Sergio Bonelli entrevistado por Sette, o magazine do periódico italiano Corriere della Sera

Sette, o magazine do periódico italiano Corriere della Sera realizou na semana passada, mais precisamente no dia 28 de Abril, uma inusitada e interessante entrevista com Sergio Bonelli, realizada por Vittorio Zincone. Devido ao carácter da entrevista e por ela nos trazer também algumas novidades, inclusive da sucessão de Sergio Bonelli, foi decidida a sua tradução para português e a sua publicação no blogue português do Tex.

Por Vittorio Zincone

Sergio Bonelli, 78 anos, editor e argumentista, é meio-irmão de Tex (criado pelo seu pai Gian Luigi), criador de Zagor e Mister No e editor de Dylan Dog, Martin Mystère e Nathan Never. Na prática é a encarnação da banda desenhada na Itália. Encontro-o em Milão. Primeiro na redacção da sua editora que porta o seu nome, onde as paredes são revestidas de páginas e desenhos maravilhosos (de Galep a Hugo Pratt, passando por Magnus), e depois no seu apartamento: a biblioteca está cheia de volumes histórico-geográficos, existem revistas de banda desenhada a despontar de cada canto («Aqueles de Cino e Franco tenho mais cópias, mas admito não ter todos os originais de Tex»). Os quartos estão invadidos por estátuas em forma de crocodilo. «Desde quando se soube que eu aprecio estes animais, não me presenteiam outras. É uma condenação».
Uma outra sanção é infligida a Sergio Bonelli cada vez que entra num restaurante próximo de sua casa. Os empregados, mal o vêm, disparam a chalaça: «Para o senhor imagino que deseje um bife com três dedos de altura e uma montanha de batatas fritas». É o menu clássico de Tex. Ementa essa que também se encontra no volume Tex Willer. Il romanzo della mia vita: uma espécie de biografia do herói escrita por um dos argumentistas do Ranger (Mauro Boselli) e recentemente publicado pela Mondadori.

Sergio Bonelli tem a fama de ser antipático («Talvez qualquer um inveje o facto de eu me ter tornado rico à custa da banda desenhada»), mas na realidade é simplesmente ultra-genuíno. Responde desde há anos a todos os leitores, ma resmunga quando confrontado com certas questões. Por exemplo àquela do taxista que me levou à sede da editora: «Porque Zagor não tem filhos?». A réplica é acompanhada da simulação de um estridor de dor: «Porque sim. Outra pergunta clássica é: porque parece que as balas de Tex nunca acabam?». Sim, porquê? «Digamos de uma vez por todas: as personagens bonellianas pertencem a uma associação com regras. Regra número um: Tex recarrega as pistolas entre uma vinheta e outra». Entre as regras também deveria constar aquela de não perguntar mais se Tex é da direita ou da esquerda. Assim sendo, vou seguir as normas à letra.
Partindo de um pequeno teste:

Senhor Sergio Bonelli, como se pronuncia Groucho, o nome do assistente de Dylan Dog? Grucio o graucio?
«Grucio».

E o apelido Willer, viller o uiller?
«Uiller. Os contemporâneos do meu pai diziam viller».

É verdade que Tex Willer se deveria chamar Tex Killer?
«À minha mãe, a primeira editora, pareceu excessivo».

Tex o vingador justo.
«Os leitores já viram de tudo».

Um pouco fascista e um pouco liberal.
«Consideravam-no de direita porque ameaçava os bandidos sem esperar o processo. Ou de esquerda porque odiava os bancos».

A verdade está no meio?
«A verdade, por exemplo, é que também o meu pai odiava os bancos, mas porque tinha estado um belo período à espera de um simples empréstimo bancário e não havia meio de lhe concederem o empréstimo».

Tex é o primeiro cowboy amigo dos índios. Torna-se inclusive chefe dos Navajos com o nome Águia da Noite.
«Não creio que o meu pai o tenha pensado por motivos ideológicos. Era um estratagema narrativo: o amigo branco dos índios. Um pouco salgariano».

Tex num episódio recente teve que se haver com o problema da água, e descobriu-se que para ele deve ser pública. Nathan Never é um paladino verde. Dylan Dog numa história totalmente realizada por senhoras diz: «A precariedade é o verdadeiro pesadelo». A sua sensibilidade de editor deve inclinar-se por força com estas tomadas de posição.
«Sim, um pouco. Mas são elementos inseridos habilmente. Eu informo-me».

Em que senso?
«Até há pouco tempo atrás eu frequentava os locais dos jovens para estudá-los, ouvi a sua música, vi os seus filmes. Eu queria sentir as suas tensões. E empregá-las nas minhas revistas».

