desenhador perfeitamente habilitado a traduzir em belas imagens as atmosferas dampyrianas de horror, assim como os ambientes do Velho Oeste. Como tal, foi com grande satisfação que assisti ao regresso de Andreucci a Tex, quando passou a ser um colaborador regular na série. E se o seu trabalho com o ranger é ainda algo limitado no que respeita à quantidade, ele já é de monta no quesito qualidade, não passando despercebido a qualquer apaixonado. Seja no domínio da aventura, no reino do fantástico ou nos ambientes do western, Stefano Andreucci move-se sempre com a mesma facilidade, aquela que só está ao alcance de poucos.
Nascido em Roma, em 1962, Andreucci vive e trabalha em Narni há cerca de duas décadas, sendo, inclusive, um dos fundadores do Festival de Fumetto desta cidade italiana. A sua paixão pelo desenho vem de tenra idade, fruto da leitura das muitas publicações que chegavam a sua casa, adquiridas pelos vários membros da sua numerosa família: Zagor, Disney, Mandrake, Super-Homem, Fantasma, assim como Tex. Depois dos estudos superiores no IV Liceo Artistico (Alessandro Caravillani) e na Academia di Belle Arti, ambos em Roma, Andreucci começa a trabalhar nos fumetti em 1986, no Estúdio de Dino Leonetti (Studio Leonetti), onde passaram tantos jovens desejosos de mostrar o seu talento. Deste período, o autor guarda gratas recordações, uma vez que Leonetti era um senhor no relacionamento diário, e se o mestre nunca foi considerado um fora de série no domínio do desenho, tinha o dom de saber contar uma história, dominando a narração gráfica, característica que nem sempre corre ao lado do talento e da técnica. Andreucci iniciou a sua formação profissional neste estúdio, ao lado de nomes como Mauro Laurenti (Zagor), Giuseppe Barbati (Magico Vento), Roberto De Angelis (Nathan Never e Tex Willer), Massimo Carnevale (Dylan Dog e Tex) e outros. Ao mesmo tempo, participa no projeto editorial “La Fabbrica Delle Immagini” de Silvano Caroti, alternando esta atividade com experiências no sector publicitário. Colabora com Francesco Coniglio em histórias eróticas, e desenha aventuras de ambiente fantástico e de terror em publicações como “Splatter” e “Mostri” da editora Acme. E é Coniglio que vai incentivar Andreucci a enviar alguns desenhos a Sergio Bonelli. No entanto, apesar do desenhador ter expedido as suas provas com a expressa indicação de entrega em mãos ao editor, a resposta virá de Decio Canzio, que aconselha o desenhador a amadurecer mais um pouco e contactar a editora mais tarde. Determinado, no espaço de um mês Andreucci prepara novos desenhos genéricos e envia-os novamente para a SBE, acabando por ser contratado, iniciando a sua colaboração com a editora a partir de 1992.
Estreia-se em Zagor com Lo Spirito della foresta e, posteriormente, assina algumas histórias de amplo respiro que vão servir para relançar a série, como Il Terrore dal Mare, La Fortezza Nascosta, Atlantis, Il Ritorno di Cain (personagem que criou para a série), La Miniera Perduta, Texas Rangers ou ainda Comancheros, todas escritas por Mauro Boselli, e que vão permitir solidificar a relação entre os dois autores, que ainda hoje se mantém. A participação de Andreucci em Zagor foi de tamanha qualidade que, sempre que saía para as bancas uma nova aventura desenhada por si, era o próprio Sergio Bonelli que lhe telefonava a dar-lhe os parabéns. Também Joevito Nuccio, um dos mais apreciados desenhadores de Zagor, declarou recentemente que Andreucci sempre foi um dos seus desenhadores favoritos na série.
A partir de 2001, inicia a sua colaboração em Dampyr, estreando-se na série mensal com L’isola della Strega, aventura escrita por Maurizio Colombo, um trabalho muito experimental para o autor, com a passagem a tinta a ser feita a partir de esboços rápidos ampliados através de um projetor que os transmitia diretamente para a mesa de trabalho. É também o desenhador do primeiro Speciale (Dracula Park) e do número 100 (Il re del mondo), que muitos consideram a sua consagração definitiva. Andreucci é um dos desenhadores mais prolíficos da série e são vários os seus trabalhos de elevada qualidade, retendo pessoalmente I Vampiri di Londra, uma grandiosa tetralogia escrita por Mauro Boselli, que vê Harlan e os companheiros atuarem numa Londres Vitoriana ao lado de Bram Stoker.