Para prender as atenções dos jovens não seria mais fácil comercializar um jogo de vídeo de Nathan Never ou um álbum de cromos (ou também um jogo) de Martin Mystère?
«Eu sempre me recusei a isso. Eu faço banda desenhada. De papel. E depois o nosso público não é assim tão jovem».

Qual é a idade média dos vossos leitores?
«Não creio que existam com menos de 17 anos».

Mas poderia fazer um desenho animado.
«De Tex? Nunca. Talvez Zagor fosse mais adequado».

Porquê?
«Porque tem um lado cómico».

Zagor è uma sua criatura. É uma personagem que parece ter uma psicologia mais complexa respeitante a Tex. Isso levanta dúvidas…
«Eu e o meu pai éramos muito diferentes. São-no também as nossas personagens».

Seu pai sempre se opôs a inserir cenas cómicas nas aventuras de Tex.
«Sim. Mas eu que me ocupava da editora sabia que Capitan Miki e Bleck Macigno, adversários de Tex nos quiosques, vendiam o triplo também porque tinham formidáveis tiradas cómicas».

Foi por esse motivo que quando em 1961 o senhor cria Zagor junta-lhe o pançudo Chico?
«Sim. Mas Zagor nasce também de outra exigência: compreender se o trabalho dos argumentistas valia todo o dinheiro que eu lhes dava».

O senhor como argumentista sempre assinou como Guido Nolitta.
«Para não criar confusão com o meu pai, que à banda desenhada dedicou toda a sua vida».

Quantas revistas vende hoje a Sergio Bonelli Editore?
«No mês de Julho, que é o mais florido, cerca de 900 mil. Há alguns anos atrás chegávamos a atingir a quota 3 milhões. Falamos de uma vintena de personagens…».

A banda desenhada está em crise?
«Está nas trincheiras. Primeiro a televisão. Depois os jogos electrónicos, os telemóveis… Entretenimento fácil para os rapazes de hoje. Imbatível. A banda desenhada por sua vez necessita de silêncio e concentração. Quem faz quadradinhos está destinado a uma batalha de retaguarda. Mas isso é um problema de quem virá depois de mim».

Quem virá depois do senhor?
«O meu filho Davide, que tem quarenta anos».

O seu maior erro como editor?
«Meter em circulação demasiadas séries. Cinco teria sido o suficiente».

Quais?
«Tex, Zagor, Ken Parker, Martin Mystère e Dylan Dog. Tex e Dylan permitem a todos os outros de continuarem».

Não colocou na lista o seu segundo “filho”: Mister No.
«A ideia de Mister No ocorreu-me durante as minhas viagens à Amazónia e após ter conhecido um piloto americano no México. Encerrei-o há alguns anos atrás. Vendia nessa altura vinte e três mil exemplares por mês».

Uma série de banda desenhada que vende uma cifra dessas é cancelada?
«Se és um editor que paga bem aos seus desenhadores sim. Eu pago-os bem e respeito-os. Inclusive porque convivo com eles desde que nasci».

Quando começou a trabalhar no mundo da banda desenhada?
«Súbito. O meu pai no pós-guerra tinha trocado a minha mãe por uma outra companheira. E a minha mãe, dona de casa, tinha fundado uma pequena editora da qual o meu pai tinha se tornado um dos principais autores. Na prática fomos a primeira família alargada de Itália».

Unidos pela banda desenhada. E por Tex, que nasceu em 1948.
«No início eu fazia de tudo. Inclusive o mensageiro: partia de Milão numa lambreta para ir buscar à Ligúria as páginas originais de Galleppini para Tex».

Nos anos Cinquenta torna-se editor. Existe alguma personagem de banda desenhada criada por outros que gostaria que fosse sua?
«Com Hugo Pratt, que era um amigo, falamos amiudadamente de Corto Maltese. Mas é um bem não ter existido um acordo. Teríamos brigado».

Um desenhador que gostasse de acolher na sua equipa?
«Entretanto está para estrear entre nós Carlos Gomez, o autor de Dago. Desenhará um volume de Tex Gigante. Para além dele, cortejo há anos, tendo-se agora tornado um jogo amigável, tanto  Paolo Eleuteri Serpieri, desenhador de Druna, quanto Moebius».

Moebius é uma lenda da banda desenhada de autor.
«Seria um porta-estandarte. Mas esta distinção entre banda desenhada popular e banda desenhada de autor todavia sempre me fez rir. O que quer dizer “de autor”? Mais fastidioso?».

Perguntas finais: jantava com o inimigo?
«Por trabalho janto com qualquer um, inclusive com os intelectuais que anos atrás me repreendiam por infestar os quiosques com a minha banda desenhada».

Não o censuram mais?
«Não. Agora é chique ler banda desenhada. E muitos até fingem serem fãs».

O nome de um político verdadeiramente apaixonado?
«Sergio Cofferati. Uma vez veio à editora por causa de um programa televisivo. Fiz-lhe um exame. É realmente um perito».

A escolha que lhe mudou a vida?
«A mudança do formato de Tex nos anos Setenta: do exemplar em tiras para caderno. Houve um ponto de viragem nas vendas que trouxe um pouco de riqueza. Formato este que se tornou um modelo usado por todos. Chamam-no “bonelliano”».

O que o senhor vê na TV?
«As partidas de futebol e os documentários no History Channel».

O livro?
«Lo straniero de Camus. Conheço-o quase de memória».

A canção?
«I am easy de Keith Carradine».

O filme preferido?
«Entre as comédias Salvate la tigre, entre os western Nessuna pietà per Ulzana, e em absoluto Orizzonti di gloria de Stanley Kubrick que revejo todos os meses».

Já viu o filme de Dylan Dog?
«Ainda não».

Colaborou na realização da película?
«Não. Cedemos os direitos há uns quinze anos atrás. A operação agora tem pouco senso. Até porque na Itália Dylan Dog caiu de 500 mil cópias para 160 mil».

Conhece os confins da Líbia?
«Infelizmente só os confins. Passei meses nos desertos saarianos que circundam aquele país. Mas na época não se podia entrar. Gostaria de poder ver as pinturas rupestres de Akakus».

Sabe quanto custa um litro de leite?
«Não tenho a mais pálida ideia».

Sabe o que é o Twitter?
«É algo relacionado com a Internet? Eu não possuo sequer um endereço electrónico. Certas coisas considero-as perigosas».

Qual é o artigo doze da Constituição?
«Boh».

É aquele que descreve o Tricolor. A Itália tem cento e cinquenta anos: para o senhor o Tricolor é…
«Eu gosto da ideia que representa. Dá um tom de unidade a um povo heterogéneo. Testemunha que tentamos».

Porque os heróis de banda desenhada da sua editora nunca são italianos?
«Haveria contínuos protestos da parte dos leitores sobre a verosimilhança das aventuras. E depois no México ou na Amazónia pode-se fazer a imaginação voar».

Na Itália, a realidade supera a fantasia. O bunga bunga…
«É verdade. Mas uma banda desenhada com esse material seria muito aborrecida».

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Entrevista publicada no magazine italiano Sette e apresentado no sítio www.vittoriozincone.it;

Tradução e adaptação: José Carlos Francisco.
Fotos de Marco Andrea Corbetta, Moreno Burattini e José Carlos Francisco

Copyright: © 2011, Sette; Corriere della Sera e Vittorio Zincone

(Para aproveitar a extensão completa das fotos acima, clique nas mesmas)

11 Comentários

  1. Beleza de entrevista, Pard ZECA! Este é um espaço onde os fãs de Tex ficam sabendo de tudo. Eu tenho orgulho por tê-lo conhecido, você e este Blog maravilhoso!

    Grande abraço!

  2. Ótima entrevista, grande cowboy e bengala friend.
    Assim pudemos conhecer um pouco mais sobre o que pensa o lendário herdeiro do império das BDs italianas.
    Parabéns! Adorei, apesar das respostas serem sucintas.
    See you later, cowboy!

  3. Tex Gigantes com Paolo Serpieri e Moebius? Soltar a notícia desse jeito é maldade, a gente corre o risco de morrer do coração e não ver essas maravilhas prontas.

  4. Excelente entrevista! Legal ver Ken Parker no meio das cinco séries que Bonelli acredita que deveria ter apostado e só!
    Contudo, estranhei não ver História do Oeste entre eles.
    Mister No a explicação foi até justa!

    Agora um possível Tex Gigante por Serpieri e outro por Moebius é de fazer rezar todos os dias para que aconteça!!