Tal como acima referido, a estreia em Tex ocorre em Eroe per Caso, que nos traz a personagem de “Fast” Dan Reynolds, tão virtuoso com as pistolas como incapaz de disparar e matar quem quer que seja, mesmo que na pequena cidade de Fargo todos acreditem ter sido ele quem abateu um bandido famoso que Tex perseguia. Apesar de curta, a aventura é uma pequena joia que não nos cansamos de ler e reler, em que Boselli dava mostras da sua especial aptidão em escrever para Tex, aqui ao lado de um Andreucci que, ainda sem revelar a maturidade artística de hoje, demonstrava ser já um grande narrador gráfico.
A experiência com o ranger só vai ter continuidade dez anos mais tarde, na aventura Salt River, publicada em 2013, e que se mantém como o seu único trabalho nesta publicação.
A história, que inicialmente tinha como título Tonto Creek, leva Tex, Carson e Kit na perseguição a Jack Curtiss, acabando o filho de Tex por unir-se ao seu bando de foras da lei e conhecer uma bela e sedutora médica. As primeiras vinte páginas foram reescritas e o desenhador romano usou perspetivas ousadas e dinâmicas, mais de acordo com os ambientes da aventura, onde impera uma violência pouco comum.
Entretanto, a partir de 2014, Andreucci vai começar a trabalhar para o mercado francês com “La Statue de Zeus”, história integrada numa série dedicada às sete maravilhas do mundo (Les 7 Merveilles) da editora Delcourt, uma experiência exaltante que permitiu ao desenhador conhecer outras realidades e trabalhar numa estruturação diferente das pranchas.
Seguem-se dois trabalhos com o Tex jovem, ambos em 2017, primeiro com o Texone Il Magnifico Fuorilegge, uma história inesquecível que estará entre as finalistas da categoria de melhor desenhador do prémio Micheluzzi no Comicon de Nápoles e que, em boa verdade, pode ser lida como uma espécie de “Origens” ou “Ano Um” de Tex. Um herói jovem que nos surge como um fora da lei, bem distante do ranger que aterroriza todos os bandidos do Velho Oeste. Temporalmente, os acontecimentos ocorrem antes da fase inicial da série, quando Gianluigi Bonelli ainda não tinha definido a identidade do seu herói. Desenhar um Texone representa um marco importante para qualquer desenhador, e foi com este sentimento que Andreucci iniciou o trabalho, passando das hesitações próprias de uma fase inicial até ao posterior divertimento de quem já domina algo. Uma fase que representou para o autor mergulhar nas vestes do jovem Tex e imaginar como é que ele próprio, Andreucci, atuaria se estivesse no seu papel. O autor desenha um jovem Tex ligeiramente auto-irónico, ousado e descontraído, tal como Mauro Boselli sugeriu. Um modelo com inspiração no ator Gary Cooper e que acabou por influenciar outros desenhadores que chegaram posteriormente à série, como Bruno Brindisi ou Michele Rubini, este último tendo frequentado o estúdio de Andreucci.
Ainda em 2017, é publicado Il Vendicatore, um álbum cartonado onde encontramos um Tex ainda mais novo que em Il Magnifico Fuorilegge, revelando ao leitor os eventos que transformaram Tex de vingador num fora da lei. A aventura decorre após a morte do pai de Tex, levando o jovem herói a atravessar o Rio Grande e a vingar-se dos assassinos, que se tinham refugiado no México e unido ao poderoso rancheiro Juan Cortina. Neste álbum, Andreucci vai poder dar outra liberdade às suas pranchas, representadas com uma média de nove desenhos em cada, servidas por um estilo menos definido, com traços velozes e essenciais, deixando que tudo seja completado pelas magníficas cores de Matteo Vattani, que infundem um realismo impressionante.
Em 2018, Andreucci torna-se num dos desenhadores de Deadwood Dick, realizando o episódio Black Hat Jack para o catálogo Audace da SBE. A série é uma transposição da obra homónima do escritor norte-americano Joe Lansdale para a banda desenhada, e conta as aventuras do cowboy afroamericano Nat Love, um western “feio, porco e mau”, bem diferente do de Tex, tal como, no cinema, o western de John Ford está para o de Quentin Tarantino. Acima de tudo, o western é para Andreucci uma ideia visual, representada por uma silhueta que caminha sobre a poeira, de chapéu na cabeça, coldre em baixo, e cujas esporas emitem um som inesquecível. Um imaginário formado desde pequeno, quando o autor copiava as capas de Galleppini, quando assistia aos filmes na televisão ao lado do seu pai, ou quando lia Tex, Zagor e tudo o que chegava a sua casa. Um western estruturado com o cinema dos anos 1970 e em nomes como Sam Peckinpah e Sergio Leone, mas sempre com John Ford no coração. Por isso, se para Andreucci desenhar Tex é emocionante, trabalhar em Deadwood Dick foi estimulante.
Finalmente, em 2020 é publicado o segundo Speciale Tex Willer, com a aventura Un Uomo Tranquillo, onde Tex praticamente não aparece ao leitor, apesar da sua presença ser uma constante. O verdadeiro protagonista da história de Roberto Recchioni é o seu irmão Sam que, sem a irreverência de Tex e obrigado pelas circunstâncias, demonstra ser também um homem da Fronteira com a mesma têmpera dos Willer. Com um traço sempre muito limpo e legível, elegante e com inúmeros enquadramentos verdadeiramente cinematográficos, o trabalho de Andreucci respira um sabor épico evidente em cenas ambientadas em espaços abertos, mas também na expressividade patente nas personagens. Um desenho sublime, que torna esta aventura numa pequena obra prima gráfica e a justa dimensão para este imenso desenhador.
As influências de Andreucci são muito transversais e muitas vezes encontram-se para lá da banda desenhada. Além disso, estão ligadas a pequenos detalhes, um rosto, uma pose, um traço ou uma determinada forma de delinear uma sombra. Cada uma destas características transporta consigo uma ou mais influências, por isso, citar nomes é para Andreucci demasiado exigente, mas há um que lhe suscita sempre grande emoção, o de Giovanni Ticci, talvez o desenhador que mais o apaixona.
O desenhador nem sempre utiliza a mesma técnica, geralmente realiza esboços, que são lápis praticamente definitivos, e passa a tinta de modo clássico. No entanto, recentemente começou a trabalhar com o digital e as últimas pranchas dos seus trabalhos no Texone e no álbum cartonado já foram assim realizadas. Apesar de considerar ser uma boa opção de trabalho, Andreucci regressou, entretanto, aos velhos métodos, considerando que o papel é mais apaixonante e concreto, pois permite sentir plenamente se um desenho ou uma prancha foram efetivamente produzidos. Terminada uma prancha, raramente o autor procede a correções e, quando as faz, é diretamente na editora ao lado de Boselli. Pranchas onde não existe uma particular preferência entre desenhar a preto e branco ou a cores, dadas as evidentes características particulares de cada opção. No preto e branco, luz e sombra são os únicos elementos expressivos do ponto de vista do impacto visual, enquanto nos trabalhos a cores isso não acontece. O que realmente importa ao desenhador é tentar transpor visualmente um argumento, tornar clara e credível cada cena, cada expressão, as pausas, utilizar a luminosidade adequada, o melhor enquadramento ou a melhor sequência.