  5. Dentro de alguns anos, como na verdade agora, quando se falar em histórias em quadrinhos na Europa, imperiosamente se falará no nome de Sergio Bonelli.
    Talvez o maior editor do mundo de quadrinhos, por ter justamente em sua biografia histórias tão verdadeiras e pujantes como as relatadas nesta entrevista. Um homem que ama os comics e transcende o status de publischer ou empresário para postar se ao lado de seus leitores na sua paixão pela arte. Somente quem viveu com os grandes de seu tempo e os soube compreender e cativar, pode ter hoje a autoridade de um SERGIO BONELLI, mesmo que muitas vezes tenha sido Guido Nolitta. Poucas entrevistas me emocionaram por sua verdade como esta.
    Parabéns mais uma vez, caro Zeca.
    Um forte abraço
    Jesus Ferreira

  6. De facto, José Carlos (Zeca), sempre atento, não deixa escapar nenhum tema de interesse para o blogue, como esta entrevista a Sergio Bonelli publicada num magazine italiano.
    Parcimonioso nalgumas respostas, como impõe a sabedoria do ofício, o editor de Tex, Zagor, Dylan Dog e outras personagens universalmente populares, atinge mais uma vez certeiramente o coração dos leitores ao revelar, com o seu inato sentido de astúcia, que já convidou Moebius (Jean Giraud) e Eleuteri Serpieri para se juntarem ao prestigioso “team” de desenhadores de Tex. Se um dia ambos ou apenas um deles aceitar esse convite, a casa “virá abaixo”!… Será uma verdadeira corrida às bancas, um delírio coletivo que ultrapassará largamente as fronteiras de Itália! Mas, no fundo, não sentirá Sergio Bonelli algum receio de deixar o seu herói mais carismático nas mãos de dois autores tão controversos, tão individualistas, que seguem quase sempre caminhos polémicos, que gostam de “agitar as águas”, que fazem do erotismo e da fantasia esotérica duas bandeiras que Tex nunca ousou desfraldar, que estão até em contradição com o seu universo? Ou, se esses projetos se confirmarem, assistiremos ao “milagre” de dois autores com tal perfil convertidos à normalidade texiana, sem desvios perigosos, como nos seus primórdios, quando se deixavam arrebatar pelo “western tradicional“?
    Quanto às séries preferidas de Sergio Bonelli, aquelas que selecionou como editor, o que significa que as encara de uma forma especial, não admira que tivesse deixado de fora a “Storia del West“, pois esta constitui um ciclo completo, que só poderia ter continuidade com outra óptica comercial e outra filosofia narrativa. Além disso, se se pode genuinamente falar de banda desenhada de autor (termo que também me parece bastante ambíguo e até pretensioso), “Storia del West“, que Gino d’Antonio escreveu do primeiro ao último episódio, seria o seu exemplo concreto. Caso encerrado, portanto…

  7. Maravilha esse material, com o “Cara’ dos Fumetti“!!
    Espero que o Sergio Bonelli (Guido Nolitta) venha ao Brasil na Gibicon, afinal de contas, estamos falando de sua segunda pátria (cidadão honorário nos anos 1990) e na ocasião dos 50 anos de sua cria mais famosa: Zagor!! – não pode faltar o Homem!!
    Se o mesmo aportar por estas bandas, será uma loucura de fãs rumo à “História del sur” em suas carruagens, aparelhos do ‘La Plume‘ e seja lá o que tenha e siga para Curitiba!!
    Yyyyyaaaaaakkkkkk!!

  8. Já gostava da franqueza e a objetividade de Sergio Bonelli.
    Agora pelas suas palavras nesta entrevista, coloco-o ao lado de outros personagens das letras e quadrinhos que sempre admirei como o livreiro e editor José Olympio e o editor Adolfo Aizen.
    Cada qual pela dedicação, admiração, envolvimento e comprometimento com o mundo da arte escrita e desenhada de sua época.
    Olympio e Aizen revolucionaram e imprimiram sua marca no mundo editorial brasileiro, assim como Sergio marcou, está marcando e marcará pelo seu trabalho e relacionamento com artistas contemporâneos e que espero em Deus, que, Sergio dure por muitos e muitos anos.

  9. Esse senhor, Sergio Bonelli, é um GÊNIO. Um dos grandes sonhos da minha vida é conhecer pessoalmente esse homem que participou de minha formação como pessoa e tantas alegrias me deu através de suas fantásticas e inigualáveis aventuras zagorianas (também gosto de Mister No – seu outro “filho” – e as histórias de Tex de sua autoria estão entre as melhores de toda a saga). Parabéns ao Blog e obrigado por nos possibilitar a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre esse ícone do mundo dos gibis.

  10. O maior génio dos quadrinhos no mundo.
    Na minha opinião, a Mythos deveria ficar atenta quando ele diz que o ideal é trabalhar com cinco publicações, e olha que ele é um editor perfeito, não atrasa edições, não inventa nada, publica belíssimas hqs com padrão de qualidade perfeito. No caso da Mythos, melhorou muito o Tex, mas,deve limitar publicações nos dias de hoje.
    O único defeito do Sergio é listar Ken Parker entre suas publicações preferidas…

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