Outro fator a ter em conta e que nunca deve ser descurado é a composição das personagens. Regra geral, depois de ler um argumento Andreucci fica logo com uma ideia bem precisa da fisionomia que deve ser adotada. O autor inspira-se muitas vezes em pessoas reais, sobretudo numa série como Dampyr, que tem diversas conexões com eventos que ocorreram e personagens que realmente existiram. Também em Deadwood Dick isso aconteceu, já que Billy Dixon e Bat Masterson aludem a personagens reais e históricas, cuja fisionomia o autor tentou respeitar. Nas personagens de composição livre, Andreucci procura inspiração em figuras conhecidas, como por exemplo atores, ou mesmo seus amigos e conhecidos. Ou seja, a documentação é também um instrumento crucial no modo e na forma como Andreucci vai poder mergulhar nos ambientes do enredo. O desenhador serve-se do seu arquivo pessoal, da biblioteca do seu estúdio ou da internet, uma fonte inesgotável e imprescindível. Como curiosidade, sublinhemos o facto de Andreucci ter desenhado a planta do rancho de Sam Willer e toda a paisagem em seu redor, para que Roberto Recchioni pudesse desenvolver as cenas da aventura Un uomo tranquillo.
Naturalmente, todas estas características e todos estes procedimentos não seriam eventualmente suficientes se a cooperação entre desenhador e argumentista não fosse muito importante, crucial mesmo, para a realização de uma história. Há pontos de vista, sugestões e perspetivas que muitos desenhadores gostam de ver transpostos para um argumento, uma visão muito própria da narração que não deve ser excluída. Nesse sentido, merece realçar a oportunidade que Andreucci teve em trocar ideias com Joe Lansdale, de quem guarda um contacto cordial e distinto, recordando, com evidente sensibilidade, quando o autor americano lhe ligou a inteirar-se do seu estado de saúde e de toda a sua família durante o primeiro período de confinamento. Por outro lado, com Mauro Boselli o relacionamento profissional e pessoal vem desde 1993, existindo entre ambos uma estima profunda, apesar de não ser fácil trabalhar para o editor de Tex, uma vez que os seus argumentos não se focam apenas num determinado aspeto na mesma vinheta, pelo contrário, contêm diversos elementos com a mesma importância narrativa, tornando-o, assim, mais complexo na sua interpretação gráfica.
Por fim, as capas e a sua realização, merecendo aqui destacar os excelentes trabalhos de Andreucci para a Il Vendicatore e para o álbum cartonado da Mondadori Wanted!, sem esquecer a do Texone, todas elas sintetizando, numa só imagem, o espírito da personagem, da série e da história. Em cada uma destas capas, Andreucci confere todo o espaço a Tex, tal como um herói dos velhos filmes de western, em poses muito clássicas, tornando as imagens mais dinâmicas através do movimento de Tex que é permitido ao leitor concluir pela força dos desenhos. Por exemplo, em Il Vendicatore podemos reparar que um Tex jovem se prepara para sacar a pistola, enquanto em Wanted! o herói acabou de disparar as suas armas na entrada de um saloon, induzidos que somos pelo fumo sai das pistolas. Ou seja, Andreucci representa Tex em perfeita relação direta com o leitor, tal como se de um ator se tratasse.
Em plena floresta de Darkwood ao lado de Zagor, num qualquer lugar recôndito das trevas com Dampyr, ou nas extensas pradarias cavalgando em amena cavaqueira com Tex, desfrutar da aventura é um estado de alma extraordinário. Zagor reclama a aventura clássica, Dampyr comporta o mistério e o horror, Tex é grandioso nos seus mecanismos lineares, intocáveis, limpos e transparentes, ao mesmo tempo que se renova em direção da modernidade. Felicidade a nossa, comuns leitores e apaixonados, podermos desfrutar dos trabalhos de verdadeiros mestres como Stefano Andreucci, cujo traço dinâmico e cinematográfico instila em cada cena, cada cavalgada ou em cada duelo a aura da Grande Aventura. O seu primeiro Tex desenhou-o quando tinha apenas 17 anos, com o apoio de um professor, o que deixou logo a certeza no próprio autor de que, mais cedo ou mais tarde, chegaria o dia em que realmente iria trabalhar ao lado do mais famoso cowboy da história dos fumetti. O ranger constitui, assim e ao mesmo tempo, um ponto de partida e um ponto de chegada. E a próxima paragem será num porto próximo do leitor com uma história que trará de volta o célebre capitão Barba Negra, o que agrada ao desenhador, um grande apaixonado por histórias de ambientação marítima.
* Texto de Mário João Marques publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.
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Arte espetacular.